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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Limites de privacidade

A discussão vai acesa no blogue da Izzie. Agora questiona-se a legitimidade de uma professora de escola secundária para digitalizar livros de ponto dos anos 80, disponibilizando-os no Facebook. Devo dizer que nem sequer conheço pormenores, apenas suponho que a senhora o terá feito com a melhor das intenções, a de disponibilizar memórias ternurentas a antigos alunos. Acresce que as fotografias nem sequer nomes têm, apenas números, o que é substancialmente diferente do que deu início à acalorada discussão.

Não querendo arvorar-me em paladina da moralidade, há mesmo coisas que temos de respeitar. Coisas, pessoas e a sua intimidade. Quando aqui publiquei retratos felizes dos meus queridos amigos Leninha e João, que se reencontraram e casaram ao fim de mais de trinta anos, foi com pleno consentimento deles, e tive o cuidado de tapar as caras dos quatro filhos dos dois.

Outro tanto aconteceu há coisa de dois anos e pouco, aquando do centenário do meu querido Liceu e estava em preparação um livro comemorativo (Liceu de Camões — 100 Anos, 100 Testemunhos). O editor, também antigo aluno e que tinha sido meu professor na Católica, pediu-me para aceder ao blogue que tenho para o grupo que ainda hoje mantém jantares trimestrais (à época já o tinha privatizado, para proteger a privacidade dos membros). E gostou muito de algumas fotografias, que por sinal até eram todas minhas. E pediu-me autorização para as usar no livro, indicando-as uma a uma. Só depois de fazer a ronda de todas as pessoas que nelas figuravam, para saber se concordavam, dei luz verde. As fotografias eram minhas, é certo. Mas retratavam pessoas que podiam não gostar de se ver no livro. Todas concordaram alegremente (tudo pelo nosso Liceu!), até há uma minha com o meu primeiro namorado que é uma perfeita ternura. E o blogue consta dos agradecimentos do livro. Que é belíssimo, nunca me cansarei de repetir.

Parece-me ser esta a maneira correcta de fazer as coisas. Estarei enganada?

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Os discos da minha vida #19: Pet Sounds

Se não fosse o Ié-Ié, há três dias, nem me teria dado conta dos 45 anos de Pet Sounds, um dos (tantos) discos da minha vida. Já estava quase a desligar o computador para ir para a cama quando dei um salto ao Google Reader e vi a notícia. Um sorriso deliciado ao ver a capa que há tantos anos habita cá em casa, primeiro em vinil e mais tarde em CD, e um propósito: «Amanhã tenho de escrever sobre isto!»

Viu-se. Pet Sounds fez 45 anos no dia 16 e eu só hoje falo dele. Culpa do demasiado trabalho e do muito cansaço que vou acumulando, mas culpa que não é desculpa quando, como neste caso, se trata mesmo de um grande amor.

O meu conhecimento dos Beach Boys foi tardio, já ia nos 15 anos, e chegou-me pela mão do D. O D. que viria a ser o meu primeiro amor, um dos dois amores e meio da minha vida, e que nessa altura era para mim só um menino loiro muito giro e muito simpático e com um grande sentido de humor, sem sonhar que para ele eu já era aquela pessoa especial que os olhos procuravam mal chegava ao pátio do Liceu. Cedo o D. percebeu a minha paixão pelos Beatles e capitalizou o assunto, já que também os adorava — aqui a memória prega-me uma partida e lembra-me a querida Dr.ª Maria Teresa Monteiro, nossa Professora de Inglês do ano seguinte, já desaparecida. Deus é grande e permitiu-me reeencontrá-la e agradecer-lhe o tanto que lhe devo. Mais de trinta anos depois, lembrava-se muito bem de mim e do D. Éramos os seus melhores alunos, éramos um casalinho giro e simpático, mas quantos outros lhe terão passado pelas salas de aula numa vida inteira devotada ao ensino? Lembrava-se até, pormenor que me enterneceu, de que eu era mais Beatles e o D. mais Rolling Stones.

Depois de um longo suspiro, refeita da tristeza que me volta tantas vezes de saber que não mais poderei telefonar à Dr.ª Maria Teresa a saber dela e acabar por ficar mais de uma hora à conversa, a debater séries britânicas ou Meryl Streep, uma paixão comum, volto aos meus 15 anos. Um belo dia, nas recorrentes conversas sobre Beatles, o D. surgiu com um nome para mim desconhecido: Beach Boys. Confessei a minha ignorância, que o escandalizou. E no dia seguinte foi para o Liceu com um disco deles para me emprestar. Seria bonito que o disco fosse Pet Sounds, era de grande efeito para esta narrativa. Infelizmente, era apenas uma colectânea, um greatest hits. Pouco importa. Foi o suficiente para fazer nascer o amor que continua vivo, e para a seguir querer conhecer-lhes toda a obra.

Nas duas semanas seguintes, seria capaz de jurar, quase não se ouviu outra coisa no meu quarto, tamanha a paixão logo aos primeiros sons. A alegria e a frescura daquela sonoridade da costa Oeste, as praias e o sol da Califórnia, o surf, a candura, as maravilhosas harmonias vocais (os coros dos Beach Boys, ai!, os coros dos Beach Boys!), tudo me deslumbrou. E a paixão ficou-me para o resto da vida.

