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terça-feira, 27 de janeiro de 2015

27 de Janeiro de 1945 - Libertação de Auschwitz

O texto que se segue foi inicialmente publicado no Delito de Opinião
em Abril de 2011, a convite do  Pedro Correia. 
Repito-o porque hoje se cumprem 70 anos sobre a libertação de Auschwitz. 
Como música de fundo, o Requiem do meu muito amado Mozart. 
Porque faz hoje 259 anos que Mozart nasceu.



O Gato de Janeiro

Nunca esquecerei o dia 24 de Janeiro de 2009. Foi o dia em que cumpri a promessa, antiga de muitos anos, de prestar homenagem aos cerca de três milhões de vidas que pereceram em Auschwitz. Três dias antes do 64.º aniversário da libertação do campo, a 27 de Janeiro de 1945.

A lista de nomes ilustres que por lá passaram ou lá perderam familiares é infindável (os pais do grande Billy Wilder, por exemplo, morreram em Auschwitz). Mas um nome ressalta, luminoso, a simbolizá-los a todos. O nome de uma adolescente de apenas quinze anos cuja voz cristalina continua a ecoar e a lembrar-nos que aquela tragédia aconteceu, que o Holocausto foi uma realidade: Anne Frank. O destino fez com que Anne Frank não se salvasse por muito pouco, por duas vezes, como que querendo que o seu diário (que, muito provavelmente, nunca teria vindo a público, tivesse ela sobrevivido) proclamasse para todo o sempre a infâmia, como um dedo acusador e indesmentível para toda a eternidade. O comboio que a transportou para Auschwitz foi o último a sair da Holanda com destino aos campos; Anne morreu no princípio de Março de 1945: se tivesse ficado em Auschwitz teria, possivelmente, sobrevivido; mas o exército vermelho avançava, vindo de Leste, e algures entre o fim de Outubro e os primeiros dias de Novembro de 1944, Anne e a irmã, Margot, foram levadas para Bergen-Belsen, mais a Ocidente, já na Alemanha. Recomendo a todos o extraordinário documentário Anne Frank Remembered, vencedor de um Oscar em 1995. Quando for a Amesterdão (que não conheço) hei-de visitar a casa-museu de Anne Frank. Outra peregrinação.

Ao contrário do que sucedeu em Dachau, há oito anos, desta vez fiz fotografias. Muitas. É que aquilo não pode ser esquecido. NUNCA. E levava uma incumbência. Pôr uma pedra (Os Judeus não põem flores, põem pedras) em memória do bisavô materno de um amigo, senhor respeitadíssimo e de rara erudição, de quem ele herdou um dos nomes, que morreu em Auschwitz, bem como quase toda a família desse lado, originária da Polónia. Recolhi em Auschwitz I uma pedra que depositei depois em Birkenau (Auschwitz II). É que o fim da linha de comboio, a linha de pesadelo que para entrar no campo passava por baixo daquela torre sinistra, ominosa, que visita às vezes os meus pesadelos como símbolo absoluto do Mal, era em Birkenau. Logo ali, junto à plataforma, eram feitas as selecções. Três quartos das pessoas seguiam directamente para a câmara de gás, só o quarto restante era usado (por tempo incerto e, quase sempre, muito breve) como mão-de-obra escrava. Para as crianças, os idosos e os deficientes Birkenau era o fim da linha, a morte imediata.



O Gato de Janeiro apareceu-nos numa manhã gélida, logo à entrada do campo, a seguir ao medonho letreiro de ferro que diz que o trabalho liberta. Baixei-me, ficámos uma eternidade em mimos, cócegas nas orelhas e no pescoço, ele a dar-me encorajadoras marradinhas nas pernas. Quando tentei despedir-me atirou-me uma sapatada certeira à bainha das calças, a puxar-me, acompanhada de um miado dengoso. «Não vás já embora! Quero mais mimo!» era a única interpretação possível para aquele gesto imperioso. Na atmosfera opressiva do campo, em que se fala baixinho, num sussurro respeitoso pelos horrores passados, aquele encontro cheio de afecto foi como uma pequenina clareira de sol ameno.

