sábado, 31 de maio de 2014

Full circle

Há quase 28 anos preenchi e enviei todas as participações do nascimento da Marta. A minha letra sempre foi considerada muito bonita, e ideal para coisas que a etiqueta manda que sejam manuscritas. Foi assim que ao longo dos anos me aterraram no colo alguns trabalhos curiosos. O mais engraçado de todos foi o do casamento de um filho de pessoa muito conhecida da nossa melhor sociedade (como tal, não aparece nas revistas). Os meus préstimos foram requisitados (e regiamente remunerados) para escrever os nomes dos convidados nos convites e endereçar os envelopes. A lista de convidados, que parecia uma amostragem seleccionada do almanaque de Gotha, as moradas em sítios como a Avenue Foch, Mayfair e Belgravia, castelos bávaros e coisinhas modestas assim, foi pelo pai do noivo considerada tão confidencial que não saiu dos seus escritórios, tive de fazer lá o trabalho. Encolhi risonhamente os ombros, concordando. Pelo que me pagava era-me igual, podia ter as esquisitices que lhe dessem na veneta.

Ainda estou a ver as participações do nascimento da Marta como se fosse hoje, eram biberões cor-de-rosa do Sempre em Festa, à época a única loja com coisas do género. A Marta casa em Setembro, a minha caligrafia volta a ser solicitada, 28 anos mais tarde. Achei bonito, fiquei enternecida. Full circle.

P.S. Tenho estado sem computador, o bicho resolveu zangar-se e adoecer. Coisa a ser solucionada em princípio na próxima semana. De qualquer modo, a vontade de escrever não tem sido muita. 

segunda-feira, 31 de março de 2014

Marta dixit


Há poucos minutos, na minha página do Facebook, tudo num regabofe desgraçado à conta dos livros de Margarida Rebelo Pinto, a Marta teve este desabafo de passar ao bronze: «Tudo o que vem da Margarida Rebelo Pinto não é ficção, é fricção. She just rubs me the wrong way.»

A selecção da fotografia da prestigiada escrevinhadora não é completamente inocente; quando pus os olhos nesta, em que os contornos do soutien se vêem* «com bastante nitidez», percebi que não havia hesitação possível.

* Vide post anterior.

Sei Lá - parte II

A nossa estimada Margarida Rebelo Pinto até pode ter um livrinho chamado Não Há Coincidências, pero que las hay...

Ora vejamos. No sábado à tarde passei pela loja de quinquilharias que há perto de minha casa. À porta, como sempre, um escaparate de livros usados. A que, como sempre, deitei uma olhadela. Entalado entre um Harold Robbins qualquer e um livro juvenil de uma colecção que, mesmo ainda adolescente, sempre desdenhei, lá estava essa obra de subido recorte literário que é Sei Lá. Vi naquilo um sinal do destino e, depois de verificar o número da edição (era a 7.ª), paguei sem regatear os 50 cêntimos que me eram pedidos. As coisas que uma pessoa não faz pelo rigor científico de uma investigação! As coisas que eu não faço pelos meus prezados leitores! Até comprar um livro de Margarida Rebelo Pinto, co'a breca!

Ainda no sábado, recebi à noite um e-mail de uma leitora, de seu nome Susana, que me contava que a seguir à leitura da primeira edição de Sei Lá tinha escrito à autora a alertá-la (jocosamente, é certo, mas convenhamos que era irresistível) para esse portento de um fim-de-semana com dois sábados — ou dois domingos, tanto faz. Para sua grande surpresa recebeu, pouco tempo depois, uma carta manuscrita de Margarida Rebelo Pinto (na altura ela ainda tinha, pelo menos aparentemente, alguma humildade, como aponta a Susana) a dizer que o erro seria corrigido na edição seguinte. E a Susana concluía filosoficamente que «Nunca deixou de me surpreender como tal coisa passou em branco, sempre achei que ninguém conseguiu ler o livro até ao fim antes de ser publicado.» 

