domingo, 16 de setembro de 2007

Maria Callas. Inesquecível.

Faz hoje trinta anos que partiu.
Tenho alguma dificuldade em escrever sobre ela, tanto a sua figura trágica me comove.
Foi encontrada morta no seu apartamento de Paris. Partiu silenciosamente, sem um queixume. Segundo os amigos mais chegados, começou a morrer no dia em que Onassis a trocou por Jacqueline Kennedy, em 1968. Nove anos antes, os mesmos nove anos que durara a sua relação com ele. Nove anos em que foi perdendo mais e mais a voz (até àquela patética digressão mundial com Di Steffano, que nunca deveria ter acontecido), em que se foi afastando cada vez mais da música, que era o melhor de si própria. Nove anos em que sonhou casar com Onassis e ter um filho. Nove anos em que se limitou a ser um lindo troféu que ele exibia, vaidoso de trazer pelo braço a diva mais célebre do mundo.
Do patinho feio e desajeitado, obeso até aos trinta anos (recuso-me a pôr aqui retratos dessa época), viria a emergir, após um ano de dieta e de trinta quilos que se volatilizaram como por artes mágicas, um lindo cisne, delicado e gracioso, à imagem de Audrey Hepburn, que Callas tomou por modelo. Não vou entrar em controvérsias que já encheram livros e livros, não sei se a perda da voz se deveu à perda de peso. Há quem diga que sim. Não me parece, mesmo tendo os seus primeiros problemas vocais começado a surgir pouco depois de ter deslumbrado o mundo com a sua nova silhueta, admiravelmente enroupada pela costureira romana Biki. Acho mais provável que certos papéis que cantou no princípio da carreira (até Wagner!) lhe tenham afectado a voz.
De repente, aos trinta anos, Callas descobria-se mulher, e uma mulher bonita, muito bonita. Desejada por todos, até pelo homem mais rico do mundo.

Callas, em êxtase com a sua nova vida, descobrindo finalmente os encantos da femininilidade, descobriu também o amor. E o sexo. O casamento com Meneghini, vinte e sete anos mais velho, quase uma figura paternal, chegou ao fim.
A partir da sua associação a Onassis, as aparições em palco vão rareando cada vez mais. Muitas são canceladas. Prefere gravar, que lhe exige menos e lhe dá maior liberdade para o acompanhar. Mesmo assim, canta ainda uma extraordinária Tosca no Covent Garden, em 1964.
Maria Callas está longe de ser a minha cantora preferida (essa, a esta hora, já muita gente, mesmo não sabendo nada de ópera, deve saber quem é). Confesso que não gosto da voz, pronto! Mas é impossível negar a desmedida importância do seu nome na Ópera e o seu contributo na redescoberta de grandes óperas que tinham caído no esquecimento. Maria Callas, a Divina, como lhe chamaram, figura na galeria dos maiores de sempre, ao lado de nomes como os de Maria Malibran, Giuditta Pasta, Adelina Patti ou Rosa Ponselle. Numa coisa, reconheço, é irrepetível. Callas era uma extraordinária actriz. Mesmo quando a voz já a atraiçoava (e quanto sofrimento isso deve ter representado para alguém tão exigente como ela), o seu génio dramático maravilhava-nos. O melhor adjectivo que me ocorre para a descrever em palco é hipnotizante. Vejam-na aqui, na Tosca de que já falei, e de que felizmente ficou este registo (o grande Tito Gobbi é Scarpia):


É assim que prefiro lembrá-la. Ou como nesta imagem da pungente cena do II acto da Traviata, com Germont.


A mítica Traviata de Visconti - 1956


Hesitei bastante na escolha da ária a pôr aqui hoje, trigésimo aniversário da sua morte. Não me sorria a ideia de a pôr como Violetta, ou Norma, ou Amina. Mas depois lembrei-me deste Vissi d'Arte. Por duas razões: porque não conheço nenhuma cantora que melhor tenha cantado o papel de Floria Tosca, a magnífica gravação de Victor De Sabata com Di Steffano e Tito Gobbi continua sem rival; e porque as palavras quase parecem descrever a vida da própria Callas.


Vissi d'arte,
vissi d'amore,
non feci mai male ad anima viva!
Con man furtiva quante miserie conobbi aiutai.
Sempre con fè sincera
la mia preghiera ai santi tabernacoli salì.
Sempre con fè sincera
diedi fiori agl'altar.


