Depois deste longo interregno foi impossível resistir ao título de uma canção do tempo em que Elton John era um génio, coisa que para mim acabou em 1975 com o seu último grande álbum, Captain Fantastic. Pensar nele faz-me lembrar outros génios prematuramente esgotados, como Sir Paul McCartney ou Paul Simon, vivos e de boa saúde e que há muitos anos não compõem nada que nos fale à alma. De tal maneira que chego a perguntar-me se, não tivesse morrido ele com apenas 35 anos, não viria isto a acontecer também a Mozart. Mas não, a minha cabeça começa logo a abanar em desacordo. Só a produção do seu último ano de vida faria a glória de qualquer compositor: as três últimas sinfonias, o concerto para clarinete, duas óperas, La Clemenza di Tito e a minha tão amada Flauta Mágica, companhia sempiterna na alegria e na tristeza, o Requiem. Mozart era diferente, e há muitos anos que tenho para mim que a Humanidade só conheceu dois génios absolutos, ele e Leonardo.

Seja como for, e para resumir as coisas, esta tarde estive um bocadinho no Facebook, comentei o que me aparecia (se não está na página de entrada para mim não existe, como em tempos dizia muito bem uma conhecida minha), cruzei-me com o querido Nuno Miguel Guedes e com memórias da blogosfera antiga. Ele com vontade de voltar a escrever, eu também. Depois fui à rua (supermercado e farmácia) e cruzei-me com o Quico. Ora o Quico, cuja história contei
aqui há quase cinco anos, é, por qualquer misteriosa razão que não sei explicar, personagem que vejo muito pouco. Em todos estes anos não devo tê-lo encontrado mais de meia dúzia de vezes, e é uma espécie de anjo bom que eu tenho, porque sempre que o encontro acontecem a seguir coisas boas na minha vida. Fotografar o Quico é que é o cabo dos trabalhos, tão fervilhante de entusiasmo e alegria de viver é este cãozinho a que tiveram de amputar a pata dianteira esquerda quando era apenas um bebé. Saltos e mais saltos, beijos lambuzados na minha cara, declarações recíprocas de amor eterno, e de nada valem os meus pedidos para ficar quieto um minuto para eu lhe fazer uma fotografia de jeito. Estas foram as fotografias possíveis. Já de regresso a casa, carrinho das compras (como uma velhinha) a trotar atrás de mim, continuava a pensar no Quico e em toda a sua sabedoria. O Quico é uma espécie de Alberto Caeiro em muito alegre — porque Alberto Caeiro é todo ele uma alegria serena, um contentamento calado, uma aceitação plácida e plena da vida como nos é oferecida, e o Quico vai mais longe. Dois Mestres, cada um à sua maneira, digo-vos eu. Alberto Caeiro e o Quico.
Notícias minhas? Estou vergonhosamente em falta com tantas e tantas e tantas pessoas que se preocuparam, que me mandaram mensagens (mesmo sem me conhecer). Vamos ver se consigo redimir-me, coisa que não será fácil.
Para começar, convido o Pipoco para almoçar num dos meus sítios favoritos, o terraço do Hotel Tivoli. Não poderá ser antes de um mês e tal, a Pólo Norte poderá contar-lhe as razões (sim, querida Ursosa, podes fazer uma brecha na confidencialidade).
O SOB? — é o nome da pasta em que tenho arquivado tudo o que diz respeito à FDP da doença. Contei-vos que fui operada no dia 2 de Janeiro. A convalescença correu muito bem, porque sou uma doente exemplar, de uma obediência a raiar o doentio. Os resultados do que me foi extraído só seriam conhecidos dentro de duas ou três semanas. Teoricamente. E se eu não tivesse mais anjos bons na minha vida. Como o Ricardo, o meu querido Ricardo Coração de Leão. O Ricardo telefonou-me no dia 11 de Janeiro, por volta da uma da tarde, estava eu a sair de uma loja de chineses (um vício assumido/contrito de que hei-de falar aqui). Tinha os resultados da histologia, não havia vestígios de tumores e coisas remotamente relacionadas com cancro. Eu estava limpa. A fresh start. Pelo menos por enquanto, que bem sabemos como estas coisas são. Fiquei atordoada, confesso. No caminho de volta a casa só conseguia dizer incessantemente a mesma frase, em acção de graças: «Senhor, não sou digna de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salva!» E lembrava-me da minha Rosinha do IPO, que assistiu a tantas penosas e tão dolorosas (mas benfazejas e salvadoras!) sessões de radioterapia, do outro lado das portas blindadas. «O que tu rezavas!», dizia-me a Rosinha já mais tarde, no bar do pavilhão de Radioterapia, o tratamento por tu impôs-se entre nós com toda a naturalidade. Imaginem agora os meus olhos arregalados da última vez que fui cortar o cabelo e descobri por mero acaso que aquela Tânia tão nova, tão bonita. tão atenciosa, era nora da Rosinha, mãe da sua adorada neta Rafaela, de quem eu tinha visto tantas fotografias! Os desígnios do Senhor são misteriosos.
Sei que há pessoas que me lêem que ainda estão a passar por esta medonha doença, da qual estou momentaneamente liberada. Não desistam, por favor! Obedeçam, façam tudo aquilo que tiver de ser feito, se estiverem a ser tratados no IPO não poderão estar em melhores mãos. Mãos carinhosas e que nos trazem a tão desejada cura.