Esse disco emprestado pelo D. algures no fim de 1975 começava com Surfin' USA. Seguia-se Surfin' Safari e depois Sloop John B. E é Sloop John B. que escolho para banda sonora, porque me apaixonei perdidamente por ela logo à primeira audição e porque old loves die hard.

Também o Gato Maltês homenageou Pet Sounds, com um valioso aditamento: o comentário deixado pelo Pedro de Freitas Branco no Ié-Ié:

"Nunca antes de "Pet Sounds" um LP de música Pop formou um todo artístico tão coerente e consistente, tão belo e complexo. Aquilo que Brian Wilson, com pouco mais de 20 anos, conseguiu captar no momento "Pet Sounds" foi a verdadeira essência do sentimento Rock - onde se mistura uma certa melancolia adolescente com o desejo de transgressão (rebeldia). Brian foi ao fundo da questão. Como ninguém. E isso lhe custou a sanidade. Musicalmente, como afirmou George Martin numa homenagem no Radio City Hall, o jovem Brian, em "Pet Sounds", fez sozinho o trabalho dos Beatles e do seu produtor. Compôs, orquestrou, cantou, tocou, e produziu..."
(Pedro de Freitas Branco  - músico)

É com autorização do Pedro que aqui publico o seu comentário. Não nos conhecemos, mas somos próximos. Somos parceiros convidados no livro do Abel, que nos pediu que escrevêssemos sobre os Beatles (e, por falar disso, o Abel ofereceu mais dois livros para leilão num projecto que muito acarinhamos, o da Maria e do Gato, podem licitar aqui).

Informação final: em Novembro de 2003 a mítica Rolling Stone fez uma lista dos 500 melhores discos de sempre. Pet Sounds surge em segundo lugar. Aqui a honestidade obriga-me a dizer que, por mais que adore o disco, acho que outros mais merecedores de tão cimeiro lugar haveria. De Simon & Garfunkel, por exemplo (o único problema é saber qual, tamanha a qualidade de todos — Cecilia continua a ser a única música deles de que não gosto).

Já agora, não resisto à gabarolice de referir que, nos 500 melhores discos de sempre, o primeiro lugar é dos Beatles (who else?), com Sgt. Pepper's, que conseguem a proeza de ter mais três álbuns nos dez primeiros lugares. Meus queridos meninos!

Pos.Album NameArtistRelease date
1Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club BandThe BeatlesJune 1967
2Pet SoundsThe Beach BoysMay 1966
3RevolverThe BeatlesAugust 1966
4Highway 61 RevisitedBob DylanAugust 1965
5Rubber SoulThe BeatlesDecember 1965
6What's Going OnMarvin GayeMay 1971
7Exile on Main St.The Rolling StonesMay 1972
8London CallingThe ClashDecember 1979
9Blonde on BlondeBob DylanMay 1966
10The Beatles (also known as The White Album)The BeatlesNovember 1968

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Entrevista: Vergílio Ferreira

Esta entrada do Tolan Baranduna de há dias fez-me relembrar uma notável entrevista de Pedro Rolo Duarte a Vergílio Ferreira.

Pedro Rolo Duarte foi nosso condiscípulo no Liceu de Camões, se bem que nunca nos tenhamos por lá cruzado, ele uns anos mais novo do que nós. Como eu, a Clara, o Duarte, o Manel e uns quantos mais, teve o privilégio de ter tido o inesquecível Vergílio Ferreira como Mestre. 

Anos mais tarde, viria a ter a honra de o entrevistar, nos anos de declínio a que assisti de perto e de coração apertado, éramos quase vizinhos, ele a morar na Estados Unidos da América, eu na Rio de Janeiro. Um dia, em 1993, enchi-me de coragem e pedi-lhe um autógrafo, tendo escolhido para recolher essa preciosa lembrança um romance seu cujo título, para mim, simbolizava, mais do que qualquer outro, o enorme legado que lhe devo: Mudança.
A longa entrevista que se segue, publicada em Abril de 1991 na extinta revista K, de que todos nos lembramos, foi realizada cinco anos antes da morte de Vergílio Ferreira. É um testemunho valioso das ideias de um grande Homem, de um grande Escritor, de um grande Professor — por menos que este último papel o pudesse contentar. Vergílio Ferreira é um desses poucos eleitos de quem se pode dizer, com plena justiça, que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando.

É com autorização de Pedro Rolo Duarte que agora aqui reproduzo um momento precioso, que muito lhe invejo.


Sr. Professor Vergílio Ferreira
Por: Pedro Rolo Duarte

Sentado no seu cadeirão castanho, Vergílio Ferreira esperava um entrevistador. Apareceu-lhe um antigo aluno do Liceu de Camões. O professor voltou a falar-lhe no caderno diário, nas faltas, nos exercícios escritos. E voltou a dizer, como sempre, que nunca gostou de dar aulas, e que hoje vive apenas para escrever. Mas, por uma hora e meia, regressou ao passado e deu matéria. A matéria toda que o aluno queria ouvir.

