Quinta-feira, 23 de Maio de 2013

Féxion com mais propriedade deve ser impossível (ou two of a kind)

A minha amiga Tina falou-me há tempos de uma loja de chineses chique que tinha perto de casa. Num dia em que fui almoçar com ela, fiz questão de a conhecer. Pois, senhores, aquilo é coisa fina.  Uma boutique em bom, chão de tábua corrida, nem a tradicional chinesa ao balcão existe, uma daquelas que não falam uma palavra de português e nos obrigam a gesticular como se fôssemos italianas, em vez dela temos uma senhora dos seus 40 e tal anos com um ar muito sóbrio, não fora o cabelo pintado de loiro barracas quase até às raízes.

Andámos por lá a bisbilhotar, meio desinteressadas. Isto até ao momento em que os meus olhos se arregalaram em êxtase ao deparar com este casaquinho tipo Chanel. Custava coisa de doze euros, se não me falha a memória. «Tina, eu tenho de fotografar isto!!», bichanei-lhe, deliciada.


Foi impossível não me lembrar imediatamente do nome de uma loja que tinha visto dias antes na Estrada de Benfica (que parece ser pródiga em fenómenos destes, lembremos a inefável Sapataria Suingue), muito perto do Califa. Não levava a máquina comigo, prometi a mim mesma que da próxima não me escapava. Aqui a têm em toda a sua glória. Ora digam lá se não é mesmo um casamento feito no Céu.

Segunda-feira, 20 de Maio de 2013

The bitch is back

Depois deste longo interregno foi impossível resistir ao título de uma canção do tempo em que Elton John era um génio, coisa que para mim acabou em 1975 com o seu último grande álbum, Captain Fantastic. Pensar nele faz-me lembrar outros génios prematuramente esgotados, como Sir Paul McCartney ou Paul Simon, vivos e de boa saúde e que há muitos anos não compõem nada que nos fale à alma. De tal maneira que chego a perguntar-me se, não tivesse morrido ele com apenas 35 anos, não viria isto a acontecer também a Mozart. Mas não, a minha cabeça começa logo a abanar em desacordo. Só a produção do seu último ano de vida faria a glória de qualquer compositor: as três últimas sinfonias, o concerto para clarinete, duas óperas, La Clemenza di Tito e a minha tão amada Flauta Mágica, companhia sempiterna na alegria e na tristeza, o Requiem. Mozart era diferente, e há muitos anos que tenho para mim que a Humanidade só conheceu dois génios absolutos, ele e Leonardo.

Seja como for, e para resumir as coisas, esta tarde estive um bocadinho no Facebook, comentei o que me aparecia (se não está na página de entrada para mim não existe, como em tempos dizia muito bem uma conhecida minha), cruzei-me com o querido Nuno Miguel Guedes e com memórias da blogosfera antiga. Ele com vontade de voltar a escrever, eu também. Depois fui à rua (supermercado e farmácia) e cruzei-me com o Quico. Ora o Quico, cuja história contei aqui há quase cinco anos, é, por qualquer misteriosa razão que não sei explicar, personagem que vejo muito pouco. Em todos estes anos não devo tê-lo encontrado mais de meia dúzia de vezes, e é uma espécie de anjo bom que eu tenho, porque sempre que o encontro acontecem a seguir coisas boas na minha vida. Fotografar o Quico é que é o cabo dos trabalhos, tão fervilhante de entusiasmo e alegria de viver é este cãozinho a que tiveram de amputar a pata dianteira esquerda quando era apenas um bebé. Saltos e mais saltos, beijos lambuzados na minha cara, declarações recíprocas de amor eterno, e de nada valem os meus pedidos para ficar quieto um minuto para eu lhe fazer uma fotografia de jeito. Estas foram as fotografias possíveis. Já de regresso a casa, carrinho das compras (como uma velhinha) a trotar atrás de mim, continuava a pensar no Quico e em toda a sua sabedoria. O Quico é uma espécie de Alberto Caeiro em muito alegre — porque Alberto Caeiro é todo ele uma alegria serena, um contentamento calado, uma aceitação plácida e plena da vida como nos é oferecida, e o Quico vai mais longe. Dois Mestres, cada um à sua maneira, digo-vos eu. Alberto Caeiro e o Quico.

