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terça-feira, 25 de março de 2014

Post a pedido


Na caixa de comentários do post anterior, a Margarida pedia para ver melhor o quadro de Fernando Pessoa que aparecia de esguelha na imagem, e é com todo o gosto que lhe faço a vontade.

Uma espécie de "Magritte meets pintura naïf", é uma tela muito pequena (30x30 cm) que encontrei em tempos nesse sítio mágico que é a minha adorada Livrarte, a livraria da Av. do Uruguai que também é conhecida como "livraria do gato à porta". Esperançada, perguntei à dona da livraria se não faria parte de uma série, já a imaginar-me a ter também retratos de Eça de Queiroz, Proust e Oscar Wilde. Mas não. Não só a tela era filha única como a autora (que assina Af., e de quem vi mais trabalhos) estava irremediavelmente doente.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Update on Giuditta Pasta

Lembram-se da Pasta, a encantadora gatinha a quem tentámos encontrar um lar e afinal prefere viver nas ruas, ao deus-dará?

Pois o Inverno vai avançando e eu e a Teresa continuamos preocupadas com ela. Mais nos preocupámos durante umas semanas em que ela andou muito esquiva, já sem a explosão de alegria a que estávamos habituadas quando nos via, a correr para nós e a miar em resposta aos cumprimentos que lhe fazíamos. Durante uns tempos a nossa Pasta andou muito assustadiça, permanentemente alerta, sem confiar em nós como antes. Deduzimos que alguém poderia ter-lhe feito mal e isso cortou-nos o coração. Com o passar dos dias, lá a fomos reconquistando, e voltou à sua natureza confiante e meiga. 

Na semana passada, ao subir a rua a caminho do restaurante, num  lindo dia de sol, levantei os olhos e foi impossível não me escangalhar a rir, deliciada. A nossa tonta Pasta estava tranquilamente adormecida no estreitíssimo peitoril de uma varanda, saboreando o sol cálido.


E lembrei-me do curto poema de Fernando Pessoa que há muito, muito tempo, tinha eu 15 anos, foi o tema de um ponto (era assim que lhe chamávamos). Vergílio Ferreira mandou-nos dissertar sobre aquele gato que brincava na rua durante os 50 minutos da aula. Eu escrevi e escrevi e escrevi. E Vergílio Ferreira deu-me a melhor nota da turma, dois ou três valores acima da segunda melhor. Quando tocou a campainha para o intervalo (céus, que saudade daquele toque!) e todos nos levantámos, eu da carteira isolada para onde me tinha desterrado tempos antes, farto da minha tagarelice com os vizinhos, chamou-me secamente com um aceno: «Tu, vem cá! Quero falar contigo.» Essa conversa, que durou todos os dez minutos do intervalo, guardo-a comigo como um tesouro precioso.

No ano seguinte viria a almoçar muitas vezes com ele no refeitório e só então, quando já não era sua aluna, passou a tratar-me por Teresa. Conversávamos muito, eu divertia-o. Acolheu a rir os meus desabafos exasperados sobre Viagens na Minha Terra e sobre Amor de Perdição, acolheu também o meu deslumbramento com Os Maias. E com Cesário Verde. E com Antero. Eu era então, como continuo a ser, uma tagarela incurável. E ele achava-me graça, pronto. Provavelmente já achava no tal dia em que me exilou para aquela carteira junto à porta, da qual eu via através do vidro as folhas do plátano em frente.

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.


És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.


Banda sonora: Andy Williams - Born Free
(do grande John Barry. Oscar para a melhor canção, Oscar para a melhor partitura original)

domingo, 30 de novembro de 2008

Dois Gigantes

Oscar Wilde

Fernando Pessoa

Faz hoje oito anos que este retrato foi tirado.

Havia já muitos anos que tinha prometido a mim mesma que estaria no Père-Lachaise no centenário da morte de Oscar Wilde, à hora exacta a que partiu deste mundo, já contei a história aqui. Sim, fui a Paris de propósito. Há doidos piores...

Volto a proclamar a minha gratidão eterna à Dr.ª Teresa Monteiro, a quem devo a qualidade do meu inglês e a minha desmedida paixão por Oscar Wilde e por Teatro. Nem sabia ela no que se metia ao pôr-me a ler The Importance of Being Earnest, de Oscar Wilde, e Look Back in Anger, de John Osborne, tinha eu 16 anos. A culpa é sua, querida Dr.ª Teresa! Esta semana vou mandar-lhe um retrato que eu e o Vítor tirámos em Londres há dias. Tenho a certeza de que vai lembrar-se imediatamente dele! — foi seu aluno no sexto ano.

O segundo Gigante que morreu nesta mesma data, trinta e cinco anos mais tarde, é Fernando Pessoa, que devo a outro grande Gigante, que tive a honra e o privilégio de ter como Professor: Vergílio Ferreira.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Fernando Pessoa — 120 anos hoje


Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma,
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto…
Sim o resto parece-se apenas com a vida.

Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
E não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.

Fumo, sonho, recostado na poltrona.
Dói-me viver como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das coisas
Onde sofrer seja uma coisa mais suave,
Onde viver custe menos ao pensamento,
E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
Nem no dia do mês ou da semana que é hoje.

Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente espontâneo,
Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta,
Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.


Sempre achei que a classificação do espólio de Fernando Pessoa tinha aspectos questionáveis. Sempre tive a convicção íntima e secreta de que este maravilhoso poema, que há muitos anos sei de cor e pelo qual cheguei a ter verdadeira obsessão — como pela obra dele, de resto — era de Álvaro de Campos. Pouco importa.

Fernando Pessoa, um dos homens da minha vida, nasceu no ano em que também Os Maias, a obra imortal de Eça, viu a luz do dia. Por volta dos vinte cinco anos, e depois de algumas contas, descobri que já devia ter lido Os Maias mais de cem vezes. Nem me atrevo a arriscar o número presente. O mesmo acontece com Fernando Pessoa, sobretudo com os heterónimos Álvaro de Campos e Alberto Caeiro. Nunca vou de férias sem levar os dois. Idem para Os Maias. E para Oscar Wilde. E para, pelo menos, um volume de À la Recherche du Temps Perdu. E costumam estar sempre todos à minha cabeceira.

Acresce que não será exagero dizer que Alberto Caeiro, há muitos anos, numa noite inesquecível, me salvou a vida.