quinta-feira, 30 de junho de 2011

Se não visse não acreditava


A publicidade automática que nos surge quando abrimos muitas páginas, na maior parte das vezes um engodo trapaceiro para nos arrancarem uns cêntimos ou uns euros, consoante a desfaçatez, desta vez deixou-me siderada.

É só ver o anúncio que me apareceu à direita, ao abrir esta página da revista Sábado. Pôr esta estupidez a votação para ganhar dinheiro já é macabro e de escroque. Que ainda por cima publicitem uma viagem como prémio ultrapassa tudo. Uma viagem aonde, já agora? Uma viagem só de ida, talvez?

O Zé Carlos, meu amigo do grupo do Liceu, filho do dono da que era a maior agência funerária do país, durante muito tempo lidou com algum embaraço com a profissão do pai. Depois aprendeu a contornar o assunto e em resposta ao clássico «o que é que o teu pai faz?» ouvi-lhe disparates de ir às lágrimas. As respostas que mais me faziam rir, as minhas favoritas, eram «tem uma agência de viagens de ida» e «tem um negócio de carnes frias».

Uma coisa é um adolescente brincar com a profissão do pai, antecipando-se a palavras como cangalheiro ou gato-pingado, que fatalmente ouviria  em piadas, e ficando em vantagem, por ser o primeiro a rir do assunto. Outra, muito diferente, é ganhar dinheiro desta maneira sórdida.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Publicidade genial


A imagem é daqui, como sempre (o que eu rio e me enterneço diariamente com este site!).

E fez-me lembrar um anúncio de uma companhia aérea americana, já não me lembro de qual, se a American Airlines, a Delta ou a extinta TWA,  visto há mais de vinte anos numa revista, julgo que a Time ou a Newsweek: «If you don't travel first class, your heirs will!»

Pelintrice

Quando a Chiara Ferragni faz um sorteio é para oferecer carteiras Givenchy ou outras coisas igualmente boas, e o procedimento é simples, geralmente seguir no Facebook a marca que oferece e deixar um comentário com endereço de e-mail.

Na blogosfera portuguesa só falta pedirem boletim de saúde em dia, vacinas para destinos exóticos incluídas. Ele é escrever frases, ele é seguir o blogue, ele é dar três voltas ao Rossio no sentido dos ponteiros do relógio, ele é responder a questionários que até erros de português têm. Se tamanha trabalheira compensa? Então não, justos céus? Claro que compensa. Que não estaremos nós dispostas a fazer para ganhar desodorizantes Rexona ou um kit de amostras do Boticário ou da Oriflame?

I left my heart in... (#2) Devils Tower

O Wyoming é um estado gigantesco, o 10.º maior dos Estados Unidos (quase três vezes o tamanho de Portugal) e o menos povoado de todos, ainda menos do que o Alasca. Apaixonei-me pelas suas estradas solitárias a perder de vista, pela paisagem rude a lembrar-nos mais uma vez como aquele enorme país está longe de ser a selva de pedra de que falam sempre os seus detractores e que é fora das grandes cidades que se encontra a alma da verdadeira América.

No dia 25 de Junho de 2008 (assim me diz o registo da máquina fotográfica) rumámos a Devils Tower, monumento nacional. Fizemos a clássica paragem para um café num Starbucks em Cheyenne, a capital do estado. A cidade impressionou-me por a ter achado diferente de todas as pequenas cidades americanas que já conheci. Pareceu-me melancólica, menos próspera, com alguma degradação mesmo nas belas moradias das avenidas centrais. Tudo muito limpo e arrumado, sim. Mas persistia uma sensação de abandono.

As fotografias que tenho de Devils Tower, que talvez lembrem de Encontros Imediatos do 3.º Grau, de Spielberg, não são grande coisa. É difícil fotografar aquela imensa mole de rocha e os seus estranhos arabescos, que se diria terem sido feitos por Deus com um garfo gigantesco. Julgo que estas duas serão das melhores:

Céus! Eu estava uma autêntica texuga!

Levámos mais de hora e meia para dar a volta completa à base. Há uma atmosfera especial, quase mística, caminhamos a falar muito baixo, a ver as centenas de pedacinhos de pano amarradas aos arbustos: Devils Tower é sagrada para várias tribos índias, razão pela qual no mês de Junho passou a ser interdita a escalada, para que as várias tribos possam fazer as suas cerimónias de culto em paz e sossego. O Vítor, que já lá tinha estado noutra altura do ano, disse-me que avistar dezenas de figurinhas do tamanho de formigas a trepar rocha acima era uma visão incrível, mas eu regozijo-me por a ter visto na sua pureza original.





