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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

27 de Janeiro de 1945 - Libertação de Auschwitz

O texto que se segue foi inicialmente publicado no Delito de Opinião
em Abril de 2011, a convite do  Pedro Correia. 
Repito-o porque hoje se cumprem 70 anos sobre a libertação de Auschwitz. 
Como música de fundo, o Requiem do meu muito amado Mozart. 
Porque faz hoje 259 anos que Mozart nasceu.



O Gato de Janeiro

Nunca esquecerei o dia 24 de Janeiro de 2009. Foi o dia em que cumpri a promessa, antiga de muitos anos, de prestar homenagem aos cerca de três milhões de vidas que pereceram em Auschwitz. Três dias antes do 64.º aniversário da libertação do campo, a 27 de Janeiro de 1945.

A lista de nomes ilustres que por lá passaram ou lá perderam familiares é infindável (os pais do grande Billy Wilder, por exemplo, morreram em Auschwitz). Mas um nome ressalta, luminoso, a simbolizá-los a todos. O nome de uma adolescente de apenas quinze anos cuja voz cristalina continua a ecoar e a lembrar-nos que aquela tragédia aconteceu, que o Holocausto foi uma realidade: Anne Frank. O destino fez com que Anne Frank não se salvasse por muito pouco, por duas vezes, como que querendo que o seu diário (que, muito provavelmente, nunca teria vindo a público, tivesse ela sobrevivido) proclamasse para todo o sempre a infâmia, como um dedo acusador e indesmentível para toda a eternidade. O comboio que a transportou para Auschwitz foi o último a sair da Holanda com destino aos campos; Anne morreu no princípio de Março de 1945: se tivesse ficado em Auschwitz teria, possivelmente, sobrevivido; mas o exército vermelho avançava, vindo de Leste, e algures entre o fim de Outubro e os primeiros dias de Novembro de 1944, Anne e a irmã, Margot, foram levadas para Bergen-Belsen, mais a Ocidente, já na Alemanha. Recomendo a todos o extraordinário documentário Anne Frank Remembered, vencedor de um Oscar em 1995. Quando for a Amesterdão (que não conheço) hei-de visitar a casa-museu de Anne Frank. Outra peregrinação.

Ao contrário do que sucedeu em Dachau, há oito anos, desta vez fiz fotografias. Muitas. É que aquilo não pode ser esquecido. NUNCA. E levava uma incumbência. Pôr uma pedra (Os Judeus não põem flores, põem pedras) em memória do bisavô materno de um amigo, senhor respeitadíssimo e de rara erudição, de quem ele herdou um dos nomes, que morreu em Auschwitz, bem como quase toda a família desse lado, originária da Polónia. Recolhi em Auschwitz I uma pedra que depositei depois em Birkenau (Auschwitz II). É que o fim da linha de comboio, a linha de pesadelo que para entrar no campo passava por baixo daquela torre sinistra, ominosa, que visita às vezes os meus pesadelos como símbolo absoluto do Mal, era em Birkenau. Logo ali, junto à plataforma, eram feitas as selecções. Três quartos das pessoas seguiam directamente para a câmara de gás, só o quarto restante era usado (por tempo incerto e, quase sempre, muito breve) como mão-de-obra escrava. Para as crianças, os idosos e os deficientes Birkenau era o fim da linha, a morte imediata.



O Gato de Janeiro apareceu-nos numa manhã gélida, logo à entrada do campo, a seguir ao medonho letreiro de ferro que diz que o trabalho liberta. Baixei-me, ficámos uma eternidade em mimos, cócegas nas orelhas e no pescoço, ele a dar-me encorajadoras marradinhas nas pernas. Quando tentei despedir-me atirou-me uma sapatada certeira à bainha das calças, a puxar-me, acompanhada de um miado dengoso. «Não vás já embora! Quero mais mimo!» era a única interpretação possível para aquele gesto imperioso. Na atmosfera opressiva do campo, em que se fala baixinho, num sussurro respeitoso pelos horrores passados, aquele encontro cheio de afecto foi como uma pequenina clareira de sol ameno.