Notícias minhas? Estou vergonhosamente em falta com tantas e tantas e tantas pessoas que se preocuparam, que me mandaram mensagens (mesmo sem me conhecer). Vamos ver se consigo redimir-me, coisa que não será fácil.

Para começar, convido o Pipoco para almoçar num dos meus sítios favoritos, o terraço do Hotel Tivoli. Não poderá ser antes de um mês e tal, a Pólo Norte poderá contar-lhe as razões (sim, querida Ursosa, podes fazer uma brecha na confidencialidade).

O SOB? — é o nome da pasta em que tenho arquivado tudo o que diz respeito à FDP da doença. Contei-vos que fui operada no dia 2 de Janeiro. A convalescença correu muito bem, porque sou uma doente exemplar, de uma obediência a raiar o doentio. Os resultados do que me foi extraído só seriam conhecidos dentro de duas ou três semanas. Teoricamente. E se eu não tivesse mais anjos bons na minha vida. Como o Ricardo, o meu querido Ricardo Coração de Leão. O Ricardo telefonou-me no dia 11 de Janeiro, por volta da uma da tarde, estava eu a sair de uma loja de chineses (um vício assumido/contrito de que hei-de falar aqui). Tinha os resultados da histologia, não havia vestígios de tumores e coisas remotamente relacionadas com cancro. Eu estava limpa. A fresh start. Pelo menos por enquanto, que bem sabemos como estas coisas são. Fiquei atordoada, confesso. No caminho de volta a casa só conseguia dizer incessantemente a mesma frase, em acção de graças: «Senhor, não sou digna de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salva!» E lembrava-me da minha Rosinha do IPO, que assistiu a tantas penosas e tão dolorosas (mas benfazejas e salvadoras!) sessões de radioterapia, do outro lado das portas blindadas. «O que tu rezavas!», dizia-me a Rosinha já mais tarde, no bar do pavilhão de Radioterapia, o tratamento por tu impôs-se entre nós com toda a naturalidade. Imaginem agora os meus olhos arregalados da última vez que fui cortar o cabelo e descobri por mero acaso que aquela Tânia tão nova, tão bonita. tão atenciosa, era nora da Rosinha, mãe da sua adorada neta Rafaela, de quem eu tinha visto tantas fotografias! Os desígnios do Senhor são misteriosos.

Sei que há pessoas que me lêem que ainda estão a passar por esta medonha doença, da qual estou momentaneamente liberada. Não desistam, por favor! Obedeçam, façam tudo aquilo que tiver de ser feito, se estiverem a ser tratados no IPO não poderão estar em melhores mãos. Mãos carinhosas e que nos trazem a tão desejada cura.

Foi no dia 18 de Maio do ano passado, uma sexta-feira (faz hoje um ano e dois dias) que soube que tinha cancro, em Santa Maria. Ri com a enfermeira na triagem, desvalorizámos a coisa, encontrei depois no relatório (guardado na tal pasta SOB) palavras minhas, que nunca ocorreriam a uma enfermeira, e até fui capaz de sorrir. A médica que me observou, muito nova e lindíssima, largou espontaneamente uma frase: «Isto não está nada bonito!» Toda a vida me refugiei no humor, larguei uma pergunta em jeito de chalaça, indefesa naquela posição horrível: «Não vai dizer-me que tenho um cancro, pois não?» Os nossos olhares encontraram-se e ela não respondeu. Foi nesse momento que soube.

Ainda tive mais uma consulta em Santa Maria, na segunda-feira seguinte. Suspeito que me fizeram passar à frente de muita gente, porque a sala de espera estava cheia e fui a primeira a ser chamada. A directora de Ginecologia estava presente (desconfio que a pedido) e foi indescritivelmente meiga. A afagar-me a mão explicou-me que podiam fazer-me todas as biópsias ali, mas os resultados demorariam entre duas a três semanas, e teriam sempre de mandar-me depois para o IPO, porque eu tinha um cancro raro e todos os daquele tipo eram direccionados para lá. Mais valia que fosse imediatamente. E foi assim que entrei no IPO, com uma carta manuscrita dirigida à Dr.ª Ana Francisca Jorge (uma sumidade internacionalmente reconhecida, como vim a saber depois) com menção de "urgente". No dia 22 tive o diagnóstico oficial.