As chapas de matrícula do Wyoming têm dois motivos: um cowboy num rodeo e Devils Tower, de tal maneira simboliza o estado. Esta fotografei-a em Jackson Hole, adorável cidadezinha que encontrei ainda cheia de maciços de lilases e que tem recebido muitos visitantes ilustres (até a rainha de Inglaterra e Nelson Mandela), e em que pessoas como Uma Thurman, Sandra Bullock ou Clint Eastwood têm casa.

Um pequeno filme que encontrei no YouTube, ao som da música que o grande John Williams compôs para Encontros Imediatos.



terça-feira, 28 de junho de 2011

Creepy

E a quantidade de blogues que já anunciaram há horas a morte do cantor/actor que ainda nem sequer foi declarada? Tudo muito R.I.P., muito agora já não sofre, muito partiu para um lugar melhor, muitas lágrimas de crocodilo.  A blogosfera numa das suas facetas mais deprimentes.

Duas confissões

1. Tenho muito lixo no Google Reader, blogues tão perdidos de idiotas que me divirto imenso a passar-lhes os olhos por cima.

2. Ainda assim, e a partir de agora, mais algum que venha publicitar produtos do Boticário será implacavelmente removido das minhas leituras parvas. Já não aguento mais.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Asneiras recorrentes

A menina é muito bonita e até tem jeito para o que faz. Mas não seria má ideia que alguém lhe dissesse que beneficiência é palavra que não existe. Beneficência, menina, be-ne-fi-cên-cia! Disparates destes, com os quais encolhemos resignadamente os ombros se folhearmos o Correio da Manhã ou a Flash, não ficam nada bem a um canal sério como a SIC Notícias.

Esta asneira da beneficiência é das que oiço com mais frequência na televisão, diria que nove em cada dez vezes lá vem ela, fatal como o destino.

Outra que já não posso ouvir nem ler é o adjectivo solarengo.  Solarengo aplica-se ao género de arquitectura de uma casa, a qualquer coisa relativa ou pertencente a um solar. Um dia não é solarengo, um apartamento não é solarengo, se com isso se quer dizer que tem muito sol ou muita luz. É soalheiro, é ensolarado. Solarengo é que não.

Posso contar que há uns bons cinco anos enviei um e-mail a escritor que vende muitos milhares de exemplares em cada edição a apontar-lhe delicadamente o erro (até o atribuí a asneira do revisor, pois está claro), logo na terceira página lá vinha um refulgente dia solarengo. Umas páginas adiante, tunga!, outro dia solarengo. O escritor agradeceu a correcção, nem tinha dado por aquilo (ai, estes revisores!), o erro não se repetiria em edições futuras. E não, de facto, como verifiquei quando folheei uma edição posterior (de mais uns largos milhares). Claro que todas as outras asneiras, as que eu não lhe tinha assinalado, continuavam lá.

domingo, 26 de junho de 2011

Finalmente!


Há anos sem fim que sonhava deitar as unhas a esta adaptação televisiva da peça de Arthur Miller. Na sexta-feira, em conversa com o João Pedro, calhou mencioná-la. Desencantou-ma em menos de cinco minutos na Amazon, num daqueles vendedores independentes a ela associados (e que, graças a Deus, expedia para Portugal). Obrigada, João Pedro!

Acabo de ser notificada de que já vem a caminho. I ♥ Amazon! 

Ainda e sempre os cromos dos espanhóis


Ontem, no almoço do Ié-Ié (que acabou era quase meia-noite, um grupinho mais restrito ainda foi para uma esplanada), chorei a rir quando este disco me passou pelas mãos.

Os espanhóis, essa gente tão dotada para línguas, tinham dantes o vício de traduzir tudo, títulos de músicas inclusive. Neste nunca tinha tropeçado. A Whiter Shade of Pale, uma das músicas mais míticas dos anos 60, passou a Con Su Blanca Palidez. Sem comentários.

Os cromos dos espanhóis

Há pouco vi este anúncio no canal História e escangalhei-me a rir, fiquei a rezar para o encontrar no YouTube. Ouçam a perfeita maravilha como a marca do carro, Smart, é dita no final. Só os espanhóis!

A talho de foice: por que raio tenho eu, que vivo em Portugal e pago para ter televisão por cabo, de levar com anúncios espanhóis? Ainda por cima, seja o que for que estejam a anunciar, seja um detergente, uma marca de congelados ou um óleo alimentar, as vozes femininas soam-me todas a filme pornográfico.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

I ♥ Gatoso

Na minha rua há uma mercearia pequenina, muito humilde, com ar de antiga taberna. Não tem muito para oferecer: algumas hortaliças, quatro ou cinco qualidades de fruta da época, coisas básicas como leite, farinha, açúcar, algumas massas, azeite. Mesmo assim, tento sempre comprar lá alguma coisa ao fim-de-semana, porque me comove a tenacidade do casal idoso que a mantém, mesmo não dando obviamente qualquer lucro. E porque esse casal idoso protege e alimenta o Gatoso.