O PROFESSOR não sabia, não se lembrava do n.º 20 daquela turma mal comportada do 11.º ano do Liceu de Camões. Mas eu lembro-me bem dele: caminhava pelos corredores de mãos atrás das costas, ligeiramente curvado para a frente e era assim que entrava na sala, sem um sorriso, uma palavra, até que todos estivessem sentados e calados. Então começava a correcção do trabalho de casa e mais uma aula densa, fria, chata, cheia de gramática e apontamentos e perguntas a que nunca sabíamos responder. Uma vez por outra, chegava um "ponto". Uma vez por outra, uma aula sem matéria para dar, só com o professor tentando o diálogo, falando das árvores da Praça José Fontana ou de um livro que devíamos conhecer. Naquela turma não gostávamos muito do professor Vergílio Ferreira e comentávamos o facto de ser público - estava escrito na Conta Corrente - que ele detestava dar aulas. Detestei essa ideia e, tendo os seus livros em casa, comprometi-me a jamais lhes tocar.

Até que um dia, há poucos anos, quebrei o compromisso e abri ao acaso um volume da Conta Corrente. Devo ter lido algo deste género: "E agora que fazer? Gostava tanto de levar até ao fim os dois livros começados. O romance. Sei agora mais claramente o que queria. O périplo de uma vida à procura da palavra. Viemos ao mundo para a encontrar. A palavra total, a que nos diga inteiros, a que nos diga a vida toda. Procurei a minha e não a encontrei. E estou a chegar ao fim. Ou encontrei apenas a do silêncio. Ou a palavra enigmática que a mãe do narrador desse meu romance Para Sempre lhe diz ao ouvido à hora da morte e ele tenta entender através da vida inteira."

Comecei a ler os romances, os romances todos, tudo, e escrevi-lhe uma carta, que nunca mandei, a pedir desculpa por não o ter lido antes. E agora estou à frente do escritor a contar-lhe esta história e a pedir-lhe, humildemente, que comente a minha própria atitude. Diz que "mais vale tarde do que nunca" e sorri, como só um professor sorri. Sentado num cadeirão castanho, rodeado de livros por todos os lados, o professor fala:

É talvez a primeira vez que alguém dá essa ideia de mim, enquanto professor. Têm-me referido alguma austeridade, um homem de poucas palavras, mas a isso é contraposto sempre o professor afável e tolerante. Não me lembro de pretender ser rigoroso. Havia, é verdade, uma coisa que me incomodava muito, que era o aluno distraído, a conversar para o lado - mas sempre que o detectava, atribuí a mim a culpa, entendia que era uma deficiência, sentia-me vexado, diminuído. A minha reacção nunca era castigar - mas dizer coisas que interessassem o aluno, tentar segurá-lo e captar-lhe a atenção.

K: Mas era muito rigoroso, por exemplo, com a manutenção do Caderno Diário, coisa que rapazes com 17 e 18 anos já achavam que era exclusivamente da sua conta...

Ah, mas isso eram as regras do jogo. Eu tinha o hábito de, no fim de cada período, folhear os cadernos dos alunos, e acho que estava certo: se um aluno não tem o caderno diário em dia isso significa que está ausente das matérias, que não se interessou. O caderno diário é útil no dia-a-dia. Mas, sinceramente, nunca me julgaram assim tão rigoroso, embora ache natural que, se o senhor antipatizava comigo, não lesse a obra do escritor. Não sei o que hoje pensa do que pensava, mas presumo que, olhando da sua idade adulta para essa idade juvenil, algo se tenha alterado. Eu sempre fui contra o professor mandão, sempre descontente, marcando faltas de castigo, sempre fui contra tudo isso.


K: Embora detestasse dar aulas e assumisse essa opinião publicamente...

Olhe, nunca o ocultei porque cumpri sempre. Conheço professores que diziam gostar imenso de dar aulas - e eram professores que não davam as matérias, não faziam exercícios, nada. Ora, como eu tinha a consciência tranquila de cumprir, de ensinar como podia o que tinha de ensinar, estava à vontade para dizer que não gostava de dar aulas, porque não gostava mesmo! Estou, por outro lado, convencido de que, se me pusessem perante as duas hipóteses - ser apenas escritor ou ser escritor e ter uma segunda actividade, por exemplo, ensinar - eu preferiria sempre a segunda. Dedicar-me apenas à actividade literária significaria afogar-me na escrita, na leitura, perder contraste. Assim, depois de uma manhã de aulas, sentia-me livre para começar outra coisa e a escrita saía mais original, mais virginal. Se vivesse de manhã à noite mergulhado na tarefa literária, aquilo que escrevesse não teria a mesma vitalidade.
K: Então foi importante, para a carreira do escritor, a actividade do professor?

