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sábado, 15 de março de 2014

Mudar para pior


Cresci com um fascínio autêntico pela linda garrafa do vinho Gatão, maravilhada pelo rótulo com aquele gato das botas de garrafa debaixo do braço, rótulo a conter outro rótulo que, por sua vez, continha mais outro rótulo, e esse mais outro, e assim até ao infinito. Lembro-me de em pequena pasmar sempre, encantada, para um daqueles cartazes publicitários de vidro pintado de outros tempos, na Rua Braamcamp, entalado entre a charcutaria e a Madame Campos (Academia Científica de Beleza Madame Campos, conceituado e célebre instituto de beleza onde fiz a minha primeira limpeza de pele, aos 16 anos, por causa de umas borbulhinhas que me fizeram ter medo de ficar com acne, esse pesadelo da adolescência ao qual graças a Deus fui poupada, ao contrário de algumas amigas minhas).

Sei que, só por causa da garrafa e do rótulo, foi o primeiro vinho verde que provei, e nos anos 80 era sempre o vinho que bebia com o Zé nos nossos jantares no Peipin, o restaurante chinês da Duque de Loulé a que éramos afeiçoados e que tinha um empregado igualzinho a Hercule Poirot.

Não sei quem terá sido a nódoa da direcção dos Vinhos Borges que resolveu, julgo que a meio dos anos 90, mudar as duas coisas, a garrafa e o rótulo, nem quem terá sido autor do ranhosíssimo resultado final. Só sei que, quando dei pela mudança, nunca mais bebi Gatão.

sábado, 26 de março de 2011

Intersecções

O blogue começado há quatro anos para registar viagens nossas continua agora, mesmo depois da partida do Zé, mesmo que só eu e o Carlos possamos escrever lá. As fotografias são assombrosas, a escrita do Carlos traz-me referências incontáveis.

O meu querido Carlos (já vos disse que tem uma das vozes mais feiticeiras que conheço?) ainda é um bocadinho nabo nesta coisa dos blogues, gastei mais de duas horas a limar imperfeições diminutas na última entrada. Espaços a mais entre fotografias e texto, falta de espaços a seguir a vírgulas, coisas patetas mas a que ligo muito, por gostar de ver tudo perfeito.

E, como escrevi lá:

NOTA FINAL, agora escrita por mim, a Teresa: Este blogue é um trabalho de amor e de amizade (e a amizade é talvez a forma mais perfeita  de amor). Tudo o que é aqui publicado é amplamente discutido entre mim e o Carlos, em incontáveis telefonemas.Até a banda sonora. Com a minha paixão assolapada por Ópera, era inevitável que me lembrasse da Carmen, depois de o Carlos várias vezes ter referido o Zé como Don Jose. Está longe de ser uma das minhas óperas de eleição, já o Carlos gosta muito dela, achando-a leve, ligeira. Poupo-vos a nossa discussão, eu a dizer "por amor de Deus, a gaija morre esfaqueada, o que é que há de leve e ligeiro nisto?"

Chegámos a uma solução que agradava aos dois para a banda sonora. A Habanera, pela voz incomparável de Marilyn Horne, provavelmente a maior mezzo soprano do século XX.

Carmen era um espírito livre. Tal como Marie Duplessis, a Dama das Camélias. Tal como Violetta Valéry, a Traviata. Tal como o Zé, o nosso amigo de quem a saudade vai sendo cada vez maior. Vale-nos a memória.


domingo, 20 de fevereiro de 2011

Bittersweet

Na sexta-feira, jantar de amigos do Zé na Casa do Alentejo, convocado pelo Miguel C. O Miguel foi quem há muitos anos nos apresentou, na ida para o primeiro concerto de Leonard Cohen em Portugal, como referi aqui. Éramos 24, poderíamos ter sido mais. E todos tinham histórias deliciosas do Zé para contar.

Mas foi o Miguel, sentado à minha direita, quem, já no fim do jantar, teve palavras sobreo Zé que nos fizeram reflectir, aos vizinhos mais próximos. A ultimar a organização do jantar, dizia-nos o Miguel, a contar e recontar as presenças, tinha encontrado um denominador comum em todos os nomes da lista, a qualidade humana. E tinha dado consigo a pensar que o Zé, com aquela personalidade irresistível, a permanente disponibilidade para os amigos, tinha o dom de extrair de nós, de cada um de nós, o melhor que em nós havia, trazendo-o para a superfície.