Esta manhã, dois anos volvidos, descobri que o meu Gato de Janeiro é célebre. Uma pesquisa no Google com as simples palavrinhas "Auschwitz cat" trouxe-me incontáveis notícias sobre ele. Apareceu um dia no campo e lá vive, anda sempre por perto da entrada, justamente na zona em que se deu o nosso encontro. Já houve até uma petição ao Governo polaco para lhe arranjar um abrigo, dados os frios rigorosos da região no Inverno. E não é ele, é ela. Insistem em chamar-lhe Rudolf ou Bruno. Prefiro chamar-lhe agora Messalina, em honra da inesquecível siamesa que morreu no meu colo três dias mais tarde, poucas horas depois do meu regresso de Cracóvia. A 27 de Janeiro, aniversário da libertação de Auschwitz, aniversário do nascimento de Mozart.

Aqui a têm, em imagens colhidas na Internet:







quinta-feira, 7 de abril de 2011

O Gato de Janeiro

Transcrição do artigo ontem publicado no Delito de Opinião

Por razões que agora não vêm ao caso, foi assim que lhe chamei algum tempo mais tarde, ao contar a história num jantar: O Gato de Janeiro.
Por razões que agora não vêm ao caso, foi assim que lhe chamei algum tempo mais tarde, ao contar a história num jantar: O Gato de Janeiro.

Nunca esquecerei o dia 24 de Janeiro de 2009. Foi o dia em que cumpri a promessa, antiga de muitos anos, de prestar homenagem aos cerca de três milhões de vidas que pereceram em Auschwitz. Três dias antes do 64.º aniversário da libertação do campo, a 27 de Janeiro de 1945.

A lista de nomes ilustres que por lá passaram ou lá perderam familiares é infindável (os pais do grande Billy Wilder, por exemplo, morreram em Auschwitz). Mas um nome ressalta, luminoso, a simbolizá-los a todos. O nome de uma adolescente de apenas quinze anos cuja voz cristalina continua a ecoar e a lembrar-nos que aquela tragédia aconteceu, que o Holocausto foi uma realidade: Anne Frank. O destino fez com que Anne Frank não se salvasse por muito pouco, por duas vezes, como que querendo que o seu diário (que, muito provavelmente, nunca teria vindo a público, tivesse ela sobrevivido) proclamasse para todo o sempre a infâmia, como um dedo acusador e indesmentível para toda a eternidade. O comboio que a transportou para Auschwitz foi o último a sair da Holanda com destino aos campos; Anne morreu no princípio de Março de 1945: se tivesse ficado em Auschwitz teria, possivelmente, sobrevivido; mas o exército vermelho avançava, vindo de Leste, e algures entre o fim de Outubro e os primeiros dias de Novembro de 1944, Anne e a irmã, Margot, foram levadas para Bergen-Belsen, mais a Ocidente, já na Alemanha. Recomendo a todos o extraordinário documentário Anne Frank Remembered, vencedor de um Oscar em 1995. Quando for a Amsterdão (que não conheço) hei-de visitar a casa-museu de Anne Frank. Outra peregrinação.

Ao contrário do que sucedeu em Dachau, há oito anos, desta vez fiz fotografias. Muitas. É que aquilo não pode ser esquecido. NUNCA. E levava uma incumbência. Pôr uma pedra (Os Judeus não põem flores, põem pedras) em memória do bisavô materno de um amigo, senhor respeitadíssimo e de rara erudição, de quem ele herdou um dos nomes, que morreu em Auschwitz, bem como quase toda a família desse lado, originária da Polónia. Recolhi em Auschwitz I uma pedra que depositei depois em Birkenau (Auschwitz II). É que o fim da linha de comboio, a linha de pesadelo que para entrar no campo passava por baixo daquela torre sinistra, ominosa, que visita às vezes os meus pesadelos como símbolo absoluto do Mal, era em Birkenau. Logo ali, junto à plataforma, eram feitas as selecções. Três quartos das pessoas seguiam directamente para a câmara de gás, só o quarto restante era usado (por tempo incerto e, quase sempre, muito breve) como mão-de-obra escrava. Para as crianças, os idosos e os deficientes Birkenau era o fim da linha, a morte imediata.