Sem dúvida que sim. Sabe, quando era rapaz era melhor aluno a ciências do que a letras. Fui para letras porque tinha aprendido latim no Seminário e resolvi capitalizá-lo, pô-lo a render, tirando um curso que por outro lado eu presumia dar-me rapidamente uma colocação. Não escolhi mal. Hoje, possivelmente, teria optado por outra secção, talvez filosofia, ou românicas. Mas deixe-me dizer-lhe que tive prazer em algumas aulas, em alguns momentos. Em Évora, por exemplo, dei literatura todos os anos, e escolhia sempre uma aula por semana para aquilo a que chamava paleio, conversa. Nessa aula, eu falava-lhes de literatura contemporânea, arte, levava-lhes álbuns com quadros de Picasso, Matisse, e era estupendo... Já em Bragança, onde tinha estado um ano, na altura em que os americanos estavam na berra - o John dos Passos, o Steinbeck, entre outros - eu dava a conhecer esses nomes, essas obras. A um moço de Bragança, que muitas vezes nem sequer tinha visto o mar, falar-lhe de um autor que ele não conheceria tão depressa de outra forma era uma maravilha. Eu não gostava realmente de dar aulas, mas às vezes agradavam-me esses momentos, sobretudo quando sentia que os alunos estavam a abrir os olhos... isso é comovedor, é emocionante... Agora, ir para uma sala dizer 'ó menino, o sujeito, o predicado, o complemento’, é realmente uma chatice! É necessário, mas há coisas absolutamente necessárias que se não gosta de fazer, não é?

K: Tem a noção de que o seu nome, no tempo em que estava no Camões, se confundia com o próprio Liceu?

Não, de maneira nenhuma. De resto, a pensá-lo teria sido já muito antes, quando estava em Évora, numa altura em que o meu nome já era conhecido.

K: Qual era a relação que estabelecia com os seus alunos?

Bom, é outra matéria-prima, a de Lisboa, muito diferente da de Bragança ou até de Évora. A cultura faz-se com o ambiente, o ambiente familiar, um filme que se vê, uma conversa no café, enfim, o mundo exterior. É evidente que um moço de Lisboa é mais desenvolvido, mentalmente, e por isso mais fácil de ensinar.

K: Quando saiu o Até ao Fim, depois do Para Sempre, explicou os seus títulos referindo-se à degradação e perda dos valores por parte da juventude. Não consigo perceber a relação, tanto mais que já tinha deixado de dar aulas, já tinha abandonado esse convívio directo com os alunos...

Bom, deixei de dar aulas mas não deixei de estar atento ao que se vai passando. A verdade é que, quando era miúdo, eu e as pessoas da minha geração tínhamos pais - eu tinha os pais emigrados, mas tinha umas tias... que nos impunham os seus valores - e nós não discutíamos. Um miúdo não discute, é até certo ponto passivo e, no que diz respeito a valores que o transcendem, ainda discute menos. Mandam-no ir à missa e ele vai. A minha geração ainda encontrou determinados valores - por exemplo, políticos. Não podemos esquecer que o comunismo teve extremo peso na mobilização de muitos jovens. Ora, quando se verificou ser o comunismo um logro - o maior do século vinte - todos os mitos se esvaíram. Ele era o eixo central de todos os valores. Em face de quê, hoje, um pai impõe um valor a um filho, se ele os não tem? Sê honesto - mas sê honesto porquê? O rapaz não pergunta mas sente. A juventude de hoje está desarmada de valores que a preparam para a vida. Foi isso que quis dizer.

K: É isso que ainda pensa?
Bom, eu defendo sempre como último valor - porque é o primeiro de todos - o homem e a vida. E pressinto que esse valor, da defesa do homem e da vida, começa a apontar genericamente para o que se chama ecologia e onde se inclui evidentemente a defesa da vida. Pressinto isso até nesse movimento extremamente equívoco que é o pacifismo, a que não adiro (embora, até por preguiça, seja bastante pacífico...).

K: Então já há um valor, uma ideia?

Pergunto: terá o jovem de hoje um ideal que unifique a vida? Não sei, mas este pode ser um movimento... Sabe, eu fui sempre sensível ao problema da arte - é ela a primeira a detectar os movimentos da História (e a História aqui é um termo cómodo, porque não existe. É um nome onde se metem milhares de factores, as guerras, os livros, tudo...).

A História não pára e a arte tem sempre uma palavra a dizer. Hoje, penso que a arte está em grave crise e, para outros, mesmo no fim. Se leu Até ao Fim, há-de lembrar-se da entrevista que o jornalista faz à escultora cuja obra era um monte de pedras. Aquilo não era inventado, aquilo era verdade, eu vi aquilo numa exposição de polacos, que tinha um estendal de sapatos velhos e um monte de pedras.

As pessoas desatentas riem-se, troçam, mas a coisa é grave - não são eles que chamam àquilo escultura, é a História, ao actuar no lado invisível de nós. A História assemelha-se à água que passa debaixo da areia; a gente não a vê e lá à frente ela irrompe outra vez. O erro de Marx foi pensar que podia condicionar a História. Mentira: ela está-se nas tintas para os Marx's, decide sozinha, na consciência ou inconsciência dos homens. Agora, veja bem a ironia da História: pelo uso da praxis científica do marxismo, provou-se que ele próprio era um logro...