Contar aqui todas estas coisas tão íntimas custa-me, e só o faço porque sinto que podem ser úteis para outros.

Nem vou mencionar a cadeia de amigos (principalmente os do Liceu, principalmente o Ricardo, a Tina e a São) que fizeram uma frente feroz à doença. Mas quero mencionar a Luísa, também amiga do Liceu (aos 12 anos sentávamo-nos lado a lado naquela sala 5 de cujas janelas víamos o Sheraton), a minha querida Luísa, médica de radioterapia no IPO, e que vasculhou o meu processo de alto a baixo, que o estudou, que me telefonava diariamente. E a Maria, a linda Maria, bonita como uma princesa dos contos de fadas, a médica de radioterapia que me calhou, grande amiga da Luísa, vizinhas de gabinete.

Já depois de saber pelo Ricardo que estava limpa, tive uma consulta. E isto é assim, meus filhos: há médicos e médicos. Não gosto lá muito daquela que é presentemente a minha médica no IPO, a cirurgiã que me operou, e cujo nome omito deliberadamente. Houve uma altura em que me deu uma baixa de 15 dias. A Rosinha ficou fulminada. «Mas a mulher é parva ou quê? Está a ver-te a trabalhar e a dançar o tango daqui a 15 dias?» Na tal consulta tive de perguntar pelo resultado da histologia. Ela confessou que não tinha visto no processo, coisa que não me parece recomendável. Eu, ainda naquela marquesa horrível e em posição de rã, disse comedidamente que "devia estar lá alguma coisa". "Se a D. Teresa  (o que eu embrirro que me tratem por D. Teresa! Chamem-me Teresa ou tratem-me por arquitecta, sempre apela à minha veia artística!) o diz, é porque sabe!" Claro que sabia! O Ricardo, que me visitou no IPO em cada dia de todos os internamentos, tinha falado com ela, e o Ricardo sabe impor subtilmente a sua autoridade de médico, que aos 33 anos era director de um hospital distrital — isto para não falar do charme e dos suspiros que provoca em tudo o que é enfermeira/o, tão bonito é.

A cirurgiã voltou com as notícias quando a interna (que tinha acompanhado a consulta) já estava a passar-me receitas. Estava tudo bem. E saiu-me uma frase em inglês: "Her enthusiasm is underwhelming!" A interna devia ser boa em inglês e tentou desculpá-la, blá blá blá, vemos aqui coisas tão tristes que... Olhei-a bem nos olhos. "Nesse caso não acha que é de ficar feliz com cada sucesso?"

A seguir à consulta fui (como vou sempre) ao pavilhão de Radioterapia. As notícias já tinham corrido, estava toda a gente exultante por mim. Só faltava champagne, tamanha a alegria, já todos sabiam. Mas a Maria Fortunato, a lindíssima Maria, tão compassiva, que me percebeu tão bem, não estava, Só a encontrei quando já ia a sair do edifício. «Teresa, já sei!», exclamou ela, exultante. Fundimo-nos num abraço apertado em que eu lhe sussurrei "Devo-lhe a vida." A Maria tentou contrariar-me, que a vitória era minha. Olhei-a bem a direito e disse-lhe que nem pensar. Se não fosse ela, se não fosse o Dr. António (o meu médico de quimio, cheguei a acordar com ele a fazer-me festas na mão cheia de tubos), se não fosse a sábia combinação de quimio e radio que me tinham administrado, eu não teria sobrevivido.

Acho que me desviei um bocadinho da intenção inicial, mas também acho que era importante contar isto. Porque há pessoas que me lêem que estão a passar por coisas parecidas.

O cancro não é o fim, meus amigos. Até pode ser o princípio, como a Ana muito bem sabe. Para outro dia ficam histórias cómicas. E acreditem que há histórias cómicas mesmo no meio do sofrimento. Basta ter sentido de humor.

A banda sonora? Só podia ser esta: Joan Baez. Gracias a la Vida.