Assim era o Zé. E parece-me que este jantar não será filho único.

(porque Leonard Cohen a cantou naquele 18 de Fevereiro de 1985 em que eu e o Zé nos conhecemos, e porque continuo a ter uma enorme dificuldade em lidar com este adeus que a morte nos impôs)

domingo, 16 de janeiro de 2011

Closure

Faz hoje um mês eu jantava com o João Paulo e o Zé ainda era deste mundo. O Zé partiu algures durante essa madrugada, sem que eu soubesse. Sem que soubesse no dia seguinte, em que jantei com o Pedro. É-me doce saber que a minha vida tem destas amizades antigas e profundas, celebradas em jantares demorados regados com um bom vinho, de longas conversas em que não é preciso entrarmos em grandes pormenores para sermos entendidos, tamanha a bagagem comum.

O jantar de sexta-feira com o Carlos fez-me bem, muito bem. O Carlos é, julgo eu, a pessoa mais tremendamente afectada pela morte do Zé. Colegas de profissão, colegas de especialidade. Quantas vezes, no tempo em que eu morava na Rio de Janeiro, foram buscar-me para jantar depois de terem estado a operar na Clínica de S. João de Deus! Nma dessas vezes, lembro bem, o Zé fez uma entrada triunfal na Portugália, de repente percebemos que estava toda a gente a olhar para ele. Seguimos os olhares, que se concentravam nos pés dele, e largámos a rir como doidos: é que tinha-se esquecido de tirar as pantufas do bloco operatório. Só o nosso Zé!

Eu via irregularmente o Zé, o Carlos jantava com ele duas e três vezes por semana, e tinham muitas paixões em comum, a fotografia e as viagens acima de quaisquer outras. E tanto que viajaram juntos! O meu (nosso) querido Carlos, dono de uma das vozes mais bonitas que conheço (mais bonita só a de Jeremy Irons!) está agora órfão deste grande amigo, e falámos longamente deste enorme sentimento de prejuízo a que não sabemos fugir. Como lhe disse, há uma vasta zona de mim que ainda não conseguiu assimilar que nunca mais veremos o Zé nesta vida. Ele percebeu muito bem, porque sente exactamente o mesmo, talvez ainda mais dolorosamente.

A seguir ao jantar fomos para casa dele e a noite transformou-se em noitada. Ao som da Flauta Mágica de Klemperer (delicada atenção do Carlos, que sabe do meu imenso amor por esta ópera), instalámo-nos ao computador para que eu o ensinasse a mexer no blogue que criei há quatro anos para registar as tantas viagens dos dois, de que ele era co-autor desde o princípio, mesmo nunca lá tendo escrito uma linha que fosse.  Hoje, ao ligar o computador, fui surpreendida pela primeira entrada do Carlos no blogue. Ri de lágrimas nos olhos, tanto as fotografias me diziam: fotografias da última viagem, em Setembro passado, viagem para a qual eu tinha sido desafiada.

A fotografia acima, a que ilustra esta entrada, é bem mais antiga. Tem 22 anos, é da viagem que fizemos os três ao deserto e ao Alto Atlas. O Zé limpa diligentemente a máquina fotográfica, o Carlos captura o momento. O Zé veste o forro do meu blusão (é a parte encarnada da vestimenta), de que se apropriou, por o achar muito confortável e quentinho. Lembro-me tão bem daquele acampamento! Fico a olhar, sorrio alagada de ternura, mas já não choro. Estou a começar a lidar melhor com esta despedida.


quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Do I see a pattern here?

Há um padrão nas minhas perdas, e esse padrão é a perda do sono. E a verdade é que de há três semanas para cá, desde a morte do Zé, durmo muito mal e muito pouco. As noites são um lento e longo tormento em que o sono parece não chegar nunca. Quando consigo adormecer, sempre aos bocados, resvalo para um mundo sombrio e inquietante de sono agitado, povoado por pessoas e imagens de que nunca me lembro depois. Algures no meu subconsciente há a noção de que passaram longas horas. e de que é quase madrugada. Mas não. Acordo, olho para o relógio e passaram tão-só vinte minutos. E é assim a noite toda, curtos e perturbadores os períodos de sono, longos, muito longos os intervalos entre cada um deles. 