K: Facto que deve ter consolado muito o dr., habituado, num país onde a maioria dos intelectuais é de esquerda, a remar contra a maré...

Foi um consolo, sim. Eu tive a sorte de viver o bastante para ver cair os dois fenómenos que mais detestava: o fascismo e o comunismo. Vi a queda de um e de outro e a que realmente me surpreendeu foi a do comunismo. Aquilo era, como agora se diz, um bunker, uma estrutura de cimento armado impenetrável. Mas a História lá se meteu numa fenda, como as plantas se metem por entre as pedras e fazem estalar os passeios, e o bunker estalou. Pude vê-lo, foi bom...

K: Deram-lhe razão...

Ter razão antes do tempo é errar - leva-se de todo o lado, atiram-nos pedras. Mas também é acertar: passei um mau bocado, mas estava certo...

K: Na Conta Corrente e em muitas entrevistas assume sempre o papel de mal amado da literatura portuguesa.

E fui, fui mesmo...

K: Mas agora, desde Para Sempre, é uma unanimidade, toda a gente gosta de si, dos seus livros. Como é que analisa esta mudança?

Então, relembro-lhe o desmoronamento do comunismo...

K: Há relação entre uma coisa e outra?

Então não há? Há uma relação íntima. As pessoas esquecem-se de que, no tempo de Salazar, não havia só a censura oficial, havia também a comunista, que funcionava, como podia, nos jornais, nas editoras, nas revistas. Era aí que se determinava quem era génio (eles não têm medidas, são logo todos génios...) e quem era imbecil. Houve o 25 de Abril, o PC continuou a ter força e depois chegou a perestroika e aí é que começou o problema. Eu lembro-me de um fulano que durante 30 anos me filou a canela e só com a perestroika a apertar-lhe os queixos é que ele abriu as mandíbulas! Costumo dizer que o golpe final foi a queda do muro de Berlim, porque essa gente estava lá dentro - e quando caiu o muro eu fiquei visível, estava do lado de fora...

K: É hoje um homem tranquilo?

Não, não posso, porque sou sempre maior do que eu próprio. Quer dizer: a diferença que vai entre aquilo que se sonha - vagamente, claro, porque quando o sonho se torna nítido, realiza-se - e aquilo que se faz é sempre muito grande. Às vezes, releio os meus livros antigos e de alguns ainda gosto, mas com outros quase cortei relações, não os visito sequer...

K: Quais?

Ah, isso não digo, isso queriam os outros que não me gramam... E não é só isso: sendo certo que todos os pais têm um filho ou outro de que gostam mais, nunca o dizem, não manifestam publicamente a preferência. Eu faço o mesmo, claro.

K: Continua preocupado com o facto de dizerem que se repete, que aborda sempre os mesmos temas?

Bom, isso é o drama de todo o escritor, ser diferente na igualidade. Costumo dizer que o que há de mais diferente na igualidade é o mar - somos capazes de estar a olhar para ele uma hora seguida, é sempre igual mas é sempre diferente: o tamanho de uma onda, o rebentar de outra, a espuma. Ora, se é possível no mar essa diferença, também é possível no escritor...

K: Sabe, dr., ainda hoje penso porque é que uma pessoa com vinte e poucos anos como eu, fica fascinada por livros que falam da morte, como os seus, quando esta é justamente a idade em que a morte não existe, não vai existir...


Nos meus livros há mortos mas não há cadáveres... faz a sua diferença, não é? A verdade é que a morte, a reflexão sobre ela, é para mim uma forma de valorizar a vida - tal como é contra um fundo de escuridão que um fósforo aceso se vê. Essa reflexão não serve para nos afundar, mas para a vida irromper mais forte. Eu sou consciente - e é em função da morte que para mim a vida tem significado. Na sua idade isto não existe, é verdade, mas é bom que através dos meus livros tome consciência da sua existência. Isso significa que fui útil. Porque é que um jovem não há-de pensar nisso? Neste meu último livro, a morte continua a estar muito presente, mas houve quem me dissesse que, depois de o ler, tinha ganho mais amor à vida. Como o doente quando volta a ser saudável - ou o suicida que é salvo a tempo e passa a olhar o mundo com uma atenção extraordinária, como uma revelação.

K: Se juntarmos a sua reflexão ao facto de anunciar sempre que o seu novo livro é o último que escreve...

Ah, sim, mas eu explico: quando escrevo um romance fico sempre com o poço vazio. A sensação que tenho é de que já não há mais nada para dizer. Só que, inconscientemente, a vida encarrega-se de me encher de novo o poço. E quando está cheio, transbordo para outro livro. Agora, por exemplo, tenho um romance já esquematizado e falta-me um enquadramento que não o aproxime muito de outros que escrevi, como o Para Sempre... O último livro, Em Nome da Terra, foi uma sorte, um acaso: surgiu porque, na sequência ia doença de um cunhado, tivemos de o internar num, como se chama?, sim, um lar de idosos, que é um nome bonito que eles põem a essas casas. Bom, fui despertado para a situação dos velhos - gravíssima, do ponto de vista social - e desses lares. Pronto, tinha o problema do romance. resolvido. Agora, estou na mesma situação: à espera que Deus nosso Senhor me conceda um milagre desses...