Foi no dia 18 de Maio do ano passado, uma sexta-feira (faz hoje um ano e dois dias) que soube que tinha cancro, em Santa Maria. Ri com a enfermeira na triagem, desvalorizámos a coisa, encontrei depois no relatório (guardado na tal pasta SOB) palavras minhas, que nunca ocorreriam a uma enfermeira, e até fui capaz de sorrir. A médica que me observou, muito nova e lindíssima, largou espontaneamente uma frase: «Isto não está nada bonito!» Toda a vida me refugiei no humor, larguei uma pergunta em jeito de chalaça, indefesa naquela posição horrível: «Não vai dizer-me que tenho um cancro, pois não?» Os nossos olhares encontraram-se e ela não respondeu. Foi nesse momento que soube.
Ainda tive mais uma consulta em Santa Maria, na segunda-feira seguinte. Suspeito que me fizeram passar à frente de muita gente, porque a sala de espera estava cheia e fui a primeira a ser chamada. A directora de Ginecologia estava presente (desconfio que a pedido) e foi indescritivelmente meiga. A afagar-me a mão explicou-me que podiam fazer-me todas as biópsias ali, mas os resultados demorariam entre duas a três semanas, e teriam sempre de mandar-me depois para o IPO, porque eu tinha um cancro raro e todos os daquele tipo eram direccionados para lá. Mais valia que fosse imediatamente. E foi assim que entrei no IPO, com uma carta manuscrita dirigida à Dr.ª Ana Francisca Jorge (uma sumidade internacionalmente reconhecida, como vim a saber depois) com menção de "urgente". No dia 22 tive o diagnóstico oficial.
Contar aqui todas estas coisas tão íntimas custa-me, e só o faço porque sinto que podem ser úteis para outros.
Nem vou mencionar a cadeia de amigos (principalmente os do Liceu, principalmente o Ricardo, a Tina e a São) que fizeram uma frente feroz à doença. Mas quero mencionar a Luísa, também amiga do Liceu (aos 12 anos sentávamo-nos lado a lado naquela sala 5 de cujas janelas víamos o Sheraton), a minha querida Luísa, médica de radioterapia no IPO, e que vasculhou o meu processo de alto a baixo, que o estudou, que me telefonava diariamente. E a Maria, a linda Maria, bonita como uma princesa dos contos de fadas, a médica de radioterapia que me calhou, grande amiga da Luísa, vizinhas de gabinete.
Já depois de saber pelo Ricardo que estava limpa, tive uma consulta. E isto é assim, meus filhos: há médicos e médicos. Não gosto lá muito daquela que é presentemente a minha médica no IPO, a cirurgiã que me operou, e cujo nome omito deliberadamente. Houve uma altura em que me deu uma baixa de 15 dias. A Rosinha ficou fulminada. «Mas a mulher é parva ou quê? Está a ver-te a trabalhar e a dançar o tango daqui a 15 dias?» Na tal consulta tive de perguntar pelo resultado da histologia. Ela confessou que não tinha visto no processo, coisa que não me parece recomendável. Eu, ainda naquela marquesa horrível e em posição de rã, disse comedidamente que "devia estar lá alguma coisa". "Se a D. Teresa (o que eu embrirro que me tratem por D. Teresa! Chamem-me Teresa ou tratem-me por arquitecta, sempre apela à minha veia artística!) o diz, é porque sabe!" Claro que sabia! O Ricardo, que me visitou no IPO em cada dia de todos os internamentos, tinha falado com ela, e o Ricardo sabe impor subtilmente a sua autoridade de médico, que aos 33 anos era director de um hospital distrital — isto para não falar do charme e dos suspiros que provoca em tudo o que é enfermeira/o, tão bonito é.
A cirurgiã voltou com as notícias quando a interna (que tinha acompanhado a consulta) já estava a passar-me receitas. Estava tudo bem. E saiu-me uma frase em inglês: "Her enthusiasm is underwhelming!" A interna devia ser boa em inglês e tentou desculpá-la, blá blá blá, vemos aqui coisas tão tristes que... Olhei-a bem nos olhos. "Nesse caso não acha que é de ficar feliz com cada sucesso?"
A seguir à consulta fui (como vou sempre) ao pavilhão de Radioterapia. As notícias já tinham corrido, estava toda a gente exultante por mim. Só faltava champagne, tamanha a alegria, já todos sabiam. Mas a Maria Fortunato, a lindíssima Maria, tão compassiva, que me percebeu tão bem, não estava, Só a encontrei quando já ia a sair do edifício. «Teresa, já sei!», exclamou ela, exultante. Fundimo-nos num abraço apertado em que eu lhe sussurrei "Devo-lhe a vida." A Maria tentou contrariar-me, que a vitória era minha. Olhei-a bem a direito e disse-lhe que nem pensar. Se não fosse ela, se não fosse o Dr. António (o meu médico de quimio, cheguei a acordar com ele a fazer-me festas na mão cheia de tubos), se não fosse a sábia combinação de quimio e radio que me tinham administrado, eu não teria sobrevivido.
Acho que me desviei um bocadinho da intenção inicial, mas também acho que era importante contar isto. Porque há pessoas que me lêem que estão a passar por coisas parecidas.
O cancro não é o fim, meus amigos. Até pode ser o princípio, como a Ana muito bem sabe. Para outro dia ficam histórias cómicas. E acreditem que há histórias cómicas mesmo no meio do sofrimento. Basta ter sentido de humor.
A banda sonora? Só podia ser esta: Joan Baez. Gracias a la Vida.