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sábado, 8 de fevereiro de 2014

Quando os erros estão no original

Já todos sabem que tenho uma enorme paixão por teatro. E que tenho também uma enorme paixão por ópera. Quando ambas as paixões podem ser reunidas numa peça, dir-se-ia que aterramos no melhor dos mundos, não é verdade?

Não forçosamente. Terrence McNally, dramaturgo premiado com nem mais nem menos do que quatro Tonys, escreveu em 1985 esta The Lisbon Traviata, que nunca vi em palco, a única das suas peças que vi foi Master Class (Tony para a melhor peça de 1996).

A acção decorre no presente (de então) e a peça foi considerada ousadíssima, viviam-se os primeiros e conturbados tempos da SIDA, Rock Hudson, o primeiro nome mundialmente conhecido a sofrer da doença, morreu nesse ano. Todas as quatro personagens da peça são gays, duas delas, Stephen e Mike,  numa relação de anos que agoniza nos seus últimos dias, quando já surge no horizonte uma terceira pessoa para Mike, um rapazinho mais novo de seu nome Paul (fixem este nome), que, diz-nos o autor, está a meio da casa dos vinte. Seria portanto rapaz a rondar a minha idade, já que nasci em 1960.

Devo dizer que a peça poderá ser um tédio monumental para quem não saiba bastante de ópera, tamanho é o desfilar de nomes e títulos, um autêntico name dropping que chega a soar oco e fútil, tanto se saltita nas referências a nomes como (abramos ao acaso, vejamos, serve a página 11) Thais, Beverly Sills, Manon, Dame Janet Baker, Régine Crespin, Nuits d'Été, Eleanor Steber, Christa Ludwig, Suzanne Danco, Hildegard Behrens, L'Invitation au Voyage, Jessye Norman. Tudo isto numa única página, menos de um minuto em palco.

O pretexto para a peça é o facto de ter acabado de surgir no mercado uma nova Traviata com a Callas (fui verificar, o disco foi lançado em 1980), uma gravação pirata da sua célebre Violetta de 27 de Março de 1958 em Lisboa, no Teatro de S. Carlos. Gay que se preze costuma adorar ópera. Mais ainda, gay que adore ópera tem geralmente uma autêntica obsessão por Maria Callas. O próprio Terrence McNally a tem confessamente, ou não teria escrito esta peça. Nem teria escrito Master Class, que é justamente sobre as aulas que a diva deu em 1971 e 1972 na famosa Juilliard School de Nova Iorque.

Para abreviar, até porque as probabilidades de qualquer um de nós vir a ver a peça em palco são escassas, vou directa aos erros. Por razões que seria demorado explicar, o primeiro acto decorre em casa de Mendy (muito gostaria eu de ter visto Nathan Lane no papel!), a seguir a um jantar em que tem Stephen como convidado. Stephen calha a mencionar a Traviata de Lisboa, que acabou de comprar, e a partir daí Mendy fica posseso, num frenesi insuportável, quer à viva força ir buscar o disco, morre se não o ouvir quanto antes. Stephen recusa firmemente, Mike está na casa de ambos e recebe nessa noite o seu novo namorado. Que nasceu em Portugal, filho de portugueses, que poderá (ou não, e é isso que Mendy tenta desesperadamente tirar a limpo) ter sido levado pelo avô a ver a Traviata de Lisboa, no Teatro San Marco — leram bem. E que se chama Paul Della Rovere — também leram bem.

No fabuloso All that Chat, fórum do não menos fabuloso Talkin' Broadway, vi-me há uns bons doze anos envolvida numa discussão sobre a peça. Apontei estes dois erros, e foi uma risota. Se uns quantos sabiam que a nossa casa nacional de ópera se chama na verdade Teatro de S. Carlos e concordaram que era um erro grosseiro, e inadmissível, da parte de alguém que escreve uma peça inteira sobre uma récita que nela decorreu, todos ignoravam que Paul Della Rovere nunca poderia ser um nome português. E todos concordámos em que Terrence McNally poderia e deveria ter feito qualquer coisa de tão simples como telefonar para a Embaixada de Portugal e pedir uns quantos nomes portugueses. Custava muito?

E depois a discussão surgiu, lançada por mim, quanto ao terceiro erro. O tal Paul, ainda a viver em Portugal, nunca poderia ter sido levado pelo avô a ver a Traviata da Callas em 1958. A ser já nascido (lembrem-se de que o dramaturgo o situa nos mid-twenties em 1985), seria ainda criança de colo. E se, como concordámos todos quando a galhofa já era imparável, em vez da Traviata, a ópera fosse Medea, a criancinha bem poderia ter ficado traumatizada para o resto da vida. Mas não se levam crianças de colo para a ópera, pois não? 




quarta-feira, 28 de março de 2012

Um exemplo


Como traduziriam o título deste livro de David Littlejohn sobre ópera que me é muito querido? A Derradeira Arte? Disparate, não faz qualquer sentido! Claro que só pode ser A Arte Suprema.

A título de curiosidade, posso dizer que o livro me custou na Buchholz, no princípio de 1995, a infâmia de 8600$00 (coisa de 43 euros), o preço ainda está marcado a lápis na primeira página. Agora encontra-se disponível online, é só ir aqui. E se vale a pena! 

A banda sonora, La Cì Darem la Mano (Eberhard Wächter e Graziella Sciutti, na gravação de Giulini, que continua, tantos anos depois, sem rival), foi escolhida justamente para vos mostrar uma passagem do capítulo Don Giovanni: The Impossible Opera. Sobre este irresistível dueto, um pequeno tratado sobre a arte da sedução, escreve David Littlejohn:

«The lovely A-major duettino in which Don Giovanni wins Zerlina is a little drama all by itself. It starts with the achingly sweet intervals of his first appeal, which are answered about an octave higher in a charming expression of Zerlina's internal confusion ("Vorrei, e non vorrei" — "I want it, and I don't want it"). After a coy transition, and some twists on the fiddles, come faster and faster exchanges as the two grow closer and more heated. Her notes descend; the woodwinds press as she weakens ("Non son più forte!") until finally, after a last pause of dying conscience, she is pulled into breathless 6/8 harmony and cries along with him, "Andiam!"—"Let's go!"

The intercutting and blending of the musical lines, the very repeats and progresses duplicate the irresistible — and clearly sexual — movement from his to hers to theirs. Much as I abhor heartless seducers, and suffer for poor Masetto, so emotionally persuasive is this duet that I find myself wanting the seduction to succeed, and I feel as frustrated as Don Giovanni must feel when the ubiquitous Elvira interrupts his tender designs

terça-feira, 5 de abril de 2011

Uma missão apaixonante

No sábado passado houve jantarada monumental em casa da Madalena. Os únicos convidados éramos o Paulo e eu, numa reunião há muito combinada.

