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sábado, 31 de março de 2012

Of days gone by in Yellowstone

Em tempos contei aqui a minha paixão por ursos, vinda da infância, o sonho de ir a Yellowstone e os meus encontros com ursos no parque, em Junho de 2008. Comentei também aqui o que, ao longo de anos, a estupidez humana tem vindo a fazer e continua a fazer a Yellowstone e à natureza em geral.

Esta imagem, algures do fim dos anos 50 ou do princípio dos 60, é eloquente. Os turistas acampados no parque desfazem-se do lixo, os ursos acorrem em busca de restos. A distância que os separa dos humanos não deve ser de mais de cinco metros, que eles podem transpor alegremente em dois saltos. A estupidez, a inconsciência! Hoje não há contentor de lixo no parque que não seja uma autêntica fortaleza de ferro, impossível de abrir para aquelas patorras.

Nunca mais poderemos ver imagens hilariantes como as de baixo, quando ursos pedinchões abordavam os carros nas entradas do parque e na estrada, à cata de petiscos. Os avisos para não dar comida aos animais são claros e estão por toda a parte. Num miradouro do Rocky Mountain National Park ainda tive uma discussão com o Vítor por causa de um idiota de um americano que estava a alimentar um esquilo com... batatas fritas. Fiquei indignada, queria intervir, o Vítor discordava, ainda acabava por ser insultada ou, no mínimo, por ouvir um «mind your own business», ou um «shut the fuck up and go back to your country» — o aspecto de labrego e as muitas tatuagens tornavam respostas como essas altamente prováveis. E eu, muito irritada, a ripostar que quem estava a defender o país dele era eu, e que era uma pena que ele e outros como ele não soubessem olhar por aquilo que a natureza lhes tinha dado tão generosamente. Quando o Vítor se deu por convencido já o idiota estava a caminho do carro, e a minha intervenção perdeu-se.

 (Arquivo histórico da revista Life)



E esta, a minha favorita. Estava pendurada na parede do café de Cooke Citty, Montana (que fica muito perto de uma das entradas do parque, que ocupa três estados), onde tirámos esta fotografia. Uma relíquia de outros tempos.

Por último, uma magnífica fotografia de Steve Hinch (que passa mais de nove meses por ano a fotografar o parque e a sua vida selvagem), já deste Inverno, Yellowstone devolvido à sua pureza original.



domingo, 11 de março de 2012

I left my heart in... (#3) Beartooth Highway

A Beartooth Highway é muitas vezes referida nos livros de viagens como a mais bela estrada da América. Sabemos como são estas designações, e eu não seria capaz de escolher entre ela e a Going-to-the-Sun-Road. Mas uma estrada chamada dente de urso — o nome é claramente indígena — já tem, à partida, muito para me cativar.

Um dos problemas destas viagens é tudo aquilo que não depende de nós e não pode ser planeado com certezas absolutas. E nessa matéria a Mãe-Natureza dá cartas. Razão pela qual uma viagem como esta não deve ser feita mais cedo e tem um prazo de validade não muito largo, sob pena de se perder muita coisa. Aterrámos em Denver a 21 de Junho e a Beartooth Highway continuava fechada, intransitável (verificação diária na Internet). Se bem me lembro, só no terceiro dia, nós já de partida de Denver para Yellowstone, tivemos sinal verde. E notem que os guias turísticos dizem que a estrada está aberta entre Maio e Setembro. Fiem-se nisso e depois contem-me.

A Beartooth Highway, que serpenteia mais ou menos ao longo da fronteira entre o Wyoming e Montana, começa e acaba em Montana. Acedemos a ela a partir de Cooke Citty, a minúscula cidadezinha (aquilo é um povoado) em que a fotografia abaixo foi tirada.


Tínhamos acabado de passar quatro dias em Yellowstone, três noites com dormidas diferentes, tão grande é o parque. A última foi em Mammoth Hot Springs. Nessa tarde, na volta que demos antes de jantar e ao lusco-fusco, a  tremer de emoção, avistei mais um urso. Que não era um grizzly, para meu grande desgosto. Mas era um ursoso, Deus Nosso Senhor seja louvado! A tratar da sua vidinha, como a tratar da sua vidinha ia o coiote que minutos antes encontrámos a trotar ligeiro pela estrada fora.

A meio da manhã de 28 de Junho, saímos de Yellowstone (tenho de voltar no Inverno, tenho de voltar no Inverno) rumo à Beartooth Highway. Sobe-se e sobe-se até quase 3500 m. Nunca terei palavras para contar a beleza das montanhas que nos rodeiam. A paisagem consegue ser ao mesmo tempo comovente e esmagadora. Todas aquelas curvas a atingirem pontos cada vez mais altos, a vermos por baixo de nós o bocadinho de estrada em que ainda momentos antes estávamos. Muito cedo na subida de vertigem surge-nos a neve, que depressa está por toda a parte, muitas vezes grandes bocados de gelo ainda à beira da estrada (porque é que julgam que está tanto tempo intransitável?). Aqueles cumes brancos e puríssimos devolveram-nos o espírito tonto das crianças  que ainda há em nós e não resistimos a parar para uma batalha de bolas de neve. A 28 de Junho,

Abaixo, algumas fotografias (ponham em full screen) que não fazem justiça à beleza do que vi e vivi. Talvez porque estivesse mais ocupada a ver e viver.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

All those things that don't change, come what may



«Think I'll go out to Alberta
Weather's good there in the Fall...»

