domingo, 19 de março de 2017

Volver

«Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.
Ser real é isto.»


Alberto Caeiro

Porquê voltar agora, ou em qualquer outro momento dos últimos dois anos, aliás, a uma blogosfera tão diferente daquilo que já foi?

Porque me apetece, pronto. Porque em muitos momentos dou comigo a ter saudades do ritual nem sempre diário, mas quase, de deitar dedos ao teclado para debitar coisas que apenas a um muito moderado número de pessoas interessariam, com muitos disparates pelo meio, bastante galinhice, alguma mordacidade de vez em quando e troça amigável com alguma frequência. E porque também dou comigo a ter saudades da interacção que um blogue gera.

É certo que conservo preciosamente amizades feitas na blogosfera e que mantenho um contacto diário e muito activo com meia dúzia de pessoas das quais, actualmente, só duas mantêm o blogue. As restantes, e por razões variadas, têm presentemente os blogues parados. E sinto falta deles.

Ontem, a jantar com um histórico da blogosfera (blogue permanentemente actualizado desde 2003, os meus quase onze anos empalidecem perante o fulgor dos seus extraordinários 14), milhares de páginas de muito boa escrita, ele foi definitivo: o Facebook matou os blogues. Ri e cantarolei o refrão da música dos Buggles com arrancou a MTV, Video Killed The Radio Star. Mas só concordo parcialmente. É certo que o Facebook deu uma valente machadada na blogosfera, e que depois o Instagram veio dar uma ajudinha (sei de um blogue há muito parado cujo autor vai lá escrevendo coisas bem jeitosas). O Twitter, tão caro às celebridades estrangeiras, pela sua própria essência nunca constituiu ameaça, e só há poucos meses e por razões profissionais reactivei a minha conta. 

Tenho para mim que o que deu cabo de muita da blogosfera de que eu mais gostava foi a publicidade nos blogues. Aprovo que cada um ganhe a vida como puder e como melhor lhe aprouver. Não prejudica ninguém e é a tal coisa, ninguém lá vai porque lhe apontam uma pistola à cabeça. Que as autoras dos blogues com maior visibilidade muitas vezes tentem disfarçar que estão a receber bom dinheirinho para falar deste ou daquele produto já é outra conversa, mas nem vou ocupar-me disso. Os tais posts publicitários têm em mim perversamente o efeito contrário ao pretendido, e lembro-me de não ter comprado durante meses qualquer produto da marca Mimosa na sequência da saturação de bloggers que, só para lhe publicitar um leite sem lactose, desataram em simultâneo a contar patranhas de intolerância, própria ou de familiares mais ou menos chegados, à pobre dita. 

Por último, e a coisa que provavelmente mais desfigurou a blogosfera em que me movimentava, temos o aparecimento dos clubinhos de blogues, alguns declaradamente dedicados àquilo a que só posso chamar bullying, e assisti a coisas verdadeiramente feias e que, nalguns casos, chegaram a atingir seriamente os alvejados. Em torno de dois ou três blogues reúne-se um grupinho de comentadores aí com uns 98% de anónimos, e vai de achincalhar sem dó nem piedade e, devo dizer, também sem qualquer ponta de graça, meia dúzia de blogues. Depois os blogues cabecilhas batem-se muitas palminhas entre si, citam-se uns aos outros, copiam-se uns aos outros e ficam todos muito contentinhos com a devastação que lhes deu tanta animação às caixas de comentários. Quase todos aparentemente anónimos, está bom de ver. E siga para bingo. Isto é, para a próxima vítima.

O título deste post? Pues que comecei a estudar espanhol, e tenho consumido doses avantajadas de séries de televisão (lá iremos) e de filmes de Almodóvar. 



20 comentários:

  1. O facto de o primeiro comentário ser justamente teu tem um sabor todo especial.
    A ver se te animas a fazer outro tanto.

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  2. Também "voltei" há coisa de um mês. E falo exactamente nessa questão da blogo actual que nada me agrada e justifica este afastamento. Mas nós precisamos de escrever não é? Contar histórias. E não interessa se mil ou duas pessoas as vão ler, o prazer de às redigir é maior. Welcome back! E Volver é excelente filme, estreou na Europa no São Jorge no Lisbon Village Festival, primeiro festival inteiramente digital. (Volver é 100% analógico... estórias assim :)

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  3. Pois que seja muito bem vinda de volta, cá estaremos :) Ana (noutra vida e há muitos anos, era Charlotte)

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    1. Ana!!!
      E a enorme dívida de gratidão que tenho para consigo (contigo? Acho que nos tratávamos por tu)? Olha que me lembro disso muitas vezes, agora que deixei de torrar fortunas na Amazon.
      Grande beijo.

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  4. E eu vou já visitá-la, Raquel.
    Pouco importa o número de pessoas que nos lê, gostamos de comunicar por aqui (mesmo que, como é o nosso caso, comuniquemos por outras vias).
    Sim, Volver é excelente, só o vi no fim-de-semana passado. Mas preferi Julieta, o mais recente, visto no mesmo dia. Gosto muito, muito de Almodóvar. Que grande contador de histórias!

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    1. Então... mas fechou a caixa de comentários? Assim não vale!
      É que topei logo com a sua apreciação de Julieta!

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    2. Fechei? Ups, foi sem querer. Vou abrir... Não dei conta disso :)

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    3. Querida, he vuelto, e continua sem caixa de comentários. :(

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    4. Teresa finalmente consegui activar, estava complicado!

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    1. Obrigada, querida Conceição, minha comentadora há dez anos, quando ainda usava o nickname Kuska.
      Um dia não resisto e conto aqui como foi que nos conhecemos. Posso?

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  6. Ah, ainda bem que voltou. A blogo anda carente de gente que escreva bem e com sentido de humor. Também adoro Almodóvar. :)
    Bienvenida!!

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    1. Obrigada e seja muito bem-vinda, Maria Antonieta! :)

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  7. Teresa, viva. Estou, como te disse, muito contente com o retomar do Gota, blog com o qual aprendi muito e me diverti mais. Ou o contrário. Ou os dois igualmente.

    Não sei se é indiscreto revelar que sou eu o "histórico" que referes. Talvez seja. Mas como agradecer-te a menção simpática e generosa que me fazes, como revelar que corei perante o elogio - que para mim tem especial valor porque conheço a tua exigência (todos conhecemos), como enfim dizer a quem leu o post que não é bem verdade? Enfim: inteiramente verdade? São milhares de páginas, disso não há dúvida. É quantificável. Já o resto não sei.

    Um beijo grato e grande.

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  8. E cá estamos, não é verdade? :)
    Haja histórias e, quanto ao resto, tanto me dá ;)

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  9. Que saudades de a ler, Teresa!
    Estou muito feliz por este seu regresso :)

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  10. Ainda bem que voltou, senti a sua falta. Apesar de a grande maioria das vezes entrar e sair daqui em silêncio, gosto desta "linha editorial".

    Nisto dos blogues sou uma espectadora que entra muda e sai calada, é me indiferente que façam publicidade, mas não me façam de parva, não a assumirem e "não senhora que não estou a escrever isto porque me pagam", que sim, da noite para o dia aparecem intolerâncias várias, supermercados, produtos e tantas outras histórias, é isso e descobrirem a pólvora, o que seria de nós sem as suas dicas de beleza, de como ser feliz, tratar dos filhos e por aí fora.

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  11. Bem-vinda de volta Teresa!
    Desejo, de forma completamente desinteressada, que mantenha o ânimo e que o regresso seja para ficar.

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  12. Bolas, Teresa! Muito bem-vinda, isto sem si não era a mesma coisa.

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