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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Entrada da semana, por Bad Girl

Esta pequena não tem papas na língua e tem a mui apreciável capacidade de dizer o máximo no mínimo. Aqui fala de pessoas de quarenta anos, mas eu tenho outras de cinquenta, nos mesmos cargos de visibilidade ou noutros equivalentes, a endereçarem-me mensagens com o vocativo folgazão (e abominável) de krida. Só é pena a Bad Girl não ter espaço para comentários, que eu era rapariga para ir lá desabafar agravos.

Segunda-feira, 15 de Fevereiro de 2010

Adultos que escrevem "axo" e "kem" e "tasse"...
 
E já nem sequer vou falar em mensagens escritas (vá-se lá saber porque é que alguém inventou a escrita automática, se o povo anda todo a usar os "k" e os "x"). Não. É em textos. E em mails. E em actualizações do Facebook. E mais no camandro, ou no catano, ou no raio que os partiu em três.

Um destes dias vejo um "amigo" facebookiano assinalar uma efeméride da sua vida com a linguagem dos putos imberbes. Um gajo com quarenta anos (ou isso), curriculum recheado de graus académicos e de cargos de visibilidade, acaba o (seu) livro e diz o quê? Isso. "axo k ficou bem". Uau, fico tão jovem, a escrever isto. Dá-lhe a crise da meia idade, e o gajo começa a escrever como os putos. Sempre fica mais barato que comprar um Porsche. E o tipo de admiração que atrai deve ser mais ou menos o mesmo. 

domingo, 20 de dezembro de 2009

Entrada da semana, por Ana Oliveira

Não é que esteja de acordo com o conceito, que nada me diz. É só uma frase engraçada, ideal para promover Neuhaus ou Godiva, mais nada. Não me parece que o chocolate (ou a comida, ou uns copos, ou umas coisas que se fumem ou cheirem, for that matter) possam substituir o amor ou suprir qualquer necessidade profunda. E adoro chocolate, sim. Mas é mera gula, a hedonista que há em mim, apenas isso. Se tivesse de escolher entre queijo e chocolate, por exemplo, nem pensava duas vezes.

O destaque vai todo para os maravilhosos desenhos da Ana Oliveira, sempre encantadores na delicadeza e infinita graciosidade do traço, na sua risonha visão do mundo. Eu, que não seria capaz de desenhar um balde de plástico, fico deslumbrada!

19 Dezembro, 2009


Forget love, i'd rather fall in chocolate...




Esta é uma famosa quote sobre (amor e) chocolate que vi pela primeira vez no "Melhor Bolo de Chocolate do Mundo" e que depois descobri que já é famosa na net há muito tempo.
Em todo o caso acho que é uma frase genial!

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Entrada da semana, por Safira

Sendo hoje, dia 8 de Dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, o dia tradicionalmente dedicado às decorações natalícias (as minhas estão atrasadas, que o coxear não ajuda nada), aqui ficam as surpreendentes e pouco  ortodoxas decorações da Safira:

terça-feira, 8 de Dezembro de 2009


Sou pela tradição...

...e parece que está na altura de fazer a árvore de Natal e o presépio.

OH JOY!!!! Aqui está uma ocupação que adoro...

Enfeitar o pinheiro de Natal deve ser uma coisa gira à brava de se fazer quando as luzes não estão todas embaraçadas, os enfeites combinam e não temos três coisas peludas aos pulos a puxar as fitas de um lado enquanto as tentamos puxar para o outro. E isto já é a parte menos divertida, porque gira, gira, é a fase de montar a estúpida árvore. Gosto muito do sistema de árvore aos módulos e com pecinhas em acessório. Gostei especialmente de ter perdido meia hora à procura da base onde encaixar os pézinhos...(nota mental: lembrar-me para o ano que a base já vem acoplada ao tronco...).

Para não variar, o meu espírito natalício anda na zona do menos vinte e três. Tenho nada contra o Natal, só me irritam os histerismos do Natal. Ainda não comprei presentes, não pensei sequer no que vou comprar, a ideia de me enfiar em lojas dá-me urticária e estou-me assim a modos que um bocado nas tintas para as Seasons Greetings ciente de que há gente a morrer de fome e eu vou estar a empanturrar-me e depois a gastar dinheiro em ginásio para abater o rabo. E sei que não posso fazer muito contra o facto de existirem pessoas com menos sorte do que eu, mas posso evitar andar histérica com o Natal. É o que faço, pronto. E também ando a modos que ocupada com coisas mais pertinentes, e até porque assim de repente só tenho mais 324 coisas interessantes para fazer no feriado, resolvi perder parte desse tempo precioso a enfeitar o canto natalício (da lareira para lá) e 'amandar' uns pais natal e uns bonecos de neve e velas de ursinhos com gorros vermelhos por cima dos móveis e colocar uma meia na chaminé e essas coisas, ciente de que o meu Mazda 3 vai lá caber e tudo...

E pronto, da minha falta de pachorra generalizada nasceu isto:


E sim, eu sei que a foto está uma porcaria, mas também não me apetece tirar outra.

A ideia não é original, eu sei. Também temos pena, mas não tenho bonecos novos. Sim, José e Maria e o menino Jesus são os mesmos do ano passado, embora com roupagem mais Woodstock, mas notarão com certeza o esforço em colocar a bicheza que aquecia o menino no estábulo. Claro que a vaca é aqui uma ovelha, o burro fez um upgrade para cavalo empalhado e acrescentei um porco porque não tinha mais nada dado que os gatos me deram cabo dos reis magos do ano passado. Não há mirra, nem incenso, nem ouro nem coisa nenhuma este ano, menino Jesus felino. 'Tá crise. Lamentamos.

Chamo ainda a atenção para o Pai Natal I-am-king-of-the-world que atei ao topo da árvore como se da proa do Titanic se tratasse. Não sei se é uma ideia inteligente andar a ridicularizar o Pai Natal antes de lhe escrever a minha carta, mas pronto, agora que fiz as pazes com o Grande Galo Universal ando a esticar a corda até ver...