Foram estes versos iniciais do maravilhoso Four Strong Winds, pelo grande Neil Young, que acabaram por determinar a escolha da música que acompanharia a nossa entrada no Canadá. Alberta era justamente a província pela qual entrávamos. Queríamos entrar ao som de um músico canadiano, e o coração dividia-se-nos entre Gordon Lightfoot (que tanto cantou a beleza miraculosa da Natureza daquele país imenso, o segundo maior do mundo), Leonard Cohen e Neil Young.

A entrada no Canadá faz-se por um casinhoto do género das portagens de auto-estrada (esqueci-me de fotografar), já para voltar a entrar nos Estados Unidos a coisa fia mais fino, muito mais fino. Inspecção minuciosa do passaporte e do carro, as eternas perguntas sobre o objectivo da nossa viagem. Não se pode levar a mal, sempre foram assim, e depois do 11 de Setembro ficaram ainda mais rigorosos.


A ranger que nos inspeccionou os passaportes na fronteira, com a maior das informalidades, ficou deliciada quando eu, sempre tagarela, lhe perguntei se aprovava a música, que só não tocava em altos berros porque tínhamos baixado o som para o controlo dos passaportes (nem saímos do carro). E claro, sugeriu logo que também poderíamos ter escolhido Anne Murray, que é a menina querida de todos os canadianos. Concordámos delicadamente, não tinha calhado, pronto, que pena. E a nossa simpática ranger ficou toda contente por achar que Anne Murray também tinha sido ponderada.

Tudo isto por causa de conversas ontem no Facebook com o meu amigo Zé Carlos, que vive em Nova Iorque vai para mais de vinte anos, e que regressou há pouco de uma gigantesca viagem de mota, mais de 18 mil quilómetros, 21 estados, muitas cidades e cidadezinhas. De todas, a sua preferida foi a adorável Jackson Hole, onde tinha jantado e pernoitado. Larguei a rir, porque também eu lá jantei e dormi, falei dela algures lá para trás. E, de caminho, o grande sortudo, entre incontável bicharada (caribus, alces, coiotes, bisontes, veados) ainda viu seis black bears e três (TRÊS!!) grizzlies! Inveja, inveja!

Céus! Como me apetecia fazer-me novamente à estrada e ver tanto do tanto que ainda me falta ver!

The Prince of Wales Hotel (inaugurado em 1927 pelo próprio, que viria a ser durante menos de um ano o rei Eduardo VIII e, depois de abdicar para casar com Wallis Simpson, Duque de Windsor).

quarta-feira, 29 de junho de 2011

I left my heart in... (#2) Devils Tower

O Wyoming é um estado gigantesco, o 10.º maior dos Estados Unidos (quase três vezes o tamanho de Portugal) e o menos povoado de todos, ainda menos do que o Alasca. Apaixonei-me pelas suas estradas solitárias a perder de vista, pela paisagem rude a lembrar-nos mais uma vez como aquele enorme país está longe de ser a selva de pedra de que falam sempre os seus detractores e que é fora das grandes cidades que se encontra a alma da verdadeira América.

No dia 25 de Junho de 2008 (assim me diz o registo da máquina fotográfica) rumámos a Devils Tower, monumento nacional. Fizemos a clássica paragem para um café num Starbucks em Cheyenne, a capital do estado. A cidade impressionou-me por a ter achado diferente de todas as pequenas cidades americanas que já conheci. Pareceu-me melancólica, menos próspera, com alguma degradação mesmo nas belas moradias das avenidas centrais. Tudo muito limpo e arrumado, sim. Mas persistia uma sensação de abandono.

As fotografias que tenho de Devils Tower, que talvez lembrem de Encontros Imediatos do 3.º Grau, de Spielberg, não são grande coisa. É difícil fotografar aquela imensa mole de rocha e os seus estranhos arabescos, que se diria terem sido feitos por Deus com um garfo gigantesco. Julgo que estas duas serão das melhores:

Céus! Eu estava uma autêntica texuga!

Levámos mais de hora e meia para dar a volta completa à base. Há uma atmosfera especial, quase mística, caminhamos a falar muito baixo, a ver as centenas de pedacinhos de pano amarradas aos arbustos: Devils Tower é sagrada para várias tribos índias, razão pela qual no mês de Junho passou a ser interdita a escalada, para que as várias tribos possam fazer as suas cerimónias de culto em paz e sossego. O Vítor, que já lá tinha estado noutra altura do ano, disse-me que avistar dezenas de figurinhas do tamanho de formigas a trepar rocha acima era uma visão incrível, mas eu regozijo-me por a ter visto na sua pureza original.





As chapas de matrícula do Wyoming têm dois motivos: um cowboy num rodeo e Devils Tower, de tal maneira simboliza o estado. Esta fotografei-a em Jackson Hole, adorável cidadezinha que encontrei ainda cheia de maciços de lilases e que tem recebido muitos visitantes ilustres (até a rainha de Inglaterra e Nelson Mandela), e em que pessoas como Uma Thurman, Sandra Bullock ou Clint Eastwood têm casa.