O Gato de Janeiro apareceu-nos numa manhã gélida, logo à entrada do campo, a seguir ao medonho letreiro de ferro que diz que o trabalho liberta. Baixei-me, ficámos uma eternidade em mimos, cócegas nas orelhas e no pescoço, ele a dar-me encorajadoras marradinhas nas pernas. Quando tentei despedir-me atirou-me uma sapatada certeira à bainha das calças, a puxar-me, acompanhada de um miado dengoso. «Não vás já embora! Quero mais mimo!» era a única interpretação possível para aquele gesto imperioso. Na atmosfera opressiva do campo, em que se fala baixinho, num sussurro respeitoso pelos horrores passados, aquele encontro cheio de afecto foi como uma pequenina clareira de sol ameno.

Esta manhã, dois anos volvidos, descobri que o meu Gato de Janeiro é célebre. Uma pesquisa no Google com as simples palavrinhas "Auschwitz cat" trouxe-me incontáveis notícias sobre ele. Apareceu um dia no campo e lá vive, anda sempre por perto da entrada, justamente na zona em que se deu o nosso encontro. Já houve até uma petição ao Governo polaco para lhe arranjar um abrigo, dados os frios rigorosos da região no Inverno. E não é ele, é ela. Insistem em chamar-lhe Rudolf ou Bruno. Prefiro chamar-lhe agora Messalina, em honra da inesquecível siamesa que morreu no meu colo três dias mais tarde, poucas horas depois do meu regresso de Cracóvia. A 27 de Janeiro, aniversário da libertação de Auschwitz, aniversário do nascimento de Mozart.

Aqui a têm, em imagens colhidas na Internet:




quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Auschwitz-Birkenau

Nunca esquecerei o dia 24 de Janeiro de 2009. Foi o dia em que cumpri a promessa, antiga de muitos anos, de prestar homenagem aos cerca de três milhões de vidas que pereceram em Auschwitz. Três dias antes do 64.º aniversário da libertação do campo, a 27 de Janeiro de 1945. Três dias antes da partida de Messy.

A lista de nomes ilustres que por lá passaram ou lá perderam familiares é infindável (os pais do grande Billy Wilder, por exemplo, morreram em Auschwitz). Mas um nome ressalta, luminoso, a simbolizá-los a todos. O nome de uma adolescente de apenas quinze anos cuja voz cristalina continua a ecoar e a lembrar-nos que aquela tragédia aconteceu, que o Holocausto foi uma realidade: Anne Frank.

O destino fez com que Anne Frank não se salvasse por muito pouco, por duas vezes, como que querendo que o seu diário (que, muito provavelmente, nunca teria vindo a público, tivesse ela sobrevivido) proclamasse para todo o sempre a infâmia, como um dedo acusador e indesmentível para toda a eternidade. O comboio que a transportou para Auschwitz foi o último a sair da Holanda com destino aos campos; Anne morreu no princípio de Março de 1945: se tivesse ficado em Auschwitz teria, possivelmente, sobrevivido; mas o exército vermelho avançava, vindo de Leste, e algures entre o fim de Outubro e o os primeiros dias de Novembro de 1944, Anne e a irmã, Margot, foram levadas para Bergen-Belsen, mais a Ocidente, já na Alemanha.

Recomendo a todos o extraordinário documentário Anne Frank Remembered, vencedor de um Oscar em 1995. Quando for a Amsterdão (que não conheço) hei-de visitar a casa-museu de Anne Frank. Outra peregrinação.

Ao contrário do que sucedeu em Dachau, há seis anos, desta vez fiz fotografias. Muitas. É que aquilo não pode ser esquecido. NUNCA. E levava uma incumbência. Pôr uma pedra (Os Judeus não põem flores, põem pedras) em memória do bisavô materno de um amigo do grupo do Liceu, senhor respeitadíssimo e de rara erudição, de quem ele herdou um dos nomes, que morreu em Auschwitz, bem como quase toda a família desse lado, originária da Polónia.

Recolhi em Auschwitz I uma pedra que depositei depois em Birkenau (Auschwitz II). É que o fim da linha de comboio, a linha de pesadelo que para entrar no campo passava por baixo daquela torre sinistra, ominosa, que visita às vezes os meus pesadelos como símbolo absoluto do Mal, era em Birkenau. Logo ali, junto à plataforma, eram feitas as selecções. Três quartos das pessoas seguiam directamente para a câmara de gás, só o quarto restante era usado (por tempo incerto e, quase sempre, muito breve) como mão-de-obra escrava. Para as crianças, os idosos e os deficientes Birkenau era o fim da linha, a morte imediata.