A blogosfera é coisa mesmo muito engraçada e a que devo boas amizades e até grandes amizades. O Paulo e eu já nos visitávamos nos nossos blogues há muito. Só mais tarde, muito mais tarde, o Paulo encontrou num blogue qualquer, muito possivelmente o meu, a Madalena, amiga de infância, colega de turma de todos os anos do liceu. Tinham-se perdido de vista nas voltas da vida, agravadas pelos dez anos que a Madalena viveu no Brasil. Com o blogue dela parado há quase dois anos (és mesmo parva, mula!), foi no Facebook que passámos a encontrar-nos. E houve finalmente o jantar de sábado. Que durou até às oito da manhã de domingo, em conversa imparável. Conversa que, inevitavelmente, resvalou muitas e muitas vezes para uma enorme paixão que o Paulo e eu temos em comum: a Ópera. Era mais forte do que nós, várias vezes pedimos desculpa à Madalena, mas insensivelmente lá deslizávamos para o nosso grande amor. E lembrávamos óperas, árias, cantores, enredos, cantarolávamos.

O desenvolvimento foi surpreendente, e deleitou-nos aos dois. Na tarde do dia seguinte recebemos, via Facebook, a seguinte mensagem da Madalena:

«Fiquei aqui a pensar em toda a conversa de ópera que ouvi ontem e na pena com que fiquei de não poder juntar as vossas palavras à música descrita (para perceber melhor a vossa paixão) e em como, de repente, tenho um novo interesse. Ora eu gosto de ópera, do ponto de vista de quem não vê um boi do assunto.


Que tal empenharem-se os dois meninos em me "educar"? Sugiro uma ópera de cada vez, muito bem explicada pelos dois (a história interessa-me tanto como a música) e com links para download.

Qué tal

Seguiu-se resposta entusiástica do Paulo:

«Boa ideia. Acho que a Teresa vai gostar de participar no ensinamento. Mais tarde, quando fores iniciada, passaremos a Wagner (essa cátedra é minha) e a Rossini (especialidade da Teresa). 

O lado histórico e afectivo da coisa conta muito, por isso proponho começarmos com a Traviata de Lisboa. É impossível não gostar (vou ver se descubro links para download - deve haver). (A Lucia é minha, Teresa. OuvisteS?) — espertalhão, é para impingir a da Callas, em vez da da Sutherland!



La Traviata é uma ópera muito bonita. Como a Teresa disse ontem, Verdi compô-la a partir d'A Dama das Camélias, mas o libretista mudou os nomes às personagens.»


E eu, pouco depois:  

«Que missão apaixonante! E não precisas de comprar nada, nós fazemos-te cópia do que temos! E tenho aqui livros que são fabulosos para quem quer iniciar-se na ópera. Estou já a pensar no magnífico Opera 101, mas há mais.

Não concordo nada com o Paulo com o que diz da Traviata. Não é uma ópera muito bonita. É uma ópera LINDA! Concordo com a sugestão do Paulo de começares por ela (prepara-te para chorares muito), se bem que os especialistas sugiram para uma primeira abordagem a Bohème (Puccini) ou o Rigoletto (Verdi, baseada numa peça de Victor Hugo, Le Roi s'Amuse), por exemplo.
Paulinho, o que te sugiro é que faças cópia da tua Traviata (eu não tenho nenhuma das da Callas, a de Lisboa tive-a e ofereci-a (confesso que lhe destestava o som escuro). Tal como o Paulo, também matava para ter visto a Traviata de Visconti.
Damn, I'm so excited! :))))»


Poupo-vos a catadupa de mensagens cruzadas que se seguiu. Hoje houve almoço conspiratório. Problemas no computador impediram o Paulo de gravar a Traviata de Lisboa, trouxe-ma para que eu pudesse copiá-la. Eu, por minha vez, ia munida de livros, para decidirmos juntos o que mais interessaria à Madalena. Se, no fim disto tudo, ela desistir do seu recém-adquirido interesse, mata-nos de desgosto.

A banda sonora tem uma explicação: tentámos cantar Parigi, o Cara à Madalena, explicando-lhe o enquadramento, a nossa manifesta falta de voz (eu estou mais para basso profondo, estaria melhor para um Boris Godunov) agravada pela emoção a fazer-nos tremer a voz, perigosamente perto das lágrimas.

sábado, 1 de janeiro de 2011

O sortilégio de um olhar

Na história dos grandes maestros, cada caso é um caso.  Maestros afáveis e bonacheirões como Beecham, que tinha um irresistível toque de excentricidade e irreverência  («There are two golden rules for an orchestra: start together and finish together. The public doesn't give a damn what goes on in between.»). Maestros irascíveis de personalidade explosiva como Toscanini, de quem vi registo a praguejar num ensaio, a vociferar impropérios ininteligíveis a uma das mais celebradas orquestras do mundo, perfeitamente muda, encolhida e acabrunhada. Maestros que preferem batutas muito compridas, maestros que preferem batutas curtas, maestros que dirigem só com as mãos. Maestros que dirigem quase sempre de olhos fechados, como Karajan.

E depois há uma outra categoria,  a que mais me fascina, a dos maestros que usam hipnoticamente o olhar para insinuar, para sugerir, para comandar e para subjugar  a orquestra, levando-a na direcção de uma construção musical perfeitamente coesa e previamente existente nas suas cabeças, naquilo que consideram ser a intenção do compositor. É o caso de Nikisch, o senhor da imagem acima. 

No fabuloso documentário The Art of Conducting, de que já falei aqui, que graças a Deus tenho (comprado em Março de 2006, informa-me a sempre obsequiosa Amazon), e que agora não se encontra em parte alguma, há imagens poderosas de Nikisch, ainda no tempo do cinema mudo (morreu em 1922), a dirigir uma orquestra. Não conseguimos desviar o olhar do dele, hipnotizados, tamanho o domínio, tamanha a autoridade. Um flautista de Hamelin do olhar.

Mais tarde, muito mais tarde, viria outro mago do olhar, o meu muito amado Claudio Abbado, entre outras imensas coisas um grande rossininiano (e eu tenho esta paixão por Rossini).

Vejam o vídeo abaixo, que diz muito melhor o que tentei explicar em palavras canhestras. Um aparentemente muito jovem Claudio Abbado (na verdade já tinha 40 anos, as imagens são da produção filmada que Jean-Pierre Ponnelle fez em 1973 do seu Barbeiro de Sevilha, mas... céus! como parecia novo!), eternamente o meu favorito, o único que oiço. Entre várias outras razões porque Figaro é o meu também muito amado Hermann Prey, o senhor que tinha um sorriso na voz, definição linda do Raul que nunca mais esqueço.

