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terça-feira, 10 de abril de 2012

Elevadores. Resposta a José António Saraiva.

A resposta sóbria, moderada, contida, mas imensamente honesta, ao vergonhoso artigo de José António Saraiva no Sol. Pelo Afonso Salcedo, português radicado na Califórnia, muito bem radicado. Um daqueles casos de sucesso de que devemos orgulhar-nos. Pelo sucesso e pela verdade.

Sintam-se à vontade para reproduzir e divulgar o texto nos vossos blogues. Nunca seremos demasiados.

«Sim. Ando de elevador muitas vezes. Às vezes inclino a cabeça, admito. Muitas vezes uso os braços de modo que ache confortável. Estas coisas acontecem quando começo a pensar em coisas, ou observo o mundo ao meu redor. Creio que algo bastante comum em qualquer pessoa que trabalhe e passe a vida a criar mundos imaginários para cinema. Nasci bom observador, admito que não por escolha, e tive a sorte de encontrar maneira de ajudar a criar emoções e memórias através de imagens em movimento.

Elevadores. Passagens tão temporárias e interessantes. Elevadores sempre me fascinaram, por criarem um espaço forçado de observação. Tão pequeno, mas cheio de detalhes. Quem veste o quê, quem olha para onde, quem tosse quando.

Imagino ser aquele rapaz. Podia perfeitamente ser eu. Aliás, fui eu há uns meses. Em Setembro. Estive em Portugal e trouxe o meu namorado para ele conhecer a minha família, que tanto me adora e respeita, e também para conhecer o país onde cresci, as ruas onde andei e os edifícios que me rodeavam em criança. Sou gay e sempre fui. Nunca tive dúvidas e nunca foi uma escolha. Ninguém escolheria alguma vez ser gay, porque muito provavelmente isso traria uma vida de desafios como ter de educar uma pessoa como José António Saraiva. E já agora, caso isto seja novidade, também ninguém escolhe ser heterossexual.

Ir a Portugal com o meu namorado foi um passeio de redescoberta de um país que sempre me trouxe muitas memórias. Desde memórias péssimas de ser violentamente gozado na escola, a nível físico e psicológico, por ser gay. Desde memórias óptimas a criar um grupo de amigos que nunca me trataram de maneira diferente quando eu inclino a cabeça, ou mexo os braços, ou pouso os pés no chão.

Tive a sorte de ter uma família acolhedora, mas conheço muitos casos em que tal não acontece. Se há coisa que aprendi foi a não julgar os outros. Acho que não há nada mais precioso na vida do que aprender com a individualidade de cada um. Talvez seja por isso que tenha conseguido ser tão bem sucedido tanto em Hollywood como em Silicon Valley.

E, apesar de ser gay, ajudei a criar imagens que marcaram o mundo. Imagens que inspiraram adultos e crianças a acreditarem num mundo melhor. Um mundo em que dois robots se podem apaixonar, ou dois escuteiros se podem conhecer em crianças e viver juntos a vida inteira, ou um mundo em que um astronauta encontre um melhor amigo num simples cowboy. Sem falar de um rato que pode cozinhar... Estes não existem na verdade, mas transmitem um ideal de um mundo em que eu acredito ser possível viver. Em que cada pessoa é como é, e em que cada um de nós tem a oportunidade de trazer algo mágico às pessoas que se cruzam na nossa vida.

Não sei em que mundo o José António Saraiva vive, mas pela maneira como publicamente julga os outros deve ser um espaço bastante triste. Tenho pena de não ter estado naquele elevador, naquele momento. Pelo menos, poderia ter olhado para ele, sorrido e, quem sabe, mostrar que o Portugal de agora é um país muito mais acolhedor do que alguma vez foi. Um país em que posso trazer o meu namorado e criar memórias novas para o resto da nossa vida. Um país em que nos podemos casar como qualquer outra pessoa.