Pois, meus bons amigos, munida que estou agora da 7.ª edição, posso dizer-vos abalizadamente que não senhores, que o erro não foi corrigido nas seis edições seguintes, pelo menos. O erro e os erros, os muitos erros. A minha sorte é Deus ter-me dado este olho imediato (quantas vezes odiosamente incómodo) para a asneira escrita, que parece que até pisca com uma intensidade de lâmpada de mil watts mal abro um livro, uma revista, um jornal ou um blogue, em menos de um quarto de hora detectei uma quantidade muito respeitável — tão grande como a falta de respeito que as letras da autora me merecem.

A 7.ª edição, revista por um senhor chamado Manuel Luís Evangelista, tem pérolas como estas que digitalizei e agora vos apresento.


Esta, como sabem, faz o meu enlevo. A Guidinha que experimente ir aos Preciados de Badajoz (esta minha veia saudosista é incorrigível, já não existem Preciados vai para mais de vinte anos) e pedir uns cremes na perfumaria, a ver a cara de incompreensão das asistentas. Creme, em castelhano, é um substantivo feminino. Las cremas, Guidinha, las cremas. ¿Vale?
Tenho para mim que, se não conhecemos uma língua, é mais prudente abstermo-nos de a usar, nem que seja nas interjeições mais curtas, como voilà — passo a vida a ler voilá em blogues, e rio sempre. A ignorância tem a mania pérfida de se autodenunciar. Mas mais grave, muito mais grave, é quando a ignorância diz respeito à nossa própria língua. A Guidinha escreveu duas vezes (pelo menos, foram as que encontrei) esse magnífico adjectivo tão do agrado da imprensa nacional e dos bloggers: solarengo. Por duas vezes o revisor achou bem e deixou passar, e tão criminoso é o que assalta a vinha como o que fica de guarda.



E, convenhamos, dizer de um andar que, além de espaçoso, é também solarengo, é uma autêntica «contradição em termos» (nem imaginam como deliro com esta tradução, tantas vezes encontrada, da expressão «a contradiction in terms»). 

Querem mais? Pois há mais, claro que há mais. E muito mais haveria por certo, tivesse eu tido paciência e não tivesse coisas de qualidade para ler. Fiquem só com mais esta, que dispensa comentários, tão medonha é.


O meu rigor científico poderia ter-se dado por satisfeito e ficado por aqui, mas a optimista incurável (ou ingénua, nem sei bem) que há em mim persistia na esperança de que edições posteriores — que houve seguramente, porque esta 7.ª é ainda de 1999 — tivessem dado uma boa varredela em tão vasto estendal de asneiras. Gastar mais dinheiro estava fora de questão, evidentemente, ir a uma livraria de propósito também, restava-me procurar na Internet. Procurei e encontrei aqui uma outra edição, podem consultar e corroborar as minhas conclusões.

Pois esta 14.ª edição, de 2009, foi revista por um outro senhor, chamado Henrique Tavares e Castro. A questão do fim-de-semana de três dias foi sanada com um providencial feriado a somar-se ao sábado e ao domingo, aleluia! Apraz-me igualmente dizer que aqueles dois solarengos passaram a ensolarado o primeiro (pág. 113 do pdf) e soalheiro  o segundo (pág. 115).

Já o resto, lamento lamentar, permanece igual. Os cremes não passaram a cremas, aquele vêm pavoroso não passou a vêem.

Numa adaptação muito livre de A Ceia dos Cardeais, só apetece dizer «Como é diferente a literatura em Portugal!»

sábado, 29 de março de 2014

Na crista da blogosfera lusa

Sou uma pioneira e não sabia. Da mesma maneira que uso há anos os Ray-Ban Clubmaster que agora aparecem nas caras de tudo quanto é ou tem pretensão a ser blogger de moda (só que os meus são mais bonitos), descobri os sumos de vegetais muito antes de toda a gente e só hoje me apercebi disso.