Banda Sonora: Do they know it's Christmas time - Band Aid
(carinhosamente dedicada a todas as pessoas que acham esta canção extremamente irritante)


Nota: Como sou uma dessas pessoas que acham esta canção extremamente irritante, não a ponho aqui, mantenho a que está a tocar, até porque continuo sem conseguir resolver o problema da música no blóguio.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Entrada da semana, por Helena

Gosto muito da Helena e do seu 2 Dedos de Conversa, que conheci por acaso, graças a um comentário que ela deixou num outro blogue há largos meses. Tive curiosidade e fui espreitá-la. Fiquei imediatamente cativada, pus-me a ler para trás, coisa que faço sempre quando um blogue me atrai. Uma portuguesa casada com um alemão, dois encantadores filhos adolescentes, recém-instalada (à época) em Berlim, depois de ter vivido largos anos em Weimar, a nobre cidade da Constituição, ex-Alemanha de Leste.

Gosto da Helena pelo seu sólido bom senso, pelo seu discernimento, que a sensatez é uma das qualidades que mais valorizo. Gosto dela pela escrita límpida e muito pessoal, correctíssima e com a frescura de um riacho, coisa admirável na mulher tão culta que é, bem mais culta do que eu, que muitos dos que aqui vêm julgam cultíssima. Aí está, também gosto dela por admirá-la. Admiro a sua bagagem cultural e a maneira como a gere, fazendo dela uma coisa viva e quotidiana. Salivo com as entradas em que fala da vida em Berlim. Admiro-a por sabê-la uma católica fervorosa, bem melhor do que eu, que retira tempo ao seu tempo escasso para fazer retiros (há quantos anos não faço um!).

Ainda assim, não é pelas grandes qualidades da Helena que escolhi esta entrada dela para entrada da semana, lá vem o meu egoísmo. É porque ela me deixou a suspirar. A Helena, o Joachim (marido), a Christina e o Matthias (os filhos) fizeram este Verão uma grande viagem pelos imensos Estados Unidos. É o problema da vastidão daquele país, quando se vai para um lado abdica-se de ir para outro. Quando li, numa entrada com mais de uma semana, a referência dela a um voo para Salt Lake City (Utah), tive uma certeza maravilhada: «Ai, ela vai ao Arches!»

Arches National Park, um dos que mais sonho conhecer (quem sabe, no próximo ano?). Confirmou-se. Foi. Bebi-lhe as palavras, queria mergulhar nas imagens, estar lá. Ainda aqui contei muito pouco do tanto que vi na minha maravilhosa viagem às Montanhas Rochosas no ano passado. Basicamente, falei de Yellowstone e da estrada americana a perder de vista. Não contei (ainda) nada sobre os outros parques, Rocky Mountains, Glacier (o mais amado), Grand Teton; não falei da mágica Going to the Sun Road (tenho um filmezinho rústico dela, feito com o telemóvel, ao som de... (surprise!) I'll Follow the Sun, dos Beatles, da inesquecível Beartooth Highway, de Devils Tower ou do Garden of the Gods, uma espécie de miniatura do Arches, hei-de mandar-te os retratos, Helena, quando voltares desta nova viagem.

Oh, calem-me! E leiam o que a Helena conta. Eu senti-me quase lá, tão bem contado é. E digo quase por conhecer a sensação de estar nesses lugares únicos, tão difícil de explicar, passando por tantas coisas. Até pela Fé, como ela aponta subtilmente. Há lugares privilegiados em que nos sentimos próximos de Deus e nos maravilhamos com a Sua obra. Obrigada, Helena.

Arches

Entrar no Southwest por Arches não é o mais aconselhado. Melhor seria deixar esse parque e Bryce para o fim da viagem. Depois daqueles, que mais nos pode arrancar grandes "ah" e "oh" de espanto?

É difícil descrever a beleza destas paisagens. E é quase impossível escolher, das centenas de fotografias que fizemos, uma meia dúzia delas para mostrar.

Começo com "les bourgeois de Calais", nome inventado por nós para esta formação fascinante:



Segue-se a vista a partir da tenda, num dos mais belos parques de campismo que conheço. Paisagem magnífica, com imenso espaço entre as tendas dos diversos ocupantes. Mas infelizmente sem duches. Para nos lavarmos, enchíamos garrafões de cinco litros, e água vai. Às escuras, porque é um crime: felony.
(muito eu gostava de saber o nome deste crime em alemão ou português - começo a suspeitar que nestes países não existe...)
E desconfio que não foi o único crime que cometemos: à procura do sítio com mais sombra para montar a tenda, fartámo-nos de pisar terreno até aí virgem - ai a pegada ecológica!



Há inúmeras possibilidades de caminhadas naquele parque, e mais de 2.000 arcos naturais para ver. Como vem escrito no guia que nos dão à entrada, em dias de céu azul como os que lá passámos, é difícil imaginar que aquelas formações rochosas são o resultado de violentas forças (água e gelo, temperaturas extremas, movimentos subterrâneos) ao longo de muitos milhões de anos.
Sim, eu metia aqueles arcos todos nas gavetas "milagre" e "provas da existência divina", e ficava o assunto arrumado.
Um outro fenómeno difícil de explicar é haver tantos carros estacionados e vazios, e cruzarmo-nos com tão poucas pessoas nos trilhos.


Ficámos dia e meio neste parque, o que não chega para quase nada. Ainda assim, pudemos fazer uma caminhada inesquecível: ao fim da tarde, até ao Delicate Arch.
Não direi que foi fácil. O trilho consiste numa subida, por vezes bastante acentuada, de 2,5 km. Fazia quase 40º à sombra - mas não havia sombra.

O percurso passa ao lado de um rancho esquecido. Uma cabana minúscula, com um compartimento só, feita de troncos de árvore. Conta-se que foi construída pelo dono do rancho após a visita de uma filha sua, que ficou chocada com as condições em que ele vivia. Bem, se aquela cabana já era um melhoramento substancial em relação àquilo que existia...
Algumas semanas mais tarde, no museu de história americana em Washington DC, lembrámo-nos dessa cabana ao ler que Abraham Lincoln nascera e crescera numa log cabin.