O Gatoso, como lhe chamo (o casal da mercearia não lhe deu qualquer nome, para eles é simplesmente o gato), é um bichano velhinho, de rua, cheio de cicatrizes antigas de bravas pelejas dos seus tempos de galã. De uma meiguice de fazer derreter o coração, cumprimenta-me sempre com um miado e estende a cabecinha de pêlo áspero e maltratado às minhas festas com um ronronar de beatitude.

Há tempos, num sábado, por volta da hora do almoço, ao passar em frente da mercearia lembrei-me de que havia vários dias que não via o Gatoso. Entrei para perguntar por ele, com o pretexto de comprar dois pacotes de leite. O casal estava a almoçar, numa mesa improvisada. E larguei a rir, porque nem precisei de perguntar nada. Junto deles, no chão, estava o Gatoso, a receber alternadamente de um e de outro bocadinhos do seu peixe cozido.





Update de 19 de Julho de 2011: soube hoje que o Gatoso morreu. Fiquei desolada. A senhora, quando lhe perguntei por ele, que já não via há uns dias, desatou a chorar e contou-me. Está inconsolável, e ficámos um grande bocado a conversar.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

O Porsche cor de vinho

Há coisa de duas semanas, num jantar em que se trocavam histórias de coisas embaraçosas que nos tinham acontecido, lembrei-me desta. E foi uma risota.

Algures na semana entre o Natal e o Ano Novo de 1996, ao fim da tarde, recebi um telefonema de um amigo. Pelo ruído em volta percebeu que eu estava na rua.

— Teresinha, onde está?

— Na Avenida da República.

— Calha bem, estou pertíssimo e tenho um presente de Natal para si na mala do carro. Tomamos um café no Monumental?

— Pode ser.

— Óptimo! Encontramo-nos em frente do BES, quem chegar primeiro espera.

Cheguei ao Saldanha em coisa de cinco minutos e avistei imediatamente um Porsche cor de vinho, o carro dele, parado em segunda fila. Tinha chegado primeiro, portanto. Alegremente, abri a porta, sentei-me e estendi a cara para lhe dar um beijinho, «olá, João!»

E recuei imediatamente, horrorizada. A pessoa ao volante não era o João, era um perfeito desconhecido, que me encarava como se eu fosse uma doida perigosa. Já de mão na porta e a escapulir-me, morta de vergonha, balbuciei desculpas incoerentes e atabalhoadas que soavam muito pouco convincentes. «Desculpe, combinei com um amigo aqui, o carro é igual, eu...» A expressão céptica do desconhecido era eloquente. «Sim, claro, o clássico número do Porsche errado...»

Nesse preciso momento, eu já com o rabo de fora mas de porta ainda aberta (tudo isto se passou em escassos segundos), parou à nossa frente um segundo Porsche, também cor de vinho, o do João, uma gloriosa chegada que me salvou a honra e a dignidade. Provavelmente nem eram do mesmo modelo, não faço ideia, identificar a marca de um carro já é para mim uma façanha, não me perguntem pelo modelo. 

E em minha defesa só tenho a alegar uma coisa: lembram-se de muitos Porsches cor de vinho? Eu não. Até àquele dia, acho que só tinha visto o do João. What were the odds?!

Posted by Picasa

terça-feira, 21 de junho de 2011

Baú das relíquias #11: Sì


Esta noite, depois de dormir pouco mais de uma hora, acordei e depressa percebi que não conseguiria pregar olho outra vez, optando por vir para o computador. Encontrei o David no Facebook e, a propósito da sua actual obsessão com The Windmills of Your Mind, pusemo-nos a trocar músicas antigas, muito antigas. E foi assim que chegámos a esta belíssima canção de Gigliola Cinquetti, que representou Itália no festival da Eurovisão de 1974, ficando em segundo lugar.

O facto de tanto a intérprete como a canção e até o próprio ano do festival terem associados apontamentos curiosos deu-me vontade de a pôr aqui.

Comecemos pelo ano: 1974, o ano em que Paulo de Carvalho cantou E Depois do Adeus, que, menos de um mês mais tarde, seria a senha de saída para os militares que fizeram o 25 de Abril; foi também o ano em que um certo Waterloo ficou em primeiro lugar. Os autores e intérpretes, dois rapazes e duas raparigas suecos chamados ABBA, viriam  a ser a maior fonte de receitas do país, ultrapassando a própria Volvo.