Um pequeno filme que encontrei no YouTube, ao som da música que o grande John Williams compôs para Encontros Imediatos.



quarta-feira, 16 de junho de 2010

The Go-Between

«Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.»
             Álvaro de Campos, Tabacaria

Tive esta noite uma das conversas mais penosas da minha vida. Tão penosa que, devendo estar a dormir há horas, voltei para o computador, pus música, sempre a minha solução mágica, tentei fugir ao peso de tanto a que sou alheia e que vem abater-se sobre mim sem que eu tivesse querido, sem que fosse essa a minha escolha. Num assomo de mau feitio, apetecia-me pegar noutros versos do meu Álvaro de Campos, no seu Lisbon Revisited, eu que ainda ontem revisitei Brideshead:

«Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?»

Da conversa tão penosa nasceu uma ânsia de claridade, claridade que só consigo encontrar agora na pureza miraculosa dos lilases, as flores da minha paixão, como eram de Oscar Wilde, grande amor da minha vida. E sentir que se está a ser manipulada, que há recados dados em surdina, muito à vol d'oiseau, não é fácil de digerir.

A memória é coisa caprichosa. A minha memória, além de caprichosa, tem tesouros armazenados, e deles me socorro em tempos mais duros. Lembrei-me de Central City, a cidadezinha do Colorado em que o Vítor me viu em lágrimas só por causa dos lilases, que estavam por todo o lado. O Vítor ficou perplexo, sem perceber a minha reacção tão emocional, porque há coisas sobre nós que até o amigo-irmão de toda a vida pode desconhecer. Era o caso dos lilases. Como é que se conta esta paixão sem ser ridícula, e sendo a paixão, só por si, coisa fortemente candidata ao ridículo?

Não aprofundámos a questão dos lilases entre nós. Cortei um cacho daquele esplendoroso arbusto frente ao tribunal, viajou connosco, no meu colo, durante centenas de quilómetros. O Vítor, ao volante, ia pedindo para cheirar, apaixonado pelo perfume mágico. De cada vez que lhe punha o cacho debaixo do nariz tinha vontade de chorar, nunca tinha partilhado os lilases com ninguém.

E agora perdi-me, e nem sei onde queria chegar com isto, só sei que me agarrei à beleza do lilás da minha infância como a uma âncora de salvação.

E tudo isto é tão absurdo que, pela primeira vez em muitos anos, dou comigo a sentir-me sozinha. Daí a música. Se não perceberem italiano... azarzinho. Mas talvez tenha mesmo passado muito, demasiado tempo desde a última vez que senti alguma coisa por alguém. E se calhar até seria bom conseguir voltar a sentir alguma coisa. Ou não.


ADENDA: A insónia atacou forte e feio, o dia de amanhã anuncia-se complicado. Mas há coisas que apaziguam e consolam, coisas que não têm preço.  Poucos minutos depois de publicar esta entrada confusa, recebi um sms de uma amiga: « Posso ajudar em alguma coisa?»
Quem me dera que pudesse! E que difícil é explicar que não sou eu quem tem problemas, que são os problemas alheios que vêm assombrar-me. 
Mas também não é isso,  quando se é amigo os problemas passam a ser também nossos, nunca são alheios. E estou metida numa camisa de onze varas.

Toto Cutugno - Da Poco Tempo Che

«Da troppo tempo che
non nasce più un fiore
nel giardino dellamore
Da troppo tempo che
non batte più un cuore
nella casa dellamore
da troppo tempo che
nei giorni sempre uguali
vivo, vivo io
e non mi basta più
la donna più speciale
se non lamo io.
Da poco tempo che riesco a far lamore
con la testa e con il cuore
da poco tempo che
con te dopo lamore
stiamo li per ore ed ore
da poco tempo che
noi stiamo bene insieme
come voglio io
e un emozione in più
un sentimento vero
e dentro di me
na na na na na
va, che grande tu
che donna tu
che bella tu
che amante tu
violenta tu
che dolce tu
ribelle tu fra le mie mani
io ti scherzo per strada
ti porto la spesa
ti bacio ti gioco
ti porgo una rosa
ti vedo in vetrina
vestita da sposa
che pazzo con te è un altra cosa
e con te e con te
e con te e con te.
Da poco tempo che sto veramente bene
senza angoscie e senza pene
da poco tempo che
io non ho più paura
il gelo e qui fra queste mura
da poco tempo che
noi stiamo bene insieme
come voglio io
un emozione in più
un sentimento vero
e dentro di me
na na na na na
va, che grande tu
che donna tu
che bella tu
che amante tu
violenta tu
che dolce tu
ribelle tu fra le mia mani
io ti scherzo per strada
ti porto la spesa
ti bacio ti gioco
ti porgo una rosa
ti vedo in vetrina
vestita da sposa
che pazzo con te è un altra cosa
va, amare sognare
parlare. giocare
tremare, piacere di fare lamore
e poi respirare
sentire il cuore
che vive, che scoppia damore.
»

domingo, 14 de março de 2010

I left my heart in... (#1) Red Rocks

Ainda nunca aqui homenageei satisfatoriamente um dos meus amores maiores na música, que só tem rivais à altura em Mozart e nos Beatles, e em Bach (os Mamas and the Papas e Peter, Paul & Mary vêm logo a seguir): Simon & Garfunkel. Há pelo menos umas vinte músicas deles que teriam merecidamente honras de uma entrada aqui, tanto me dizem. Ironicamente, a que escolhi para aqui tocar hoje é posterior, é de um álbum (um dos discos da minha vida, Breakaway, ou não tivesse aquele I Believe) de Art Garfunkel a solo. Cinco anos depois da separação, os dois juntam-se nesta faixa única... e cantam mais uma das músicas da minha vida: My Little Town.

