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sexta-feira, 15 de junho de 2012

The domino effect

«I have always depended on the kindness of strangers.» — esta frase célebre é da patética Blanche DuBois de Tennessee Williams em A Streetcar Named Desire. Patética no sentido de comovente, que inspira piedade, e não no sentido pejorativo e vulgarizado nos últimos anos, julgo que por influência directa do inglês. Nem de outra forma se poderia entender que Beethoven tivesse uma sonata para piano e Tchaikovsky uma sinfonia com esse nome. 

Tive a sorte e o privilégio de ver uma assombrosa Glenn Close no papel que já tinha dado a Vivien Leigh o seu segundo Oscar. Foi no National Theatre, em Outubro de 2002 (ver aqui a crítica do The Guardian). 

Devo dizer que há uma coisa que me põe doente no público teatral, quer em Londres quer em Nova Iorque: a rapidez com que despacha os aplausos, por mais extraordinário que seja aquilo que viu em palco. Duas ou três curtain calls e ala que se faz tarde. Com Glenn Close foi diferente. Quando ela surgiu para agradecer pela primeira vez irromperam berros e palmas entusiásticas vindos de umas quatro ou cinco filas atrás de nós, que estávamos na primeira, ao centro. Voltámo-nos para trás, tão invulgar aquilo era. De pé, aplaudindo furiosamente, estava Woody Harrelson. Os espectadores atrás dele, para verem melhor, acabaram por se levantar também, e em menos de nada a sala inteira aclamava de pé, numa ovação interminável que se repetiria mais umas cinco ou seis vezes, graças a ele (que tinha vivido com Glenn Close alguns anos antes). Os theatre buffs chamam a isto «the domino effect», na maior parte das vezes em tom trocista. Naquele caso justificava-se plenamente, e devo dizer que aquela produção, assinada por Trevor Nunn (a quem eu já devia a de Les Misérables), tinha um dos cenários mais espantosos que me lembro de ter visto, julgo que só superado pelo de The Breath of Life, de que já falei aqui.


Vivien Leigh e Marlon Brando, A Streetcar Named Desire (1951)

«Whoever you are, I have always depended on the kindness of strangers» é a frase final de Blanche DuBois, e tem-me ocorrido muitas vezes, perante as tantas mensagens de desconhecidos que me têm chegado nos últimos tempos. Uma delas calou especialmente fundo. Reproduzo-a abaixo, com autorização da autora, a que chamarei A. É um testemunho. É um documento. 

«Teresa,


Sou filha de um médico.

Durante anos, ao almoço, falar de fígado não significava necessariamente que a minha mãe tinha feito iscas, mas antes que o tema de discussão era a cirrose hepática de um doente alcoólico. Quando se juntavam amigos, então, era brutal: uma alma mais sensível teria dificuldades em acompanhar alguns jantares sem ficar mal disposta.

Habituei-me a ver fotografias de pernas ulcerosas, estômagos com feridas e intestinos roxos metidas no meio de belas recordações da minha família de férias na praia. 

Fiz cirurgias completas em todas as Tuxas que tive e muitas acabaram sem cabelo porque estavam a fazer quimio.

Nunca disse “vista”, mas olhos. Nem “peito”, mas mamas (ou maminhas, que cedo percebi que o mundo não estava preparado para ouvir uma miúda de 12 anos dizer assim mamas, com as letras todas. É a palavra mais feia da língua portuguesa, eu acho).  O meu pai fuzilava-me com os olhos quando eu, ranhosa, dizia que estava com gripe. Qual gripe, isso quanto muito é uma constipaçãozita! Ben-u-ron no bucho e segue, amanhã já estás boa.

Enquanto os meus coleguinhas na escola primária escreviam sobre a Primavera, eu lembro-me de inventar enredos mirabolantes, passados invariavelmente num hospital – para mim, o único lugar do mundo onde o luto nunca vencia, porque toda a gente usava sempre a mesma bata imaculadamente branca e, quando morria alguém, não havia tempo para chorar.  Tão deprimente e “adulto” que a Professora Fátima, coitadinha, ficava aflita e chamava a minha mãe à escola, para saber se havia problemas em casa.  Hei-de ter lá para casa essas pérolas, guiões infantis da Anatomia de Grey.

Desde miúda, portanto, que lido com as doenças como parte natural da vida. Claro que durante muitos anos fi-lo de modo abstracto: tudo era ciência, a cura não era um mito urbano, nem um milagre, mas antes um organismo a receber – e a aceitar – centenas de anos de investigação. Quando corria mal, corria mal – nos hospitais não há tempo para lutos. Salvemos o seguinte.

Com a idade e a chegada de mazelas aos meus, comecei a tentar levar a coisa da forma mais desassombrada que os afectos me permitem, num equilíbrio às vezes ténue entre o racional e o emotivo – porque é tudo muito bonito, isso da ciência e da lei da vida e da morte e tudo o mais, mas quando nos toca directamente a coisa muda de figura.

Percebi também que ter uma doença muito grave deve ser o momento mais solitário que se pode viver: somos só nós e a noção clara de ver uma pistola apontada à cabeça (que todos temos, mas só alguns vêem): tive a certeza disso quando acompanhei muito de perto a luta de um querido tio, que se debateu estoicamente durante 12 anos contra um estupor de um tumor cerebral. Benigno, como se uma coisa tão má e incapacitante algum dia pudesse ter um nanograma de benignidade (enfim). Esteve sempre connosco e entregue à melhor equipa de neurocirurgia do país, mas no fundo estava sozinho – a luta era contra ele próprio, contra a multiplicação de células que o seu organismo teimava em continuar. Coisa mais parva, quando uma pessoa quer tanto viver e a luta que tem é contra o seu próprio corpo.