Aqui na Califórnia, sinto-me em casa. Sinto-me em casa porque sei que posso andar de elevador, e muito provavelmente vou conhecer alguém que se calhar com apenas vinte anos criou uma empresa que está a mudar o mundo. Ou alguém que se calhar inclina a cabeça de certa maneira, e me faz sorrir por saber que pertenço a um mundo em que podemos ser verdadeiros, genuínos e nós próprios.

E entretanto vou criando outros mundos imaginários. Que muito provavelmente irão fazer sorrir os filhos, netos ou bisnetos do José António Saraiva.»

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Um enorme aplauso

Esta noite, no programa de Ellen DeGeneres, apareceu como convidado Graeme Taylor, um miúdo de 14 anos que me deixou boquiaberta de admiração.

Jay McDowell, professor de Economia da sua escola de Ann Arbor, Michigan, foi suspenso sem vencimento por ter expulsado da aula um aluno que fez violentos comentários homófobos. Graeme saltou em sua defesa no conselho escolar. Vale mesmo a pena ver o filme abaixo, porque regista parte dessa sua intervenção, bem como a sua participação no programa de Ellen.

Fiquei maravilhada com a clareza de raciocínio, a mente perfeitamente estruturada e a limpidez articuladíssima do discurso deste adolescente de apenas 14 anos. Que vai ser, na certa, um grande Homem. Vai ser? Corrijo: já é um grande Homem.

Não percam.


segunda-feira, 19 de julho de 2010

Eu, intolerante, me confesso

Detesto o substantivo tolerância, detesto o adjectivo tolerante. Quando alguém se proclama tolerante há logo qualquer coisa em mim que estremece. É inevitável para a minha mente criar logo uma imagem de arrogância, de até consigo conviver com isso. Tolerar é muito, mesmo muito diferente de aceitar. Tolerar é ainda estar a julgar, a achar que somos melhores, que nós é que sabemos, que os outros é que estão errados, nós é que fazemos o jeitinho de não levantar ondas. Tolerar é situar-se num patamar superior, do alto do qual se olha os outros, mas até se é bonzinho, até se tolera. E sentimo-nos melhores, não é reconfortante?

Mais do que em qualquer outra questão, as diferentes orientações sexuais de cada um têm sido, em muitos anos, a matéria em que mais vezes tenho esbarrado nestes vocábulos que me são odiosos. Pouco interessa que eu, por acaso, até seja heterossexual. É a minha vida, ninguém tem nada que ver com isso. Tal como ninguém tem nada que ver com a vida de quem tiver escolhas diferentes da minha. Pessoalmente, não as tolero, a essas escolhas. Aceito-as, acho-as tão naturais como as minhas, são só diferentes. Nada me interessa com quem cada um dorme, do que gosto mesmo é de ver pessoas felizes.

Mas há uma matéria em que toda eu sou rejeição, uma coisa que para mim é intolerável, e em que sou, declaradamente, intolerante. Passa pelos animais, os mais indefesos de todos. Quem maltrata animais. Quem abandona animais. A meio desta tarde surgiu-me um convite para uma viagem que seria, certamente, uma delícia. Declinei, sem qualquer espécie de pena. Tenho uma gatinha acabada de chegar a casa, na fase inicial de adaptação. Sou responsável por ela. Ser responsável por um animal não é diferente de ser responsável por um filho, acreditem em mim. É por isso que ponho aqui este cartaz. E que vos peço, na medida do possível, que o divulguem.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Que grande, grande discurso de aceitação!


Este é um dos Oscars a que dou sempre mais atenção, ou não tivesse eu este culto apaixonado pela Palavra: Melhor Argumento Original. Dustin Lance Black. Ainda não foi desta que o grande David Hare ganhou...