Por mais surpreendente que possa parecer, esta incursão em Simon & Garfunkel começa em Red Rocks, Denver, Colorado. Até foi iniciada hoje num outro espaço, só a propósito dos Beatles. Vou reformulá-la e ampliá-la agora, partindo do que lá escrevi — e não é que  lá seja menos verdadeiro, é só que é mais circunscrito.

Red Rocks é um soberbo e justamente célebre anfiteatro a oeste de Denver, Colorado. Escavado na rocha e de uma beleza de cortar a respiração, é visita a não perder se alguma vez passarem por ali. Pena tenho de o termos deixado para o último dia da grande viagem às Montanhas Rochosas de há dois anos, malas já no carro, já vestidos de viagem e com reserva para almoçar no melhor japonês de Denver, o Sushi Den. Gostaria de lá ter passado mais duas ou três horas, em vez de uma escassa manhã. Tanto a explorar, tantos nomes a reconhecer na extensa galeria fotográfica nas paredes do Visitor Center! E as placas, as dezenas de placas, uma para cada ano, com o registo de todos os concertos! Sentia-me como num recinto sagrado, tão queridos me eram os nomes e as caras em que tropeçava a cada instante.

(clicar nas imagens para ampliar)

Corria o ano de 1964, os Beatles acabavam de tomar a América de assalto, e também passaram por Red Rocks, onde actuaram na véspera dos meus quatro anos. Dois dias depois seria a vez de Joan Baez...


Em 1967, o grande ano da música, a placa deixou-me a suspirar, com as datas e os nomes inscritos. The Summer of Love. A 7 e 27 de Julho, Peter, Paul & Mary e Simon & Garfunkel; a 12 de Agosto, outro nome venerado: The Mamas and the Papas.

O grande Willie Nelson

Ella, a única


The Boss


Fiquem com a montagem que fiz da minha passagem por Red Rocks. A banda sonora  é aquela que é para mim, seguramente, uma das três melhores canções de Simon & Garfunkel —  o obcecante America. Há algumas imagens suplementares, caçadas na Internet, para que possa ter-se uma ideia do que será a atmosfera num concerto. E as imagens do soberbo almoço no Sushi Den, já nos subúrbios de uma cidade gigante como é Denver, aquele ar limpo, arrumado e pacífico que é bem a imagem da América que me é tão querida. Selva de pedra? A gargalhada que eu dou quando me definem assim os Estados Unidos! E foram justamente essas imagens tranquilas que me fizeram lembrar outra música da minha vida, o tal My Little Town. Que toca aqui agora.



Nota final: a Convenção Democrática que havia de designar Obama como candidato à Presidência decorreu em Denver, em Agosto desse ano. Eu estava em NY na altura e passei as noites suspensa da televisão, ao regressar ao hotel. E lembro-me de um Starbucks quase ao lado do Dakota Building em que estive à conversa com uma senhora de ar muito old money (nada de admirar, naquela parte da cidade), quando me apropriei indevida e distraidamente do seu jornal e ela quis saber como víamos nós, europeus, aquele candidato. E me confessou o seu medo de que ele viesse a ser alvo de um atentado. «The best of America is with him», disse-me, frase que nunca mais esquecerei. Até por concordar com ela, e por ter vivido aquela campanha de tão perto, três viagens à América entre Junho e Agosto de 2008.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Mandy

Na viagem de Junho aos Estados Unidos, voámos de Londres para Chicago, e só de lá para Denver.

Em Chicago tivemos de recolher a bagagem e de fazer novo check-in. Estávamos parados junto à passadeira rolante, à espera das malas, quando surgiu uma agente da polícia, trazendo pela trela a mais adorável cadelinha beagle que possam imaginar. Era uma adulta muito jovem... e estava ali em trabalho. Deliciados, eu e o Vítor ficámos a observá-la enquanto ela ia cheirando a bagagem de mão de toda a gente e as carteiras das senhoras.

Chegou finalmente a nossa vez. Cheirou o carry-on do Vítor com ar desinteressado e passou ao meu. Três ou quatro fungadelas foram suficientes para o votar ao mais profundo desprezo e passar à bagagem seguinte, o saco de um senhor ao meu lado direito. Toda ela se alterou, a inspirar repetidamente, o raboso a abanar de entusiasmo.

Sir, I'd like to see your bag — intimou a agente, com ar severo.

Muito surpreendido, o passageiro concordou, e estendeu-lhe o objecto suspeito.

A agente examinou-lhe atentamente o conteúdo. Quanto a Mandy, olhava para cima, para o saco e para a sua parceira, expectante, com indisfarçável interesse.

Não encontrando nada ilegal, a agente inquiriu:

Sir, did you carry some fruit in here? Apples, maybe oranges...

Ele reconheceu que sim, tinha havido lá duas maçãs, mas comera-as em Londres.