O arco só aparece no fim da caminhada, por trás de uma formação rochosa. À nossa esquerda vê-se este conjunto de rochas monumentais (reparem nos vestígios de uma cascata enorme, do lado direito - este passeio deve ser muito recomendável na Primavera) e logo a seguir...

...logo a seguir, à nossa frente, o esplendor!


Escolhi esta fotografia por especial atenção a uma leitora deste blogue, que gosta muito de ter pessoas na paisagem para conseguir perceber as dimensões reais.
Nada mais fácil que fazer fotografias do Delicate Arch com pessoas lá perto - de facto, elas insistem em fotografar-se assim. Deve ser para aqueles típicos álbuns de férias "Olha eu feito formiguinha debaixo do Delicate Arch", "Olha eu feito formiguinha junto à Golden Gate Bridge", "Olha eu feito formiguinha ao lado do Big Ben".
Se bem entendi, é a isto que se chama o bug do milénio.
O problema é que estávamos sentados num grande anfiteatro natural ao lado de centenas de fotógrafos amadores e profissionais a tentar fazer a fotografia da vida deles, e basta uma pessoa decidir ir exibir-se para debaixo do arco para estragar o sonho de todos.
Naquele dia, enquanto o sol esteve tapado por nuvens, ninguém protestou demasiado. Mas quando chegou o momento mágico em que o sol, quase ao nível do horizonte, tingiu a paisagem de tons irreais, o pessoal desatou a gritar "buuuuuh! buuuuuh!" a uma formiga que para lá se dirigia. Confesso que tive pena do homem. Deve ter-se sentido assim mais ou menos como no Coliseu de Roma pouco antes de largarem os leões.
E então aconteceu isto:

Num dos momentos de sombra a Christina arriscou-se a fazer uma fotografia sob o arco. Contou-nos depois que é uma sensação incrível, e queria muito que nós fôssemos até lá para experimentar a força que se sente naquele local. Nós é que estávamos com medo dos "buuuh! buuuuuh!" do público em geral, e optámos por ficar sentados e quietos no nosso ponto de observação e encantamento.

A seguir, afoita, resolveu avançar cuidadosamente de gatas ao longo da parede rochosa bastante inclinada, porque queria fotografar o arco à contraluz.
No comments, que é como quem diz: eu não sei como é que os miúdos sobrevivem à própria adolescência, e os pais deles também. Confesso que me ia dando uma coisa má ao vê-la tão longe a fazer algo que me parecia perigosíssimo. E eu ali, a imaginar a minha filha a cair por um escorrega gigante, toda em susto os meus sais, ai! os meus sais! - nem sei o que isso é, mas consta que é o que se deve dizer nestas situações.

Tudo está bem quando acaba bem:


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Entrada da semana, por Bad Girl

Com o meu agradecimento, porque nada melhor do que começar a semana a rir.

Estive sem Internet em casa dez dias inteirinhos, que o modem entregou a alma ao Criador. Devido aos meus horários insanos (se fosse um querido anónimo, cuja identidade é sobejamente conhecida e
que comenta regularmente no blóguio do Liceu, diria aqui derivado de), agravados pelas férias da minha colega Conceição, foi difícil combinar a vinda do senhor da Netcabo para trocar o defunto.

Mais uma vez ficou provado que os efeitos benéficos do chá não se estendem às engenhocas electrónicas. É que o modem levou com meia caneca em cima. Conto depois. Mais uma das minhas trenguices.

Agora o destaque vai para a Bad Girl.

... que a Luciana Abreu tem, alegadamente, sangue azul.

Posso adiantar em primeira mão que, a ver pelo belo exemplar, hoje a realeza estava toda no Arrábida Shopping.

Banda sonora: Bangles — Manic Monday

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Entrada da semana, por Eskisito

Não sei como foi que me escapou, eu que o leio sempre (na sua publicação irregular) no Google Reader. Mas tocou-me esta homenagem de um miúdo vinte anos mais novo do que eu, que conheço pessoalmente e de quem gosto muito. Raul Solnado deixou marcas.

Sábado, Agosto 08, 2009

Façam o favor de ser felizes

É certo que montes de pessoal morre. Todos os dias. Muitos deles famosos, outros nem por isso. Quase nenhuma dessas mortes me toca. Hoje foi um dia de excepção.
O grande Raul Solnado já não está entre nós. A partir de hoje faz rir anjos e outros que tais. E, ao saber a notícia, senti-me triste. Com razão para tal. Se aprendi o que era humor foi com ele. Muito antes de saber o que era Python ou qualquer outra das minha influências de humor, ouvi Solnado em vinil a descrever uma guerra sem sentido como todas as outras guerras sem sentido. Ouvia ladrões de carteiras de escola e avôs que eram surdos que nem uma porta. Ria-me de piadas que nem sequer percebia porque Solnado fazia rir.
Poucos artistas conseguiram ou conseguirão o que Solnado fez pelo humor em Portugal. Foi ele que começou o Stand Up ainda o Nogueira e o Nilton andavam de fraldas. Foi ele que criou os tempos cómicos mais perfeitos da história. Foram dele as melhores personagens de humor criadas em Português.
Por vezes esquecemos os grandes. A ti, que me ensinaste o que é rir, desejo-te que nunca sejas esquecido.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Entrada da semana, por Luís Mira

No blogue Ié-Ié, de LT

MÃOS RIGOROSAMENTE VIGIADAS

(imagem de Rita Carmo/Espanta Espíritos - BLITZ)

It’s four in the morning, the end of July, I’m writing you now just to say that you’re fine…!