Nell'ora del dolore perchè, perchè, Signore,
perchè me ne rimuneri così?
Diedi gioielli della Madonna al manto,
e diedi il canto agli astri, al ciel, che ne ridean più belli.
Nell'ora del dolor perchè, perchè, Signor,
ah, perchè me ne rimuneri così?





(click to listen)

13 comentários:

  1. Linda,

    Por acaso, eu gosto tanto dela por ter o timbre soprano mais estranho que ja ouvi ate hoje. Julgava que tinha ficado famosa pela Carmen que fez, obrigado pela informacao toda. A primeira vez que "ouvi" Callas foi em filme, numa cena do Philadelphia, em que o Tom Hanks contracena com o Denzel Washington e lhe explica o que sente a ouvir aquela aria.

    E' uma memoria que tenho gravada a ferros quentes dentro de mim para sempre. A intensidade do momento, a mensagem... estou arrepiada so de o imaginar outra vez.

    Beijo enorme.

    http://www.youtube.com/watch?v=3b0p9mTJOJI

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  2. Visite e, se puder, ajude:
    http://astresmeninasgemeas.blogspot.com/
    Obrigada

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  3. Antes de mais parabéns pelo texto que está belíssimo. Em parte partilho a opinião de Aenima relativamente ao seu timbre, mas acima de tudo o ter despertado em mim o interesse, o gosto e a paixão pela Ópera e com ela ter descoberto outros tantos artistas, como Dame Sutherland, claro está!

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  5. oi meu anjo parabéns pelo seu mundo tão lindo ta. E aceite o selo da campanha contra violencia aos nossos animais, ajude nos acabar c/ a vilencia contra eles.

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  6. Acho que conheço mais da vida dela do que da obra. (nada que se compare contigo, mas pronto). E, sinceramente, concordo contigo no aspecto da Mulher Troféu.
    Beijos

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  7. Menina, mereces ser a primeira a saber. Acabei agora mesmo o primeiro draft do documento da tese inteira. Ainda havera muita alteracao e revisao a fazer... ainda faltara talvez um mes para a defender... mas ufa... o principal esta feito!

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  8. A única vez que ia andando à porrada num cinema foi por causa da Maria... no filme Filadéfia, quando há aquela ária lindissima, uns #%%$ duns energumeros atrás de mim passaram o tempo todo a dizer "já chega, que horror" e parvoeiras do género. Quando acabou a sessão, simplesmente me levantei e lhes disse que a sessão infantil era de manhã... valeu-me a cara de mau, acho eu, e estar escuro, não me viram bem! ;)

    Beijo enorme, Teresa.

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  9. olá teresa!
    maria callas é um daqueles nomes incontornáveis e único no mundo operático e já agora aqui fica um filme que recomendamos vivamente, muito pouco conhecido, "Callas, A Diva" com a Fanny Ardant e o Jeremy Irons.
    beijinhos
    paula e rui lima

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  10. Pois Callas, apesar de tudo, de uma voz estranha (e por isso mesmo excitante e hipnotizante)e uma rainha. Tem essa paixao que adoro nos cantores. pena de nao ter tido tempo de a ouvir ao vivo.
    Ficam as gravacoes... de qualidade um pouco duvidosa, mas era o que havia na altura.
    Callas era acima de tudo uma apaixonada, excelente cantora e excelente actriz... muito criticada por alguns, quando disfarcava os seus problemas de voz com uma treatalidade soberba, como quando fez de Violeta em Sao Carlos - para muitos a melhor de sempre e para outros a pior - pois para disfarcar os seus problemas tecnicos fruto de uma saude mais debil, representou a tuberculose que atacava Violeta com tosses e problemas respiratorios... mais realista, mais verdadeiro, menos tecnico, mas para mim, mais honesto.
    E que para mim ha uma grande diferenca entre tocar/cantar e fazer musica... a musica faz-se, depois de a saber tocar/cantar com o coracao e pode ate aceitar uma fifia aqui e outra acola.
    A paixao do interprete aliado a acreditar no que faz e a uma tecnica elaborada leva aos mitos.
    nos tempos de hohe as tecnicas e interpretacoes sao outras (menos romatizadas e mais transparentes), mas para a sua epoca, Callas fazia musica.
    beijocas

    PS - Aenima - ainda hoje quando vejo esse filme, nessa cena choro desalmadamente - para mim e uma das cenas mais dificeis de ver em toda a historia do cinema.

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