A agente sorriu rasgadamente e devolveu-lhe o saco. A seguir baixou-se e afagou Mandy com enorme ternura e com palavras elogiosas: «Good girl! Good girl!»

E continuaram o seu trabalho aeroporto fora, Mandy sempre a farejar com todo o empenho tudo o que apanhava a jeito. Eu e o Vítor estávamos absolutamente maravilhados, e seguimo-la com os olhos enquanto pudemos.

A explicação disto? A FDA (Food and Drug Administration) proíbe ou restringe drasticamente a entrada de comida no país, sob muitas formas. Podem ver aqui; certa alínea adverte do seguinte:

«Fruits and Vegetables

Bringing fruits and vegetables can be complicated. For instance, consider the apple you bought in the foreign airport just before boarding and then did not eat? Whether or not CBP will allow the apple into the United States depends on where you got it and where you are going after you arrive in the United States. The same would be true for those magnificent Mediterranean tomatoes. Fresh fruits and vegetables can carry plant pests or diseases into the United States.

One good example of problems imported fruits and vegetables can cause is the Mediterranean fruit fly outbreak during the 1980s, The outbreak cost the state of California and the Federal Government approximately $100 million to get rid of this pest. The cause of the outbreak was one traveler who brought home one contaminated piece of fruit. It is best not to bring fresh fruits or vegetables into the United States. However, if you plan to, contact either CBP or check the Travelers Information section on the USDA-APHIS web site ( APHIS ) for a general approved list on items that need a permit.»

Lembramo-nos com frequência da adorável Mandy. Eu, grande estúpida, de tão derretida a observar a cena, esqueci-me (mais uma vez) de a fotografar. Tenho a certeza de que a agente teria concordado com todo o gosto. Não tirei eu recentemente esta fotografia com cinco agentes do NYPD em Times Square?



sábado, 4 de outubro de 2008

A Caneca de Van Dog

Há um grupo espanhol (muito bom, parece) chamado La Oreja de Van Gogh. Pois este post chama-se A Caneca de Van Dog, e justíssimamente — era mesmo só o que faltava, uma gentinha espanhola que canta umas cançonetas ter mais protagonismo do que um cão genuinamente português!

Recebi ontem um mail do nosso Van Dog que era toda uma afirmação da sua adorável personalidade. É que, em retribuição de um presente dele, eu prometi trazer-lhe uma caneca de Yellowstone (aqui). O Van Dog escrevia-me a pôr tudo em pratos limpos: que nem pensasse eu que ele tinha esquecido a promessa, que não abdicava da caneca, e por aí fora. De resto, o assunto do mail é impositivo e não deixa margem para dúvidas: A MINHA caneca. Diz ele (e palavrinha de honra que me parecia ouvir aquele indescritível rosnar mal dispostucho e entredentes): «É só para te dizer que não prescindo da caneca que me trouxeste dos States. A não ser que a Agripina e a Messalina já tenham tomado posse dela...»

Respeitinho é bonito e Messalina e Agripina gostam. Vejam só como, com toda a humildade, ele fez essa prudente ressalva às suas reivindicações!

Pois, meu querido Van Dog, a prometida caneca foi comprada, viajou milhares de quilómetros (fez Denver-Los Angeles-Londres-Lisboa comigo, isto para não mencionar mais uns quantos milhares de quilómetros em solo americano...) e está guardada a bom recato. E faço questão de ta entregar pessoalmente, seja para tomarmos café, seja para um almocinho, seja para as bandas do Colosso ou para as da Tasca do Cão. Mas terá de ser depois de 15 de Outubro (e acrescenta a essa data os dois ou três dias necessários para recuperar do estado de exaustão em que então estarei). Depois te explicarei melhor de viva voz, mas esta é precisamente a época em que começam a faltar adjectivos para classificar os horários já insanos do Colosso. No próximo fim-de-semana, por exemplo, é quase garantido que estarei a trabalhar...

A tua caneca foi comprada na gift shop do Old Faithful Inn, onde tínhamos ficado (não há mais emblemático em Yellowstone). A parafernália de coisas à venda era interminável, era tudo indescritivelmente piroso. Tirando estas canecas... Eu comprei, o Vítor comprou... Na gift shop de Mammoth Hot Springs, onde passámos a nossa terceira noite em Yellowstone, comprámos mais umas quantas. E depois... a coisa correu mal. Ao chegar a Lisboa tinha quatro canecas partidas. Perda irreparável, que não se vai a Yellowstone como se vai a Nova Iorque... Melancolicamente, cortei quatro nomes na minha lista de obsequiados. O teu nome nunca esteve em perigo, que uma promessa é uma promessa. Eu é que fiquei sem caneca (sim, eu também queria uma!). Mas não te preocupes, na semana passada fui jantar a casa do Vítor e ele, sabedor do que me tinha acontecido, ofereceu-me uma das suas em termos tais que eu não pude recusar.

Como vês, é uma caneca com história. Mas há mais. As cores! O turquesa do interior lembra vivamente aquele azul indescritível das águas fumegantes de Yellowstone. Entre dezenas, escolhi esta, a Sapphire Pool, da qual não conseguíamos afastar-nos, tanto o azul nos deslumbrava — e olha que o Vítor é daltónico...