Rudolf Höß, comandante do campo, julgado em Nuremberga, foi aqui enforcado,
a 16 de abril de 1947. Que a sua alma maldita arda no Inferno até ao fim dos Tempos.

Entrada para a única câmara de gás ainda existente, que as SS não tiveram tempo de destruir, na tentativa vã de apagar vestígios do genocídio. Estive lá dentro, não se pode fotografar, naturalmente.

Interior da câmara de gás (retirada da Wikipedia)

Pavilhão das pavorosas experiências médicas ginecológicas, efectuadas pelo Dr. Carl Clauberg.

Neste pátio, alinhadas contra o muro lá ao fundo (Muro da Morte), foram fuziladas milhares de pessoas


«Arbeit macht Frei.»
«Vós, que entrais, abandonai toda a esperança», do Inferno de Dante, teria sido mais verdadeiro


Pedra pelo bisavô do meu amigo A. Depositei-a junto desta coroa de flores,
mesmo debaixo da torre medonha




O fim da linha. E a torre, horrenda, omnipresente.
Vejam a gigantesca dimensão do campo.

Portão de entrada para a câmara de gás, a uma centena de metros do fim da linha

A torre. Sempre a torre.

Interior de um dos barracões. Em cada minúsculo compartimento dormiam seis pessoas, ou mais.



quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Não é uma viagem, é uma peregrinação

É certo que fico um dia em Londres e aproveito para ver o mágico Carousel (que, a duras penas, já está aprendido de cor).

Mas o grande objectivo desta viagem é a Polónia. Decidimos que não valia a pena ir a Varsóvia, tão horrivelmente destruída foi durante a guerra. A imagem que me ficará para sempre da cidade que não verei será a do gueto, onde aconteceram horrores indizíveis e que resistiu heroicamente até ao fim. A grande batalha começou a 19 de Abril de 1943, os alemães queriam oferecer a Hitler a aniquilação completa do gueto no seu aniversário, no dia seguinte; não contavam com a tenacidade dos resistentes. No dia 20 de Abril não havia presente para o odioso homenzinho, os judeus lutavam até à morte. O fim simbólico do gueto só chegaria a 16 de Maio, com a queda da Grande Sinagoga de Varsóvia. Se não leram Mila 18, de Leon Uris, recomendo vivamente.

Esta é talvez a mais perturbadora imagem que a minha memória retém do gueto:


Seguimos de Londres directamente para aqui:

Cracóvia

A cidade deste grande Santo, que venero:


O objectivo final desta peregrinação é Auschwitz. To come full circle.

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Happy Birthday, Mr Wilde!

16.10.1854 – 30.11.1900


«You came to me to learn the pleasure of life and the pleasure of art. Perhaps I am chosen to teach you something much more wonderful – the meaning of sorrow and its beauty.»
in De Profundis

Mais uma vez, devo esta paixão a uma professora. A de inglês do 7.º ano. Uma senhora pouco simpática mas verdadeiramente competente. Chamava-se Teresa, já não me lembro do apelido. Um dia levou para a aula umas folhas fotocopiadas com um excerto de uma peça de teatro. Vibrei com o texto, absoluta e delirantemente absurdo — era aquele extraordinário interrogatório de Lady Bracknell a Ernest (John) Worthing para investigar se ele seria um partido aceitável. No fim da aula ela, de livro na mão, anunciou que tinha ali a peça completa. Alguém quereria levar para ler? Contrariando todos os meus princípios
podia cheirar àquilo que tanto detestávamos e a que chamávamos «manteiga», levantei a mão. E levei o livro para casa. Era The Importance of Being Earnest, apenas a peça mais brilhante de Oscar Wilde. Devorei-a inteira nessa mesma noite. E ele continua a ser um dos nomes mais fulgurantes nos meus amores literários.

