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sábado, 1 de janeiro de 2011

O sortilégio de um olhar

Na história dos grandes maestros, cada caso é um caso.  Maestros afáveis e bonacheirões como Beecham, que tinha um irresistível toque de excentricidade e irreverência  («There are two golden rules for an orchestra: start together and finish together. The public doesn't give a damn what goes on in between.»). Maestros irascíveis de personalidade explosiva como Toscanini, de quem vi registo a praguejar num ensaio, a vociferar impropérios ininteligíveis a uma das mais celebradas orquestras do mundo, perfeitamente muda, encolhida e acabrunhada. Maestros que preferem batutas muito compridas, maestros que preferem batutas curtas, maestros que dirigem só com as mãos. Maestros que dirigem quase sempre de olhos fechados, como Karajan.

E depois há uma outra categoria,  a que mais me fascina, a dos maestros que usam hipnoticamente o olhar para insinuar, para sugerir, para comandar e para subjugar  a orquestra, levando-a na direcção de uma construção musical perfeitamente coesa e previamente existente nas suas cabeças, naquilo que consideram ser a intenção do compositor. É o caso de Nikisch, o senhor da imagem acima. 

No fabuloso documentário The Art of Conducting, de que já falei aqui, que graças a Deus tenho (comprado em Março de 2006, informa-me a sempre obsequiosa Amazon), e que agora não se encontra em parte alguma, há imagens poderosas de Nikisch, ainda no tempo do cinema mudo (morreu em 1922), a dirigir uma orquestra. Não conseguimos desviar o olhar do dele, hipnotizados, tamanho o domínio, tamanha a autoridade. Um flautista de Hamelin do olhar.

Mais tarde, muito mais tarde, viria outro mago do olhar, o meu muito amado Claudio Abbado, entre outras imensas coisas um grande rossininiano (e eu tenho esta paixão por Rossini).

Vejam o vídeo abaixo, que diz muito melhor o que tentei explicar em palavras canhestras. Um aparentemente muito jovem Claudio Abbado (na verdade já tinha 40 anos, as imagens são da produção filmada que Jean-Pierre Ponnelle fez em 1973 do seu Barbeiro de Sevilha, mas... céus! como parecia novo!), eternamente o meu favorito, o único que oiço. Entre várias outras razões porque Figaro é o meu também muito amado Hermann Prey, o senhor que tinha um sorriso na voz, definição linda do Raul que nunca mais esqueço.

Podem saltar directamente um minuto, são os créditos iniciais. O resto é pura magia. Garanto que o sortilégio do olhar do grande Claudio Abbado, se o vosso amor pela Música for nem que seja um décimo do meu, será suficiente para vos deixar siderados.

Grazie tante, Maestro!

A todos vós, um feliz 2011. Alegre, se possível. Sereno, principalmente — um princípio de paz vale mais do que uma alegria de má qualidade. Estamos todos nas mãos de Deus. Entrego os meus medos e confio. Vai ser um bom ano.

domingo, 4 de outubro de 2009

Coisas do Facebook

Nem sempre tenho muita paciência para lá ir, é verdade. Nem tempo. É certo que até dá jeito para combinar qualquer coisa em cima da hora, para trocar duas larachas com os amigos, para saber o que cada um anda a fazer. É certo que às vezes até dá para descomprimir um bocadinho.

Foi o caso de quinta-feira passada.

Nunca vos falei do tormento que passo com o meu computador no Colosso, uma coisa pré-jurássica que me mói o juízo. Um exemplo: chega-me por e-mail um diploma legal para rever antes de ir para assinatura. Coisa simples, um documento de duas páginas em Word. Bom, primeiro que eu consiga abrir o raio do documento é obra. Depois dou com o primeiro erro, ou a primeira gralha, e vou corrigir. Ponho o cursor em cima... e fico melancolicamente a olhar para a ampulheta. Finco os cotovelos na secretária a rosnar, a ampulheta sempre no ecrã, sem nada acontecer. Outro exemplo: pedem-me uma chamada. Não sei o número de cor, obviamente, tenho de ir ao Outlook procurar a ficha respectiva. Pesquiso pelo apelido, carrego na tecla Enter... e fico novamente a olhar para o ecrã, sem que nada aconteça. Já a praguejar, e porque o telefonema é urgente, pego no telefone, que está sincronizado com o Outlook, e procuro lá (quem não tem cão caça com girafa). Pois, meus amigos, localizo o número, faço a chamada, a secretária passa-me a pessoa, eu passo-a a quem me pediu o telefonema e o meu ecrã sempre igual, a mastigar, a ruminar... De dar uivos, só vos digo!