K: Na Conta Corrente sente-se que o arranque de um novo romance é, para o escritor, um drama...

Eu não me lembro de começar um romance continuar por aí fora até ao fim. Nunca. O caso extremo que tenho é o de Alegria Breve: ia com o livro a meio quando me disseram: sabes que Melo, que é a minha aldeia, está a ficar desabitada, há ruas inteiras que já não têm ninguém? Dei a clássica palmada na testa e pensei: aqui está o enquadramento para o meu romance. Tinha a ideia base, que é a da História em suspenso, a de que o termo de alguma coisa é sempre o começo de outra. O que aconteceu com a Alegria Breve foi excessivo, mas é normal recomeçar tudo ao fim de dois, três capítulos. Preciso de apanhar o novelo e seguir o fio. A escrita é que revela o romance, o escritor nunca faz ideia do que vai ser o romance - é um pouco como criar uma pessoa, ou como um rio: um rio, quando nasce, só sabe que quer ir para o mar. O trajecto é sinuoso, é definido sem controlo, é a tactear que ele chega ao fim. Como o escritor: sei que quero ir para o mar, mas como vou não sei.

K: Já várias vezes disse que o romance tinha os dias contados, não foi?

É como um saco de pedintes, cabe lá tudo, cabe a filosofia, o jornalismo, cabe tudo. Assim, lá se vai aguentando, como o gato, com sete fôlegos O que o pode salvar é a estrutura e a matéria. Aliás, estou com curiosidade em ver que romances vão escrever agora os nossos escritores. Eles terão de fazer longas reflexões porque isto mudou muito, o mundo mudou todo. É claro que dizer a nossa mágoa é já uma forma de a superar, mas a verdade é que não se podem voltar a escrever livros como o Alves Redol... E rasamente lhe digo que, para o século vinte, não vejo mais do que um Raul Brandão, o romance do Sá-Carneiro e um do Régio. Para este século, ficamos por aqui...

K: Sente-se beirão, naquilo que são as características que geralmente se lhes apontam?

Exteriormente, não tenho aquela rudeza, a pujança física, a agressividade do beirão. Mas é verdade que interiorizei algumas características: a obstinação disseram-me sempre que, era obstinado. Embora fisicamente pouco viável, vou sempre até ao fim quando me meto numa tarefa.

Sou rude, trágico, soturno como a serra da Estrela. E interiorizei a neve, claro, aquele encantamento todo. Sabe que eu sei de cor a Balada da Neve, que é um poema medíocre - e até tem um erro de sintaxe... - mas de que não consigo deixar de gostar?

K: Queixa-se amargamente de Lisboa, confessa-se um beirão. Agora que está reformado podia largar a cidade, não?

Agora não posso. Estou aqui há 31 anos, todas as relações estão aqui, temos aqui o Lúcio, que criámos, o filho e netos, tudo isso. Lisboa nem é uma cidade como Nova Iorque ou Tóquio, aquelas grandes cidades, mas para mim já é excessiva. Eu ficava com um quarto da cidade...

K: Qual quarto?

Olhe, este onde vivo! Ficava com Alvalade e o resto podia ir tudo embora. Às vezes penso nas viagens que fiz em Lisboa, pela marginal, que é perigosíssima, os problemas de trânsito... hoje já não vou

K: Escreveu cinco volumes da Conta Corrente pronunciando-se sobre tudo e todos, diz que é dos escritores mais entrevistados, pedem-lhe opinião sobre tudo, diga-me: expõe-se dessa forma por dever, por prazer, porquê?

Eu não sei o que sou para poder expor o que sou, nem estou interessado. Vou aprendendo o que sou com aquilo que me dizem, só isso e aquilo que sei de mim não o exponho dessa forma. Não há nada que mais ofenda os outros do que as nossas queixas - ficam fulos, está-se a exigir-lhes compreensão e piedade para connosco. Então o que é que eu faço? Digo sem dizer, dou um traço de ironia, brevidade, enfim, utilizo técnicas que visam a aceitação do leitor sem que me chegue a considerar um chato...

K: Tem receio de ser considerado um chato?

Se for na escrita, é mau. Às vezes dizem-me "ah, o dr. é tão melancólico" e eu, para despachar, digo "sou, sou ". Mas acho que não - as pessoas que convivem comigo dizem que sou laracheiro, digo piadas, sou irónico. Agora, quando entro na arte é a sério - e tal como o Picasso dizia que quando ia pintar deixava o corpo lá fora, quando eu escrevo deixo as piadas lá fora... Um pouco como diz a Amália, bem pensado todos temos um fado. Eu tenho este, o de escrever: e cumpro o meu fado. Gosto de escrever e gosto que me leiam. E já agora, que me digam quando gostam. Quanto à vaidade, sou tão vaidoso como os outros, não sou modesto, sou igual a toda a gente. Mas, por exemplo, não gosto de ser reconhecido na rua, sentir aqueles olhos a fitarem-me. É muito desagradável...