Esta manhã, dois anos volvidos, descobri que o meu Gato de Janeiro é célebre. Uma pesquisa no Google com as simples palavrinhas "Auschwitz cat" trouxe-me incontáveis notícias sobre ele. Apareceu um dia no campo e lá vive, anda sempre por perto da entrada, justamente na zona em que se deu o nosso encontro. Já houve até uma petição ao Governo polaco para lhe arranjar um abrigo, dados os frios rigorosos da região no Inverno. E não é ele, é ela. Insistem em chamar-lhe Rudolf ou Bruno. Prefiro chamar-lhe agora Messalina, em honra da inesquecível siamesa que morreu no meu colo três dias mais tarde, poucas horas depois do meu regresso de Cracóvia. A 27 de Janeiro, aniversário da libertação de Auschwitz, aniversário do nascimento de Mozart.

Aqui a têm, em imagens colhidas na Internet:







domingo, 31 de julho de 2011

Ainda sobre Anne Frank


Recomendo vivamente este filme, que comprei há dois ou três anos. Em 159 críticas na Amazon, 133 dão-lhe cinco estrelas, as restantes dão-lhe quatro. So many people can't be wrong.

Transcrevo esta, muito eloquente:

154 of 158 people found the following review helpful:
5.0 out of 5 stars Our Anne, April 18, 2004
This review is from: Anne Frank - The Whole Story (DVD)
«As i write this review, this film is just finishing up, and I must say, this is one of the most moving accounts of Anne Frank that I've seen to date. We all know the story of Anne Frank, how it started, and what a complete tragic end of her life; and more importantly, what hope she brought to the world that killed her. This film is a remarkable, incredible retelling of the life of Anne Frank.

The reasons why this film soars, aboslutely soars, are numerous. First, the film tells the complete story, from before the Franks hid in the Annex, until her final days in the concentration camp. Whereas some films tend to linger solely on Anne's days in the Annex, this wider focus gives us the larger picture. Anne's time in captivity is heart wrenching; we have fallen in love with the tempestuous, darling girl and to see her solely fade away is devastating. It serves as a testament both to the millions lost, and the one girl that would write a book to change the world.

Secondly, the performances in this movie are amazing. Ben Kingsley and Brenda Blethyn lend their star-stature names to this project, and turn in performances that are real and dignified. Favorite Lili Taylor, who is one of America's most talented actressses, gives a quiet, powerful performance as Miep Gies. It's Hannah Taylor Gorden, as Anne, brings Anne to life with complexity and grace. Gordon honors Anne in every scene, never deifying the girl, but making her real, human. She even writes the way Anne did, holding the pen as Anne would have held it. That attention to detail does not go unnoticed by those of us who love Anne. It was a perfect match of actress and role.

Third, this film is visually beautiful. Often, you expect a "lower" standard of technical excellence in a television film. Rightfully so, ABC and the director, Robert Dornhelm, give this film a professional style. There are several scenes where you are just in awe, apart from the incredible story.

It was sad for me to learn that this film was not endorsed by the Anne Frank Foundation, because the film was based on a biography not approved by the foundation. Whereas I think its important to have the Foundation so Anne's life can be told in a honest way, they should have seen the film before making a judgment. This movie is a beautiful testament to a beautiful life, and it should be free from any political wranglings like this.

By the final scene, when Miep gives Otto Frank his daughter's diary, and he travels back into the Annex to look at it, my heart was breaking. Anne didn't live to see the effect she'd have on the world, but I think for all of us, we have adopted Anne as our own daughter or sister. She belongs to the world now, and we are responsible to take care of her, to make sure her story is told generation after generation, to honor her life by ensuring nothing like this ever happens in history again.»