Podem saltar directamente um minuto, são os créditos iniciais. O resto é pura magia. Garanto que o sortilégio do olhar do grande Claudio Abbado, se o vosso amor pela Música for nem que seja um décimo do meu, será suficiente para vos deixar siderados.

Grazie tante, Maestro!

A todos vós, um feliz 2011. Alegre, se possível. Sereno, principalmente — um princípio de paz vale mais do que uma alegria de má qualidade. Estamos todos nas mãos de Deus. Entrego os meus medos e confio. Vai ser um bom ano.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Nasce uma lenda

Faz hoje 50 anos, nascia uma lenda. Covent Garden, 17 de Fevereiro de 1959: Dame Joan Sutherland, dirigida por Tullio Serafin e encenada por Franco Zeffirelli, cantava Lucia di Lammermoor como ninguém a tinha ainda ouvido ou visto no século XX. Não sabemos como era a voz de Fanny Tacchinardi Persiani, criadora do papel, em 1835. Sabemos, pelos incontáveis relatos dessa noite prodigiosa, que Dame Joan, passeando erraticamente em palco na cena da loucura, escreveu uma página gloriosa da História da Ópera. E eu teria (digo isto muitas vezes, bem sei) vendido a alma ao Diabo para ter estado lá.

A desenvolver à noite. Agora fica só o meu agradecimento ao Pedro, sem o qual a banda sonora não teria sido possível (depois conto).

Adenda a meio da manhã: não posso corrigir isto... e estou com a forte suspeita de ter colado mal as várias faixas que compõem a Cena da Loucura. Acho (não posso ouvir aqui...) que a quarta está no lugar da segunda. Trenga mais trenga...

Adenda nocturna: Nada há a desenvolver, a voz de Dame Joan é por demais eloquente, nunca cessa de me deslumbrar. Querida, querida Dame Joan! No dia em que partir (Deus o faça muito distante), este blóguio, se ainda existir... entrará em luto prolongado.

sábado, 31 de janeiro de 2009

The impossible dream...

Dame Joan Sutherland e Marilyn Horne como Norma e Adalgisa, dirigidas por Richard Bonynge — de costas, marido da primeira, senhor de vastíssimo conhecimento de bel canto, batuta de rara sensibilidade nessa área. A imagem é de 1982, de um ensaio para uma produção de San Francisco. Escusado será dizer que pagava nem sei bem o quê para ter assistido...

A produção que verei esta noite é anunciadamente má, como são todas, há quase vinte anos — desde que Dame Joan se retirou. Norma, uma das óperas por mim mais amadas, vive em redor da personagem que lhe dá o nome. Não há cantoras para ela, como tal a produção desmorona-se, por melhores que sejam Adalgisa, Pollione ou Oroveso.

Consolo-me a ouvir a voz cristalina de Dame Joan. E não me venham com a história de ah, e tal, a Callas... A Callas cantava a Norma uma oitava abaixo da partitura de Bellini. A Callas nunca teve voz para o papel, por mais extraordinária actriz que fosse (e era). Desconfio que, se não fossem os gays, a Callas não seria o mito que é (e, de caminho, Judy Garland, Barbra Streisand e outras seriam menos divinizadas). Também tenho a Norma cantada pela Callas, sob a impecável batuta de Tullio Serafin, nunca a oiço. Esclarecidos?

P.S. Messy era uma Norma admirável (se bem que o seu signature role fosse mesmo Boris Godunov — era tão versátil, minha Messy!). Agri, por sua vez, faz uma Adalgisa muito consistente e convincente...*

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

217...

Faz hoje 217 anos que o maior de todos os meus amores deixou este mundo.

Deste livro que venero deixo-vos duas únicas passagens.

Sobre o mês de Dezembro de 1791, a última frase do capítulo sobre A Flauta Mágica, estreada a 30 de Setembro (nem preciso de dizer nada, sabem que é a miha ópera bem-amada por excelência):

«That last month witnessed what is surely the greatest tragedy in the history of music.»

Última frase do capítulo The Final Illness:
«It has taken perhaps two hundred years for the world to realize fully and in all its aspects what this loss has meant to music — and to humanity. Haydn said: "Posterity will not see such a talent again in 100 years!" Posterity has not seen it in two hundred.»

Fiquem com a divina beleza da música de Mozart, composta nesse último e trágico ano de 1791: o sublime final do II acto de La Clemenza di Tito.


domingo, 30 de novembro de 2008

T.P.C.

A saber de cor até Março. Não pensem que é muito tempo, é uma ópera de três discos e ainda não lhe conheço uma nota...

A homónima que tenho cá em casa está a estoirar de vaidade...

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A Night at the Opera*

* título de um soberbo disco dos Queen, roubado a um soberbo filme dos Irmãos Marx

Não escrevi antes sobre isto porque sabia que o Pedro ia ver esta semana e não queria estragar-lhe a surpresa. Como sei que foi esta noite, já posso alargar-me em considerações.

Já todos sabem que tenho paixão por Ópera. Acontece que, na Ópera, tenho uma paixão especial por Bel Canto, de que Bellini, Donizetti e Rossini são os nomes mais luminosos. E L'Elisir d'Amore é mesmo uma grande paixão minha.

Há coisa de três semanas, porque chegou ao Gabinete um convite endereçado à Entidade Máxima, fiquei a saber desta produção. Peguei logo no telefone e reservei bilhetes, dois, que a Manela também ficou entusiasmada e prontificou-se a ir comigo. Pedi para a noite a seguir à estreia — embiro com estreias, acho que são noites em que as pessoas vão para ver e ser vistas —, terceira fila ao centro, coxia (os meus lugares fetiche). E o Teatro da Trindade é um magnífico teatro para Ópera (ao contrário do Pavilhão Atlântico, que é um nojo). Os bilhetes ficaram em meu nome, teriam de ser levantados na véspera.

Na terça-feira pedimos a um dos motoristas que passasse por lá e nos trouxesse os bilhetes. O Sr. José António voltou com os ditos... e com o dinheiro. Os bilhetes, que eram ridiculamente baratos (mais barato só mesmo aquele mágico The Year of Magical Thinking no National Theatre, em Julho, que custou dez libras — irra, que ainda não contei o meu encontro com Dame Vanessa Redgrave!) foram oferecidos, vejam a imagem: custo zero. O Sr. José António recusou-se a explicar tal prodígio, e bem o crivámos de perguntas. Ficámos com a forte suspeita de que a menina da bilheteira devia ser uma antiga namorada, que ele é todo galã.