Há duas semanas encontrei numa loja da Baixa um conjunto para sushi e sashimi com o mesmo esquema de cores da caneca, turquesa por dentro, castanho quase vinho por fora. A forma irregular do rebordo remeteu-me imediatamente para as dezenas de piscinas vistas em Yellowstone. Comprei quatro, dois para mim e dois para o Vítor.





sexta-feira, 3 de outubro de 2008

I Starbucks

Eu e o Vítor somos total Starbucks addicts! Quando saímos de Portugal, qualquer que seja a cidade, se tiver Starbucks é certo e sabido que nos precipitamos para a primeira que se nos atravessar no caminho. E são vários cafés por dia!

Na viagem de Junho chegámos ao exagero de ir três vezes à mesma loja Starbucks, em Sheridan, Wyoming: a primeira para o indispensável café a seguir a um lauto pequeno-almoço; a segunda, no regresso do Little Bighorn Battlefield National Monument (já no Montana, mas a curta distância), porque eu tinha esquecido lá os óculos, e assim como assim, tomámos mais um café; a terceira, uma hora depois, a seguir a termos ido a um Wall Mart comprar mais um cartão para a máquina fotográfica e V8, um espectacular sumo de oito vegetais de que somos consumidores fervorosos, com o pretexto de que nos tempos mais próximos não teríamos um único Starbucks, já que íamos a caminho de Yellowstone, onde ficaríamos três noites.

Aproveito para contar que tivemos a pontaria involuntária de ir a Little Bighorn no dia em que se comemorava o 132.º aniversário da batalha (refresco-vos a memória, esclarecendo que foi a batalha em que o general Custer e todo o 7.º de Cavalaria foram dizimados pelos índios). Aquilo estava, aliás, cheio de índios, e alturas houve em que eu e o Vítor tivemos de fazer esforços desesperados para não rir, porque sentíamos que tínhamos mergulhado num livro de Lucky Luke... Ainda me passou pela cabeça cumprimentar os bravos com um Ugh, mas pareceu-me mais prudente abster-me da graçola, não me apetecia sair de lá em cima de um carril e coberta de alcatrão e penas.

Pois a Starbucks, meus bons amigos, já chegou a Portugal! Weeeeeee!!! Finalmente! É certo que é em Alfragide, o que não dá jeito rigorosamente nenhum. Mas parece que vai abrir uma segunda em Belém e, se a coisa correr bem, quem sabe? O mais certo é seguirem-se muitas outras. Pessoalmente, dava-me muito jeito uma na Rua Augusta, já agora.

Deixo-vos com imagens da loja Starbucks mais encantadora que conheço, e acreditem que conheço dezenas. Fica em Estes Park, uma cidadezinha do Colorado mesmo junto à entrada para o Rocky Mountain National Park. Nas traseiras, que têm esplanada, passa um ribeiro.

(esta foi tirada da Internet)

Ora cá estou eu com um Grande-Iced-hazelnut flavoured-latte Starbucks!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Da estupidez humana - I

Os geysers de Yellowstowne:



Eles chamam-lhe eufemisticamente ignorância, eu acho que é muito pior do que isso. A ignorância pode ter atenuantes, pode ser frequentemente compreensível e até desculpável. A estupidez não. E a estupidez obtusa, obstinada, que ignora alarvemente todos os avisos, é temível. E mortífera.

Yellowstone é um lugar único. Não sei se saberão, confesso que eu desconhecia por completo: dois terços dos geysers existentes no mundo encontram-se lá, repartindo-se o terço restante basicamente entre a Islândia, a Nova Zelândia e a Sibéria. Passámos lá quatro dias, como julgo já ter dito. A certo momento, íamos nós numa interminável caminhada pela bacia do Old Faithful, e antes de eu ter assistido pela primeira primeira vez à sua gloriosa e leal erupção, o Vítor comentou que, em termos de Geologia, achava que Yellowstone era tão único como Nova Iorque é em termos de Arquitectura. Uma grande verdade. Mas o boçal insiste em destruir o mais que puder. Há avisos por todo o lado: não atirar NADA lá para dentro. Mas os anormais continuam a atirar moedas, como se aquilo fosse a Fontana di Trevi, latas de bebidas, paus, pedras e até troncos... só para ver o que acontece.

O que acontece? Reparem na placa acima, por mim fotografada, e que está junto do moribundo Minute Geyser da Norris Geyser Basin de Yelowstone.

Vejam agora como o geyser era nos anos 20 do século passado, no qual todos nascemos (fotografia tirada daqui). As erupções sucediam-se, maravilhosas, a cada sessenta segundos. À época ficava à beira da estrada principal do parque, era facilmente acessível aos preguiçosos, que agora terão de fazer uma caminhada de hora e meia para lá chegar.
O texto da placa: «Minute Geyser's eruptions have changed dramatically. Its larger west vent is clogged with rocks tossed in by early visitors when the park's main road was near this trail and passed within 70 feet of the geyser. Minute once erupted every 60 seconds, sometimes to heights of 40 to 50 feet (12 to 15 meters).Eruptions now are irregular and originate from its smaller east vent. Removal of the west vent's mineral-cemented rocks would require the use of heavy equipment resulting in severe damage.
Thermal features are not trash cans or wishing wells — they are amongt earth's rarest geological treasures. Please do you part to protect them and report any vandalism to a park ranger.»
Já só pude vê-lo como na fotografia da direita, uma coisinha timidamente fumegante, com erráticas e muito raras erupções. Os vossos filhos e os vossos netos já nem isto poderão ver. É uma amostra eloquente das inexoráxeis consequências do que temos vindo a fazer a este planeta, do que muitos continuam a fazer.