 Ontem, ao telefone com o Carlos, médico como o Zé, colegas de especialidade, percebi que não estou sozinha nesta dificuldade de me reajustar ao quotidiano agora sem o Zé por perto. O Carlos também agora tem enormes dificuldades em dormir, conhecia todos os meus cenários. Combinámos um jantar para a próxima semana, prometeu dar-me uma ajuda para os meus problemas nocturnos, uma coisa suave, nada de hipnótico, nada que comprometa o meu funcionamento nas manhãs que parecem demorar uma eternidade a chegar.e que começo já exausta.

Mas o melhor é mesmo que vou finalmente ensinar o Carlos a mexer no blogue que criei há quatro anos para a nossa expedição ao Alto Atlas e ao deserto, mas que tinha intenções mais ambiciosas: a ideia era que que nele coubessem também as tantas viagens que os dois fizeram juntos. Fui desafiada para boa parte delas, a última em Setembro último. Tive de gargalhar. O Zé telefonou-me a lançar o repto na véspera. Como se eu pudesse largar o Colosso assim sem mais nem menos, deixar duas gatas ao abandono e ir por aí fora. E é por essa última viagem, cujas fotografias são magníficas como sempre, que o Carlos começará como co-autor do blogue. Estatuto que, diga-se de passagem, tem desde a sua criação, há quatro anos. Só que nunca publicou um único post.



domingo, 19 de dezembro de 2010

O imenso adeus

Ontem tinha uma entrada alinhavada. Levezinha, divertida, inconsequente. Deixei-a a meio, fui fazer outras coisas. Só muitas horas mais tarde voltei ao computador, para encontrar uma mensagem que me deixou gelada e no instante seguinte me pôs a soluçar incontrolavelmente. Devo ter chorado mais de duas horas, sem conseguir parar. O Zé partiu. O Zé!

O meu mundo está a ficar mais estreito. Estou a perder pessoas, cada vez mais pessoas, e dói muito, dói demasiado. Não sei nem quero saber dizer adeus, nenhum adeus, àqueles que me são queridos, muito queridos.

Como o Zé. Olho para a imagem acima, reparo no fio de ouro e marfim que tenho ao pescoço,  oferecido por ele no ano anterior, no dia dos meus 28 anos, e suspiro. O Zé era 16 anos mais velho  do que eu, quatro anos mais novo do que John Lennon, nasceram no mesmo dia, 9 de Outubro. O Zé era meu amigo e a imensa saudade que nada pode apaziguar começa agora. Foi pelo Zé, há quase 14 anos, que soube da morte do Vasco, outra saudade que anda sempre comigo, como já contei aqui.

 Olho para a fotografia à direita, feita pelo Zé, eu em primeiro plano, a escrever, o Carlos mais ao fundo, a ler, e lembro-me desta noite de há 22 anos no Sahara, já perto da Mauritânia, como se fosse hoje. Ficámos horas a olhar para o incrível céu estrelado, as cabeças de fora das tendas, a ver as estrelas cadentes. A cada uma (e eram às dezenas), o Zé, tarado por Ferraris, murmurava sempre o mesmo desejo «Um F40! Um F40!» E eu e o Carlos ríamos.

Hoje, a seguir ao velório e à Missa, fomos jantar os dois, fomos a seguir a um concerto na Igreja de Santa Catarina, a que já só apanhámos o fim. Amanhã o enterro. Depois, só as memórias, as tantas e tão felizes memórias que temos do nosso amigo. E a saudade.


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O concerto da minha vida - Leonard Cohen

Cascais, 18 de Fevereiro de 1985 - faz hoje 23 anos, apenas menos um do que eu tinha nessa noite. Conservo ainda o bilhete encaixilhado, como coisa preciosa que é.

Eu andava nas nuvens desde o princípio de Janeiro, altura em que anunciaram a vinda dele a Portugal para um único concerto; não conseguia pensar noutra coisa. Logo que os bilhetes foram postos à venda corri à Rádio Renascença. Estão a ver o preço? Não é anedótico? Fiquem sabendo que eram os lugares mais caros, a maior parte era a 500 escudos.