I ♥ Amazon


No Verão de 1984 encontrei na Livraria Férin um livro em francês que me deixou fascinada. Folheei-o por uma boa meia hora. Sustentava a teoria de que o Diário de Anne Frank não passava de uma fraude grosseira, uma fabricação posterior à guerra. Parecia profusamente documentado, com fotografias de caligrafias diferentes (mesmo muito diferentes) que surgem no manuscrito do diário. Infelizmente era caríssimo, três contos certos, lembro-me perfeitamente, isto numa época em que o preço médio de um livro devia andar entre os duzentos e os trezentos escudos (sim, entre um euro e um euro e meio, leram bem).

Estupidamente, coisa que nem parece minha, esqueci-me tanto do título do livro como do nome do autor. Mais tarde voltaria à Férin, interrogaria os empregados. Nenhum se lembrava, não souberam dar-me qualquer informação. Rumei à que era a catedral dos livros estrangeiros, a Buchholz, onde as empregadas eram sempre um poço de conhecimento. Os resultados foram iguais. Pesquisámos catálogos, fizemos buscas temáticas. Nada.

Anos mais tarde, viria a fazer muitas buscas na internet, nunca descobri que livro seria aquele. Há poucas semanas, graças ao documentário sobre o pai de Anne de que aqui falei (e que já me chegou), suspeitei de que o autor poderia ser Meyer Levin, sendo o livro que eu folheei uma tradução para o francês. Corri a investigá-lo, mas não também não é ele, não obstante a sua notória obsessão por Anne Frank e pelo pai, que deu aliás um livro que me parece interessantíssimo e que, obviamente, já está no meu sempre cheio carrinho de compras da Amazon (muitas páginas, nem queiram saber), para encomendar um dia destes.

A verdade é que algures nos anos 70 ou já nos 80 surgiu grande polémica sobre a autenticidade do diário.  O Instituto Estatal Holandês para os Documentos de Guerra procedeu a um rigoroso e monumental estudo do diário, que resultou neste calhamaço (719 páginas quase A4 em letra miudinha) que vêem na imagem. Há muito que o livro andava lá, no tal atafulhado carrinho de compras. Adiava sempre a encomenda por ser francamente caro, chegou a custar mais de 60 dólares numa época em que o valor do dólar  era superior ao do euro. Se somarmos a isso o IVA, os portes e a desagradável possibilidade de ter de pagar alfândega, percebe-se que a compra fosse sempre adiada.  Mas há duas semanas encontrei-o na Amazon britânica a preço mesmo muito convidativo e não hesitei mais. Em segunda mão e como novo, ninguém diria que alguma vez foi aberto. Gotta love Amazon!

Acresce que creio ser esta a primeira publicação integral do diário, com a inclusão de passagens omitidas por decisão do pai de Anne, ora por serem bastante duras para com a mãe, ora por falarem muito explicitamente do seu amadurecimento físico e da sexualidade.

A ir lendo aos poucos.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Otto Frank, o pai de Anne

Passou anteontem, no canal História, um excepcional documentário de hora e meia sobre Otto Frank. Tive a sorte de o apanhar quase no princípio.

Otto Frank, Father of Anne, de 2010, de produção holandesa e realizado por David de Jongh, foi exibido em Maio deste ano no Festival de Cinema  Judaico de Toronto. E é, de facto, um notável exercício. Numa muito completa colagem de testemunhos recolhidos ao longo dos anos junto de pessoas que tinham conhecido os Frank antes, durante e depois da guerra (só estranhei não encontrar entre eles o de Miep Gies, que morreu em Janeiro do ano passado, com cem anos), o documentário fala-nos da complexa personagem que foi o pai de Anne, a pessoa que lhe era mais querida e de quem se sentia mais próxima.