Domingo, 6 de Janeiro de 2013

Em directo do IPO

Meus amigos,

Muito telegraficamente (porque acabo de ter acesso à internet pela primeira vez desde terça-feira, e essa é outra história que vos contarei, e também porque acaba de chegar uma visita):

Fui internada no primeiro dia do ano ao fim da tarde e operada bem cedo na manhã seguinte — sabem que gosto, que sempre gostei do simbolismo das datas. Estive umas 36 horas quase completamente grogue. Correu tudo muito bem, estou a recuperar em grande e espero ter alta nos próximos dias. 

Um enorme e grato abraço a todos. Ainda hoje darei mais notícias, prometo.

Sábado, 29 de Dezembro de 2012

Só para amantes de Ópera


Percebemos de repente que estamos a perder faculdades — ou que estamos simplesmente com a cabeça na lua — quando entramos numa loja de artigos de cabeleireiro e perguntamos se têm produtos da Elisabeth Schwarzkopf. Ou isso ou gostamos demasiado de Ópera.

Empregada perplexa a digerir a minha pergunta e a responder finalmente que não. Foi nesse instante que me apercebi do absurdo que tinha dito. Dame Elisabeth Schwarzkopf (the nazi diva, como lhe chamava um amigo meu muito tricha, Hitler adorava-a, como adorava Marlene Dietrich, nenhuma delas foi na conversa) foi uma das mais extraordinárias cantoras de ópera do século XX. Nada que ver com produtos capilares. Que havia na loja, sim. A marca claro que era Schwarzkopf.

E a trabalheira que a senhora devia ter a dar autógrafos, com aquele nome descomunal?

A máscara da morte

Esta fotografia representa bem o que de melhor há na blogosfera, e não encontro imagem mais eloquente para agradecer tantas silenciosas passagens por aqui, tantas mensagens privadas de desconhecidos. Longos, fortes e quase sempre inexplicáveis são os tentáculos de amizade que podem crescer na Internet. O Pedro fica aqui como embaixador.

O Pedro é bruto como as casas, mas eu gosto dele. O Pedro diz que eu sou bruta como as casas, mas gosta de mim. O Pedro irrompeu pelas cortinas sempre obstinadamente fechadas da minha cama, só eu, a música e os livros. E o Bóbí, claro, 24 horas por dia a pôr-me quimioterapia nas veias durante uma semana, mas do Bóbí falo noutro dia. Nunca nos tínhamos visto, mas eu reconheci-o logo. Há mais fotografias nesta sequência, nela aparece também o enfermeiro Paulo, o melhor enfermeiro do IPO. Adoro uma em que estamos os três, mas o enfermeiro Paulo tem horror a exposição e eu respeito isso. E ainda demos belas gargalhadas juntos quando vimos estas fotografias e o decote demasiado revelador da minha camisa de noite. «Não tem vergonha? Este decote é imoral!» Um alfinete-de-ama resolveu a coisa num instante.

A máquina do café (óptimo café e só por 40 cêntimos, diga-se de passagem) daquele piso estava avariada, o Pedro, eu e o inseparável Bóbí, que até dava um jeitão para pousarmos os copos, descemos ao rés-do-chão. Foi então que lhe falei da máscara da morte, de certeza que ele se lembra. Fui tosca e vaga nas palavras, não sabia explicar bem, talvez eu própria já a tivesse e não soubesse reconhecê-la no espelho. É um não sei quê que aprendi instintivamente a identificar há anos ali no IPO. Qualquer coisa indefinível na cor da pele e na estrutura óssea da cara que me fazia encolher toda por dentro numa pena imensa, ao mesmo tempo que ficava com a certeza de que aquela pessoa não ia safar-se. «Não sei explicar melhor, mas no meu quarto há uma senhora assim, tem a máscara da morte», disse eu ao Pedro.

Nessa mesma noite, lá pelas três ou quatro horas, acordei sobressaltada com um barulho de metal a cair no chão, provavelmente um tabuleiro. As minhas cortinas sempre fechadas impediam-me de ver em volta, mas eu era a mais nova das seis mulheres daquele quarto, e a que tinha maior mobilidade. «É preciso alguma coisa? Posso ajudar?», perguntei baixinho. A resposta foi firme e conciliadora, era da enfermeira de serviço, estava tudo bem, eu que descansasse.