O Miguel C., com quem me dava muito, ofereceu-me boleia no carro do seu grande amigo Zé A., e connosco ia mais uma menina que nem desconfio quem fosse. Graças a Deus, quando chegámos ao Pavilhão Dramático tivemos de nos separar, os lugares deles eram lá para cima, numa das bancadas laterais, e muito longe do meu. Eu queria e precisava de estar sozinha, porque é sozinha que se ouve Leonard Cohen, o meu Álvaro de Campos cantado.

Havia semanas que me interrogava sobre qual seria a música de abertura. O coração dizia-me, tão bem lhe conheço a obra, que só podia ser uma, aquela que a intuição me dizia ser a mais despudoradamente autobiográfica de todas. E depois ele surgiu, a figura ascética, as feições graníticas. Soaram as primeiras notas e eu de repente mal conseguia vê-lo, os olhos cheios de lágrimas e um soluço irreprimível a rebentar-me na garganta. Era mesmo Bird on the Wire, como eu secretamente tinha desejado, numa espécie de confirmação tácita da minha total compreensão da música dele. Tão total, tão completa, que seria também com essa música que fecharia o concerto. To come full circle.

Não sei quanto tempo durou o concerto, talvez umas duas horas e meia - eu estava numa dimensão paralela, flutuava. Mas não lhe perdoo não ter cantado Famous Blue Raincoat, outra das tais. À minha frente estava um tipo um pouco mais velho do que eu que durante os aplausos gritava esperançadamente «Raincoat!!!», sem nunca desistir. Em vão.

À saída juntei-me aos outros, que insistiam em ir sair. Recusei. Estava em estado de graça e assim queria continuar, depois daquilo tudo soaria pobre, paupérrimo. Sair, ir encafuar-me num sítio qualquer, ouvir e dizer banalidades seria quase um sacrilégio. Tinha pressa de chegar a casa, para continuar a ouvir Leonard Cohen. Tenho algures num caderno as minhas impressões dessa noite.

Tempos mais tarde, na inauguração de uma boîte (o Springfellows, ali para os lados do Campo Pequeno), encontrei o Miguel C., que me disse que eu tinha um grande admirador. Levantei uma sobrancelha, compus um ar desinteressado (e curiosíssima, claro), perguntei quem era. «É o Zé A.!» «Quem?», perguntei com toda a honestidade. «Não sei quem é.» «Claro que sabe! Até nos deu boleia para Cascais, quando fomos ao Leonard Cohen!»

Eu sabia que tinha ido ao concerto, irrefutável e inesquecível. Até sabia que um amigo do Miguel me tinha dado boleia e levado a casa. Do nome não me lembrava, o que em mim não era de admirar - a minha tão decantada memória é muito fraca no que toca a nomes. Já as caras... Nunca esqueço uma cara. Pois nem da cara do tal amigo me lembrava!

«Das tuas amigas, a única que se aproveita é aquela Teresa que foi connosco ver o Leonard Cohen, as outras são todas umas parvas!» - contou-me o Miguel que o Zé passava a vida a comentar. Um ou dois anos mais tarde, o Miguel lá conseguiria juntar-nos numa saída ardilosamente planeada. Quando vi o Zé percebi até que ponto eu naquela noite de Fevereiro estava na lua, porque ele era uma autêntica brasa. Além de ser uma pessoa encantadora. E nasceu uma amizade que continuou pelos anos fora e continua firme até hoje.

Faz também hoje 23 anos, portanto, que eu e o Zé nos conhecemos. Se não fosse tão tarde, telefonava-lhe. Fica para amanhã.

Now playing: Leonard Cohen - Bird on the Wire
(click to listen)


Adenda: Três anos depois, em Junho de 1988, Leonard Cohen voltou a Portugal. Ao Coliseu, sala que considero irreconciliável com um bom espectáculo - como o Pavilhão Atlântico, mas menos. E sorrio de lembrar que ao meu lado no camarote estava o Zé, na véspera da nossa expedição ao Alto Atlas e ao Sahara. O concerto foi uma muito pálida sombra do outro. Culpa da sala? Do público? Não sei. Mas foi decepcionante.

«
Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.
Ser real é isto.»