De uma grande isenção, não recorre à sentimentalidade lamechas, não oculta opiniões de quem achou que Otto Frank era um oportunista a lucrar com o diário da filha morta, dos que acharam que o diário e Anne se transformaram para ele numa obsessão. A própria enteada, que o adorava (Otto Frank viria a casar novamente em 1953, a mulher também tinha passado por Auschwitz e lá tinha perdido o primeiro marido e um filho), confirma que era impossível falar com ele durante mais de cinco minutos sem que Anne e o diário fossem arrastados para a conversa. Se o assunto não interessava o interlocutor, Otto desinteressava-se dele. Anne e o diário tinham-se tornado a razão de existir para este homem que era o único sobrevivente do grupo de oito pessoas escondidas durante mais de dois anos na casa de Amsterdão que é hoje o Museu Anne Frank, este homem que transpôs os portões de Auschwitz com 55 anos (só isso já é um milagre, não ter perecido logo na primeira selecção) e que viria a descobrir, depois da libertação, que a mulher e as filhas já não eram deste mundo. Viram-se pela última vez a 5 de Setembro de 1944, o dia em que o comboio passou por baixo da terrífica torre de Birkenau para entrar no campo.

Muitas coisas me comoveram profundamente neste documentário. Mais do que quaisquer outras, a confissão de culpa de Otto por nunca falar da filha Margot, três anos mais velha do que Anne. Os lugares das duas filhas estavam bem estabelecidos nas preferências do casal Frank. Margot, brilhante, exemplar, mas calada e discreta (os amigos são unânimes em considerá-la muito mais dotada do que a irmã), era a menina da mamã. Anne era a menina do papá. E essa é a segunda coisa que mais me comoveu no documentário: a confissão de Otto de ter descoberto, ao ler o diário, que afinal não conhecia a filha adorada e de quem era tão próximo e cúmplice.

Encontrei a primeira meia hora do documentário no YouTube, segmentada em várias partes — encomenda já feita à Amazon, vem a caminho, não brinco em serviço. Para quem quiser ver, aqui ficam, só não sei por quanto tempo, sabem como é o YouTube. O que posso garantir é que vale mesmo a pena. E reservo uma surpresa para o final.










E foi aqui, aos 23 minutos de Otto Frank, Father of Anne, ao minuto 2:16 deste segmento, que os olhos se me arregalaram e se encheram automaticamente de lágrimas. Lembro que o documentário é recente, lembro que há filmagens feitas há pouco tempo. E também em Auschwitz. E lá estava ele, o meu gato de Janeiro cuja história contei pela primeira vez no Delito de Opinião e que afinal é uma gata. A gatinha a quem insistem em chamar Bruno e que para mim é agora Messalina. A câmara, a filmar na zona da entrada do campo, a zona em que está sempre, captou-a por acaso. E o coração fez-se-me muito pequenino.



(Karajan, Filarmónica de Berlim)


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Regresso à normalidade

Chega de falar daquilo que sabem. O assunto está em mãos competentes, segue a tramitação devida e nada mais devo dizer.

Esta manhã, antes de sair de casa, passeei os olhos pelas estantes, em busca de um livro para levar comigo. Parei num título que há muito não relia, No Rasto de Anne Frank, de Ernst Schnabel, não hesitei. Foge à forma clássica da biografia e é um livro belíssimo, quase poético, escrito com tocante sensibilidade, uma sensibilidade quase feminina. Publicado em 1958 por um alemão (facto de assinalar, considerando que tinham passado apenas 13 anos desde o fim da guerra), julgo que terá sido a primeira obra a revelar-nos mais sobre Anne do que aquilo que sabemos através do diário e que é repetido na peça de teatro, cuja estreia mundial foi em 1955 (a título de curiosidade, uma novíssima Natalie Portman de 16 anos representou o papel de Anne Frank no revival da peça na Broadway, em 1997 — não podia adequar-se melhor, não só pela idade, mas também pelo facto de ser judia).

Ora, já ao almoço, mergulhada na leitura, ao ler sobre as reacções à peça das diferentes pessoas que conheceram Anne em vida, e porque o pensamento é coisa muito caprichosa, lembrei-me de repente de uma deliciosa história lida algures há muitos anos. E desatei a rir baixinho.