Há muitos, muitos anos atrás a minha masculinidade foi posta em causa pelos meus amigos, por culpa do Leonard Cohen…

Eu explico-me melhor…

Naqueles tempos (finais dos anos sessenta…) era habitual organizarem-se as festinhas de Sábado à tarde nas caves, sótãos ou garagens de amigos. As mães tratavam dos sumos, das sandes e dos bolinhos secos, arrebanhavam-se umas miúdas amigas e amigas de amigas e montava-se a festa…

A estratégia era começar por agitar a malta, e por isso era habitual serem os Creedence, os Doors ou os Ten Years After os primeiros a saltar para arena. Mas quando se punha Leonard Cohen no gira-discos (ou em fita pré-gravada, como era habitual) a mensagem de código estava dada: reduziam-se ao máximo as fontes de luz, as persianas desciam para lá do mínimo imposto pelas mães e sabíamos todos que era chegada à hora do “apertanço”, tacitamente aceite ou deitando-se o barro à parede, que depois se veria…

Para todos menos para mim, que sempre me recusei a utilizar o Cohen para essas operações. Ficava sentado de pernas estendidas a contemplar o vazio (já na altura…) e a beber sofregamente essa música que parecia surgir das brumas e das sombras. Enfeitiçado por aquela voz, aquele tom único do dedilhar da viola. E nem o facto de só a muito esforço ir conseguindo desbravar o sentido daquelas letras me preocupava minimamente. Aquele som bastava-me, tal como me bastava o som de muitas canções irlandesas cujo dialecto próprio as tornava, para mim, absolutamente intraduzíveis. Ou como me bastaria, muitos anos mais tarde, o mistério das vozes búlgaras…

Em boa verdade, não conseguia ouvir Cohen de outra maneira, o que dava azo a alguns comentários sarcásticos por parte do resto da maralha. Não que não me soubesse bem ouvi-lo com uma boa companhia ao lado… Mas com mãos rigorosamente vigiadas. Uma simples festa no cabelo seria mais que suficiente…

Quarenta anos se passaram e eu não mudei em nada. Continuo sentado no meu lugar a escutar. À minha volta as pessoas agitam-se. Há um bambolear de ancas, pezinhos que se mexem… Palminhas, gritinhos estridentes, braços esvoaçando pelo ar em sinal de grande satisfação…. E os antigos isqueiros na escuridão são agora substituídos pelos telemóveis e pelos irritantes flashes das modernas máquinas de filmar/fotografar. Pobre Leonard!

LC faz parte daquele muito reduzido grupo de pessoas que são absolutamente indispensáveis na minha vida, e cujo desaparecimento, um dia, me deixará um profundo vazio. Como aqueles Amigos que, estando longe, estão sempre bem dentro de nós, mesmo quando damos a sensação de os acolher sem grande afectividade. Chorarei, com certeza, no dia em que partir...

E durante muito tempo se pensou que LC tinha, de facto, partido. Não da vida, porque o sabíamos ocupado com outras coisas. Mas das lides… Ao ponto de, a determinada altura, eu próprio ter dado comigo a imaginar a sedutora teoria de que Cohen, esse homem de palavras, se tinha despedido de nós com um instrumental: o belíssimo “Tacoma Trailer”, última faixa de “The Future”. Como se a sua voz se tivesse desvanecido no piano/cravo e o pudéssemos imaginar de costas a sair de cena pela estrada fora, como no final de um filme do Charlot. É que entre “The Future” (1992) e “Ten New Songs” (2001) passaram nove anos, uma eternidade que nunca antes se tinha verificado entre discos.

Mas ainda bem que a minha brilhante teoria saiu furada. Tanto “Ten New Songs” como “Dear Heather” são bons discos - talvez mais aquele do que este – embora não cheguem aos calcanhares das minhas jóias da coroa, que são os três primeiros. Os seus críticos acusaram LC de se ter deixado manietar pelas mulheres (Sharon Robison no primeiro caso, Anjani Thomas no segundo), como já antes o fora por Phil Spector no “Death of a Ladies’ Man”. E de ter deixado a sua música ser invadida por uma batida jazzy de elevador e por coros femininos delicodoces. Mas esqueceram-se de duas coisas: que manietado pelas “ladies” sempre ele o fora; e que magníficas vozes femininas existem desde o seu primeiro disco, nesse longínquo ano de 1967. Muito antes dos tempos da Jennifer Warnes…

Se as minhas contas não falham, é a quarta vez que LC se apresenta em Portugal. Cascais primeiro, depois no Coliseu nos finais dos anos oitenta e no ano passado em Algés. Só este último falhei, porque valores mais alto se levantaram.

Dos dois primeiros concertos guardo a excelente memória de um LC em grande forma e de uma muito ligeira e agradável tonalidade “Country” dada a muitas das canções dos primeiros tempos, como se Cohen se tivesse lembrado que foi precisamente num grupo “Country” – os “Buckskin Boys” – que começou a sua aventura musical. Ainda andei, na altura, à procura de “discos pirata” que o tivessem captado ao vivo nessa fase, mas não encontrei nada, embora essa batida se sinta de passagem em algumas músicas do documentário da BBC “Songs From The Life of Leonard Cogen” (1988), que teve edição em vídeo entre nós.

Para o concerto de ontem, as minhas expectativas eram muito baixas. Bastava-me ter visto que o recente “Live in London” tem apenas cinco músicas (num total de vinte e seis…) anteriores a “New Skin….” para ter percebido que não faço parte do “público alvo” deste espectáculo…

O que é que eu hei-de dizer…? Que o concerto seguiu, quase na integra, o alinhamento do de Londres? Que esteve a milhas dos dois concertos anteriores que tinha visto? Que a voz de Cohen, lá do alto dos seus quase 75 anos, já não está, propriamente, “like it was before”? Que as tais vozes femininas nem sempre me apareceram tão afinadinhas como se poderia esperar? Que os seis músicos que o acompanharam me pareceram competentes mas, por vezes, demasiado exuberantes (mas havia que fazer descansar a voz de LC…)? Que algumas canções foram completamente assassinadas (“Suzanne”, por exemplo …)? Que o Pavilhão Atlântico não é local onde mais desejaríamos assistir a um concerto de LC? Que os urros da assistência me irritaram solenemente? Mas não sejamos assim tão derrotistas, porque momentos bons também os houve: ver LC em tão boa fora, aos saltinhos pelo palco; “Tower of Song”, com o coro a funcionar na perfeição, em especial a menina da boina com os cabelos (des)cuidadamente espalhados pela face, que também toca harpa; “Take This Waltz”; “Boogey Street”, mas aqui os créditos vão, inteirinhos, para a excelente voz de Sharon Robison.