Alberto Caeiro


domingo, 18 de fevereiro de 2007

Saudade. Ainda e sempre. Para sempre.


Faz hoje dez anos — uma década! que foi a enterrar. Nestes dez anos julgo não ter havido um único dia em que, por esta ou aquela razão, não me tenha lembrado dele. Os meus mortos andam sempre comigo, mais vivos em mim do que muito boa gente que eu bem poderia dispensar.
A seguir à morte dele estive praticamente um mês sem dormir. Adiava o momento de ir para a cama o mais possível, na esperança de que o cansaço me vencesse. Andava extenuada, mas o sono continuava arredado de mim. Foi uma grande perda. Lembro-me dele a propósito de tudo e de nada, ainda hoje. Várias vezes, ao longo destes anos, num sítio ou noutro, de repente vejo alguém remotamente parecido com ele e exclamo para comigo num sobressalto e numa alegria desatinada e impossível de conter «Olha o Vasco!», coisa absolutamente absurda. Caio logo a seguir em mim e lembro-me de que ele já não é deste mundo. Tenho saudades dele. Tenho tantas saudades dele! E lembro-me de uma outra voz linda – porque a voz era uma das coisas mais bonitas que o Vasco tinha –, a do Morgan Freeman, naquele filme tão amado, a dizer I guess I just missed my friend...
Atravessei a noite de 15 de Fevereiro, data da morte dele, a escrever. Começava assim...
"O Vasco morreu hoje. O Zé Alves telefonou-me há pouco, era quase meia-noite. Amanhã vem buscar-me, vamos juntos nem eu sei bem onde. Para dizer a verdade, nem sou capaz de reconstituir o que ele me disse, lembro só vagamente que falou em cremação.
Depois de desligarmos fiquei muito tempo imóvel, encolhida a um canto do sofá, meio atordoada, um medonho nó na garganta. De repente percebi que estava gelada, que tremia de frio. Levantei-me e fui acender a lareira. Depois fui à cozinha à procura de qualquer coisa para beber. Não me apetecia whisky de repente pareceu-me ouvir a voz grave e maliciosa do Vasco numa noite de equinócio de um Verão de há muitos anos a dizer «sabe que não tenho água de Castello...» não, decididamente não me apetecia whisky. Em vez disso, abri uma garrafa de bom vinho tinto (Frei João, uma reserva de 90, presente do Zé Alves), pu-la a respirar na lareira.
Precisava de música, claro. E só havia duas hipóteses possíveis: Mozart ou Bach; o Requiem ou A Paixão Segundo S. Mateus.
Provei agora o vinho. Um veludo. Ao som dilacerante e ao mesmo tempo estranhamente consolador do Requiem, levantei o copo num brinde silencioso ao Vasco, que eu quero lembrar assim, amante dos prazeres da vida, um copo na mão, num qualquer dos nossos muitos jantares no Altair, ou no Gambrinus, ou no Pescador, ou nos Arcos... numa qualquer das nossas tantas noites de Stone’s, perdidos em intermináveis e labirínticas conversas, o olhar azul dele, de um azul muito escuro e tão bonito, a envolver-me de uma maneira de que eu gostava e que me fazia sentir bonita, espirituosa, interessante...
Que Deus o guarde guarda de certeza, mesmo sendo ele enraizadamente descrente. Senhor... como terá sido a última hora dele, aqueles instantes que antecedem a entrada na grande escuridão? Terá sabido que era aquele o momento? Terá tido medo? Terá visto a Tua mão estendida?
Nunca mais... ah, o horror destas duas palavras! Nunca mais... nenhum jantar... nenhuma conversa... Nunca mais um encontro de acaso no Stone’s...
Do fundo nebuloso dos anos vejo-nos aos dois outra vez ...”
Não sei chorar lá muito bem. Escrevo. Escrever foi a minha maneira de chorar o Vasco naquela noite. Páginas e páginas de memórias, as nossas memórias comuns. Quase todas muito alegres, que o sentido de humor foi a primeira coisa a aproximar-nos. Apesar da diferença de idades, à época monstra – ele tinha mais treze anos –, sempre nos entendemos às mil maravilhas. Aliás acho que a nossa amizade começou justamente aí. Eu era muito novinha e muito tonta, estávamos a conversar e eu disse qualquer coisa que o fez arrebitar a orelha:
Mas que idade é que a menina julga que eu tenho?
Prudentemente – bolas, ele já tinha o cabelo completamente grisalho! – descontei alguns anos e arrisquei um “Sei lá... 40?... “
Eu tenho 33 anos!!! – fuzilou ele.
E eu, sem ponta de tacto, atirei-lhe com uma frase muito parva de um velho anúncio de televisão (Restaurador Olex):
Pois olhe... não parece!
Escangalhámo-nos os dois a rir, que ele localizou a origem e achou graça. Assim começou a amizade que ainda hoje perdura – só sei falar do Vasco no presente, mesmo não conseguindo conversar com ele há dez anos.
O Vasco tinha um conhecimento intuitivo de todas as coisas às vezes tão contraditórias que podem caber em mim. Um conhecimento quase animal. E isso era bem a soft place to fall. Nem sempre o Victor, durante tantos anos tão feliz com a Ana, podia estar por perto, e muitas vezes o Vasco teve o papel de segundo melhor amigo (o primeiro lugar será sempre indisputável).
Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto...
O resto parece-se apenas com a vida.