Gigliola Cinquetti tinha vencido a Eurovisão em 1964, com apenas 16 anos e o enternecedor Non Ho l'Età, que sempre adorei. Dez anos mais tarde, transformada numa muito bela mulher, voltou com este . Que, como já disse, viria a classificar-se em segundo lugar e que, para mim, continua a resistir ao teste do tempo. Confesso que se Waterloo me aparecer no iPod passo à faixa seguinte. Se for oiço deliciada. Tem aquilo a que chamo uma melodia em círculos, ou em espiral. O conceito, que para mim é muito claro, não é fácil de explicar. É mais fácil dar exemplos de outras músicas que encaixo na mesma designação, como I Believe, por Art Garfunkel, ou Mandy, de Barry Manilow.

Por último, uma curiosa história associada à canção. À época a Itália preparava-se para um referendo sobre o divórcio. Como tal, e porque , o título, era palavra incessantemente repetida, a RAI e a maior parte das estações de rádio italianas proibiram a sua passagem, com receio de que o título pudesse ser entendido como mensagem subliminar e influenciasse o voto. A RAI nem sequer transmitiu o festival nesse ano, só por causa de (ver aqui). O voto ao ostracismo durou mais de um mês, até ao referendo, a 12 de Maio.
 


It's official

Perdi de vez a paciência. Não volto a comentar blogues que não tenham a caixa de comentários em janela pop-up. Já o sistema de caixa a abrir noutra página é irritante, porque até pode apetecer-me voltar ao blogue e comentar mais alguma coisa, mas desisto logo quando tenho de clicar várias vezes na seta para retroceder. Mas o cúmulo, o mais insuportável de tudo, são mesmo os blogues em que quando vamos comentar nos aparece uma caixa de texto abaixo do post. É uma trabalheira e, sinceramente, tenho mais que fazer. Apesar de estar identificada, o blogger pede-me que faça login. Tento uma vez, tento duas, desisto de vez. Quanto aos blogues que, depois disto tudo, ainda têm verificação de caracteres, apenas conseguem arrancar-me um grunhido exasperado. Se o vosso blogue tiver estas características não contem com comentários meus, lamento lamentar. E de alguns até gosto muito, mas é a tal coisa: não tenho paciência.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Bye Bye Birdie*

Nos últimos meses fiz um novo amigo. O Alípio, que foi como resolvi baptizá-lo, é um melro que tem alegrado extraordinariamente os meus dias em toda esta Primavera. Canta que é um encanto o dia inteiro.

Como retribuição, comecei a alimentá-lo. Rejeitou com firmeza o granulado especial para melros que lhe comprei numa loja de animais, prefere alpista ou biscoitos esfarelados. Todas as manhãs, quando chego, depois de pousar a carteira e de desfazer o desvio de chamadas para o meu telemóvel, a primeira coisa que faço é ir tratar do seu pequeno-almoço, que disponho em cima do aparelho de ar condicionado que tenho debaixo da janela. Bato palmas, chamo "Alípio! Alípio!" e instalo-me à secretária, a janela escancarada. E o Alípio aparece num ápice. Muitas vezes pára de comer e fica a olhar para mim, a cabecinha preta de lado, e depois desata a cantar numa alegria doida, suponho que à laia de agradecimento.



* Estreado na Broadway em 1960, Bye Bye Birdie recebeu em 1961 o Tony para melhor musical.


sexta-feira, 17 de junho de 2011

Parabéns com algum atraso

Os meus vizinhos Marley e Tosh fizeram três anos há uma semana — muito sensatamente, e já que não sabia a data exacta do nascimento das belezas, o dono resolveu considerar a data da adopção, 10 de Junho, como a dos seus anos. E foi nesse dia que tirei estas fotografias. Não esqueçamos que sou uma espécie de madrinha do Marley, como contei aqui.

Excepcionalmente, tiveram direito a uma latinha de pâté cada um.




I ♥ Amazon

Chegados hoje.



Custo total: € 40,78. Fnac who?

domingo, 12 de junho de 2011

O lado mais aterrador da Internet

É uma pena que o show de Oprah Winfrey tenha chegado ao fim. Ao longo dos anos em que passou em Portugal, julgo que uns oito, vi sempre que pude, e raros foram os programas que me deixaram indiferente.

Ontem de manhã, cedo, ainda na cama, apanhei uma história que me deixou siderada.

Em Dezembro de 2009, Sarah encontrou na Craigslist (página de anúncios imensamente popular nos Estados Unidos, com  milhões de visitas diárias), na secção de Adultos, um anúncio posto em seu nome, com fotografias suas. Dizia simplesmente «Need an aggressive man with no concern or regard for women. If interested, contact Sarah.». Aterrorizada, correu para a polícia, que lhe disse que nada podia fazer e lhe sugeriu que contactasse a Craigslist. Sarah apressou-se a fazê-lo e o anúncio foi imediatamente retirado. Mas o mal estava feito, e teria consequências trágicas para esta mulher de menos de trinta anos.