Estava ronceiramente a folhear a iHola!, cuja compra cada vez se justifica menos, tão desinteressante a revista tem vindo a tornar-se — só comprei a desta semana porque trazia uma grande reportagem sobre Adolfo Suárez, senhor que sempre admirei —, quando li que Naty Abascal, essa figura indispensável da prensa del corazón espanhola (foi duquesa, o então já ex-marido não sei quantas vezes grande de Espanha viria a passar alguns anos na prisão por tráfico de cocaína e pedofilia, coisas leves) andava a lançar laboriosamente na Suíça uns sumos de vegetais fantásticos para emagrecer e desintoxicar o organismo. E foi então que me lembrei do clássico e já vetusto V8 tanto do meu agrado e lançado em 1933. 

Naty Abascal não descobriu nada de novo, tal como as bloggers que julgam agora ter descoberto a pólvora seca não descobriram coisíssima nenhuma. E, seja como for, eu vi primeiro, como prova uma referência ao V8 (que leva beterraba, aipo, alface, tomate, salsa, espinafres, agrião e cenoura) feita de passagem aqui, corria o já distante ano de 2008. Da próxima vez que quiserem criar tendências consultem-me, sim? Não precisam de agradecer, sempre às ordens.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Sei Lá

Uma amiga minha pôs ontem na sua página do Facebook o trailer do filme Sei Lá, que vi com o mesmo interesse que me teria despertado um tratado de balística.

Li o livro na altura em que saiu, emprestado por uma amiga, que o resumiu assim: «Não vale um caracol, só tem piada por se passar em sítios que conhecemos, o T, a Kapital, o Bairro Alto, o Pap'Açorda, e outros desses.» Despachei-o numa noite, a reparar nos incontáveis erros de português, nas frases defeituosas, nas peneiras da protagonista/autora.

Rebolei a rir com uma frase em castelhano, atribuída ao ex-namorado basco da narradora: «A mi cariño le gustan los cremes.» Los cremes?! Mas não houve em toda a editora uma única alminha que soubesse que creme em castelhano é feminino, la crema

Mas o êxtase absoluto, a fechar com chave de ouro um livro muito parvo, chegaria com um fim-de-semana de três dias passado no Alentejo. Três dias, sim. Dois domingos, mais concretamente. Mais uma vez, ninguém parece ter reparado na asneira. A não ser a Helena, como descobri há tempos.

O livro teve várias edições desde 1999, espero que algum revisor competente tenha dado uma volta a tanto disparate.

terça-feira, 25 de março de 2014

Tarde ou cedo, este dia havia de chegar

Se tanta gente anda para aí a encher-se de detergentes, cremes ranhosos da Oriflame e do Boticário, amostras miscroscópicas da Garnier, leites de mimosas vaquinhas e mais coisas de que nem chego a ter conhecimento por falta de paciência, por que raio não havia de me tocar também alguma coisa?

Pois tocou finalmente, meus bons amigos, mas não foi por este blogue que não interessa nem ao menino Jesus, foi pelo outro, pelo meu querido Beatles Forever!, que criei já lá vão quase-quase sete anos.

Os meus agradecimentos à Universal, que achou que eu e o Abel merecíamos este mimo. Bem-haja!

E reparem que é sem link, que ninguém me pediu nada em troca, e que o presente já é de Novembro. A editora fê-lo chegar em duplicado ao Abel (a cara conhecida do blogue) por altura do lançamento, mas só esta tarde, frente a um gin tónico, veio parar-me às mãos.

Post a pedido


Na caixa de comentários do post anterior, a Margarida pedia para ver melhor o quadro de Fernando Pessoa que aparecia de esguelha na imagem, e é com todo o gosto que lhe faço a vontade.

Uma espécie de "Magritte meets pintura naïf", é uma tela muito pequena (30x30 cm) que encontrei em tempos nesse sítio mágico que é a minha adorada Livrarte, a livraria da Av. do Uruguai que também é conhecida como "livraria do gato à porta". Esperançada, perguntei à dona da livraria se não faria parte de uma série, já a imaginar-me a ter também retratos de Eça de Queiroz, Proust e Oscar Wilde. Mas não. Não só a tela era filha única como a autora (que assina Af., e de quem vi mais trabalhos) estava irremediavelmente doente.