Durante toda a minha vida adulta e consciente associei este poema obcecante de Fernando Pessoa (poema que sei de cor e muitas vezes dei comigo a murmurar em surdina, como os versos de American Tune, em sítios tão absurdos como o metro), a um certo olhar de uma certa pessoa, que o Vasco conheceu muito bem, tendo acompanhado carinhosamente, como o Tio Fernando (querido Tio Fernando, outra saudade! Foi com ele que vi quele concerto dos S&G no Central Park, a explicar-lhe a importância daquilo, daqueles dois senhores..., ao lado dele desabei num choro desgarrador com aqueles versos até àquela noite desconhecidos de The Boxer* que pareciam feitinhos de propósito para me ferir, agravados pela troca de olhares cúmplice e pela pancadinha nas costas dada por Art, podíamos ser eu e o Victor) a minha penosa e muito demorada recuperação. Sempre amigo, sempre atento.
*Now the years are rolling by me
They are rocking evenly
I am older than I once was
Younger than I'll be, that's not unusual.
No, it isn't strange
After changes upon changes
We are more or less the same
After changes we are more or less the same
Só esta noite, pela primeira vez, me ocorre mudar o verde do olhar impossível de esquecer do poema para o azul-escuro do olhar do Vasco. Porque a amizade é bem mais duradoura do que o amor, por maior que o amor possa ter sido. E ele sabe, que muito lhe chorei no ombro. Os tempos verbais estão certos. Mesmo hoje, dez anos passados, só sei referir o Vasco no presente, tão presente ele continua.
The Last Time I Saw Richard... É-me mais fácil contar-me em música, daí lembrar-me agora desta música de Joni Mitchell. Meu Deus, que seria de mim se não fosse a música?...
The Last Time I Saw Vasco... Foi lá por Setembro, mais provavelmente Outubro de 96. Avisada do que se passava pelo Zé (Teresinha, há quanto tempo não fala com o Vasco?), telefonei-lhe a fingir que era por acaso. Não subestimemos a nossa amizade, o laço especial que tínhamos, tivemos sempre. O Vasco convidou-me de imediato para jantar e nesse último jantar naquela nossa mesinha de canto na sala pequena do Gambrinus contou-me TUDO. Doeu-me vê-lo fisicamente já tão mudado pela doença, mas não me apetece escrever sobre isso agora, tanto ela tem atingido nos anos mais recentes pessoas que me são próximas, a começar na minha Mãe. Com o seu frio raciocínio matemático, o Vasco disse-me ter 30 por cento de possibilidades de se safar daquilo, que a percentagem era tolerável e que ainda havíamos de ir juntos a S. Petersburgo (ele era um cepo em matéria de literatura – e de música, já agora, mas havia de gostar deste Adagio do Barber que aqui pus como música de fundo especialmente para ele –, mas sabia da minha paixão por Dostoievsky e do fascínio pelas noites brancas). Quando me deixou à porta de casa demos as mãos (e ainda sinto o toque da mão direita dele na minha mão esquerda) e eu disse uma coisa arriscada, mas sentida:
Vou rezar por si. Tenho fé.
E eu agradeço. Gosto da sua fé. Gostava de a ter.
Assim nos separámos. O meu amigo Vasco, ateu empedernido, não fez troça.
Pouco importa que não fosse crente. Era um homem bom. Está à direita do Pai. E olha por nós, que não o esquecemos.
«... But I’m never gonna lose your precious gift.
It will always be that way.»
(Moody Blues, New Horizons)
O meu poder de síntese é nulo. Julgava eu, nesta data, só conseguir alinhavar umas escassas linhas. Escrevi e escrevi. Ainda assim, quero deixar aqui um outro testemunho. Que me repugna pelo conteúdo, evidentemente. O tema “caça” era motivo de pega permanente entre mim e o Vasco. Depois de me desdobrar uma série de patacoadas pretensamente científicas a louvarem os méritos ecológicos de tamanha barbaridade (abençoado riso, estou a lembrar-me de uma vez que em ele gastou mil e tal contos numa espingarda qualquer e foi para a Bulgária caçar ursos... Não só não pôs os olhos num único exemplar EU ADORO URSOS!!!! como me confessou depois que tinha passado uma fome de cão num país ranhoso onde não havia nada de nada, bem feito!), o Vasco costumava dizer “Um dia destes convido-a para vir comigo...” Perante o meu ar horrorizado acabava por conceder “é melhor não, a menina ainda ia acabar a fazer de enfermeira da caça...”
É por isso que, por falar em caça – ranger de dentes meu, já se sabe, passo a palavra ao Janica Capristano. Estas são as memórias dele e do Vasco. E são tantos anos! A amizade deles começou no ano em que eu nasci. Sobre o tema, eu e o Vasco ainda havemos de continuar a discutir no outro mundo. Como sempre. É que nós adoramos discordar! Presente, uma vez mais. Sempre. O Vasco está vivo em nós. Em mim, na Nita, no Pedro (irmão), no Filipe (sobrinho), no Janica, no Celso, no João Moura (amigos), em tanta gente de quem nem o nome sei, no António Veiga que nos deixou já este ano e que como tal está mais vivo do que nós porque entrou na verdadeira vida, aquela em que o Vasco não acreditava e de onde nos vê agora, na Teresa, ao lado dele até ao fim, engolindo paredes meias com o sofrimento que até me dói pensar afrontas impensáveis de gente que de gente tinha e tem pouco.