Na quinta-feira passada estava tão exasperada com o raio do bicho que abri o Facebook e publiquei o seguinte desabafo:


Fechei aquilo e retomei o trabalho. À noite fui jantar com a Madalena e o jantar (jantarão!) prolongou-se até às três da manhã, que temos sempre assunto para conversa. Só na sexta-feira à noite, já em casa, reparei na fotografia que o João Pedro tinha posto na minha página do Facebook, em resposta ao meu queixume de que não tinha um computador, tinha uma torradeira, e que me fez soltar uma enorme gargalhada, tamanha a comicidade da imagem, tão bem ela descreve o chaço do meu desespero:

O João Pedro é um conhecimento virtual. Encontrámo-nos no YouTube, há mais de um ano, na caixa de comentários de um vídeo com o nosso bem-amado Hermann Prey, os dois a carpirmos a mágoa de continuar a não aparecer registo filmado do seu extraordinário Papageno. Passámos a trocar mensagens em privado, reencontrámo-nos no Facebook.

terça-feira, 22 de julho de 2008

Dez anos sem Hermann Prey

Faz hoje dez anos que se silenciou esta voz magnífica que é um grande amor na minha vida. E um dos primeiros, quase em simultâneo com os Beatles (sim, sim, são perfeitamente compatíveis).

Posso não ter grandes talentos (mea culpa, mea maxima culpa), mas há um que reivindico com toda a justiça: o de reconhecer o talento alheio quando o enconto, o de saber destrinçar entre o trigo e o joio, o lobrigar deslumbrado da moeda de oiro reluzente entre os tostões de cobre de liga.

Lembro-me perfeitamente de quando conheci Hermann Prey, porque tinha dezasseis anos e foi a primeira ópera que comprei: O Barbeiro de Sevilha, uma das mais imortais óperas de Rossini (e longe estava eu de saber quanto viria a amá-lo). Um estojo magnífico, três LP. Já não a tenho, e seria uma longa e triste história, em que não me apetece remexer. Culpa da minha Mãe e das suas boas e crédulas intenções. Imaginem vocês que estão de férias no Algarve e que há um amigo que vos emprestou alguns discos; o amigo precisa deles, a Teresa telefona à Mãe a avisar que ele vai passar lá por casa. A Mãe abre-lhe liberalmente a porta, franqueia-lhe o acesso ao meu quarto com a maior das boas-fés (era menino de beija-mão e tudo o que convence as senhoras), o amigo serve-se ainda mais liberalmente do que encontra. Que me lembre, tinha cinco discos dele. Levou pelo menos uns doze, preciosos. Entre eles, O Barbeiro de Sevilha de Claudio Abbado, com Hermann Prey e Teresa Berganza. Não tão estranhamente como isso... nunca mais me atendeu o telefone. Quando nos cruzámos por acaso numa noite de Stone's, largos anos depois, já havia CD, e eu já tinha superado aquela mutilação, porque já tinha o disco. Cobardemente, até por ter percebido que a vida dele estava um caos, não toquei no assunto. Mas ainda dói.