Pia Zadora, a senhora da fotografia, é uma actriz de talento directamente proporcional à sua diminuta estatura, 1,52 m. Valeu-lhe ter casado com um multimilionário com enorme poder nos meios teatrais e cinematográficos. Até hoje ninguém percebe como ganhou um Golden Globe pelo filme Butterfly, em 1982, mas corre à boca pequena na indústria que o marido terá comprado o prémio a peso de ouro, já que ganhou dois Razzies pelo mesmo filme. Aliás, Pia Zadora tem um palmarés dificilmente superado nesses prémios que são o pior pesadelo de qualquer actor, os Golden Raspberry Awards: quatro vitórias e duas nomeações, uma para pior actriz da década de 80 e outra para... pior actriz do século).

A história que li em tempos conta-se numa penada. Numa nova produção teatral de O Diário de Anne Frank, Pia Zadora fazia o papel de Anne, com a falta de talento habitual. Tanto que, no final da peça, quando a Gestapo invade o palco para prender as pessoas escondidas no anexo, um público exasperado com o seu desempenho atroz terá gritado em coro "She's in the attic!"

Só de escrever isto volto a rir com os meus botões, tão fabulosa acho a história. Infelizmente, com muita pena minha e porque fui investigar, não passa disso, uma bela história que se tornou quase lendária. Estranhei logo a primeira consulta, que foi à fonte que é uma bíblia, a IBDB (Internet Broadway Database), que não registava qualquer participação dela na peça. E depois, como sou meticulosa nas minhas pesquisas, encontrei esta informação adicional, que muito me fez rir.

Explicação para a banda sonora? Pia Zadora, mulher multifacetadamente destalentosa, também cantou (parece que chegou a ser considerada para o papel de Evita no musical de Andrew Lloyd Weber, Deus nosso Senhor me valha, muito dinheiro deve o marido ter injectado em bolsos influentes!). E cantou, em 1986, uma versão deste grande êxito de Gloria Gaynor que faz parte, na sua versão original e bem mais séria, do magnífico musical que é La Cage Aux Folles. Não conheço a versão de Pia Zadora, mas tenho pena. Aposto que dava para rir.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

O castanheiro de Anne Frank

Ontem à noite, em conversa com a Luna, que hoje tem feriado, porque a Holanda festeja os 66 anos da libertação da ocupação nazi, referimos esta árvore, na fotografia acima vista do anexo, tal como Anne a viu durante os mais de dois anos em que esteve escondida. 

Este castanheiro quase duas vezes centenário, que Anne tanto amou, acabou por ser a sua última visão de genuína beleza e por simbolizar para ela a Natureza inteira e o vasto mundo lá fora, de que fora tão brutalmente privada aos 13 anos. O castanheiro, doente, caiu a 23 de Agosto do ano passado. A paisagem das janelas do anexo nunca mais será a mesma, agora só resta a memória. E a memória é tudo. É preciso lembrar, lembrar sempre. Lembrar até o castanheiro avistado por uma rapariguinha cheia de sonhos e de anseios que nunca viria a poder realizar, mas cujo nome hoje, 66 anos depois da sua morte, o mundo inteiro conhece.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O Gato de Janeiro

Transcrição do artigo ontem publicado no Delito de Opinião

Por razões que agora não vêm ao caso, foi assim que lhe chamei algum tempo mais tarde, ao contar a história num jantar: O Gato de Janeiro.
Por razões que agora não vêm ao caso, foi assim que lhe chamei algum tempo mais tarde, ao contar a história num jantar: O Gato de Janeiro.

Nunca esquecerei o dia 24 de Janeiro de 2009. Foi o dia em que cumpri a promessa, antiga de muitos anos, de prestar homenagem aos cerca de três milhões de vidas que pereceram em Auschwitz. Três dias antes do 64.º aniversário da libertação do campo, a 27 de Janeiro de 1945.