Na quinta-feira conseguimos sair a horas e lá fomos, eu a cantarolar (muito mal, que aquilo não é para a minha voz de contralto) o final do primeiro acto, a Manela a cantarolar (melhor) Una Furtiva Lagrima, a célebre ária que contribuiu para que a obra não caísse no esquecimento.

Quando o pano subiu e vi o cenário, percebi logo que era uma produção moderna. Não me incomodei muito: há uns anos vi ali, no mesmo Teatro da Trindade, o mesmo L'Elisir d'Amore numa produção situada na China de Mao. E DELIREI, foi uma coisa fabulosa! Nunca esquecerei o Dulcamara de João Miranda e as suas partenaires, nem a Adina de Ana Ferraz.

O cenário, minimalista, era lindo, fui registando cada pormenor enquanto ouvia a abertura (a orquestra deixava a desejar). Adina (Carla Caramujo, vi-a há meses como Gilda no Rigoletto, óptima) estava lá ao fundo, em fato de banho, reclinada numa espreguiçadeira. Entra o coro, entra Gianetta, e deslumbrei-me com as cores. Dei mentalmente nota vinte à produção. Gianetta e o coro atacam Bel Conforto al Mietitore... e tenho um dos maiores choques da minha vida. É que estavam a cantar em português!!!

A Manela farta-se de contar a história a quem a quer ouvir: o meu salto na cadeira quando desataram a cantar, a minha cara horrorizada. Confesso que a minha reacção instintiva foi querer pôr-me a milhas, e imediatamente. Complicado, se considerarmos que estava na terceira fila... Teria de sofrer todo o primeiro acto, pisgava-me no intervalo. Anormais!!! Em parte alguma do programa eu tinha visto menção ao facto de a obra ser cantada em português!

Tentei abstrair-me da língua, tentei não ouvir as palavras, enquanto racionalizava. Na ENO, English National Opera, todas as obras são cantadas em inglês. Puccini, o grande Puccini, achava que as suas obras deviam ser cantadas na língua do próprio país. Se Puccini assim pensava, quem sou eu para me armar aos cucos? Ainda assim... ouvir Adina comentar várias vezes para o coro, sobre Belcore, que «É modesto o senhorito» revolveu-me as entranhas. Não se arranjava nada melhor? Eu e a Manela fungámos, divididas entre o horror e uma irreprimível vontade de rir. E eu antecipava, com alguma apreensão, uma certa parte de Una Furtiva Lagrima, quando Nemorino canta «M'ama, si, m'ama!». Vá lá, contornaram a espinhosa questão com alguma habilidade. Não ficou a fazer grande sentido, mas poucas coisas na ópera fazem, se pensarmos bem. «Minha, é minha!», foi como ficou a delicada passagem.

Devo dizer que, visualmente, este Elixir d'Amor (agora percebo o título — tarde piaste, mula!) foi uma coisa deslumbrante. As cores! As cores! Cenário, guarda-roupa (menção especial para Gianetta — Alexandra Moura — e as três carteiras a tiracolo), as meninas do coro todas de cabeleiras loiro-platinado iguais, tudo lindo de encantar.

Escusado será dizer que não me fui embora no intervalo. Aliás, mesmo com o desconforto inevitável de ouvir cantar em português, o final do primeiro acto, tamanha a beleza da música, pôs-me a chorar como uma Madalena, o que me fez perguntar o meu clássico «Estou muito borrada?» à Manela. Costuma ser o Vítor a ouvir esta minha pérola... Troquei mensagens com a Mad (momento imortalizado aqui, o Benfica marcou o primeiro golo quando eu estava a sentar-me outra vez), telefonei ao Vítor, telefonei ao Pedro.

Deixemo-nos de esquisitices: percebo e até aplaudo a ideia, há que desfazer o mito de que a Ópera é coisa difícil e maçadora. A Ópera é uma arte sublime. E L'Elisir d'Amore é uma obra magnífica, e tão alegre! Uma excelente primeira escolha para quem quiser começar a ouvir Ópera.

Chocou-me, e muito, a frieza dos aplausos no fim. Nunca tinha visto tal coisa em Portugal! Tive pena pelos cantores, que ali deram o litro e fizeram um óptimo trabalho, todos eles. Mereciam mais, muito mais.

Quando cheguei a casa, passava da meia-noite (eu e a Manela ainda fomos jantar à Trindade, onde eu não punha os pés há um ror de anos), não resisti e ainda me pus a ouvir todo o segundo disco de L'Elisir d'Amore, nesta maravilhosa gravação, as vozes miraculosas de Dame Joan Sutherland e Luciano Pavarotti no auge do seu esplendor. Eram três horas quando me deitei.

Esta produção estará no Porto no dia 24. Alf, o recado é para ti.



sábado, 6 de setembro de 2008

Querido, querido Pavarotti!

Faz hoje um ano que partiu. A Gota de Ran Tan Plan faz hoje dois anos, mas que importância tem isso? O dia 6 de Setembro agora vem-me sempre à memória associado à morte do gigantesco Luciano Pavarotti. Larger than life... Maior do que a vida, sim. Por ser maior do que a morte, ao continuar tão vivo na voz milagrosa que os discos nos deixaram.

É por a música ser na minha vida um imenso amor, talvez o maior de todos (livros e bichos são sérios rivais, tão sérios que não sei a qual dar a primazia), que amo tanto a voz de Pavarotti e até sou capaz de fechar os olhos às tristes coisas que fez nos últimos anos — reencontro-o sempre nos discos e reconcilio-me com ele.

Escolhi pôr aqui hoje, para lembrar a alguns e para apresentar a quase todos, a Bohème mais mítica de todas as Bohèmes, a de Karajan. Pavarotti é Rodolfo, o poeta. A sua amiga querida de toda a vida (quase a sua Teresa, se ele se chamasse Vítor), a maravilhosa Mirella Freni, é Mimì. Já falei desta cena há quase um ano, aqui — leiam, se vos apetecer: esta é provavelmente a mais arrebatadora cena de amor da história da Ópera e capta essa coisa fugaz que é o nascimento de um amor. Primeiro ele, a seguir ela, em duas árias sublimes. Depois as vozes dos dois unem-se num dueto de felicidade tão grande que parece impossível. Todos queremos um amor assim, por muito mal que possa acabar.

Dois breves apontamentos:

1. Sobre a primeira frase da ária de Rodolfo, Che Gelida Manina, lembro-me de ter lido há muitos anos, na autobiografia de Pavarotti, sobre a dificuldade extrema de a cantar.