Por trás deste anúncio medonho de uma mulher a proclamar que queria ser maltratada e supostamente a angariar agressores estava um ex-namorado despeitado e vingativo. Ainda mais despeitado pelo facto de Sarah, entretanto, ter começado nova relação e ter ficado noiva e com casamento à vista. Retirou as fotografias da página de Sarah no Myspace, forjou o anúncio, recebeu as respostas, marcou encontros com pelo menos duas pessoas, com hora e local — a morada de Sarah.

Podem ler pormenorizadamente toda a história aqui, vou resumir. Ainda em Dezembro de 2009, ao regressar a casa, Sarah sentiu alguém atrás de si. Foi agarrada pelos ombros e empurrada para dentro de casa. «You wanted an aggressive man, bitch. Here I am», foram as palavras do agressor. Sarah foi selvaticamente violada, as súplicas de nada serviram, a sua diminuta estatura de 1,50 m ainda menos a habilitava a tentar lutar. Quando tudo acabou e o violador deixou o apartamento, Sarah precipitou-se para o telefone. Polícia e pessoal médico são unânimes e confirmam que nunca tinham lidado com um caso de violação tão medonho e violento. Aos diagramas feitos por uma médica para assinalar todas as lesões, com setas indicativas, faltou espaço no papel, tantas e tamanhas eram. Uma enfermeira confirmou que era a violação mais brutal de que tinha tido conhecimento.

Ainda Sarah estava no serviço de urgências do hospital, pediu ao noivo que fosse a casa buscar-lhe os óculos. Na sala estava um segundo homem, com uma câmara de vídeo montada. Teria sido um segundo violador, muito possivelmente, estava ali por causa de um e-mail recebido de um J. Stipe.

A partir daí, reconstruir a história foi fácil. Jebediah Stipe era o ex-namorado, que entretanto continuava a enviar-lhe mensagens a dizer que poderia sempre contar com ele para tudo. Viria a admitir ter publicado o anúncio e ter usado fraudulentamente a identidade de Sarah. Esperamos que apodreça na prisão, foi condenado a uma pena mínima de 60 anos.

O violador, Ty McDowell, 26 anos, casado e com dois filhos, técnico de radiologia no hospital da mesma cidadezinha do Wyoming, estado que conheço tão bem, disse à polícia achar que estava a realizar a fantasia de violação de Sarah (claro, todas as mulheres sonham com isso, não é?!). O tribunal não foi na conversa, teve a mesma sentença, pena mínima de 60 anos.

Mais assustador ainda é saber que o anúncio fraudulento do ex-namorado tinha recebido 161 respostas, como a polícia viria a descobrir.

Fica mais este alerta, que aprendamos alguma coisa com esta história horrenda. Cuidado com o que põem na Internet, cuidado com quem pode vê-lo! Nunca tive uma página no Myspace. Inscrevi-me no Hifive apenas para poder ver as coisas da minha sobrinha Marta, tinha ela treze anos, nunca lá escrevi duas letras, nem fotografia de perfil tenho. Sou extremamente cuidadosa quanto a quem pode ver as minhas fotografias no Facebook. E, ainda assim, sabemos o que aconteceu há duas semanas, comigo e com mais três pessoas. E o caracol volta a pôr as antenazinhas de fora, como sempre soubemos que aconteceria, confiante na sua impunidade. Como se engana! No news nem sempre é sinal de good news. Estas coisas levam o seu tempo, mas as notícias estão a caminho. E mais não digo, o caracolzinho que esteja preparado.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Qualidade humana

Ao telefone com uma amiga com provas de amizade dadas, mesmo que nunca nos tenhamos visto. A amiga vai por seis meses para um país na outra ponta do mundo. Oferece-me espontânea e generosamente o seu carro (repito, nunca nos vimos) durante esses meses de ausência. Impossível não largar a rir, mesmo sensibilizadíssima. Mesmo falando ao telefone pelo menos duas vezes por semana, há sempre coisas mais importantes. Um carro não é, decididamente uma delas. Um carro, para mim, não passa de um meio de transporte. Uma coisa que me leva do local A ao local B, e não muito mais do que isso. 

Mas na cabeça da minha amiga tinha-se fixado esta imagem, já com dois anos. É a tal coisa, não ligo mesmo a carros, ou teria contado que comprei outro (e foi uma grande compra, um carro impecável com dez anos e trinta mil quilómetros, uma única dona, a mulher do Abel, que o usava basicamente para ir de vez em quando ao supermercado, até terem decidido em conjunto que era estúpido um casal ter três carros e que havia que despachar um.

Sorte minha, que fiquei com ele. Sorte ainda maior é ter uma amiga que não sabia disto e que me ofereceu o seu carro que ia ficar parado durante seis meses. Tal como, com tantas coisas tão feias a acontecerem ultimamente na blogosfera, é uma sorte enorme ter tantas pessoas de tanta e tamanha qualidade à minha volta. Sinto-me abençoada.