VASCO VALLE
Estou sentado no meio da mancha no posto 22 da úl­tima montaria da época e, enquanto a montaria não começa, sinto um tremendo vazio. As imagens da memória sucedem-se a uma velocidade alucinante.
Tinha 13 anos quando te conheci. No primeiro dia de aulas no Liceu Francês onde fomos colegas na turma que ficou conhecida como o «tenebroso 4.º M». Não precisámos de muitos dias para estabelecermos uma amizade que o tempo consolidou. Nunca precisei de te dizer que era teu amigo. Nunca precisaste de dizeres que eras meu amigo. Estava latente e sempre presente a amizade que construímos. Por vezes, nem precisávamos de falar nem de estar juntos. Sabíamos perfeitamente que, quando necessário, podíamos contar um com o outro como sempre aconteceu. Até ao último dia. No teu último dia eu faltei, troquei-te por uma montaria qualquer, apesar do previsto desde que adoeceste ter surgido de forma tão imprevista.
Ainda há poucas sernanas, em conversa com o ManeI, comen­távamos a sorte que acompanhou o nosso grupo de caça com milhares de quilómetros percorridos, milhares de tiros dados e, mais recenternente, algumas centenas de balas cruzadas e em que não tivemos nenhum acidente, nenhuma contrariedade.
Tínhamos 18 anos quando começámos, oficialmente, a caçar juntos. Inicialmente eras tu, eu, o Manel, o Carlos e o Bi, a que se juntaram o teu irmão Pedro, o João Pedro, o Luís, o João, o Chinchila.
Começámos a caçar narcejas nos arrozais de Terça, Monte Novo, Casebres, Samora, Salvaterra, Vale d'Arca. Durante anos os arrozais eram só nossos. Ninguém gastava cartuchos num «pássaro» tão pequeno e tão difícil de «pendurar».
Continuámos a caçar patos nas lamas do Tejo, nas caixas, nas murraças e nas barragens de Pavia e acabámos nos açudes de Val'Boi.
Praticamente só tirávamos as botas de borracha para atirar às perdizes em Outubro e às rolas em Agosto.
Mas o que realmente gostava de fazer, como tantas vezes costumavas dizer, era «arrear a peida molhada no combro das narcejas» para a espera da tarde.
Depois da «abrilada» tivemos de procurar «exílio cinegético» em Espanha. Conseguimos manter o grupo intacto e admitimos reforços, o Carlos P., o MigueI e o Tozé.
Quando foste com o João alugar o couto, enganaram-se, enfiaram o barrete e alugaram o couto do lado, Las Casetas, em vez de alugarem aquele com que finalmente ficámos, Roda.
De quinze em quinze dias arrancávamos às sextas-feiras com destino ao famoso Hostal de EI Ronquillo em que o pequeno almoço na barra tinha preço «fixo», a «olho»!
Voltávamos no domingo às tantas, rebentados, mas cheios, umas vezes de caça, mas sempre de amizade, de camaradagem a contar os dias para a caçada seguinte, até ao dia em que o Bi resolveu questionar o dono do couto sobre as 10 toneladas de trigo que ele dizia ter espalhado pelos cevadouros e que ninguém tinha visto, recebendo como resposta: «Las hormigas lo tragan todo!» e uma «ordem de despejo» para a época seguinte.