2. Na ária de Mimì (Sì. Mi Chiamano Mimì) a minha adorada Mirella Freni canta como mais ninguém a frase mágica «Ma, quando vien lo sgelo, il primo sole è mio

terça-feira, 22 de julho de 2008

Dez anos sem Hermann Prey

Faz hoje dez anos que se silenciou esta voz magnífica que é um grande amor na minha vida. E um dos primeiros, quase em simultâneo com os Beatles (sim, sim, são perfeitamente compatíveis).

Posso não ter grandes talentos (mea culpa, mea maxima culpa), mas há um que reivindico com toda a justiça: o de reconhecer o talento alheio quando o enconto, o de saber destrinçar entre o trigo e o joio, o lobrigar deslumbrado da moeda de oiro reluzente entre os tostões de cobre de liga.

Lembro-me perfeitamente de quando conheci Hermann Prey, porque tinha dezasseis anos e foi a primeira ópera que comprei: O Barbeiro de Sevilha, uma das mais imortais óperas de Rossini (e longe estava eu de saber quanto viria a amá-lo). Um estojo magnífico, três LP. Já não a tenho, e seria uma longa e triste história, em que não me apetece remexer. Culpa da minha Mãe e das suas boas e crédulas intenções. Imaginem vocês que estão de férias no Algarve e que há um amigo que vos emprestou alguns discos; o amigo precisa deles, a Teresa telefona à Mãe a avisar que ele vai passar lá por casa. A Mãe abre-lhe liberalmente a porta, franqueia-lhe o acesso ao meu quarto com a maior das boas-fés (era menino de beija-mão e tudo o que convence as senhoras), o amigo serve-se ainda mais liberalmente do que encontra. Que me lembre, tinha cinco discos dele. Levou pelo menos uns doze, preciosos. Entre eles, O Barbeiro de Sevilha de Claudio Abbado, com Hermann Prey e Teresa Berganza. Não tão estranhamente como isso... nunca mais me atendeu o telefone. Quando nos cruzámos por acaso numa noite de Stone's, largos anos depois, já havia CD, e eu já tinha superado aquela mutilação, porque já tinha o disco. Cobardemente, até por ter percebido que a vida dele estava um caos, não toquei no assunto. Mas ainda dói.

Quem É Hermann Prey? — nada de conjugações no passado, que ele é imortal. Um barítono de timbre maravilhoso, uma voz que é um embalo para os ouvidos, um grande actor numa época em que quase todos os cantores de Ópera eram umas estacas em cena (levantavam um braço... e olha lá!). O maior Figaro da segunda metade do século XX (o que abrange o Barbeiro e As Bodas de Figaro, de Mozart). O incomparável Papageno daquela Flauta Mágica que é o meu amor maior na Ópera. Desse papel, em que o público de Viena, de Munique e de Nova Iorque (só para citar as maiores casas de ópera) o idolatrava, não há, estranhamente, registos em filme. Estranho, muito estranho...

Há muitos meses, deixei no filme do Youtube que aqui ponho abaixo (a primorosa realização de Jean-Pierre Ponnelle de que voltarei a falar) um comentário extasiado: «He is simply PERFECT! My favourite baritone ever, and what a fine actor! How I wish someone had footage of his wonderful Papageno!» Um outro comentador viria a pegar na minha deixa de maneira mais consistente e a deixar este comentário: «There is some with his "alter ego" Fritz Wünderlich as Tamino!... For this reason, I FIND IT HARD, VERY HARD TO BELIEVE THAT THERE IS NOT ONE SINGLE VIDEO CLIP WITH HERMANN PREY AS PAPAGENO!!! Either it is esconsed in a shelf of any German or American TV corporation; or it is hidden in a safe by a truly heartless "fan"!...
IN THE NAME OF ART, HE/SHE WHO HAS IT, PLEASE, PLEASE, RELEASE IT - NOW!!! It has been 10 years since this great man has left us! WHAT BETTER HOMAGE COULD WE PAY HIM?...»

Este comentário deixou-me com a pulga atrás da orelha. O comentador parecia-me português... comentei a seguir: «You're SO right! Next 22nd of July will be ten years since he left us! Have you read his autobiography, "First Night Fever"?
I have a strong suspicion you're Portuguese. So am I :)»

Assim nascem afinidades. Passámos, eu e o João Pedro, a trocar mensagens em privado. Hoje recorri a ele, que não pôde socorrer-me. Não é dramático, antes é um pretexto para voltar a falar mais alongadamente do grande Hermann Prey.

Hoje fica apenas a homenagem tão merecida. Para terem uma muito vaga ideia da minha devoção por este senhor, conto-vos muito brevemente uma história. O meu primeiro contacto com a Internet foi em Agosto de 1998, quando a instalaram na empresa onde eu então trabalhava. O Sr. Gabriel (ainda hoje o meu recurso para as emergências informáticas) foi lá instalar a coisa, deu-me umas explicações básicas. À época, o período jurássico da Internet, ainda não havia Google (que Deus o abençoe para todo o sempre), havia outros motores de busca como Alta Vista, Yahoo e já nem sei que mais. Lembro-me como se fosse hoje das três primeiras buscas que fiz, bem reveladoras da minha pessoa: 1 - Castle Howard; 2 - Joan Sutherland; 3 - Hermann Prey...

Fiquei gelada. Hermann Prey, o meu Hermann Prey... tinha morrido menos de duas semanas antes, a 22 de Julho. Para variar, a imprensa nada tinha dito. Nada de surpreendente, se considerarmos que eu só soube da morte do grande Sir Georg Solti pela minha assinatura da Opera, religiosamente recolhida na Buchholz, morreu menos de uma semana depois da princesa Diana, mas vendia um número substancialmente inferior de revistas. O que li nessa minha terceira e histórica pesquisa na Internet alagou-me de uma tristeza que persiste até hoje. «It was with deep sadness that the musical world received the news of the death of Hermann Prey. The renowned German baritone died following a heart attack at his home outside Munich (Germany) on Wednesday night, July 22, 1998.» Podem ler a notícia toda aqui, copiei-a, juntamente com a localização, para um documento de Word que me tem acompanhado nestes dez atribulados anos, ao longo de demasiados computadores.

Voltarei a Hermann Prey antes de ir de férias. Antes disso, terei de contar a reclamada história do meu encontro com Dame Vanessa Redgrave, há pouco mais de uma semana. Está solenemente prometida.

Agora deixo-vos com o Figaro de Hermann Prey, que nem vou adjectivar. Papageno fica para outro dia.





sexta-feira, 7 de março de 2008

Giuseppe Di Stefano - E lucevan le stelle...

24.07.1921 - 3.03.2008

Estou muito, muito triste. Desolada. Só hoje (culpa, paredes meias, desta vida estúpida de demasiado trabalho com a boçalidade das nossas notícias - no gabinete vejo os jornais económicos, deixo o resto da informação a cargo da Sic Notícias, que está o dia inteiro ligada, baixinho) soube da morte dele, há quatro dias.