Alguma vez ouviram falar na Morning Glory Pool? Foi até há poucos anos uma das grandes atracções de Yellowstone, logo a seguir ao Old Faithful e aos ursos, de mãos dadas com as Mammoth Hot Springs e o canyon. O Vítor ainda a conheceu em todo o seu esplendor, lá por 1987. Há dois anos voltou e ficou desolado com o que viu — mesmo sendo daltónico. A intensidade daqueles azuis, a cristalina e mágica porta para um mundo misterioso e antigo são agora coisas perdidas para todo o sempre.

Foi assim que a vimos, como na fotografia abaixo. Não mais, nunca mais, os deslumbrantes azuis, reduzidos a tons esverdeados que em breve serão castanhos.

No início do percurso da Norris Geyser Baisin (só a primeira parte, que o Minute Geyser fica num percurso diferente e mais longo), metemos conversa com uma guarda do parque — ranger — que vinha atrás de nós pela passadeira e desatou aos gritos com um anormal que, a uma boa distância, estava a tentar experimentar a temperatura da água borbulhante de um geyser com a mão, aplicadamente estendido nas tábuas da passadeira e a tentar chegar lá!!! É que até podia ficar sem a mão, o cretino!

A ranger vinha de saco de plástico em punho e com um coiso parecido com um aguilhão, com que ia metodicamente recolhendo lixo. Foi o pretexto para eu, sempre tagarela, a abordar. Como era possível que, no ano da graça de Deus nosso Senhor de 2008, ainda houvesse necessidade daquilo? Da conversa de escassos minutos pudemos confirmar, uma vez mais, que não há limites para a estupidez humana. Poucas horas antes, uma criança de dois anos e pouco tinha sido atacada por um bisonte. Porquê? Porque os imbecis dos pais tinham querido fazer uma fotografia gira do seu rebento com a fera, para depois mostrarem aos amigalhaços lá do Wisconsin, ou do Nebraska, ou donde fosse! A pobre criança tinha sido levada de helicóptero para o hospital, ela não sabia mais nada.

A segunda parte desta tristeza sem fim fica para depois, quando eu voltar...

quarta-feira, 9 de julho de 2008

I Bears!

[peço antecipdamente desculpa pela extensão deste post, que achei que ia ter dois parágrafos. Mas é que me pus a falar de uma grande paixão minha. E quando é assim... vou por aí fora.]

Aposto que não sabiam: tenho, sempre tive uma paixão assolapada por ursos, todos os ursos, de todos os tamanhos e feitios. Com especial incidência nos grandalhões, os grizzlies e os polares. Nestas coisas, quanto maior, melhor — por uma vez, more is more (e esta rima fonética, a evitar a todo o custo em prosa, agora não deu mesmo jeitinho nenhum, mas vou deixar ficar).

A coisa é capaz de vir da infância e de ser trauma. Inexplicavelmente, nunca tive um urso de peluche, imaginem! Tive carradas de brinquedos, bonecas às dezenas (sem os exageros absurdos que observo com desagrado nas crianças de hoje) e toda a parafernália que as acompanhava: mobílias, autênticas, lindas, de madeira e não de plástico, cozinhas equipadas que até tinham um peru para pôr no forno, carrinhos de bebé, a tralha toda. Nada de Barbies, no meu tempo não faziam parte do cenário. O que havia, no mesmo género, mas com muito mais classe, sem maminhas e sem o guarda-roupa espaventoso e de bradar aos céus em nylon, era a Sindy (com S, sim), uma boneca inglesa. Classy. A Sindy tinha roupas giríssimas e eu poupava as semanadas para comprar mais, aquilo era caro. A minha maior loucura foi um fato de ski, com todos os acessórios necessários, até óculos e luvas, que custou a fortuna de... setenta escudos! A minha Mãe foi contra, mas eu tanto implorei que acabou por ceder. O dinheiro era meu, e um vinte a Francês e um dezanove a Português no mesmo dia fizeram o resto do trabalho de persuasão.

Mas voltemos aos ursos, que são o que aqui interessa. Adoro ursos, pronto! Acho-os adoráveis, com aquele ar pesadão e trangalhadanças. A pancada deve ter-se consolidado aos dez ou onze anos, no Ciclo Preparatório. Tínhamos uma professora de Moral e Religião que toda a gente adorava e a quem eu tinha uma certa aversão; até era amorosa, vá lá, mas tinha o hábito enervante de nos tratar por pequenitas. E a minha embirração por diminutivos acabados em ita ou ito vem da mais tenra infância... Seja como for, a Dr.ª X (claro que não me lembro do nome) organizou a passagem de um filme sobre a vida de Jesus na sala de cinema da escola. Chamava-se E Habitou entre Nós e viria a render uma vitória fulgurante ao meu grupo numa sessão de mímica quase vinte anos depois (lembras-te, Vítor?), quando ninguém da concorrência conseguiu decifrar o raio do título (experimentem lá gesticular isto e perceberão). Como sou muito sensível a estas coisas, verti abundantes lágrimas durante a projecção do filme. Mas o melhor (Deus me perdoe!) foi o bónus: antes do filme passaram um documentário sobre Yellowstone!