E isto vale para pessoas várias. Que espero que saibam que é delas que falo.

terça-feira, 7 de junho de 2011

I ♥ Miami

2004. Key West, o ponto mais meridional dos Estados Unidos (a  famosa Mile 0 da U.S. 1, 
que acaba em Fort Kent, Maine, quase quatro mil km a norte), 
Cuba apenas a 90 milhas. E uma private joke deliciosa (so close to Cuba!).

Foi um comentário inquisitivo e interessado da Dulce que me levou a escrever este post sobre Miami e as razões por que me é tão querida. A Dulce confessava a sua curiosidade sobre Miami, queria saber se valia mesmo a pena, se não ficaria decepcionada.

Depende, depende muito daquilo que se procura numa cidade. Não sou a mais ortodoxa das viajantes, principalmente em termos de blogosfera feminina portuguesa. Não faço compras em viagem, não perco tempo enfiada em lojas. Antes da Internet, antes da Amazon, isso sim, perdia a cabeça. Voltava carregada de livros e discos impossíveis de encontrar em Portugal. Tal como, num tempo ainda mais antigo, me precipitava para os balcões da Clinique e da Shiseido, numa voracidade tonta e fútil, só por serem marcas que não se vendiam em Portugal. A Clinique, se não me falha a memória, chegou finalmente em 1990, a Shiseido em 1992 (desta tenho a certeza, porque tinha acabado de ser posta à venda e o presente da minha irmã nos meus 32 anos foi a linha de tratamento completa). Para mim roupa é só roupa, não é coisa que me faça distrair de outras coisas que me interessam bem mais. E em viagem também o tempo é um bem precioso. Para terem uma ideia, numa viagem a Nova Iorque, a Meca de consumismo deslumbrado das bloggers portuguesas, reservo apenas a última manhã para compras. Que se resumem a meia dúzia de lembranças de viagem, talvez um ou dois cheesecakes congelados do Carnegie Deli. Vou sozinha, para me despachar mais depressa. Só no fim entro na Sephora de Times Square para comprar alguns cosméticos. Porque são mais baratos. Porque posso comprar os cremes da Philosophy, tão bons, que não existem em Portugal e que sairia tão caro mandar vir pela Amazon. A seguir é correr para o último grande almoço. Porque esse, sim, é um prazer de que não abdico, confesso: o prazer de conhecer os melhores restaurantes, aqueles que têm grandes chefes na cozinha. E prefiro mil vezes gastar o meu suado dinheirinho numa refeição requintada num grande restaurante que, muitas vezes, mais tarde, virei a reconhecer deleitada num filme ou numa série de televisão, a gastá-lo em trapos que muito provavelmente serão apenas compras impulsivas, ou, pior ainda, em carteiras de imitação (coisa que para mim é um não absoluto e enojado). E depois, claro, há o Teatro, geralmente duas peças por dia, matinée e noite, e acontece que sou muito esquisita com os lugares, só os melhores me servem. E entre Teatro e restaurantes, convenhamos, o dinheiro que sobra não dá para grandes voos.

Tudo isto considerado, também em relação a Miami a minha perspectiva é um bocadinho diferente da mais generalizada. Não posso estar-me mais nas tintas para a sua trepidante vida nocturna (aqui entenda-se South Beach), fui uma única vez a uma boîte, e apenas porque a seguir à reclusão forçada de quatro dias no hotel, por causa do furacão Frances, até isso me apeteceu. E fartei-me em menos de uma hora. Miami tem uma afluência contínua de estrelas de Hollywood, socialites como Paris Hilton ou gente que povoa habitualmente as páginas da ¡Hola!, além, claro, do habitual contingente de brasileiros deslumbrados.

Miami para mim é descanso, descanso abençoado. É aquele clima indescritível, aquela temperatura cariciosa de amplitudes quase inexistentes. O Vítor ri sempre de mim, de cada vez que saímos para jantar. Telefonamos para a recepção a pedir o carro, descemos. Assim que transpomos as portas e deixamos para trás o ar condicionado do lobby (os americanos são doidos com o ar condicionado, mesmo no pino de Agosto não arrisco ir a um restaurante sem um casaco ou uma pashmina, única forma de enfrentar aquelas temperaturas siberianas — uma vez, em Nova Iorque, a jantar na Brasserie, a chocalhar os dentes, por três vezes tive de pedir ao empregado que subissem a temperatura; à terceira até ele, que estava em movimento, concordou comigo, estava um frio desgraçado), sou atingida em cheio por aquele bafo cálido. Abro os braços e fecho os olhos, para melhor saborear. E o Vítor ri. Aliás, como é ele quem trata de todas as reservas, e muitas têm de ser feitas com bastante antecedência, antes de me vestir para jantar há uma pergunta sacrossanta que faço sempre: «Jantamos indoors ou outdoors?» E jantar outdoors tem as duas enormes vantagens de não precisar de levar casaco e de me permitir fumar.

