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quarta-feira, 8 de julho de 2009

Câmara dos Horrores #8: José Castelo Branco

Sempre fui assim. Lembro-me de ficar profundamente envergonhada quando via Marco Paulo brindar a câmara com o célebre número de fazer saltar o microfone de uma mão para a outra. Encolhia-me, deslizava sofá abaixo, tolhida, como se fosse eu quem estivesse a fazer aquela deplorável figura.

Isto é pior. Muito pior. Volta, Marco Paulo. Estás perdoado!

(já sabem, param a música — que continua apropriada, isto é um
autêntico Requiem para a dignidade — carregando nos tracinhos verticais)


domingo, 15 de março de 2009

Câmara dos Horrores #7: S'Dona Simone volta a atacar

Em 1967 Sandie Shaw ganhava o festival da Eurovisão a cantar (descalça, um escândalo para a época!) Puppet On A String. Eduardo Nascimento representava Portugal com O Vento Mudou.

Nas semanas seguintes, e porque o Festival da Canção era acontecimento nacional, no Quando o Telefone Toca não se pedia outra coisa que não fossem músicas que por lá tinham passado, e foi assim que muitas me ficaram na memória.

E a editora da S'Dona Simone, sempre com o olhinho vivo nos cifrões, punha-a a cantar coisas que mais valia nunca tivessem visto a luz do dia. Como este hediondo Marionette. Atentem no primor que é a letra. Ao pé disto a letra portuguesa de My Favourite Things até se vê a outra luz e torna-se quase um soneto de Camões!

Marionette

Ai virá algum dia em que me dirás
Que me queres como eu quero
Ou tu pensarás
Que sou uma marionette?

O amor é como um carrossel
Que na feira lá está
Uma vez ele vai a descer
E outra vez subirá
Este amor eu sei lá
Até onde é que ele irá

Ai virá algum dia em que me dirás
Que me queres como eu quero
Ou tu pensarás
Que sou uma marionette?

Não sei bem as ideias que tens
Se partirás ou não
Darás conta que dentro de mim
Existe um coração
Este amor eu sei lá
Até onde é que ele irá

Ai virá algum dia em que me dirás
Que me queres como eu quero
Ou tu pensarás
Que sou uma marionette...
Marionette sem ter par?

Obrigada, Luís! Mais uma vez...

Sempre achei a canção horrorosa, mas fiquem com o vídeo.




sábado, 14 de março de 2009

Câmara dos Horrores #6: Roberto Leal

Eu devia era ter juizinho e ficar muito caladinha da próxima vez que tiver a veleidade de denegredir as produções canoras da S'Dona Simone (está bem, abelha...) nos loucos anos sixtes. Afinal as versões da S'Dona Simone são primorosas (not!) e eu fazia troça sem ponta de razão!

A minha única atenuante é que ainda não conhecia este prodígio de Roberto Leal, tradução (?) livre, mesmo muito livre, do próprio: Recado a John Lennon (Ei Tu) — e nem vos passa pela cabeça a vontade de rir que este Ei Tu me dá...

Como provavelmente terão reconhecido — com alguma sorte e um apurado ouvido musical —, isto é Hey Jude, dos Beatles. Mas não é uma versão qualquer, é uma versão eivada de lusitanidade, em ritmo de vira do Minho e com um cheirinho inconfundível a rancho folclórico: ele há acordeão, ele há adufe, ele há ferrinhos, ele há o que se queira para dar a atmosfera única das festas de Nossa Senhora d'Agonia. E agonia é bem o que se sente a ouvir isto, não obstante o fascínio hipnotizado que nos força a ouvir até ao fim. E o fim vale a pena, porque ainda somos brindados com uma escorregadela para Lucy in the Sky with Diamonds, enquanto o artista geme, desorientado, «não sei onde estás para me dar a mão». Obrigada, Luís!

Deixo-vos com a letra. Se alguém a perceber, importa-se de ma explicar? Já agora, lembrem-me de vos contar, um dia destes, como eu, que nunca fui de pedir autógrafos, acabei há muitos anos (aturdida e derrotada) com um autógrafo de Roberto Leal na mão.