Mas, em boa verdade, borrifo-me em tudo isso. O que eu queria mesmo era poder rever LC, antes de morrermos os dois… E não posso, egoisticamente, deixar de reconhecer que foi bom que tivessem continuado na penumbra, e não assim devassadas em público, algumas das pérolas mais escondidas da minha especial predilecção: “The Stranger Song”, “One of Us Cant Not be Wrong”, “The Old Revolution”, “Why Don’t You Try”, cujo final é o melhor pedaço instrumental da obra de Cohen, para além da referida “Tacoma Trailer”; “If it Be Your Will”, “The Guests” …

E sabe tão bem ver Leonard Cohen …

I guess that I’ll miss you, Leonard, e por isso vou ter de ser muito mauzinho… Desejo que, algures, um produtor, um manager ou um simples contabilista te volte a ir à carteira e te obrigue a voltar à estrada. Sei bem que só assim poderei ter o prazer de te rever…

Not for just an hour
Not for just a day
Not for just a year
But always

Sincerely,

Luís Mira

PS:

Nestes tristes tempos, já nem sequer os bilhetes dos espectáculos têm a personalidade dos do antigamente...!

P.S. meu: Pois não Luís, pois não!




quarta-feira, 22 de julho de 2009

Entrada da semana, por Bad Girl

Do blogue Bad Girls Go Everywhere

Está bem que levaram o homem à lua. Mas lá que ele continua a não saber onde fica o ponto G, lá isso continua...

Banda sonora: Bruce Springsteen — Janey Don't You Lose Heart

(andava há séculos para pôr esta música aqui, é agora; apropriada, não é?)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Entrada da semana #2, por T

Publicada pela T no blogue colectivo Dias Que Voam, esta entrada teve um sucesso retumbante, com animadíssima troca de comentários.

A T tem paixão por revistas antigas e passa a vida a escarafunchar em alfarrabistas e na Feira da Ladra, proporcionando-nos todos os dias memórias muito antigas que sabe bem revisitar.

«O Estranho Caso Da Jovem Marília

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Era uma fotonovela a cores, publicada na revista Eva de Janeiro de 1967. Nela se contavam as desventuras de Marília, grávida e solteira, que frustou os seus intentos de se afogar na praia de Algés. O ritual é interessante: apanha um autocarro verdinho da Carris e depois placidamente entra na água. Como é salva, evacuam-na num carocha a velocidade fulgurante.

A fotonovela teve um fim feliz, pois claro...

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domingo, 5 de julho de 2009

Entrada da semana #1, por Safira

Esta semana temos duas entradas, ex-æquo.


Eis a primeira, no blogue House of the Rising Cats, sobre esse grande escritor da nossa praça que dá pelo nome de José Rodrigues dos Santos. Concordo com tudo o que a Safira escreveu sobre o livro em análise (excepção feita à sua observação sobre as descrições que Eça, o grande Eça, Eça-o-Único, faz do Ramalhete) e vou mais longe, que detectei um disparate medonho que a ela parece ter escapado.

Logo no início do livro, o protagonista desloca-se a Nova Iorque para ouvir a proposta que têm a fazer-lhe, e que será muito generosamente remunerada. O herói, sempre à frente do seu tempo, faz as contas em euros, o que é notável, se considerarmos que estamos em Janeiro de 2000, altura em que ainda nem sequer a cotação da nova moeda (que só entraria em vigor em 2002) era conhecida. E cheira-me que até os valores que ele refere estão errados, que tenho ideia de que o dólar estava bem alto nessa época...

«O grande vazio...

Nota prévia:
Quem gostou do livro CODEX 632, por favor não leia o post, sou tudo menos boazinha.
Quem não leu o livro, por favor tome em consideração que revelo partes da trama.
Posto isto, bombs away!

Tenho lido, com crescente irritação (e franca embirração a partir de certa altura) aquele que me foi 'vendido' como um incontornável da nova literatura portuguesa. Acabei hoje, louvado seja o Altíssimo. Depois disto, qualquer assinatura do diário de Maria é bem-vinda. PUAHHHHHHHHHHHH!!! é o meu comentário final.

Não me queria alongar muito mas, mesmo pondo aqui só os pontos fundamentais, receio que vá resultar num grande ensaio... Cá vai:

1) A linguagem 'popularucha'.
Expressões como ''avançar com os carcanhóis' ou 'deu com as trombas na América', podem fazer sorrir muitas pessoas, mas a mim irritam-me, especialmente se tivermos em conta que são proferidas por um professor de faculdade, e escritas por um jornalista, igualmente professor, que tinha obrigação de elevar um pouco mais a língua de Camões. Penso eu de que...
Mas tenho de tirar o chapéu porque o palavrão, sendo feio, vende, e o autor soube ir rebuscar um americano com origens brasileiras para nos poder, justificadamente, brindar com os providenciais 'motherfucker' e 'fucking isto' 'fucking aquilo' que, como todos sabemos, acrescentam imenso interesse à narrativa.

2) O 'encher chouriços'
Não se aguenta o adjectivar excessivo e a excessiva descrição de cada cena, o debitar de informação a propósito de tudo e coisa alguma, desde a trissomia 21 à linguagem das flores, das diversas variedades de chá verde à mitologia grega, o Tomás (AKA JRS) é o maior, o Tomás sabe de tudo. Eça, só houve um, meu caro senhor, e mesmo esse chegava a ser chato com o seu Ramalhete visto a microscópio digital.

3) A imprecisão científica
Não serei especialista, mas achei estranho que, numa passagem na quinta da Regaleira (Sintra), o nosso herói conseguisse, AO MESMO TEMPO, descortinar 'os pintassilgos que trilavam com exultação, envolvidos num intenso duelo de resposta ao arrulhar baixo dos beija-flores e ao gorjear melodioso dos rouxinóis'. Um rapaz de sorte, este Tomás... conseguiu a meio da tarde ouvir um rouxinol (que só canta ao anoitecer) e um beija-flor, que, tanto quanto eu saiba, nem sequer existe em Portugal.