K: Perguntam-lhe pelo próximo romance...

Pois, se eu soubesse. Mas eu não sei, não sei o que vai ser...

K: Escreve à mão? Estou a ver ali uma máquina de escrever...

Ah, sim, a máquina, odeio a máquina, é horrível. Mas tem de ser, eu tenho uma letra terrível, somítica. Antigamente tinha os meus dactilógrafos, que a entendiam e que até colaboravam nos livros, metendo palavras deles. Palavras que faziam sentido, claro. Muitas vezes, eu nem dava por elas. Dei comigo, anos mais tarde, a reparar nessas palavras e a pensar "eu não escrevi isto, não era assim ", e depois ia ver o original e realmente não estavam lá... Mas agora tenho de ser eu a passar. Com Em Nome da Terra demorei um mês a copiar o texto, com enorme sacrifício. Sabe, é que escrevendo à mão sou logo eu projectado no papel, enquanto com a máquina há o bater das teclas, dá cabo dos nervos, é preciso estar sempre a puxar o carreto, é um drama, é terrível...

É quando o professor volta a olhar o relógio de bolso, uma cebola grande e antiga, e diz que chegámos ao fim. Falámos hora e meia e está fatigado. Mas, voltando dez anos atrás, ainda me diz: "Pronto, faça lá a redacção disto tudo e espero que o que lhe ensinei no Liceu, apesar do rigor, o ajude a tornar esta conversa legível. Sabe que falar e escrever são duas linguagens diferentes. E a fala é já de si expressiva pelos gestos, tom de voz, o que naturalmente a escrita não tem."

in K, n.º 7, Abril de 1991



sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

I ♥ My Friends

Mais um jantar do grupo do Liceu, ontem.

Os nossos jantares trimestrais, que são compromisso sagrado a que só se falta por razões muito sérias, começaram em Outubro de 1995, apenas com cinco pessoas. Como havia sempre alguém que encontrava mais alguém, o grupo foi crescendo. Foi assim que, tendo encontrado o João no Cascaishopping na Primavera de 1997, fui imediatamente convocada para o jantar seguinte. E posso dizer que, nos quase catorze anos entretanto decorridos, faltei a um único jantar.

O António esfregou as mãos de contente com a minha entrada para o grupo, passou-me imediatamente a pasta da organização dos jantares (coisa que, admito, me dá algumas dores de cabeça). De caminho, passou-me também a elaboração das actas, até então redigidas por ele e para as quais até tínhamos — temos ainda, está comigo — um daqueles livros muito formais em que tudo fica registado numa bonita caligrafia. Temos o livro, temos as bonitas caligrafias; já as actas, redigidas no tom solene e institucional devido, são um disparate pegado. E são hilariantes, posso garantir-vos. Lembro-me de que, há uns anos, quando o Pedro T. entrou para o grupo, eu lhas enviei por e-mail. No jantar seguinte o Pedro contou que, no fim de um dia de trabalho daqueles que nos deixam arrasados, se lembrou de que ainda tinha aquilo para ler. E foi buscar o ficheiro.  «Chorei a rir!!», proclamou ele. Convenhamos, que outra coisa poderia esperar-se de um grupo com um nome tão tonto (mas tão camoniano!) como Tágides Caducas & Adamastores Zarolhos?

Foi por causa do grupo do Liceu que entrei para a blogosfera. Tinha considerado com os meus botões que criar um blogue para o grupo era a maneira ideal de facultar a todos, a qualquer momento, o muito material que eu arrastava comigo para cada jantar e de que era fiel depositária: o livro de actas, os álbuns de fotografias, um sacão enorme. Não querendo correr o risco de dar barraca, que conheço o calibre daquela gente e sei como seria impiedosamente achincalhada se fizesse asneira, criei um blogue pessoal como laboratório de experiências: este. Poucos dias depois, senti-me suificientemente à vontade para arriscar a criação do outro, que foi um enorme sucesso. E que há muito foi privatizado, quando percebi, pelo contador de visitas, que aterravam lá pessoas através de buscas no Google com os nossos nomes.

O jantar de ontem (do qual ainda só tenho fotografias muito fracas, mas parece que há um filme giríssimo) foi, como são todos, animadíssimo. Por qualquer misteriosa razão, parece que, quando estamos juntos, voltamos todos aos 14 anos, só que com mais dinheiro na algibeira. A alegria é igual, a tonteira pede meças à antiga. 

A fotografia acima é do jantar anterior, a 8 de Outubro (só faltam o Pedro T. e o Ricardo, que tinham acabado de sair), no mesmo sítio, que achamos agradabilíssimo para os jantares no Inverno, o restaurante do clube de golfe da Quinta dos Alcoutins, no Paço do Lumiar. Para o tempo bonito usamos agora o Palácio Velho, na Granja do Marquês. O próximo será lá, se Deus quiser.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Apoiar um sonho

A Susana Cabaço pode ser a blogger escolhida para participar numa expedição ao Pólo Norte, se votarmos nela. E se divulgarmos o seu projecto, claro, claro. Em blogues, nas vossas páginas do Facebook, vale tudo. Eu já o fiz, conto agora convosco. Obrigada à querida Ana Vidal e ao Delito de Opinião por me terem dado a conhecer esta causa, que também faço minha.