Quem É Hermann Prey? — nada de conjugações no passado, que ele é imortal. Um barítono de timbre maravilhoso, uma voz que é um embalo para os ouvidos, um grande actor numa época em que quase todos os cantores de Ópera eram umas estacas em cena (levantavam um braço... e olha lá!). O maior Figaro da segunda metade do século XX (o que abrange o Barbeiro e As Bodas de Figaro, de Mozart). O incomparável Papageno daquela Flauta Mágica que é o meu amor maior na Ópera. Desse papel, em que o público de Viena, de Munique e de Nova Iorque (só para citar as maiores casas de ópera) o idolatrava, não há, estranhamente, registos em filme. Estranho, muito estranho...

Há muitos meses, deixei no filme do Youtube que aqui ponho abaixo (a primorosa realização de Jean-Pierre Ponnelle de que voltarei a falar) um comentário extasiado: «He is simply PERFECT! My favourite baritone ever, and what a fine actor! How I wish someone had footage of his wonderful Papageno!» Um outro comentador viria a pegar na minha deixa de maneira mais consistente e a deixar este comentário: «There is some with his "alter ego" Fritz Wünderlich as Tamino!... For this reason, I FIND IT HARD, VERY HARD TO BELIEVE THAT THERE IS NOT ONE SINGLE VIDEO CLIP WITH HERMANN PREY AS PAPAGENO!!! Either it is esconsed in a shelf of any German or American TV corporation; or it is hidden in a safe by a truly heartless "fan"!...
IN THE NAME OF ART, HE/SHE WHO HAS IT, PLEASE, PLEASE, RELEASE IT - NOW!!! It has been 10 years since this great man has left us! WHAT BETTER HOMAGE COULD WE PAY HIM?...»

Este comentário deixou-me com a pulga atrás da orelha. O comentador parecia-me português... comentei a seguir: «You're SO right! Next 22nd of July will be ten years since he left us! Have you read his autobiography, "First Night Fever"?
I have a strong suspicion you're Portuguese. So am I :)»

Assim nascem afinidades. Passámos, eu e o João Pedro, a trocar mensagens em privado. Hoje recorri a ele, que não pôde socorrer-me. Não é dramático, antes é um pretexto para voltar a falar mais alongadamente do grande Hermann Prey.

Hoje fica apenas a homenagem tão merecida. Para terem uma muito vaga ideia da minha devoção por este senhor, conto-vos muito brevemente uma história. O meu primeiro contacto com a Internet foi em Agosto de 1998, quando a instalaram na empresa onde eu então trabalhava. O Sr. Gabriel (ainda hoje o meu recurso para as emergências informáticas) foi lá instalar a coisa, deu-me umas explicações básicas. À época, o período jurássico da Internet, ainda não havia Google (que Deus o abençoe para todo o sempre), havia outros motores de busca como Alta Vista, Yahoo e já nem sei que mais. Lembro-me como se fosse hoje das três primeiras buscas que fiz, bem reveladoras da minha pessoa: 1 - Castle Howard; 2 - Joan Sutherland; 3 - Hermann Prey...

Fiquei gelada. Hermann Prey, o meu Hermann Prey... tinha morrido menos de duas semanas antes, a 22 de Julho. Para variar, a imprensa nada tinha dito. Nada de surpreendente, se considerarmos que eu só soube da morte do grande Sir Georg Solti pela minha assinatura da Opera, religiosamente recolhida na Buchholz, morreu menos de uma semana depois da princesa Diana, mas vendia um número substancialmente inferior de revistas. O que li nessa minha terceira e histórica pesquisa na Internet alagou-me de uma tristeza que persiste até hoje. «It was with deep sadness that the musical world received the news of the death of Hermann Prey. The renowned German baritone died following a heart attack at his home outside Munich (Germany) on Wednesday night, July 22, 1998.» Podem ler a notícia toda aqui, copiei-a, juntamente com a localização, para um documento de Word que me tem acompanhado nestes dez atribulados anos, ao longo de demasiados computadores.

Voltarei a Hermann Prey antes de ir de férias. Antes disso, terei de contar a reclamada história do meu encontro com Dame Vanessa Redgrave, há pouco mais de uma semana. Está solenemente prometida.

Agora deixo-vos com o Figaro de Hermann Prey, que nem vou adjectivar. Papageno fica para outro dia.