A lista de nomes ilustres que por lá passaram ou lá perderam familiares é infindável (os pais do grande Billy Wilder, por exemplo, morreram em Auschwitz). Mas um nome ressalta, luminoso, a simbolizá-los a todos. O nome de uma adolescente de apenas quinze anos cuja voz cristalina continua a ecoar e a lembrar-nos que aquela tragédia aconteceu, que o Holocausto foi uma realidade: Anne Frank. O destino fez com que Anne Frank não se salvasse por muito pouco, por duas vezes, como que querendo que o seu diário (que, muito provavelmente, nunca teria vindo a público, tivesse ela sobrevivido) proclamasse para todo o sempre a infâmia, como um dedo acusador e indesmentível para toda a eternidade. O comboio que a transportou para Auschwitz foi o último a sair da Holanda com destino aos campos; Anne morreu no princípio de Março de 1945: se tivesse ficado em Auschwitz teria, possivelmente, sobrevivido; mas o exército vermelho avançava, vindo de Leste, e algures entre o fim de Outubro e os primeiros dias de Novembro de 1944, Anne e a irmã, Margot, foram levadas para Bergen-Belsen, mais a Ocidente, já na Alemanha. Recomendo a todos o extraordinário documentário Anne Frank Remembered, vencedor de um Oscar em 1995. Quando for a Amsterdão (que não conheço) hei-de visitar a casa-museu de Anne Frank. Outra peregrinação.

Ao contrário do que sucedeu em Dachau, há oito anos, desta vez fiz fotografias. Muitas. É que aquilo não pode ser esquecido. NUNCA. E levava uma incumbência. Pôr uma pedra (Os Judeus não põem flores, põem pedras) em memória do bisavô materno de um amigo, senhor respeitadíssimo e de rara erudição, de quem ele herdou um dos nomes, que morreu em Auschwitz, bem como quase toda a família desse lado, originária da Polónia. Recolhi em Auschwitz I uma pedra que depositei depois em Birkenau (Auschwitz II). É que o fim da linha de comboio, a linha de pesadelo que para entrar no campo passava por baixo daquela torre sinistra, ominosa, que visita às vezes os meus pesadelos como símbolo absoluto do Mal, era em Birkenau. Logo ali, junto à plataforma, eram feitas as selecções. Três quartos das pessoas seguiam directamente para a câmara de gás, só o quarto restante era usado (por tempo incerto e, quase sempre, muito breve) como mão-de-obra escrava. Para as crianças, os idosos e os deficientes Birkenau era o fim da linha, a morte imediata.

O Gato de Janeiro apareceu-nos numa manhã gélida, logo à entrada do campo, a seguir ao medonho letreiro de ferro que diz que o trabalho liberta. Baixei-me, ficámos uma eternidade em mimos, cócegas nas orelhas e no pescoço, ele a dar-me encorajadoras marradinhas nas pernas. Quando tentei despedir-me atirou-me uma sapatada certeira à bainha das calças, a puxar-me, acompanhada de um miado dengoso. «Não vás já embora! Quero mais mimo!» era a única interpretação possível para aquele gesto imperioso. Na atmosfera opressiva do campo, em que se fala baixinho, num sussurro respeitoso pelos horrores passados, aquele encontro cheio de afecto foi como uma pequenina clareira de sol ameno.

Esta manhã, dois anos volvidos, descobri que o meu Gato de Janeiro é célebre. Uma pesquisa no Google com as simples palavrinhas "Auschwitz cat" trouxe-me incontáveis notícias sobre ele. Apareceu um dia no campo e lá vive, anda sempre por perto da entrada, justamente na zona em que se deu o nosso encontro. Já houve até uma petição ao Governo polaco para lhe arranjar um abrigo, dados os frios rigorosos da região no Inverno. E não é ele, é ela. Insistem em chamar-lhe Rudolf ou Bruno. Prefiro chamar-lhe agora Messalina, em honra da inesquecível siamesa que morreu no meu colo três dias mais tarde, poucas horas depois do meu regresso de Cracóvia. A 27 de Janeiro, aniversário da libertação de Auschwitz, aniversário do nascimento de Mozart.

Aqui a têm, em imagens colhidas na Internet:




quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Auschwitz-Birkenau

Nunca esquecerei o dia 24 de Janeiro de 2009. Foi o dia em que cumpri a promessa, antiga de muitos anos, de prestar homenagem aos cerca de três milhões de vidas que pereceram em Auschwitz. Três dias antes do 64.º aniversário da libertação do campo, a 27 de Janeiro de 1945. Três dias antes da partida de Messy.