4) o fazer do leitor estúpido
Foi o que mais me irritou. Mesmo. Não sou criptanalista, como o amigo Tomás, mas não precisei de mais de cinco segundos para chegar à conclusão que 'MOLOC' seria 'COLOM'. Ele precisou da página 80 à página 112...mas façamos justiça ao homem, ele assume que é bronco: 'andei eu para aqui a matar a cabeça como um tolinho quando, afinal, na primeira linha bastava ler tudo da direita para a esquerda'. pois... DUHHHHHHHHH, Tomás!!!!

5) o fazer do leitor mais estúpido ainda
Na pág. 233 surge mais uma charada complicadíssima: 'Qual o eco de foucault pendente a 545?'. Ora admito que nem toda a gente conhece o Umberto Eco, mas há pessoas que por acaso até sabem que ele escreveu 'O pêndulo de Foucault' e, logo, se sentem INSULTADAS quando um pretenso professor universitário, historiador e criptanalista, leva quase 100 páginas a ler livros de um outro Foucault que nada tem a ver com o caso, para, OH CÉUS!!, ter uma inspiração súbita e ir, por fim, ao livro certo consultar a pág. 545. Que é inconclusiva (e no caso do meu livro, até inexistente, mas vou admitir que a cópia do Tomás tenha sido escrita a caracteres maiores e tenha de facto pág. 545...) e que mergulha o herói numa dolorosa inquietude até ter mais um rasgo de génio e chegar finalmente à conclusão que o estúpido livro está dividido em capítulos, e depois em subcapítulos. Hello??? 545= cap. 5, subcapítulo 45. Não leu a Bíblia, o menino Tomás??? Tipo Livro de Job 3:27? Por amor de Deus!!!

E, para que não estejam a pensar que me estou a armar 'ah obrigadinha, já conheces o livro' pois que não. Foi a primeira vez que o abri. Nem conhecia a estrutura, tão pouco. Mas cheguei lá. Deve ser porque não sou historiadora nem criptanalista...
Mas convenhamos que é chato o leitor estar a fazer compasso de espera até que o autor se decida avançar porque já toda a gente sabia que o Colombo era um judeu português antes de o Tomás sequer saber em que livro é que isso está escrito. Apre, Zé, não se aguenta!

E muitas mais cousas me irritaram, desde a historieta familiar de suporte à trama, com a trissomia da miúda, que depois ainda morre no fim, a puxar ao sentimento, os dilemas morais de trair a mulher (uma página de dilema, apenas, curiosamente...) com a sueca pulposa, providencialmente caída na sala de aulas dele (euh... hello, amigo Tomás, a tua estupidez é natural ou foi uma arte que aperfeiçoaste? Pois não era de ver que a loura bombástica tinha algo a ver com os americanos, homem de Deus?? Achas que há suecas ninfomaníacas com peito 44 a querer estudar escrita suméria em Lisboa?

Salvam-se deste desastre os factos históricos (curioso como a linguagem é muito mais técnica e formal, apesar de ser sempre o Tomás, o bronco, a relatar... hum...bizarra a incongruência, não?).
É um facto que recordei factos e aprendi uns novos (presumindo que são verdadeiros, mas quem é que me prova isso?) mas, a verdade é que ficamos todos mais ou menos na mesma. É um facto que Colombo é um mistério, mas não era preciso D. José Rodrigues dos Santos, o Salvador, andar com tanto floreado para vir repor a 'verdade' dos factos e deixar no ar que o homem era alentejano. Já outros antes dele o fizeram. Temos é de dar-lhe o mérito de ter acrescentado que há uma conspiração de americanos com ascendência genovesa para encobrir tudo.
Claro que sim!»

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Entrada da semana, por Luna

É um dos meus blogues de eleição, e não só por ser um dos primeiros que comecei a acompanhar, que boa parte desses perdeu-se pelo caminho, uns de morte natural, outros porque foram ficando cada vez menos cativantes (como este meu, que não interessa nem ao Menino Jesus). Na altura em que o descobri, o Crónicas das Horas Perdidas ia em quase dois anos de existência intensa e de muita, muita escrita, e escrita de grande qualidade. Viria a devorá-lo inteiro, metodicamente, mês após mês, entrada a entrada. Não era bisbilhotice, era meramente interesse por esta pessoa singular, tão próxima de mim às vezes, tão distante noutras, mas que dizia coisas que me interessavam, que mexiam comigo. Uma miúda, quase vinte anos mais nova do que eu. Numa simbiose que desde o princípio me cheirou a verdade (porque há blogues em que farejo com instinto infalível a imposturice), escrevia de jacto. Reflectia sobre as coisas à sua volta, sobre si (sempre com notável contenção, como gosto)... e logo a seguir era humana e tinha embirrações (Scarlett Who?).

Não vou fazer o desnecessário panegírico da Luna, que o blogue dela está entre os cem mais lidos, diariamente — grande mérito, para um cantinho tão intimista. Destaco apenas esta entrada, com a qual me identifico por inteiro. Eu podia ter escrito isto, os nomes teriam sido provavelmente outros (cada vez vou tendo menos tempo para a blogosfera, não conheço, mea culpa, boa parte dos que ela cita e que são, seguramente, a visitar) :

As minhas bloggers

«Gosto mais de blogues femininos do que masculinos, e, neste mundo virtual, a maioria das pessoas por quem nutro uma admiração especial são mulheres. Ao contrário dos homens, salvo raras mas notáveis excepções, que geralmente escrevem por exibicionismo intelectual e pelo reconhecimento público do seu brilhantismo, sem nunca entrarem muito no campo do pessoal, as mulheres escrevem sobre elas, dão-se, mostram-se, abrindo-nos o seu mundo e vivências numa enorme generosidade. Mostram-nos o que são, e não a projecção do que gostariam de ser. E isso aproxima-nos delas, na sua humanidade e imperfeição, e acabamos por gostar da pessoa por trás do blogue, e não apenas do que escreve enquanto blogger. E de entre tantas, há as que me marcaram especialmente e que continuo a ler religiosamente, quase como se fosse a primeira vez.