Tirado daqui, com o devido agradecimento:

«Oh my God. This was, um. This was not an easy film to make. First off, I have to thank Cleve Jones and Anne Kronenberg and all the real-life people who shared their stories with me. And, um, Gus Van Sant, Sean Penn, Emile Hirsch, Josh Brolin, James Franco, and our entire cast, my producers, Dan Jinks and Bruce Cohen, everyone at Groundswell and Focus, for taking on the challenge of telling this life-saving story. When I was 13 years old, my beautiful mother and my father moved me from a conservative Mormon home in San Antonio, Texas to California and I heard the story of Harvey Milk. And it gave me hope. It gave me the hope to live my life, it gave me the hope to one day live my life openly as who I am and that maybe even I could fall in love and one day get married.

(He chokes up, audience begins to applaud.)

I want to thank my mom who has always loved me for who I am, even when there was pressure not to. But most of all, if Harvey had not been taken from us 30 years ago, I think he’d want me to say to all of the gay and lesbian kids out there tonight who have been told that they are less than by their churches or by the government or by their families that you are beautiful, wonderful creatures of value and that no matter what anyone tells you, God does love you and that very soon, I promise you, you will have equal rights, federally, across this great nation of ours. (Wild applause from the audience.) Thank you, thank you, and thank you God for giving us Harvey Milk.»

Banda sonora (só podia ser esta, em homenagem a amigos desaparecidos, vítimas daquela doença maldita. You are always on my mind...):

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

NEM EU, MAD! - ainda a homossexualidade

A Mad acaba de publicar um post sucintamente intitulado Não admito... com o qual me solidarizo por inteiro.

Andava para pôr aqui isto há mais de uma semana, a falta de tempo tem-me impedido. Mas não passa de hoje. Bruno Nogueira, numa actuação absolutamente hilariante, diz coisas muito sérias. Tirado, mais uma vez, do Lésbica: simples ou com gelo? Vejam, riam, divulguem... sei lá! Só não pensem como a Dr.ª Margarida Cordo, pela vossa rica saúde!

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Lido por aí...

Detesto ter de me explicar, e não vou explicar coisíssima nenhuma. Graças às buscas parvas do Google e à(s) insana(s) criatura(s) que insiste(m) em vir aqui à procura de "Ana Zanatti nua" (coisa que até já deu post) encontrei há tempos um blogue a que não dei suficiente atenção, Lésbica: Simples ou com Gelo? Hoje detive-me a lê-lo mais demoradamente.

O meu ódio ao preconceito é coisa muito antiga. Tenho amigos gays, nunca me dei com lésbicas. Por razões que escapam à minha compreensão, parecem não gostar muito uns dos outros. Podia contar aqui uma história divertidíssima de um grande amigo meu (gay), coroada por uma frase daquelas de passar ao bronze, mas não o farei - é preconceituosa e embarca no chavão. Aos vinte anos ia com frequência a um bar da zona do Príncipe Real cujo nome não refiro, acho que ainda existe. Na gíria dos iniciados era A Emília (nome da senhora à entrada). Entrava lá por especial favor, basicamente era a única mulher entre quatrocentos homens. Encontrei lá de tudo. Colegas de faculdade, namorados de amigas, pais de amigas; todos, mas mesmo TODOS, ficavam verdes quando me viam (UMA GALINHA!), vinham entreter-me com conversas em que eu fingia acreditar (ia aqui a passar, ai que giro, não sabia que havia aqui um bar, vamos lá ver como é...). Só entrava na Emília quem era da casa, eu era admitida porque era amiga de um menino (um dos homens mais bonitos que conheci em toda a minha vida, casado e com duas filhas) que lá... era da casa. E devo dizer-vos que me divertia como uma doida. A começar nas casas de banho... Uma tinha o clássico letreiro "HOMENS", na outra, alguém tinha substituído o "SENHORAS" por... "OPERADAS".

Não quero dispersar-me, teria muitas histórias para contar. Estes foram anos alegres, tontos, inconsequentes. Demasiado tudo isso. Depois veio 1983 e aquela maldita doença que veio mudar tudo. Assisti desde muito cedo aos seus efeitos devastadores e assassinos. Perdi pessoas. Era inevitável o que está hoje a acontecer: a doença, mais tarde ou mais cedo, começaria a reflectir os números reais - hoje a população heterossexual é a mais afectada. E nem é que seja tão mais vasta do que a homossexual, é apenas que é mais estúpida. Os meus amigos gays há mais de 25 anos que são de um cuidado mórbido-a-roçar-a-obsessão.