Recado a John Lennon (Ei Tu)
Ei tu
Que eu não pensei
Que estas canções fosse esquecer
Relembro e encontro dentro de mim
Um pouco de ti
De um tempo feliz

Ei tu
Puseste ao chão
A bandeira da minha geração
E lembra meu canto a te chamar
E o mundo a chorar, saudades de ti
Não sei quem foi que te mudou
Não fiques só
Junto aos outros três és bem melhor
Porque insistir em te mudar?
Perdoa a mim, mas tua missão não teve fim

Ei tu
Onde andarás,
Onde estará tua canção?
E então não há um coro a cantar
Só ouço tua voz
Perdida no ar

Ei tu
Puseste ao chão
A bandeira da minha geração
E lembra meu canto a te chamar
E o mundo a chorar, saudades de ti

Não sei onde estás pra me dar a mão
Não sei onde estás pra me dar a mão.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Câmara dos Horrores #5: o regresso de Simone de Oliveira

Confessem, meus amigos, que já morriam de saudades desta rubrica que tanto sucesso faz entre vós, os meus escassos leitores!

É a tal coisa: as mós de Deus moem devagar, mas moem finíssimo! É que hoje, meus amigos, meus bons amigos, estais (que diabo, isto pede uma forma verbal mais elaborada!) perante uma mulher feliz, uma mulher que nem cabe na pele de tanta felicidade! A minha adorada pasta Pérolas do Kitsch acaba de ser engordada com duas gemas puríssimas, inestimáveis! Noutro dia vos contarei como se deu este milagre e vos (continuo com o discurso elaborado, caso não tenham reparado) falarei do anjo benfazejo que conheci hoje.

A S'Dona Simone de Oliveira, se alguma vez tiver conhecimento deste humilde blóguio, põe-me a cabeça a prémio, tão certo como eu me chamar Maria Teresa. Pois é, S'Dona Simone, aposto que adoraria poder desterrar estas coisinhas, que seriam deprimentes se não nos fizessem rir com tamanho gosto (rima com o seu gostar de ter férias quando vem Agosto...), para uma galáxia distante, muito distante, ou até, de preferência, para um buraco negro. Impossível, lamento lamentar. Os pecados antigos projectam sombras compridas. Veja-me, S'Dona Simone, como a sua Némesis. Só para nós, num sussurro, confidencio-lhe deleitada e pérfida que... tenho mais... Até breve, S'Dona Simone...

As Coisas De Que Eu Gosto

Há tantas coisas das quais tanto gosto
Mas não me lembro de todas e aposto
Por muito que eu perca tempo a contar
São tantas que eu não consigo lembrar

Gosto de rir e dum sorriso franco
E das montanhas vestidas de branco
Gosto de tudo o que seja viver
E ler um pouco antes de adormecer

Gosto de andar sempre de saia e blusa
Mesmo que digam que já não se usa
E de correr pelos campos em flor
Na Primavera tão cheia de cor

É tão simples ser feliz pois
Seja no que for
São pequenas coisas que fazem da vida
Um hino de paz e amor

Gosto de tudo que é simplicidade
E de quem fala com sinceridade
Gosto da vida sem complicações
E de aprender sempre novas canções

Gosto das gotas de chuva no rosto
E de ter férias quando vem Agosto
E nas miúdas eu gosto de ver
Um laço azul seu cabelo prender

Gosto das flores que nascem no monte
Gosto do Sol a nascer no horizonte
Gosto de ouvir as crianças cantar
E andar com elas ao colo a brincar

É tão simples ser feliz pois
Seja no que for
São pequenas coisas que fazem da vida
Um hino de paz e amor!

P.S. Esta era mesmo a capa do EP, a faixa que eu debalde (ai, felicidade redobrada, poder usar este advérbio que me é tão caro!) procurei durante tantos anos é a segunda do lado A.