Para manter o grupo intacto alugámos Val’Boi durante alguns anos e neste último ano ajudei-te a enfiar o barrete do couto das narcejas, sempre com o mesmo objectivo.
Nos últimos anos passaste a dedicar-te mais à caça maior, melhor dizendo, aos javalis. Ainda consegui resistir, ao princípio, mas, definitivamente, pregaste-me o «bicho», não conseguindo explicar a transformação de «caçador de marrequinhas» para «monteiro». Talvez tenha sido para poder continuar a acompanhar-te.
Quando comecei a reunir o grupo para montar a sociedade que veio a adquirir a Calibre 12 foste o primeiro a ser contactado. Como habitualmente fizeste contas, deste conselhos, apresentaste críticas mas acabaste por entrar como accionista. Tenho a certeza de que o fizeste por mim.
Quando alguém desaparece normalmente enaltecem-se as qualidades, omitem-se os defeitos. No teu caso, se bem te conheço, deves estar a teimar com St.º Huberto sobre os melhores locais para montar os cevadouros para as próximas luas.
As memórias são interrompidas por uma ladra das matilhas junto ao meu posto onde passados alguns segundos entram dois javalis. Atiro ao primeiro, acerto, cai na ribeira e viro-me para o segundo, atiro e acerto mas continua a correr.
Carrego a express e volto a atirar, acerto outra vez mas o javali não pára, atiro a terceira vez e finalmente imobiliza-se.
Acudo aos cães que entretanto agarram o primeiro ja­vali, apenas ferido e remato-o com a faca. São duas por­cas, uma com mais de 100 quilos. O resultado de um bonito lance de montaria com que St.º Huberto me quis presentear e que te dedico inteiramente com a tristeza de não as poder rever contigo, em imagens, ao almoço ou ao fim de um dia de trabalho.
As matilhas passam. O silêncio instala-se e as memórias do passado, agora mais recente, regressam.
Relembro os teus últimos meses em que parecíamos dois mentirosos, eu a animar-te que estavas melhor e tu a admitires o facto, sabendo ambos que era uma questão de poucos meses. Nunca te ouvi um queixume, uma crítica, um !amento, apenas alguns gracejos pelo «incómodo» da situação e o aborrecimento que a doença te causava por não poderes caçar esta época.
E o dia da tua última espera chegou. Que não conseguiste vencer nem adiar por mais tempo. O adversário era demasiado poderoso. Mesmo para ti.
Deixas família entristecida, amigos inconformados e um grande vazio que jamais poderá ser preenchido.
Pertences a uma raça em vias de extinção. Daqueles que acreditam que a amizade tem de ser incondicional, natural e espon­tânea, que a vida merece ser vivida com intensidade no que acre­ditamos, aproveitando todos os dias.
Agora podes, finalmente, descansar em Paz.»
João Capristano
Calibre 12, N.º 66 - Março de 1997