Tudo isto para chegar a esta leitura, que vai desde já orgulhosamente para os meus links. Não me parece que tenha de vos dar conta da minha sexualidade, mas talvez seja útil saberem que sou, sempre fui e serei completamente heterossexual. Gostei especialmente deste texto, por muitas vezes mentes esclarecidas me terem feito a mesma pergunta boçal no único campo que conheço bem: o da homossexualidade masculina. Qual é a mulher?

ODEIO (ai, nem sabem quanto!) perguntas imbecis deste jaez. Lembro-me sempre de uma coisa que o meu amigo Nuno, que morreu há um mês e era total e devotadamente heterossexual, me disse uma vez e calou fundo: Deus não anda a espreitar os quartos das pessoas.

Pois não. Deus não anda a espreitar os quartos das pessoas.

Aqui fica (espero que as autoras do blogue não se importem) o texto, retirado do blogue Lésbica: Simples ou com Gelo?

O Homem da Relação!

Perguntavam-me muitas vezes quem era o homem da relação. Cansei-me de explicar que era mulher e que tinha relações com mulheres, logo o homem da relação não existe. Compreendi que este tipo de explicação não serve a quem pergunta, simplesmente porque não o entendem, é como tentar explicar o vento a quem nunca o sentiu.


Agora simplesmente agarro-me ao estereótipo de género e vou dando exemplos ilustrativos.

Eu sou quem cozinha (até bolos faço). Ela quem arruma a cozinha.
Eu tenho o ar mais “desportivo”. Ela não prescinde dos vestidos e dos saltos.
Ela tem a panca das motas e da condução. Eu ainda não sei estacionar.
Ela joga bem quase tudo. Eu não sei chutar uma bola.
Ela tem medo de insectos. Eu tenho medo da condução dela.
Eu tenho a caixa das ferramentas. Ela é quem abre os frascos em casa.
Ela tem mais olho para a decoração. Eu sou quem gosta de ir às compras para a casa.
As duas: vemos jogos de futebol; perdemos horas nas compras; jogamos playstation; maquilhamo-nos; passamos a ferro; arrumamos a casa; solucionamos problemas informáticos…
Nenhuma: cospe para o chão; cose botões; faz renda; arranja canalização; mete-se em lutas; ou tem ataques de ciúme…
E na cama, pois na cama, vale tudo menos tirar olhos.

E agora quem é o homem da relação?

domingo, 27 de maio de 2007

Charles Aznavour - Comme Ils Disent

Uma música à parte. Notável. Aznavour, heterossexual indesmentível, como provam à saciedade as cinco vezes que passou pelo altar – no final dos anos 60, o seu casamento com uma sueca mais nova do que a sua própria filha fez correr rios de tinta – veste a pele de um travesti, canta na primeira pessoa (nunca será de mais lembrar que música e poema são dele), num tom repassado de melancolia, uma história que nos nossos dias começa a ser aceite mas que, na época (1972!), era absolutamente revolucionária. 

Tive há anos um namorado odiosamente homófobo. Graças a Deus, tinha um excelente francês. Um dia pus-lhe esta música, exigi que ouvisse a letra com atenção. O que lhe faltava em aceitação dos outros, quando menos enquadrados em esteótipos absurdos de dever ser, sobrava-lhe em bom gosto e em sensibilidade musical. Ouviu este Comme Ils Disent até ao fim. Pediu para ouvir novamente. E depois mais outra vez. Acabou por se confessar espantado com a enorme dignidade que perpassava em cada frase. Obrigada, Charles Aznavour. Comme Ils Disent fez o Pedro pensar, fê-lo sentir que há realidades que, por mais diferentes da nossa, não são menos dignas de respeito. O que fez dele uma pessoa melhor. Isto até poderia remeter-nos para outros assuntos, mas prefiro cingir a coisa ao essencial: esta música fez nele o que nenhuma manifestação Gay Pride poderia ter conseguido.