P.S. Mas faço justiça ao laborioso letrista. As coisas DE que eu gosto — é o título. E não as coisas que eu gosto, como encontro a torto e a direito por gente que tinha a obrigação de escrever com um mínimo de correcção. É que nem estou a falar dos casos perdidos que por aí proliferam... Gostar exige sempre um DE, suas bestas!!!

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Câmara dos Horrores #4: Mrs Miller

Descobri esta senhora há uns cinco ou seis anos, quando lia na Amazon, divertidíssima, as críticas ao disco de Florence Foster Jenkins, de quem já falei aqui. Comparavam-na a uma tal Mrs Miller, nome para mim desconhecido. Mandei o link ao Vítor, que se pôs a investigar.

Dias mais tarde, a jantar em casa dele, tive uma surpresa: tinha mandado vir um disco da senhora em duplicado, para ele e para mim - as coisas que nós fazemos por uma boa gargalhada!...

A seguir ao jantar, pusemo-nos a explorar o disco. Rimos como desalmados, ora agarrados à barriga, ora agarrados um ao outro, cada fífia um deslumbramento maior do que a anterior. E as coisas que ela assassinava desapiedadamente! Beatles - várias músicas... Mamas & Papas (que venero), aquele Monday, Monday... A sua interpretação muito pessoal de Downtown, de Petula Clark, pôs-nos aos uivos... Moon River também tinha muito que se lhe dissesse...

Acreditem ou não, Mrs Miller fez bastante sucesso nos anos 60. O Seu Downtown por pouco não entrou nos 40 mais do Billboard, o que até lhe rendeu uma aparição no The Ed Sullivan Show... O álbum de estreia vendeu mais de 250 mil exemplares. Notável!

Os fãs não a esquecem, até tem uma página, imaginem! Espreitem aqui, se se sentirem com ânimo...

Podem vê-la aqui, ao vivo e em toda a sua discutível glória:



terça-feira, 25 de março de 2008

Câmara dos Horrores #3: Ken Lee

Quando o Vítor me mandou isto, no domingo à noite, eu nem queria acreditar. Ri como uma perdida. E julgava eu que os espanhóis detinham a discutível glória de falar o inglês mais nojento que imaginar se possa! Abram alas para os búlgaros!

Claro que a seguir rimos juntos, como os perfeitos tontos que somos, em vários telefonemas. É extraordinário como ela consegue não pronunciar bem uma única palavra! Deliro especialmente com aquele tulibu dibu douchooo (if living is without you). Por qualquer misteriosa razão que escapa ao meu discernimento, parece que a senhora continuou em prova, encontram mais vídeos no Youtube...

A S'Dona Mariah Carey que vá para o raio que a parta (reconheço-lhe o vozeirão, embirro com ela que nem vos passa pela cabeça), para a minha geração esta música tem dono e esse dono chama-se Harry Nilsson. Curiosamente, o original nem sequer é dele, é de uns tais Badfinger, e muito mauzinho.

Façam o favor de parar a música e ouvir esta proeza de asneira.



Pronto... vou ser boazinha (?), deixo aqui uma posterior abordagem da música, em que conseguimos ficar com uma pálida ideia do que serão algumas palavras, mas perdeu-se aquele memorável tulibu dibu douchooo que fazia os meus encantos...



P.S. Não consegui encontrar a capa do single português, que lembro muito bem, apesar de nunca o ter tido. Alguém se chega à frente?

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Câmara dos Horrores #2: Mary Schneider

Para vos animar um bocadinho o resto da noite, aqui fica mais uma relíquia, que o Vítor descobriu não sei como nem onde, e que muito nos fez rir (o costume, já há trinta anos uma empregada de casa dos pais dele que me adorava dizia enlevada que «a menina Teresa é muito reinadia!»).

Atentem também no prodígio de kitsch que é a capa, topa-se à légua que foi concebida para estar à altura do conteúdo.

A senhora até tem boa voz, que é o mais estúpido de tudo! Mas aposto que nenhum de vós alguma vez pensou poder ouvir as aberturas do Guilherme Tell e da Carmen, bem como o Can-can (que na verdade faz parte de uma opereta de Offenbach, Orphée aux Enfers) cantados à moda do Tirol.