A sexta-feira é por excelência o dia que acaba mais cedo no Colosso. A partir das seis horas comecei a ter muito pouco que fazer. Ora de manhã eu tinha pensado que queria prestar aqui algumas homenagens, precisava de caçar fotografias. Ele era um dos alvos. O primeiro resultado que me apareceu (digito o assunto na barra do Google, só depois peço imagens) era da Wikipedia e li logo a data que me deixou siderada. Foi de lágrimas nos olhos que comecei a ler. Foi já a chorar (e a tentar ser discreta, partilho o gabinete com duas pessoas) que continuei a leitura. Giuseppe Di Stefano, o grande Giuseppe Di Stefano tinha morrido.

Saí cedo, faltava pouco para as oito. Entrei no carro, liguei o leitor de mp3 à telefonia, carreguei no botão. À primeira nota que se fez ouvir subiu em mim um arrepio impossível de descrever, que se converteu quase de imediato num ataque de choro: era E Lucevan le Stelle, a última e desgarradora ária de Cavaradossi na Tosca, o seu adeus à vida. Pela voz dele, nem precisava de esclarecer, pois não? Aquela gravação continua insuperável, tantos anos passados. Tenho nem sei bem quantas músicas no leitor de mp3, umas largas centenas - tantas que às vezes chego a ficar surpreendida quando oiço uma ou outra, nem me lembrava de lá ter posto aquilo -, de manhã, quando desliguei a geringonça lembro-me de ter sido mesmo no final do Canon de Pachelbel, nem fazia ideia do que se seguia. Era E Lucevan le Stelle, afinal. Estas inacreditáveis coincidências são perturbadoras, já antes tinha contado uma, a respeito da morte de John Denver (aqui).

Quando penso em Di Stefano, seguramente nos primeiros lugares entre os maiores de sempre, os adjectivos afluem em catadupa. Um daqueles seres que os deuses parecem cumular de bênçãos. Um devorador da vida - a Ópera, tão amada, por si só não lhe bastava (E non ho amato mai tanto la vita!). Há quem diga (quem sabe muito mais disto do que eu) que poderia ter sido tão grande como o mítico Caruso. Mas Di Stefano queria tudo, queria sentir tudo absolutamente (ai, Álvaro de Campos!), a carreira magnífica acabou bem mais cedo do que deveria e poderia. Restam-nos os discos, raras aparições captadas em filme, pobres e insuficientes para contarem o carisma deste homem e, sobretudo, esta VOZ. Linda, linda, linda. Tão linda, meu Deus! Luminosa, não me ocorre adjectivo melhor.

E vindas do nada, caprichosamente, vêm-me à memória as palavras centenas de vezes lidas do final do Príncipe Feliz, escritas por aquele senhor que é um dos amores maiores da minha vida, Oscar Wilde. E modifico-as livremente, adapto-as a esta grande perda:

«You have rightly chosen,» said God, «for in my garden of Paradise HE shall sing for evermore.»


E lucevan le stelle,

E lucevan le stelle,
e olezzava la terra
stridea l'uscio dell'orto,
e un passo sfiorava la rena.
Entrava ella, fragrante,
mi cadea fra le braccia.
Oh! dolci baci, o languide carezze,
mentr'io fremente le belle forme discogliea dai veli!
Svani per sempre il sogno mio d'amore...
L'ora e fuggita e muoio disperato!
E non ho amato mai tanto la vita!

quarta-feira, 5 de março de 2008

Os homens são todos iguais

Infiéis. Uns impostores do pior!

Coisa que este anúncio, que considero um dos mais deliciosos que alguma vez vi, só vem provar - como se ainda fosse preciso. Rio sempre que o revejo.


É favor reparar no requinte da minha escolha de música para pano de fundo (a modéstia hoje tirou férias): Porgi, Amor, na voz maravilhosa de Gundula Janowitz. Mozart, As Bodas de Fígaro. Ah, já agora... não será má ideia parar a música para ver o filme... Mozart perdoa.

Breve explicação para os menos familiarizados com a ópera: Beaumarchais escreveu uma famosa trilogia de peças: O Barbeiro de Sevilha, As Bodas de Fígaro e La Mère Coupable. Só as duas primeiras foram transpostas para ópera. A peça de onde esta ópera foi retirada é hoje considerada um dos mais explosivos rastilhos da Revolução Francesa. Esta condessa de Almaviva que aqui canta esta ária pungente sobre a natureza efémera do amor é a alegre e maliciosa Rosina do Barbeiro de Sevilha (a obra precedente). Passaram alguns anos, ela casou com o conde... e não sabe o que aconteceu ao amor - parece que entre o século XVIIII e os nossos dias não mudaram muitas coisas, afinal. Apropriado ao filme, não vos parece?

domingo, 10 de fevereiro de 2008

A Flauta Mágica

O meu querido Coveiro tem aparecido muito pouco, e só posso alegrar-me, por mais que lhe sinta a falta por aqui. As razões da sua ausência são poderosas, e o contentamento dele é também meu. Andam todas em redor desse grande amor que partilhamos, a Música. Ele é Bach, eu sou Mozart (mas Bach é logo o segundo mais amado). Aliás foi ele que me escreveu há tempos uma das coisas mais bonitas que alguém já alguma vez me disse: «sempre que oiço Mozart, lembro-me de ti».

Na sexta-feira esteve em Covent Garden a ouvir aquela que é, entre todas, a ópera que por mim pode tudo. Eleva-me, faz-me rir, faz-me chorar... A Flauta Mágica. Mozart, claro. Hei-de voltar a falar dela, das também mágicas vezes que a vi em palco (uma delas dirigida pelo grande Gardiner, que é o maestro de eleição do Coveiro). Mas agora quero só deixar aqui as impressões dele, frescas e recentes. Com dois dias. E aposto que ainda está em êxtase.

«... e subi aos céus com a Flauta Mágica, magistralmente interpretada e encenada na Royal Opera House.

Ah, como quero ir escutá-la outra vez, deliciar-me com a beleza da sala, a exuberância da encenação e do guarda roupa, mas acima de tudo, as interpretações de um Sarastro quente e magnânimo, de um Papageno irreverente e perfeito e de uma Pamina, uma Pamina... Onde estiveste até agora? Que técnica é essa? Que pianos são esses que inundam a sala e que terminados vivem nos silêncios em que a música respira antes da estrondosa ovação rendilhada de Bravos!?

Quando cantavas, o constante arrepio que teimava em não deixar-me, os olhos húmidos, e um calor... foi a segunda vez em toda a minha vida e inúmeros concertos em que uma execução teve tamanho impacto em mim, e tu fizeste com que esta fosse a ópera da minha vida...