Aquela aula foi o motor de arranque para um amor imorredoiro. Conheço tudo quanto ele escreveu, li incontáveis biografias, tenho até livros relacionados com ele que são preciosidades de coleccionador. O presente de Natal que o Victor me deu em 2000 foi uma enorme
extravaganza: conseguiu até desencantar-me algures nos Estados Unidos, em segunda mão, evidentemente, a autobiografia
recheada de mentiras de Lord Alfred Douglas (Bosie), o causador da grande tragédia. Eu tinha-a procurado em vão durante anos, soube por um alfarrabista de Londres que tinha esgotado nos anos 50 e não mais fora editada. O que não me surpreende. Nem quero imaginar quanto terá aquele livro custado, e não só em dinheiro, a pesquisa deve ter-lhe levado meses. Aquele e outros, que o rapaz presenteou-me com coisas notáveis. É assim a amizade.

Por volta dos 20 anos já sabia tanto sobre Oscar Wilde e sobre a sua ascensão e queda que fiz a mim mesma a solene promessa de estar em Paris no dia 30 de Novembro de 2000, centenário da sua morte, no Père Lachaise e pôr-lhe flores no túmulo. Lilases, se possível, porque eram as flores preferidas dele, como já eram as minhas. Impossível encontrar lilases em Paris em Novembro, mesmo nas melhores floristas. Mas estive lá. Levei-lhe três lírios brancos (ele também adorava lírios). E estava no cemitério à hora exacta da morte sua morte: 13h50. Tenho um retrato, pedi a um japonês que estava ali pelos mesmos motivos que me fotografasse. E só não fiquei no hotel onde ele morreu porque estava em obras, tremendo azar. Mesmo assim ainda fui lá beber uma flûte de champanhe com o meu amigo Artur, à glória eterna deste imortal. O bar e algumas salas mantinham-se abertos. «It's me or the wallpaper, one of us has to go», terá sido uma das suas últimas frases, já agonizante. E até sobre a sua extrema miséria conseguiu ironizar. «I'm dying beyond my means.»

Curiosa coincidência, também Fernando Pessoa
outra paixão minha morreu a 30 de Novembro, só que em 1935. E George Harrison, dos meus idolatrados Beatles. O mesmo dia, que estranho, não é? O nosso Eça morreu em Paris como Oscar Wilde, e no mesmo ano. Só que a 16 de Agosto. Às vezes ponho-me a fantasiar que estas duas grandes figuras das letras podem ter-se cruzado num boulevard qualquer, quem sabe terão estado sentados no mesmo café. Tenho a certeza de que Eça, com o seu amor pela literatura inglesa, conhecia a obra de Wilde, ele era uma celebridade para não mencionar o facto de ter sido réu numa cause célèbre. Obrigada, Dr.ª Teresa, nesta data em que aproveito para lhe prestar também homenagem, por ter feito entrar na minha vida esta grande paixão. E ainda uma outra: o Teatro.

No terceiro período do 7.º ano, a Dr.ª Teresa atribuiu a cada aluno da turma um livro para ler, livro esse que posteriormente deveria ser apresentado numa aula. Aquela senhora era demoníaca, palavra! Ou tinha uma intuição qualquer a meu respeito. Lembro-me dos livros que destinou às pessoas que me eram mais chegadas. Ao Duarte, Pygmalion, de Bernard Shaw. À Clara calhou The Heart of the Matter, de Greene, ao Manuel Animal Farm, de Orwell. Eu fui brindada com uma coisa obscura chamada Look Back in Anger, John Osborne. Lembro-me de ter ido com o Duarte à Buchholz comprar os livrinhos. O meu custou 42$50, ainda tem o preço marcado a lápis. Não dá para acreditar, pois não? Hoje em dia um café ao balcão de um sítio reles custa pelo menos o dobro!

Foi assim que eu fui apresentada à geração dos
Angry Young Men, pela mão da peça que mudou o rumo do teatro inglês. Fiquei doida com ela... e a minha apresentação foi um sucesso. A partir daí comecei a ler mais e mais teatro, descobri grandes autores, peças extraordinárias. Mas Look Back in Anger terá sempre um cantinho muito especial em mim. Foi o primeiro amor, o forerunner (mais um). Infelizmente nunca o apanhei em cena. Mas ainda não perdi a esperança.