De manhã cedo, ao levantar-me para ir com o Bóbí à casa de banho, arregalei os olhos para o espaço a que faltava uma cama, virei-os numa angústia para a senhora da cama ao lado da minha, nem precisei de perguntar nada. «Morreu esta noite», foi a resposta lacónica. Olhámo-nos demoradamente, numa mudez que era de medo por nós e de respeito imenso pela grande ceifeira que nessa noite tinha estado ali mesmo ao nosso lado. A cama ausente era a da senhora de quem eu tinha falado ao Pedro, a senhora a quem reconheci a máscara da morte. Não sei como se chamava.


Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2012

A cancer guide for dummies

Parece que agora pegou a moda de pespegar as nossas caras nos blogues. Só o fiz aqui umas duas ou três vezes, em todas achei que se justificava. 

Hoje justifica-se provavelmente ainda mais, porque este retrato foi feito a seguir à última das 37 sessões diárias de radioterapia que fiz, de segunda a sexta, entre 23 de Julho e 12 de Setembro, as primeiras 25 de vinte minutos cada, as 12 últimas um pouco mais curtas, coisa de um quarto de hora, não me davam para rezar todas as minhas orações, entre novenas a Santa Teresinha do Menino Jesus, pedidos a S. Francisco de Assis, à Virgem Santíssima da Nazaré, de Fátima e de Lourdes, ao Santo Padre João Paulo II. Havia sempre muito a pedir por cada vez mais gente, havia que pedir força e coragem para mim. E havia que agradecer. Comigo está a maravilhosa equipa técnica que me acompanhou naquela longa e espinhosa jornada, só falta o Wilson, que estava de férias naquela semana.  À minha esquerda está a Rosa, a minha querida Rosinha, que desde o primeiro dia me acolheu com especial carinho debaixo da sua asa protectora. 

Mais de três meses passados, não há ida minha ao IPO que dispense uma passagem pelo pavilhão da radioterapia para dar um beijinho aos meus meninos. E à Luísa, que não foi minha médica porque acompanha a radioterapia de outras especialidades, entre elas a pediatria, mas é minha amiga desde os 12 anos e conhece o meu processo clínico de cor de uma ponta à outra. E à Maria, a lindíssima Maria, a minha médica, no gabinete ao lado. Na semana passada estava a tagarelar no gabinete da Luísa quando ela entrou a rir: tinha percebido que estava ali, tinha sentido o meu perfume. O meu Rive Gauche nunca falha. A humilde D. Joana das limpezas, um sorriso de bondade e claridade imensa na pele tão negra, reconheceu-me pelo cheiro. A senhora do perfume! Eu tinha passado mutas vezes por ela durante os dois internamentos, agarrada ao Bóbí (essa é outra história), encontrou-me depois à porta da sala dos pensos, ela de esfregona na mão, eu de pé à espera de ser chamada. Foi quando me falou. Tinha o perfume comigo, pulverizei-lho no pulso, ficou a cheirá-lo maravilhada  Num dos meus mealheiros já estão alguns euros destinados a oferecer-lho. Um perfume também é um pouco de sonho, e a D. Joana merece.

Mas antes que isto fique demasiado extenso, um muito breve esclarecimento que todos merecem, todos os que iam passando por aqui a ver se havia novidades. Estou bem, estou o melhor possível. Nesta fase só há que tragar mais um mau bocado, uma operação dentro de dias. Depois espero ficar livre deste bicho negro. Só nunca sabemos por quanto tempo, porque ele tende a voltar. Mas a vida é assim mesmo, incerta, certeza só temos a do desfecho, que no que depender de mim não será tão cedo.

E agora falemos do SOB como ele é, como tem sido para mim, e desejo que a minha experiência possa ajudar alguém que tenha aterrado aqui por acaso e esteja a começar a viver isto. Não desejo a ninguém que possa ser útil em dias futuros, porque no meu mundo ideal mais ninguém teria de passar por esta maldita doença.

Então cá vai, em breves pinceladas, aquilo que acho mais importante dentro do tanto que tenho aprendido:

1. Não é um passeio no parque, lamento. Mas também não é assim tão terrível, se vivermos um dia de cada vez, se confiarmos nos médicos, enfermeiros e auxiliares, se seguirmos as suas indicações à risca. Sejam sempre muito simpáticos (e o sentido de humor ajuda), a última coisa que querem é conquistar a animosidade de alguém com o poder de vos espetar agulhas e de vos fazer outras tropelias ainda mais dolorosas. Não sofram por antecipação, como algumas vezes aconteceu comigo. Um dia de cada vez, lembrem-se.