Tenho uma pena imensa de que poucos entre os tão poucos que me lêem conheçam o francês, pelo menos ao nível que esta música merece. Pela subtileza, pelos pequeninos apontamentos, por este ou aquele adjectivo que desenham uma realidade a beirar o trágico. A personagem é tão verdadeira que comove. Só um grande artista poderia ter escrito isto.

Encontrei a música no Youtube. Aqui fica. Para não colidir com o ficheiro audio, é só ir ao topo da barra lateral e parar a reprodução. Vale a pena, confiem em mim.
Fiquem com os versos finais:
Nul n'a le droit en vérité de me blâmer, de me juger et je précise
Que c'est bien la nature qui est seule responsable si
Je suis un homme oh! ... comme ils disent...

 
COMME ILS DISENT (1972)
J'habite seul avec Maman dans un très vieil appartement Rue Sarasate
J'ai pour me tenir compagnie une tortue, deux canaris et une chatte
Pour laisser Maman reposer très souvent je fais le marché et la cuisine
Je range, je lave et j'essuie à l'occasion je pique aussi à la machine.
Le travail ne me fait pas peur, je suis un peu décorateur un peu styliste
Mais mon vrai métier c'est la nuit que je l'exerce travesti je suis artiste
J'ai un numéro très spécial qui finit en nu intégral après strip-tease
Et dans la salle je vois que les mâles n'en croient pas leurs yeux
Je suis un homme, oh! ... comme ils disent





Vers les trois heures du matin on va manger entre copains de tous les sexes
Dans un quelconque bar-tabac et là on s'en donne à coeur joie et sans complexe
On déballe des vérités sur des gens qu'on a dans le nez on les lapide
Mais on le fait avec humour enrobé dans des calembours mouillés d'acide.
On rencontre des attardés qui pour épater leur tablée marchent et ondulent
Singeant ce qu'ils croient être nous et se couvrent, les pauvres fous, de ridicule
Ça gesticule et parle fort, ça joue les divas, les ténors de la bêtise
Moi les lazzi les quolibets me laissent froid puisque c'est vrai
Je suis un homme oh! ... comme ils disent




À l'heure où naît un jour nouveau je rentre retrouver mon lot de solitude
J'ôte mes cils et mes cheveux comme un pauvre clown malheureux de lassitude
Je me couche mais ne dors pas je pense à mes amours sans joie si dérisoires
À ce garçon beau comme un dieu qui sans rien faire a mis le feu à ma mémoire
Ma bouche n'osera jamais lui avouer mon doux secret mon tendre drame
Car l'objet de tous mes tourments passe le plus clair de son temps au lit des femmes
Nul n'a le droit en vérité de me blâmer, de me juger et je précise
Que c'est bien la nature qui est seule responsable si
Je suis un homme oh! ... comme ils disent...



quinta-feira, 28 de setembro de 2006

E que tal abrirmos os olhos?

Quem me conhece melhor sabe como sempre pugnei pelo direito à diferença e sabe do meu enraizado ódio ao preconceito. Mas o preconceito é uma coisa insidiosa, traiçoeira, com tentáculos inesperados e insuspeitos.

Por portas travessas cheguei a este nome: Quentin Crisp. Nada de extraordinário, para quem souber da minha paixão pelo teatro (OBRIGADA, Dr.ª Teresa não sei quê, minha professora de Inglês no 7.º ano – um dia contarei a história, digamos só, to cut a long story short, que passa por Oscar Wilde e John Osborne). Com muitas referências cruzadas de permeio, cheguei a este título. The Naked Civil Servant. As recomendações eram mais que suficientes, a começar no actor – John Hurt. O Calígula de I Claudius, o Elephant Man, o protagonista de 1984 (que nunca vi... mas li o livro, muito antes do ano fatídico).