Podia ainda dizer que é a quantidade de trabalho ou a rotina, mas nem isso é verdade.

Não sei porque não me saem as palavras quando tive uns últimos dias cheios de emoções. Boas emoções.

Penso então que talvez não saiba lidar com elas, ou que quero-­as tanto, que, inconscientemente, as quero deixar guardadas no meu coração, a aquecer-me ainda mais nestes amenos dias de Inverno.

Porque tal como na Flauta Mágica, como nos dias lá fora, bem como dentro do meu coração, a luz veio vencer o obscurantismo. E a noite não conseguiu destruir o templo, provando estão os céus azuis e os dias maiores.»

domingo, 28 de outubro de 2007

Intervalo publicitário

Sim, já estou melhorzinha desta espécie de gripe que me atacou. Ontem passei o dia na cama, a chá e Antigripine. As dores no corpo já quase passaram e, como precisava mesmo de ir ao supermercado, há bocado resolvi ir à rua. Em boa hora o fiz!

Aqui fica a publicidade, corram a comprar esta pechincha! Uma belíssima gravação do Rigoletto com GRANDES cantores, por apenas... 1,95 euros! Está à venda em todos os quiosques, vem com o Correio da Manhã (que não comprei, claro...). Para quem tem um certo medo de Ópera, por achar que deve ser muito difícil, esta pode ser uma grande estreia, e deitará o mito por terra. A edição traz o imprescindível libretto, no original italiano e... em português, o que acho uma ideia genial - normalmente as óperas vêm com o libretto em italiano, francês, inglês e alemão.

Se se iniciarem na ópera com o Rigoletto, estou convencida de que quererão ir mais além e descobrir mais coisas. Pode ser o vosso bilhete de entrada para um mundo mágico do qual nunca mais se quer sair. Nani, aqui fica o recado, compra isto como t.p.c. para uma possível vinda a S. Carlos em Dezembro. Tu, Alf, tratas do resto, não é verdade?

Deixo-vos com o magnífico e justamente célebre quarteto do terceiro e último acto. Só com um bocadinho de batota. É que... a versão que aqui pus é a da minha gravação favorita do Rigoletto, as extraordinárias vozes de Luciano Pavarotti (e não Lusiano Pavarote, ó meu animal!) e de Dame Joan Sutherland no auge do seu esplendor. Tentem ouvir.... se for preciso insistam uma vez ou duas mais, não desistam logo. O momento em que a barreira se quebra e de repente se consegue assimilar toda a beleza e poder da música é tão compensador!

Now playing: Rigoletto - Bella Figlia del Amore
(click to listen)

domingo, 16 de setembro de 2007

Maria Callas. Inesquecível.

Faz hoje trinta anos que partiu.
Tenho alguma dificuldade em escrever sobre ela, tanto a sua figura trágica me comove.
Foi encontrada morta no seu apartamento de Paris. Partiu silenciosamente, sem um queixume. Segundo os amigos mais chegados, começou a morrer no dia em que Onassis a trocou por Jacqueline Kennedy, em 1968, nove anos antes, os mesmos nove anos que durara a sua relação com ele. Nove anos em que foi perdendo mais e mais a voz (até àquela patética digressão mundial com Di Steffano, que nunca deveria ter acontecido), em que se foi afastando cada vez mais da música, que era o melhor de si própria. Nove anos em que sonhou casar com Onassis e ter um filho. Nove anos em que se limitou a ser um lindo troféu que ele exibia, vaidoso de trazer pelo braço a diva mais célebre do mundo.
Do patinho feio e desajeitado, obeso até aos trinta anos (recuso-me a pôr aqui retratos dessa época), viria a emergir, após um ano de dieta e de trinta quilos que se volatilizaram como por artes mágicas, um lindo cisne, delicado e gracioso, à imagem de Audrey Hepburn, que Callas tomou por modelo. Não vou entrar em controvérsias que já encheram livros e livros, não sei se a perda da voz se deveu à perda de peso. Há quem diga que sim. Não me parece, mesmo tendo os seus primeiros problemas vocais começado a surgir pouco depois de ter deslumbrado o mundo com a sua nova silhueta, admiravelmente enroupada pela costureira romana Biki. Acho mais provável que certos papéis que cantou no princípio da carreira (até Wagner!) lhe tenham afectado a voz.
De repente, aos trinta anos, Callas descobria-se mulher, e uma mulher bonita, muito bonita. Desejada por todos, até pelo homem mais rico do mundo.

Callas, em êxtase com a sua nova vida, descobrindo finalmente os encantos da femininilidade, descobriu também o amor. E o sexo. O casamento com Meneghini, vinte e sete anos mais velho, quase uma figura paternal, chegou ao fim.
A partir da sua associação a Onassis, as aparições em palco vão rareando cada vez mais. Muitas são canceladas. Prefere gravar, que lhe exige menos e lhe dá maior liberdade para o acompanhar. Mesmo assim, canta ainda uma extraordinária Tosca no Covent Garden, em 1964.
Maria Callas está longe de ser a minha cantora preferida (essa, a esta hora, já muita gente, mesmo não sabendo nada de ópera, deve saber quem é). Confesso que não gosto da voz, pronto! Mas é impossível negar a desmedida importância do seu nome na Ópera e o seu contributo na redescoberta de grandes óperas que tinham caído no esquecimento. Maria Callas, a Divina, como lhe chamaram, figura na galeria dos maiores de sempre, ao lado de nomes como os de Maria Malibran, Giuditta Pasta, Adelina Patti ou Rosa Ponselle. Numa coisa, reconheço, é irrepetível. Callas era uma extraordinária actriz. Mesmo quando a voz já a atraiçoava (e quanto sofrimento isso deve ter representado para alguém tão exigente como ela), o seu génio dramático maravilhava-nos. O melhor adjectivo que me ocorre para a descrever em palco é hipnotizante. Vejam-na aqui, na Tosca de que já falei, e de que felizmente ficou este registo (o grande Tito Gobbi é Scarpia):


É assim que prefiro lembrá-la. Ou como nesta imagem da pungente cena do II acto da Traviata, com Germont.


A mítica Traviata de Visconti - 1956

Hesitei bastante na escolha da ária a pôr aqui hoje, trigésimo aniversário da sua morte. Não me sorria a ideia de a pôr como Violetta, ou Norma, ou Amina. Mas depois lembrei-me deste Vissi d'Arte. Por duas razões: porque não conheço nenhuma cantora que melhor tenha cantado o papel de Floria Tosca, a magnífica gravação de Victor De Sabata com Di Steffano e Tito Gobbi continua sem rival; e porque as palavras quase parecem descrever a vida da própria Callas.