Como muito bem dizia o Manelinho, naquela que é uma das minhas citações preferidas... «há de tudo neste supermercado de Deus!»

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Câmara dos Horrores #1: Simone de Oliveira

Graças ao Pedro, leitor regular da Gota e que infelizmente, que eu saiba, não tem blogue – ou tem, Pedro?– , pude há dois dias enriquecer a minha pasta Pérolas do Kitsch, que ao longo dos anos tenho vindo a completar com mão carinhosa e desvelos mil – esta pasta é a menina dos meus olhos! Tenho genuíno e legítimo orgulho em preciosidades autênticas que por lá param, na maior parte dos casos resgatadas a duras penas e só graças à minha invencível teimosia. Não revelo nomes, talvez seja engraçado abrilhantar (?) de vez em quando este cantinho com uma ou outra, criteriosamente seleccionadas.


Há anos que persigo debalde (o grupo do Liceu bem sabe como não resisto à tentação de usar este advérbio sempre que tenho oportunidade, é irresistível, tamanha a vontade de rir que me dá) umas quantas músicas da Simone de Oliveira nos anos 60, músicas essas que, estou certa, a senhora bem gostaria que para todo o sempre ficassem enterradas em local longínquo e de impossível acesso.

Ora o Pedro enviou-me três (TRÊS!) dessas músicas. Conseguem imaginar o estado de graça em que tal presente me deixou? Não, não conseguem. É certo que continuam a faltar-me outras três sem as quais a minha total e perfeita felicidade se vê seriamente comprometida – mas uma delas o Pedro até a tem em vinil, fácil será passá-la a MP3, é a versão nacional de Puppet on a String, cançoneta horrenda com que uma menina chamada Sandie Shaw ganhou o Festival da Eurovisão em 1966, tendo causado enorme comoção o facto de se apresentar em palco de minissaia (criação recente e revolucionária de uma senhora chamada Mary Quant) e, pasmem... descalça!

Assim, é com indisfarçado orgulho que vos apresento agora a versão nacional que Something Stupid, original de Frank & Nancy Sinatra que há poucos anos foi recriado por Nicole Kidman e Robbie Williams (deixo-vos aqui o videoclip, que acho adorável e de uma sensualidade muito palpável e muito feliz – Rafeiro, vê lá, não vás tu ter uma síncope!), padeceu às mãos de Simone de Oliveira e – diz-me o Pedro – nem mais nem menos do que... Marco Paulo! Para mim foi uma enorme surpresa, nem sabia que ele já cantava nessa época, julgava que só viria a aparecer uns anitos mais tarde. E deixo-vos, porque é irresistível, la crème de la crème... a letra! Não vou chamar-vos a atenção para qualquer detalhe, a Gota de Ran Tan Plan conhece sobejamente o gosto requintado dos seus leitores e a sua fina sensibilidade. Depois, para se recomporem, poderão ver o videoclip (recomendo vivamente).
OBRIGADA, Pedro!

Tu, Só Tu
Eu sei que o tempo passa
Há só uma verdade, não importa,
E tantas coisas acontecem
Quando alguém nos quiser censurar
Sem as entender
Até quando disserem já é tarde
O mundo é uma dança que não pára
É sempre tempo p’ra quem sabe amar!
E onde tudo pode suceder
No ar anda o perfume
Por isso tu surgiste
Do amor que nos persegue até ao fim,
E em cada dia tudo então se transformou
Talvez...
Depois...
É estupidez, insensatez
Caí naquela asneira
Mas quem eu quero és tu, bem vês,
De dizer por brincadeira
Ai és só tu!
És o meu amor...



Por isso tu surgiste
Meus olhos não procuram as estrelas
E em cada dia tudo então se transformou
Quando a noite me vem procurar
Depois...
Não preciso de vê-las
Caí naquela asneira
Com a luz que vejo sempre
De dizer por brincadeira
Só no teu olhar
És o meu amor! O meu amor... O meu amor...

Now playing: Simone de Oliveira & Marco Paulo - Tu, Só Tu
(click to listen)