Confesso que não estava preparada para a vaga de emoção que este filme me trouxe. Já o vi três vezes em dois dias. Que pena ser tão curto, fica-se à espera de mais!

E de repente dei comigo a ter de equacionar de maneira diferente coisas que para mim eram dados adquiridos. E a ter vergonha. Vergonha de mim. Vamos lá, quem sou eu para estabelecer fronteiras entre o que é admissível ou não? Mais uma vez, quem me conhece melhor sabe que tenho histórias delirantes passadas com pessoas com uma orientação sexual diferente. Ainda assim, subtilmente, eu tinha uma barreira. Não sei explicá-la (talvez soubesse... melhor não). A culpa, devo dizer, não era inteiramente minha. Acreditem em mim, não encontrarão nunca ninguém mais enraizadamente anti-homossexual do que um homossexual. Não sei explicar, sei que é assim, tantas vezes assisti. Os adjectivos – que não são meus - não são nada bonitos. Começam em bicha e vão por aí fora.

Este filme (The Naked Civil Servant, caso já tenham esquecido o assunto) representou para mim um despertar. Nem vou perder tempo a falar de como é bom ainda haver coisas que, mais perto dos 50 do que dos 40 (é verdade, let’s not slip into denial) ainda nos agarram pelos ombros e nos fazem de repente ver tudo a outra luz.

John Hurt, magistral como Quentin Crisp, fez-me perceber que eu (que me julgava tão liberal, imaginem só...) era mesmo assim odiosamente preconceituosa. Os meus amigos gay têm um ar masculino. Pior ainda, bem sei que um gay com maneirismos está liquidado à partida. É um mundo duro, acreditem, e só os mais fortes sobrevivem – e só sobrevivem enquanto tiverem um palminho de cara e um corpinho musculado para exibir num mercado que é bem mais exigente que o do heterossexual comum. A idade é um peso. Ninguém diz a sua. Até há uma expressão generalizada: tem-se X anos... in gay years. Confesso que isto me faz impressão. Posso não estar irrepreensível... mas toda a gente sabe a minha idade. Como nunca a escondi... agora seria demasiado tarde. Aquele universo de faz de conta constrange-me. Até posso ser cúmplice, é certo. Posso atestar que tal pessoa é dez ou quinze anos mais nova que eu quando tem a minha idade ou até é mais velha. Não me custa nada. Fico só brevemente a pensar onde fica verdade. E no fim dou comigo a rir e a pensar que a verdade importa muito pouco. Se soubessem o calibre de alguns dos anormais que já me passaram pela frente de certeza que achariam que qualquer aldrabice da minha parte era legítima.

Voltemos a The Naked Civil Servant. Este filme agarrou-me pelos ombros, abanou-me, fez-me pensar. Há quase seis anos fui de propósito a Paris para estar no Père Lachaise a uma certa hora de um certo dia, com umas certas flores. Era uma promessa antiga. No 100.º aniversário da morte do meu idolatrado Oscar Wilde (30 de Novembro de 2000), à hora exacta, eu estava no cemitério em sentida homenagem. Até tenho um retrato (ai... aqui vêm memórias de músicas, os S&G e o Bookends Theme...).

Aquilo que verdadeiramente importa? Eu ainda tinha preconceitos. Talvez ainda conserve alguns, noutras áreas que não são para aqui chamadas. Mas sabem que mais? Pouco me importa que um homem use baton, verniz de unhas, tudo o resto. Não conheço ninguém assim. E depois? Têm direito a isso, a essa escolha. QUAL É O PROBLEMA?

Se eu tivesse conhecido Quentin Crisp em vida ter-lhe-ia dado um abraço apertado a querer dizer PERCEBO.

E sabem que mais? Irrita-me ser tão irritantemente normal. Normal para mim pode muitas vezes ser sinónimo de poucochinho.