A lista de nomes ilustres que por lá passaram ou lá perderam familiares é infindável (os pais do grande Billy Wilder, por exemplo, morreram em Auschwitz). Mas um nome ressalta, luminoso, a simbolizá-los a todos. O nome de uma adolescente de apenas quinze anos cuja voz cristalina continua a ecoar e a lembrar-nos que aquela tragédia aconteceu, que o Holocausto foi uma realidade: Anne Frank.

O destino fez com que Anne Frank não se salvasse por muito pouco, por duas vezes, como que querendo que o seu diário (que, muito provavelmente, nunca teria vindo a público, tivesse ela sobrevivido) proclamasse para todo o sempre a infâmia, como um dedo acusador e indesmentível para toda a eternidade. O comboio que a transportou para Auschwitz foi o último a sair da Holanda com destino aos campos; Anne morreu no princípio de Março de 1945: se tivesse ficado em Auschwitz teria, possivelmente, sobrevivido; mas o exército vermelho avançava, vindo de Leste, e algures entre o fim de Outubro e o os primeiros dias de Novembro de 1944, Anne e a irmã, Margot, foram levadas para Bergen-Belsen, mais a Ocidente, já na Alemanha.

Recomendo a todos o extraordinário documentário Anne Frank Remembered, vencedor de um Oscar em 1995. Quando for a Amsterdão (que não conheço) hei-de visitar a casa-museu de Anne Frank. Outra peregrinação.

Ao contrário do que sucedeu em Dachau, há seis anos, desta vez fiz fotografias. Muitas. É que aquilo não pode ser esquecido. NUNCA. E levava uma incumbência. Pôr uma pedra (Os Judeus não põem flores, põem pedras) em memória do bisavô materno de um amigo do grupo do Liceu, senhor respeitadíssimo e de rara erudição, de quem ele herdou um dos nomes, que morreu em Auschwitz, bem como quase toda a família desse lado, originária da Polónia.

Recolhi em Auschwitz I uma pedra que depositei depois em Birkenau (Auschwitz II). É que o fim da linha de comboio, a linha de pesadelo que para entrar no campo passava por baixo daquela torre sinistra, ominosa, que visita às vezes os meus pesadelos como símbolo absoluto do Mal, era em Birkenau. Logo ali, junto à plataforma, eram feitas as selecções. Três quartos das pessoas seguiam directamente para a câmara de gás, só o quarto restante era usado (por tempo incerto e, quase sempre, muito breve) como mão-de-obra escrava. Para as crianças, os idosos e os deficientes Birkenau era o fim da linha, a morte imediata.

Rudolf Höß, comandante do campo, julgado em Nuremberga, foi aqui enforcado,
a 16 de abril de 1947. Que a sua alma maldita arda no Inferno até ao fim dos Tempos.

Entrada para a única câmara de gás ainda existente, que as SS não tiveram tempo de destruir, na tentativa vã de apagar vestígios do genocídio. Estive lá dentro, não se pode fotografar, naturalmente.

Interior da câmara de gás (retirada da Wikipedia)

Pavilhão das pavorosas experiências médicas ginecológicas, efectuadas pelo Dr. Carl Clauberg.

Neste pátio, alinhadas contra o muro lá ao fundo (Muro da Morte), foram fuziladas milhares de pessoas


«Arbeit macht Frei.»
«Vós, que entrais, abandonai toda a esperança», do Inferno de Dante, teria sido mais verdadeiro


Pedra pelo bisavô do meu amigo A. Depositei-a junto desta coroa de flores,
mesmo debaixo da torre medonha




O fim da linha. E a torre, horrenda, omnipresente.
Vejam a gigantesca dimensão do campo.

Portão de entrada para a câmara de gás, a uma centena de metros do fim da linha

A torre. Sempre a torre.

Interior de um dos barracões. Em cada minúsculo compartimento dormiam seis pessoas, ou mais.