2. Os amigos. 
Vão ter surpresas, aviso já. Boas e más. A rede de apoio é terrivelmente importante, mas sejam indulgentes com as pessoas que subitamente desaparecerem do mapa. Esta cabra desta doença é um pré-aviso de morte, nem toda a gente consegue lidar bem com isso e é bem possível que algumas pessoas que achavam que nunca vos faltariam fiquem de repente mudas como carpas. E completamente ausentes. Pensem também que essas mesmas pessoas poderão estar mergulhadas em problemas, não se precipitem a julgar.

E os outros amigos? Céus, a lista é tão extensa! A cabeça a minha irmã e o grupo do Liceu. A minha irmã que ficou com as mãos negras de tanto que lhas apertei enquanto me faziam uma biópsia, o corpo alheio à minha vontade a arquear-se todo de dor. O grupo do Liceu. A cabeça o Ricardo, a Tina, a São (e a mãe dela), as duas Eunices, o João e a Leninha, a Clara, o Zé Afonso, o Pedro T., os dois Miguéis, o V. G. e o C., a Vanda. Sobre estes tenho mesmo de falar noutra dia. E sem ser do Liceu, meu amigo até ao meu último sopro de vida, o Pedro, o meu visitor from Charleston. E o Abel, minha old soul. E a Alexandra. E...

Os desconhecidos que não o são. A Susana a muitos milhares de quilómetros  A Rita, a querida Rita, de férias em Itália, mandou-me um maravilhoso ramo todo branco no segundo dia do meu primeiro internamento Não sei o nome de metade das flores, mas o ramo era lindo e tenho fotografia. O Pipoco, a quem devo um longuíssimo agradecimento há demasiado tempo. O Pedro, que foi ver-me ao hospital em dupla embaixada, representando também a querida Pólo Norte, então no término de uma gravidez de alto risco, e levando uma fotografia de Mestre Diniz que fez as minhas delícias e as de muitos enfermeiros. O outro Pedro, o Pitx. Caímos nos braços um do outro como se nos conhecêssemos realmente desde sempre. Temos fotografias, se ele autorizar publico uma, aquela em que estamos só os dois. O raio do homem é tão bonito e doce em pessoa como consegue ser agreste no blogue. A A. de quem publiquei aqui apenas uma de várias extraordinárias mensagens. A Maria Antónia (acho um nome lindo) e a Tita, supostamente minhas inimigas e que tiveram a generosidade de me enviar particularmente mensagens que tanto e tão fundo calaram. E a Luna e a Izzie, claro, that goes without saying. Foram aliás as duas primeiras pessoas da blogosfera a quem contei que estava doente, ainda antes de contar aqui. E o Harvey, o meu querido Harvey, cujo extravagantemente luxuoso presente de anos me pôs a chorar baba e ranho. Sabiamente escolhido, como só ele saberia. Noutra vida talvez fosse o homem para mim. Mas é seis anos mais novo. Seja como for, adoro-o.

3. Preparem-se para mentir muito. Nunca mintam aos médicos, mas mintam àqueles que se preocupam mesmo convosco. Digam sempre que estão melhorzinhos, que se sentem bem. Poupam-lhes preocupações adicionais, e a coisa também funciona ao contrário, tamanho pode ser o poder da sugestão: à custa de repetirem que estão bem, acabam mesmo por se sentir bem. Ou menos mal. Comecei por dizer que isto não era um passeio no parque, nem tudo são flores.

4. Há mais algumas directrizes, e eu até queria mudar esta música que adoro, substituí-la por Gracias a la Vida, por Joan Baez. Mas já estou exausta. Essa é outra das partes más: estamos sempre infinitamente cansados. Mas aguenta-se, acreditem em mim. Um dia de cada vez, a coisa vai.


Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2012

Expiration dates are overrated

Há dias despachei alegremente meio quilo de iogurte com pedaços de morango cujo prazo de validade acabava lá pelos princípios de Outubro. Trabalhar no arame pode ter a sua graça, e viver perigosamente pode ter os seus encantos.

Não me aconteceu nada. Umas largas horas depois continuava sã como um pêro. Considering.