Nada contra quem faz tais escolhas, mas eu seria incapaz de embarcar naquelas viagens "pacote completo", uma semana em Punta Cana, Cuba, Varadero, Cancún, ou sítios semelhantes. Para começar, não é uma semana, são cinco dias, que perde-se um dia na ida e outro no regresso. Depois, via de regra, fica-se confinado num resort qualquer (e em redor, geralmente, é só miséria e nada há para ver ou fazer), a ouvir guinchos enervantes de criancinhas o tempo inteiro e a assistir repugnado ao ataque selvagem a buffets de marisco de plástico e a gente que faz provisões para levar para o quarto (está tudo incluído, é aproveitar).

Miami, repito, para mim é acima de tudo descanso, tal como a Quinta da Balaia em Setembro, só que com inúmeras outras vantagens. Uma estada de duas semanas faz maravilhas por mim, repõe-me energias para muito tempo. O meu dia começa muito cedo, no terraço, a saborear um grande copázio de sumo de laranja ou uma grande caneca de Nescafé instantâneo (a cozinha completamente equipada da nossa magnífica suite de dois quartos e duas casas de banho, sala e casa de jantar, nunca serviu para mais do que aquecer água para café ou chá e guardar sumos no frigorífico). Segue-se um lauto pequeno-almoço à inglesa no restaurante do hotel, como eu gosto, ovos e bacon, queijos, outras delícias. Fico abastecida para o dia, a praia espera-me. Sempre à sombra, abundantemente barrada de protector, que com aquele sol não se brinca, mergulho na delícia de estar ali e de não ter de pensar em nada, de ficar preguiçosamente a contemplar a forma das nuvens, embalada pela música e pelo doce rebentar das ondas minúsculas na areia, o livro muitas vezes esquecido no colo. Ainda hoje associo O Código Da Vinci  a essas lânguidas horas frente ao mar de Miami, foi lá que o li, que há momentos em que a alma só nos pede leituras levezinhas e inconsequentes. Pára, mundo, que eu preciso de descansar!

Claro que Miami é muito mais. E que a Florida é muito mais, por alguma razão é o destino favorito dos reformados americanos de classe média para viverem os seus golden years, é para lá que se mudam. Miami é Ocean Drive, em South Beach. Mais uma vez, remo contra a maré. Não tenho uma apetência especial pelo News, a dois passos da antiga mansão de Versace (hoje um hotel, Casa Casuarina), onde ele tinha ido tomar o pequeno-almoço quando foi assassinado. Eu gosto mesmo é do Front Porch Cafe, simples, despretensioso, e com o melhor guacamole de todo o estado, tirando provavelmente o de Key West. De ficar na sornice a ver os passantes, o empregado sempre com generosos refills de café e Coca-Cola (não há refills para copos de vinho, o que acho uma injustiça).

Miami é também o fabuloso bairro Art Déco,  os hotéis de magnífica arquitectura e pormenores decorativos únicos (visitei-os todos, sim, é coisa obrigatória). Tudo isso esteve em risco de demolição (que crime!) nos anos 80, quando a cidade tinha um nível de criminalidade assustador e ninguém se atrevia a ir lá. A salvação chegou por via surpreendente, uma série de televisão que foi um sucesso estrondoso e que pôs a cidade novamente no mapa: Miami Vice. Confesso que nunca vi um único episódio, saía demasiado nessa época. E pelos esforços conjugados de muitas pessoas (entre elas Gloria Estefan) para preservar aquela maravilha parada no tempo, um tempo alegre e frívolo anterior à Grande Depressão, quando Al Capone ficava no Biltmore e os Invernos em Palm Beach eram obrigatórios para o jet set internacional.

Miami é para mim o meu querido Delano Hotel, que guarda preciosamente o meu restaurante favorito, o Blue Door. Sempre que vamos na Collins Avenue e passamos em frente, largo um suspiro extasiado a ver os diáfanos cortinados brancos da entrada, de muitos, muitos metros de altura, suavemente agitados pela brisa, mando-lhe um beijo e digo «Hello, lover!» E o Vítor ri, porque esta é outra clássica minha.

E podia ficar mais meia hora a falar de Miami, e de como me faz bem à alma. Em vez disso, recomendo-vos que vão conhecer a minha bem-amada. E posso garantir-vos que, tivesse eu muito, mesmo muito dinheiro, e a poder ter uma casa fora de Portugal, seria lá. Mesmo com o risco permanente dos furacões.