Tal quanto a amizades na vida real, sou conservadora relativamente às predilecções nas leituras, e os blogues que sigo são na maioria os mesmos que sigo há anos. Costumo dizer, em tom de brincadeira, que demoro cerca de dois anos a tornar-me amiga de alguém - com excepção do estrangeiro, que o exílio aguça a carência de proximidade -, embora depois seja para sempre. O mesmo se passa com os blogues, raramente me deixando entusiasmar por novidades excitantes, que tantas vezes acabam ao fim de poucas semanas.

Um blogue só ganha realmente alma com a constância e alguma maturidade. É fácil criar um num momento de inspiração, já mantê-lo requer dedicação, coisa que reconheço e a que dou valor. Não que eu seja constante, que não sou, mas já se sabe, bem prega Frei Tomás, faz o que ele diz, não faças o que ele faz. Acho que sou assim uma espécie de blogger bipolar, que tanto passa por períodos de seca sem nada que postar como depois não consegue parar. Felizmente os dois vão alternando com regularidade q.b., suficiente para não deixar o blogue morrer.

Quando comecei a escrever, há coisa de quatro anos e meio, fi-lo mais ou menos por imitação da minha amiga Raspa, que tem um blogue lindíssimo, delicado, de uma sensibilidade tocante e enorme subtileza, onde se tem de entrar em biquinhos de pés, com cuidado para não partir, como se se tratasse de uma caixinha de porcelana. Foi por causa dela que me aventurei a criar o meu, e dei os primeiros passos na escrita.

Por essa altura, algumas mulheres marcavam já a blogosfera com a sua escrita, personalidade e irreverência, sendo os seus blogues os primeiros que li e segui, amores à primeira vista, as minhas primeiras paixões, salvo seja. São a Charlotte, a Vieira e a Rititi, todas diferentes, com estilos inconfundíveis, e que, goste-se ou não, deixam uma marca indelével na blogosfera lusa. Depois vieram outras, que fui descobrindo com agrado ao longo do tempo e que continuo a ler. Lembro o assombro que foi descobrir a Ana de Amsterdam ou a Menina Limão, dona do blog mais bonito da blogosfera. Ou a elegância da Laura, a sobriedade da Sara, o charme tropical da Mónica. Como foi rir-me com as aventuras da Pipoca e da adorável Kitty Fane, ou com a recém descoberta Dra. Muxy-Muxy. E como foi um prazer conhecer pessoalmente a Carlota, a Sinapse, a Dinada e a Teresa. E depois, claro, há os blogues das minhas amigas, mas essas não precisam de um para que lhes guarde um imenso carinho.»

domingo, 31 de maio de 2009

Entrada da semana, por Músico Guerreiro, aka Melões

aka Coveiro...

Com a sensibilidade e a lucidez que fazem dele uma pessoa tão especial:

Pronúncia do Norte

Se há coisa de que não me envergonho, é da minha pronúncia do norte. O português que se fala no norte não tem preconceitos. Encontra expressões alegres e honestas e transforma os palavrões em afectos.

Julgar pessoas pela pronúncia é estúpido. O português do norte não é mais rude, é diferente. As vogais mais abertas, os ditongos mais alongados e rasgados. É uma pronúncia mais próxima do galaico-português que deu origem ao nosso riquíssimo idioma. Afinal a influência árabe não foi tão sentida no norte e portanto estas gentes não importaram os sons nasalados e fechados que se falavam mais a sul.

Um país que nega e ridiculariza as suas pronúncias, ou que as categoriza em diferentes status, é um país que nega a riqueza da diversidade. Infelizmente em Portugal é assim.

Quantas vezes um repórter ou jornalista em Portugal fala com a pronúncia do norte, ou do Algarve, ou Alentejana, Beirã para não falar das ilhas?

Basta ouvir o noticiário da BBC e as pronúncias do país aparecem, lindas, únicas. Uma das apresentadoras do tempo do “BBC breakfast” fala-nos com a sua pronúncia escocesa, como não há problema ou crítica em apresentar documentários com pronúncias de York ou Belfast.

Ouvindo-se tudo, deixa de criar-se imagens, imagens de que as pessoas do norte são ignorantes, parolas, tacanhas, boçais. Também as há como há no resto do país mas é incrível como quando querem entrevistar alguém no Porto, encontram sempre o senhor de camisola sem mangas e grande corrente ao pescoço com a música pimba aos berros e que dá pontapés na gramática.

O que o país faz, principalmente os meios de comunicação, é empobrecer o português, torná-lo pobre nas expressões e palavras e sons.

Eu sei como peço um pingo, um lanche ou um molete no resto do país, e se precisar de uma sertã nova, de pedir cruzetas no quarto do hotel, substituir o aloquete, também o sei fazer em qualquer parte do país. E se o vermelho é mais piroso do que o encarnado, quem o decidiu? Encarnado não se usa no norte mas todos sabemos o que quer dizer. Para nós encarnado é o Cristo. E gosto de ter pessoas à minha beira se bem que não me importo de as ter ao pé de mim.

Tacanhez não é falar com pronúncia do norte ou doutra qualquer região. Tacanhez é acreditar e defender que há um português correcto e negar ao país outras pronúncias e expressões, ridicularizar quem as tem, tornando assim esse português mais pobre.



quinta-feira, 21 de maio de 2009

Entrada da semana, por Rato

7.02.1935 — 21.05.2009

Eu não poderia tê-lo homenageado melhor. O Rato disse tudo. E devo-lhe muito, a João Bénard da Costa.

João Bénard da Costa foi sempre um “cinefils”, um filho do cinema. Os pais iam ver filmes todos os sábados, uma prima anotava-os, toda a gente lhe contava enredos, e ele próprio começou cedo a ir sozinho.

Mas a “cinefilia aguda” só se desenvolve a partir de 1969. «O Cinema, até entrar para a Gulbenkian, não tem um lugar muito importante na minha vida. É uma coisa de que gosto muito, como de literatura, pintura ou música, sobre a qual escrevo ocasionalmente, mas não é exclusiva — até é relativamente marginal nos anos 60, uma música ao longe.» (revista “Pública”, 2001).