A locução era brasileira e o filme devia ter cerca de dez anos, talvez um pouco mais — fim dos anos 50, princípio dos 60, parece-me. Mostrava as típicas famílias americanas, três ou quatro filhos, banheiras descomunais, cestos de piquenique bem recheados, a fazerem bicha à entrada do parque (qual delas é indiferente) e o comité de boas-vindas de luxo: ursos à espera, a abordarem os carros, a pedincharem comida. A personagem Yogi Bear dos desenhos animados (Zé Colmeia para os mais velhos, que os mais novos nem o conhecem) foi claramente inspirada nestas cenas. Triste, muito triste (o próximo post será sobre isto) , mas eu era uma criança, não podia saber que nos trinta anos seguintes todos os crimes por nós cometidos iriam fazer perigar dramaticamente este planeta. A Wednesday escreveu ontem um post que me fez pensar imediatamente nisto. Mas o que me ficou desse filme, mais do que qualquer outra coisa, foi o desejo de ir a Yellowstone e ter a minha quota-parte de ursos. Tinha ficado irremdiavelmente apaixonada.

No momento em que entrámos em Yellowstone comecei a deitar olhos de lince ansiosos em volta, investigando cada sombra. O Vítor percebeu-me logo, «não descansas enquanto não vires um urso.» Era verdade. A criança de havia tantos anos estava ali, e estava numa ansiedade febril. Passámos quatro dias (três noites) em Yellowstone, o parque é gigantesco. Quando seguíamos pelas estradas eu já debitava em voz alta monólogos insinuantes e parvos que muito o faziam rir. «Ursosos (adoro diminutivos acabados em oso ou osa, de minha invenção pessoal, sendo que os mais bonitos de todos são aplicados a minhas Pinxejas: a barrigosa, a patosa...), a Tia Teresa está aqui... Apareçam (aparexam, confesso...), não façam isso à Tia Teresa... Ursosos, a Tia Teresa fica inconsolável se os meninos não aparecerem...»

Ao terceiro dia, ao fim da tarde, ao virar de uma curva, demos com um número avantajado de carros parados, o que nos parques nacionais quer dizer vida selvagem. Demasiados carros para serem alces, ou bisontes, ou corças, muito mais fáceis de avistar. «Cheira-me que vais ver o teu primeiro urso...», disse o Vítor.

E era mesmo! De repente, do meu lado, avistei uma forma escura. Que se foi aproximando...

Bichanei um incrédulo e maravilhado «É um ursoso!» ao Vítor.

Contentem-se com estas fotografias, que são o que há. Não me parece que vos apeteça ver manchas vagas de um lombo castanho-escuro, quando ele começou a afastar-se, e eu tão histérica que disparava às cegas, a objectiva a capturar árvores e outras coisas indistintas e medonhamente desfocadas, tudo menos o que interessava: o ursoso!!!

Minutos mais tarde, mais adiante na estrada, repetiu-se a cena. Todo um aparato de carros parados, parámos também. E eis senão quando, pela berma, novamente do nosso lado, distingui uma forma mais clara, de um castanho quase caramelo, semi-oculta pela erva alta. De súbito fez-se visível, em toda a sua beleza: era também um black bear (a bossa dos grizzlies nas costas e a cabeçorra mais larga, de orelhas arredondadas, fazem-nos inconfundíveis, seja qual for a cor), julgo que um adulto muito jovem, aí de dois anos, a viver o seu primeiro Verão de independência, que só se separam da mãe lá pelo ano e meio.

Sabem que mais? Deus estava a olhar para mim, Deus tinha ouvido as minhas preces, Deus tinha ouvido os meus monólogos cretinos a interpelar os ursos. Aquele parou, por um qualquer insondável desígnio, a menos de dois metros de nós e do nosso vidro descido, e pôs-se a trincar a erva. Tão perto que o ouvíamos mastigar. A certo momento, sacou da patosa para puxar a si um feixe mais viçoso de erva e nós suspirámos, embevecidos. Tão embevecidos que só mais tarde, ao inspeccionar as fotografias, verifiquei que não tinha UMA ÚNICA daquele milagre. Na excitação de querer vê-lo e fotografá-lo ao mesmo tempo, alguma coisa tinha de falhar. Falharam as fotografias, lamento lamentar. As imagens ficam comigo para sempre: a crock of gold (mais um).

É que disparei repetidamente a esmo, no deslumbramento daquela visão que era um sonho de anos, muitos anos. Não me parece que vos apeteça ver imagens da sua refeição, a erva tenríssima que o fez parar ao nosso lado. Se quiserem, é só pedir: tenho imensas. Deixo-vos só esta, a única que me ficou a documentar que esta beldade esteve mesmo a meu lado, e que a Criação é coisa perfeita: o meu adorável ursoso já a afastar-se. Foi o que se aproveitou. Paciência. A crock of gold. Nunca esquecerei.

Foi o que se pôde arranjar. Eu tenho mais pena, acreditem

P.S. Viria a ver mais quatro ursos. Mas todos muito ao longe, e ao lusco-fusco. Mas a emoção foi sempre a mesma. Tenho de voltar. Não vi um único grizzly!