Aposto que a Gi, que há pouco tempo pôde matar saudades, ainda que só por 24 horas, é rapariga para concordar comigo.

(porque foi a música que mais tocou no carro nas últimas férias em Miami)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Evasão precisa-se

Há pouco, a ver fotografias antigas de anos passados, fui acometida de uma saudade medonha de Miami, a minha querida Miami.

Tenho saudades de tudo. De acordar às sete da manhã, sair para o terraço numa fina camisa de noite de seda e ser envolvida por aquela temperatura maravilhosa, imutável, que é como uma carícia muito meiga. De olhar para um lado e ver o canal com os sumptuosos barcos ancorados em frente das não menos sumptuosas casas. De olhar para o outro lado, o do Atlântico, em cujo outro extremo está Portugal, a casa, Pinxejas. Das longas horas na praia quase deserta, aquela água maravilhosa de temperatura inacreditável à beira, Mozart nos ouvidos e um livro nas mãos. Dos grandes restaurantes a que se volta sempre, ano após ano. Ortanique on the Mile, logo na noite da chegada. O meu adorado Blue Door. O não menos adorado Shibui com os gatos mais felizes e mais privilegiadamente alimentados do mundo no pátio das traseiras. O Cacao. Outros que se vão descobrindo, Zagat do ano em punho.

Não será ainda este ano que voltarei. E três anos sem voltar a Miami são demasiados anos.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Legumes sob suspeita

Costumo ver o telejornal das sete da manhã na SIC Notícias. Hoje era dada grande cobertura ao problema da Alemanha com os pepinos, entretanto alargado a outros vegetais. De repente vi o título em rodapé, Legumes sob suspeita, e dei uma enorme gargalhada. É que a minha mente perversa imediatamente associou aquele título a uma das coisas mais geniais entre muitas e muitas coisas geniais dos Monty Python: a Self-defence Class Against Fruit.

Pasta, a Predadora - II

Contou-me há pouco a Teresa. Ontem à noite, poucos clientes no restaurante, a Teresa foi para a porta fumar um cigarro. E nisto vê a nossa Pasta surgir a correr do fundo da rua, um rato ENORME (uma ratazana, pronto) na boca — e notem que ela é uma gatinha pequena. Mergulhou para debaixo de um carro com a sua presa, que já devia estar morta. A Teresa, repugnada, não tentou espreitar.

A Pasta continua, portanto, o seu competente trabalho de desratização da Rua da Padaria e das ruas vizinhas.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A maldição de Macbeth

Anteontem (conheço quem diga onteontem, juro), quando escrevi aqui sobre Pia Zadora e os seus notáveis talentos histriónicos, lembrei-me de um outro assunto relacionado com o Teatro. Só pelo facto de me ter ocorrido não quer dizer que estivesse relacionado, não faria muito sentido mencioná-lo. E ficaria uma entrada demasiado longa, coisa a que, confesso, depois da de domingo passado, ganhei franco horror.

O meio teatral é terrivelmente supersticioso. Daí o célebre break a leg! antes de uma representação, daí a crença enraizada de que um ensaio-geral desastroso é prenúncio de uma estreia triunfal. E nenhuma outra peça está rodeada de uma nuvem tão negra de superstição e lenda como Macbeth, de Shakespeare. A tal ponto que é muito frequente, no meio teatral britânico, que nem o nome lhe seja pronunciado. Diz-se apenas "the Scottish play", e toda a gente sabe do que se fala. Dizem que atrai azar, muito azar, dizer a palavra Macbeth dentro de um teatro (não sendo no texto de uma peça), quem a pronunciar tem de proceder a um ritual de purificação, ou exorcismo, como preferirem. As histórias de acidentes graves relacionados com a peça são incontáveis, como poderão ver aqui. Há um que não é mencionado, e não consegui enviar mensagem a sugerir que fosse adicionado. 

Mito, lenda, chamemos-lhe o que quisermos. Macbeth é tida como peça amaldiçoada, sendo diversas as explicações sugeridas. Em 1964, o nosso Teatro Nacional D. Maria II foi devorado por um enorme incêndio que tudo destruiu, só deixando de pé a fachada. As obras de recuperação demoraram 14 anos, só em 1978 o teatro reabriria. Sabem qual era a peça que estava em cena à data do incêndio? Adivinharam: Macbeth.

No grupo de Teatro da Católica começámos a ensaiar a peça. Depois de toda a gente ter sido testada em todos os papéis, a mim coube-me nem mais nem menos do que o de Lady Macbeth (era uma lástima como bruxa, já como Lady Macbeth consegui agradar, parece que era especialmente boa nas cenas da leitura da carta e do sonambulismo, sempre que eram ensaiadas recebia grandes cumprimentos). Será também a Macbeth que remonta o meu proverbial azar?