O que acontece em 1969 é que Bénard vai organizar a secção de cinema no serviço de Belas Artes da Gulbenkian, com ciclos que hão-de marcar milhares de espectadores.

Que os havia, e muitos, nesse Portugal de interditos, provou-se logo na primeira sessão, em 1973, com “Roma, Cidade Aberta” apresentada pelo próprio Rosselini. Em cima da hora a censura ainda quis actuar, mas conteve-se por o realizador já estar em Lisboa. Tendo dormido e até ressonado na sessão — porque detestava rever os próprios filmes —, Rosselini acordou com uma ovação de 10 minutos, entre gritos de “Abaixo o fascismo!” e “Liberdade! Liberdade!” Henri Langlois, o mítico director da Cinemateca Francesa, estava lá, e viu nessa explosão a emergência do 25 de Abril.
Foi também nesse ano que João Bénard começou a ensinar Cinema no Conservatório. Só deixou de dar aulas em 1980, quando — a convite de Vasco Pulido Valente, então secretário de Estado da Cultura — entrou para a Cinemateca Portuguesa como subdirector. Em 1991, sucedeu a Luís de Pina na direcção, até hoje.
Ao todo são quase 30 anos de trabalho que, além de criarem o Arquivo Nacional de Imagens em Movimento, fizeram da casa lisboeta uma parceira de Paris, Bruxelas, Madrid, Lausanne ou Helsínquia em inúmeros ciclos, capaz de trazer cineastas como Claude Chabrol ou Jean-Marie Straub e de cruzar na programação actores, fotógrafos, artistas plásticos ou escritores.



O que Bénard escreveu em livros, catálogos e incontáveis “folhas-de-sala”— sobre Buñuel, Lang, Sternberg, Hawks, Ray, Hitchcock, Mizoguchi, Dreyer, Renoir, Oliveira, Buñuel, Capra, Godard, Bergman, Lynch, Cronenberg ou César Monteiro — representou para muita gente toda uma nova possibilidade de ver cinema, e dentro dele a infinita possibilidade humana.
Depois, nos anos 90 de “O Independente”, esse universo fundiu-se com a própria vida de Bénard em crónicas que alternavam “Os Meus Filmes da Vida” com “Os Filmes da Minha Vida”.
Quem, entre os que o leram, não sabe como se apaixonou por Esther Williams ou Alida Valli (e Gene Tierney?, e Anna Karina?, e a Isabella que a Ingrid Bergman teve com Rosselini?)
Quem consegue pensar em “Johnny Guitar” sem pensar em João Johnny Bénard (que sobre este filme mil vezes disse “Porque era ele, porque sou eu”)?
Como Godard, Bénard acreditava que não há o mais belo dos filmes, porque 100, 300 ou 500 são, naquele momento, o mais belo dos filmes.
(Alexandra Lucas Coelho in PÚBLICO)

«Muitas vezes ouvi a banda sonora de Johnny Guitar sem ver as imagens. Tudo vem, por acréscimo, toda a memória do filme se repovoa. Mas, para que isso suceda, é preciso haver memória, é preciso ter-se visto o filme. Se é verdade que Johnny Guitar é também uma ópera, não o é menos que está dependente daquela única e irredutível mise en scène.
(...)
Johnny Guitar não se explica. Conta-se (vê-se) outra, outra e outra vez como as histórias que se contam às crianças, até que tudo se saiba de cor e se aprenda que tudo está certo nelas. É a Imitação de Cristo dos cinéfilos. Basta abrir-se ao acaso e encontra-se a frase certa. Basta ver pela sexagésima oitava vez e encontra-se a resposta certa para o que se está a viver.»
(in "Os Filmes da Minha Vida / Os Meus Filmes da Vida", Novembro de 1990)


quarta-feira, 13 de maio de 2009

Tem prémio! Entrada da semana, por João Gaspar

Está decidido: às quartas-feiras, mais coisa menos coisa, hei-de eleger a minha entrada favorita na blogosfera, sendo que, muito provavelmente, darei preferência à que mais me tiver feito rir. O Last Breath, que acompanho há mais de dois anos, é o merecido vencedor da estreia desta nova rubrica. Já aqui tinha referido duas outras pérolas dele — espreitem, que vale a pena.

A publicação do João é do mais irregular e caprichoso que há. Ora, como hoje, são várias entradas no mesmo dia, ora passa dias e dias sem escrever uma linha. Mas eu leio-o sempre. Aqui fica a minha favorita desta semana.

via sacra

e fazer a nacional número um de carro é uma aventura todos sabemos. fazer a nacional número um no dia 12 de maio é especialmente divertido e, não obstante, assustador. na nacional número um há um jogo muito giro que é o (uma espécie de jogos sem fronteiras para amortecedores). a 12 de maio há ainda o desvia do buraco (uma espécie de jogos sem fronteiras para amortecedores). a 12 de maio há ainda o desvia do peregrino. o desvia do peregrino faz mal ao desvia do buraco. há que decidir entre um e outro. pessoalmente prefiro os buracos, que sempre fazem menos mal aos olhos. mas neste momentos, o respeito pela vida humana e pelo pára-choques relega a suspensão de um automóvel para segundo plano (cerca de 10 centímetros abaixo do plano normal do asfalto). e um gajo lá se desvia do peregrino. e é neste momento que, por impossibilidade física da nacional número um, o desvia do peregrino se transforma inevitavelmente no acerta no buraco. meus amigos, fiz prestações altíssimas no acerta no buraco. ao nível de um tiger woods ou um rocco siffredi. peregrinos deixei-os todos intactos* (aquilo nos joelhos não fui eu, juro). já as jantes do meu carro, um poço de lacerações a esconder hemorragias internas.


* aliás, coincidi com vários grupos de peregrinos numa bomba de gasolina onde parei para - adivinharam - tomar café. perguntei se queriam boleia. não quiseram. mas rimos muito. espero que tenham chegado bem e que não tenha chovido, porque o pavio molhado não deve fazer o mesmo efeito.