Vamos ajudar esta portuguesa a realizar este sonho? É muito simples, muito rápido, ela explica como aqui.

Sei que o Zé, apaixonado pelas expedições aventureiras, que percorreu com o Carlos a Patagónia e a Terra do Fogo (e pensar que também para essa viagem me desafiaram!), votaria nela com todo o entusiasmo. O Carlos vota, evidentemente. Não é verdade, Carlinhos?

(poema de António Gedeão, pseudónimo de Rómulo de Carvalho, professor do Liceu de Camões)

Adenda:  
Acabo de ver no Delito de Opinião um comentário inquietante, que transcrevo: «Ainda por cima, os outros candidatos têm estruturas imensas de patrocinadores, e a Susana não. Há mesmo um candidato que é apoiado por uma equipa de basketball, que oferece bilhetes a quem votar. Mais, eles são mais que as mães :) Enfim, pelo menos, são mais que nós :)

Se no ano passado foi um português que conseguiu ir ao Pólo Sul (o Luís Pinguim), acho que conseguiremos levar a Susana ao Pólo Norte :)»

O comentador seguinte foi optimista: «Certo. Depois do Luís Pinguim, a Susana Ursa Polar.»

Ora vocês sabem da minha paixão por ursos.  A Susana Ursa Polar Cabaça é o meu David a defrontar Golias. E tem de ganhar! 

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Eunice in the Sky with Diamonds


Deixem que vos fale da minha amiga Eunice.

Conhecemo-nos aos doze anos, cruzávamo-nos no pátio do Liceu em todos os intervalos, nunca nos demos. Os meros três meses que a Eunice me levava de avanço em idade, ela nascida em Maio, eu em Agosto, punham-nos em turmas distantes, eu na A, ela lá para a E ou F. Nem nos 6.º e 7.º anos nos aproximámos, eu escolhi Letras, ela escolheu Ciências. Cada uma sabia quem era a outra, nem coisa diferente seria possível depois de cinco anos a partilhar os mesmos pátios. Mas nunca nos demos, pronto.

Isso viria mais tarde, muito mais tarde, quase vinte anos depois, quando começaram os jantares do Liceu.Eu sempre fui mais extrovertida e interventiva, a Eunice, sempre tão bonita, sempre com aquele ar doce e apaziguante, preferia ouvir, a tagarela era eu. Mais tarde, ainda mais tarde, viríamos a ficar mais próximas, quando ela e a minha Mãe viveram o mesmo problema de saúde em simultâneo. O negro monstro foi derrotado pelas duas, graças a Deus. E mais tarde, ainda mais tarde, eu viria a pedir ajuda à Eunice para apoiar e acompanhar uma outra amiga minha, mais nova, a viver situação semelhante, com contornos talvez ainda mais dramáticos. A Eunice lançou-se imediatamente em socorro dela. E sei que ainda hoje vai regularmente à página que essa agora comum amiga criou para exorcizar os demónios da doença temível, porque também por lá semeou afectos.

Este é o ano dos 50 anos de quase todo o nosso grupo (só três ou quatro nasceram em 1959), o contingente maior começa agora em Julho. E a Eunice desafia-nos a fazermos todos juntos aquilo que ela fez no dia dos seus 50 anos, a 4 de Maio, numa imensa celebração da vida, da bênção que é, tantos anos depois, ainda termos estes laços tão fortes. Estou a considerar o desafio (pavor de alturas, só superado pelo terror de ratos), vou passá-lo adiante, quem sabe os outros se animam e me armam da valentia que a Eunice teve.

Preparativos em terra

Shall I?

O salto no vazio

Skyline Pigeon

O regresso da Guerreira

O sorriso da vitória

Discutimos juntas a banda sonora para o filme que só hoje lhe chegou às mãos, e em que não posso mexer. Para a Eunice, só havia duas músicas possíveis para ele: O Primeiro Dia, de Sérgio Godinho (logo, ela é das que têm uma visão optimista da mensagem subliminar, eu nunca consegui decidir-me, tantas vezes discuti isto com o Nuno!) ou It's a Beautiful Day (Reprise) dos Queen. Quem processou o filme fez-lhe a vontade, pôs os Queen na segunda parte. O pior é que antes vem a S'Dona Céline Dion.

Como a Eunice me deu carta branca, escolhi os Beatles para o título desta entrada, e ela passou a ser Eunice in the Sky with Diamonds. Mas a música de fundo, descobri ao rever o filme sem som, a chorar só de ver a alegria transbordante da Eunice, a milagrosa libertação absoluta que capto em cada fotografia que ela me passou, só pode ser uma: Skyline Pigeon, de Elton John. Por acaso, ou talvez nem tanto, é uma das músicas da minha vida.

E aqui fica o filme. Querida, querida Eunice! Mulher de armas e ternura, a chibata e a rosa, como escreveu um dia Jorge Amado.