Vissi d'arte,
vissi d'amore,
non feci mai male ad anima viva!
Con man furtiva quante miserie conobbi aiutai.
Sempre con fè sincera
la mia preghiera ai santi tabernacoli salì.
Sempre con fè sincera
diedi fiori agl'altar.


Nell'ora del dolore perchè, perchè, Signore,
perchè me ne rimuneri così?
Diedi gioielli della Madonna al manto,
e diedi il canto agli astri, al ciel, che ne ridean più belli.
Nell'ora del dolor perchè, perchè, Signor,
ah, perchè me ne rimuneri così?


(click to listen)

domingo, 9 de setembro de 2007

Luciano Pavarotti & Mirella Freni*

* Aviso à navegação: este post é para amantes da Ópera. The Ultimate Art, como lhe chamou David Littlejohn num livro que já reli muitas vezes, num encantamento renovado em cada reencontro. A sua leitura está aberta a todos, evidentemente. Gosto de partilhar, uns quantos já vão sabendo disso. A Ópera é um dos maiores tesouros da minha vida.

Ele foi há poucas horas a enterrar. Ela, a amiga querida de sempre, de uma vida inteira, aposto que atravessa uma noite insone, a lembrar histórias comuns. Recomendo a todos o post do José Quintela Soares no seu Opera per Tutti e a sua conclusão: «A preto (do luto) e branco (do lenço)». Que linda legenda para a fotografia que ilustra o post, José! Gostava de a ter escrito. Li muitos posts sobre Pavarotti nos últimos dias, em blogues diversos. O José e eu fomos os únicos a assinalar o corte brutal desta parceria que fica para a história. Luciano e Mirella, as crianças de Modena que o canto fez ídolos do mundo. Ela, viúva de um baixo que, também ele e muito justamente, é toda uma lenda (Nicolai Ghiaurov, morreu em 2004), fez escolhas diferentes. Retirou-se quando a voz ainda podia durar mais, nunca se vendeu às contas de somar. E se a tentação pode ser forte...

Pavarotti e Freni gravaram a Bohème perfeita. Em 1970, sob a batuta do grande Karajan. Encontrei no Youtube a sequência completa, gravada ao vivo vinte anos depois.

Para os menos familiarizados com a Ópera, eis uma explicação sumária (e muito pessoal): aquilo que agora aqui deixo é um maravilhoso fresco do nascimento de um amor. Que vai correr mal, como quase todos correm. Isso era novidade na Ópera, esta La Bohème insere-se numa corrente chamada Verismo, que pretende ser mais realista (verdadeira) e retratar pessoas reais em situações reais. No fim ela volta para morrer nos braços dele. Verismo... ma non troppo... certas convenções operáticas são demasiado fortes: ópera que se preze acaba com a morte dos dois amantes ou, pelo menos, de um deles.

Para quem nunca ouviu nada de Ópera e tenha alguma curiosidade, esta é uma excelente escolha para se iniciar. Por razões várias. Para começar, é uma ópera muito curta (reza a lenda que a família real britânica, quando tem visitantes de Estado estrangeiros que quer obsequiar com uma noite no Covent Garden - Royal Opera House, dá sempre preferência à Bohème... precisamente por ser curta); a sua construção em quatro actos faz-me pensar na estrutura mais tradicional de uma sinfonia, em quatro andamentos. A música de Puccini é arrebatadora e tão acessível que entra imediatamente no ouvido. Outra boa escolha para uma primeira incursão nesse jardim encantado que é a Ópera será, a meu ver, o Rigoletto, de Verdi. Nesta versão, a minha preferida - vejam só quem são os cantores...

As três cenas que aqui ficam conseguem, ainda hoje, pôr-me a chorar de felicidade, tamanha a beleza. Ele apresenta-se (1.ª ária, Che Gelida Manina), ela responde (2.ª ária, Si, Mi Chiamano Mimi), segue-se o sublime dueto O Soave Fanciulla.

Se alguém conseguir ver estas três cenas e continuar sem perceber por que razão a Ópera é um dos grandes amores da minha vida... lamento, mas só pode ser muito estúpido. Ou insensível. Ou surdo. A ordem é perfeitamente arbitrária.

Che Gelida Manina (Rodolfo, Luciano Pavarotti)



Si, Mi Chiamano Mimi (Mimi, Mirella Freni)*

* Tenho muitas versões desta ária. Algumas delas por cantoras que são imortais. Nenhuma a canta como a minha menina Freni. Há quatro cantoras por quem tenho uma paixão avassaladora: Dame Joan Sutherland (primeiríssima), Elisabeth Schwarzkopf, Edita Gruberova. E ela, a minha menina Freni. Um certo verso da ária faz toda a diferença. Ninguém o canta como ela. Nem sequer a maravilhosa Renata Tebaldi, outro dos meus ídolos, a voz de anjo, como lhe chamavam.


O Soave Fanciulla (Rodolfo e Mimi)

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Tu che a Dio spiegasti l'ali

Calou-se hoje uma voz magnífica, extraordinária, que fica na História como uma das mais belas e poderosas do século XX.

Luciano Pavarotti.

Prefiro esquecer neste momento o triste espectáculo em que se deu nos últimos anos, prostituindo a torto e a direito essa voz que era um dom divino. Prefiro lembrá-lo como o oiço ainda e sempre, nos anos gloriosos da Decca, ao lado de Dame Joan Sutherland, que lhe deu a primeira grande oportunidade e com quem ele próprio confessava ter aprendido a respirar - um segredo de valor incalculável para um cantor.

Prefiro lembrá-lo como o Rodolfo da Mimì da sua grande amiga Mirella Freni, como ele nascida em Modena em 1935, prefiro maravilhar-me com as suas interpretações naquela histórica Bohème dirigida por Karajan. Juntos estudaram canto, muito novos ainda. A amizade ficou para o resto da vida, tão grande, tão íntima, que se dizia no meio operático, por graça, que, se Pavarotti se constipava em Nova Iorque, Mirella Freni espirrava em Viena.

Hoje deve haver muitos blogues com a sua Nessun Dorma, ou com Una Furtiva Lagrima, possivelmente alguns outros porão La Donna È Mobile. Eu escolho esta belíssima Tu che a Dio Spiegasti l'ali, a ária final da Lucia di Lammermoor, em que ele tantas e tantas vezes foi Edgardo a cravar o punhal no peito, ao saber da morte da sua amada Lucia, cantada por Dame Joan Sutherland como por mais ninguém.

Tu che a Dio spiegasti l'ali... Tu que para Deus abriste as asas...
Descansa em paz.