Confesso que li o email que teve a delicadeza de me enviar e sabe o que achei que lhe tinha acontecido? Um problema qualquer com uma daquelas stalkers malucas. Quando à noite fui ao “gota” e li o título do seu post pensei: casou-se! (o Big C seria de Casamento). Claro que depressa percebi: afinal a Teresa está doente. Um cabrão de um cancro. Merda.

Não vale a pena dizer-lhe que hoje em dia uma percentagem muito significativa de doentes oncológicos superam o cancro e seguem a sua vida em frente – com eternas cicatrizes, físicas e morais, mas seguem.  Isso a Teresa já sabe.

Também não vale a pena dizer-lhe que, mesmo que as estatísticas digam que o cancro A tem uma taxa de mortalidade muito elevada, os milagres acontecem e a ciência blá blá blá.  Não é novidade, a Teresa sabe.

Muito menos valerá a pena tentar diminuir-lhe o terror que deve ter sido encarar a notícia. E o medo de viver o que aí vem. Ou forçá-la a desvalorizar o sofrimento, o desânimo, o desalento (caramba, tem de ser forte, não se pode ir abaixo). Se o seu cabelo cair, vai ser duro. É ridículo dizer-lhe “deixa lá, que cresce, isso não é nada”. Pois cresce, mas entretanto caiu todo e a Teresa gosta dele. É seu. Faz parte do que é.

Afirmar convictamente que a Teresa vai superar isto tudo e enviar-lhe muita força e energia? Saber-lhe-á bem sentir-se querida pela comunidade blogosférica? Acredito que sim, e muitos fá-lo-ão - porque se preocupam, porque gostam de si. Porque a querem acompanhar, ainda que à distância. E não vale a pena fugir desse abraço bem intencionado, mesmo que seja virtual. Pela parte que me toca, todos os dias estenderei os meus braços para si, de manhã, pelas 8 e tal, 9 e picos.

Eu não sei se vai correr tudo bem; quero muito que sim, acredite. O meu lado emotivo diz-me que voltará aos teatros londrinos, ouvirá muitas músicas ainda não gravadas, lerá muitos livros ainda não imaginados. Gozará o seu amado sol, com gatos meigolas a ronronar-lhe as pernas. Comemorará muitos Agostos. Confio na ciência e mais, confio na luta que vai encetar, por si e ao mesmo tempo contra si.

E de facto, como disse tão bem a Pólo Norte, dignidade é a melhor palavra para a descrever. A Teresa é uma mulher digna. Já a sabia leal. Testemos, a partir de agora, a sua resiliência.

Deixo-lhe um forte abraço e se quiser, use-me como fiel depositária das suas amarguras. A vida leva-se a rir, mas chorar também faz parte.

A.»


Banda sonora - Beethoven - Pathétique -Adagio Cantabile (Wilhelm Kempff)

sexta-feira, 16 de março de 2012

Elas

Há grandes actrizes nas novas gerações. Mas ainda lhes falta qualquer coisa. Tempo, experiência, vivências, não sei. O que sei é que estas são para mim as maiores entre as maiores. Talvez tenha deixado alguns nomes de fora, mas estas são mesmo as minhas escolhas.


Meryl Steep, a grande, a única. Descobri-a era ainda adolescente, em Holocausto, nunca mais a perdi de vista. A escolha da fotografia, tão antiga, foi deliberada: é desse tempo. Meryl é também, com enorme mágoa minha, a única das minhas eleitas que nunca vi no teatro.



Dame Vanessa Redgrave. Os mais furiosos amantes de teatro consideram-na a maior actriz viva. Vi-a no National Theatre naquela coisa desgarradora que foi The Year of Magical Thinking e tenho por ela um afecto muito especial, até por causa dos escassos minutos em que mais tarde, no restaurante, estivemos à conversa (contei aqui).


Patti LuPone, a grande dama da Broadway. Vi-a duas vezes, a primeira em Noises Off, a segunda em Gypsy, que lhe daria o seu quarto Tony. Foi a primeira Fantine, primeiro em Londres, depois na Broadway (e segundo Tony), e nunca ninguém conseguirá cantar I Dreamed a Dream como ela (estragou-me a música em palco, nunca consigo chorar, fica sempre aquém). Há dias arregalei os olhos quando lhe vi uma fugaz aparição em Glee, num episódio passado em Nova Iorque. Miss LuPone estava a jantar no Sardi's. Apropriado.

Glenn Close. Provavelmente a actriz mais injustiçada da história do cinema. Fiquei boquiaberta quando, há coisa de um ano, li que lhe tinha sido atribuída uma estrela no passeio da fama de Hollywood. E todas as outras flausinas sem qualquer mérito que a tiveram antes dela? O Oscar este ano fugiu-lhe mais uma vez, mas a rival era de peso. Perder para Meryl Streep é digno. Perder para Cher, como já aconteceu, é uma anedota de mau gosto. Vi-a no National Theatre como Blanche Dubois em A Street Car Named Desire. Nunca esquecerei essa noite.


Dame Maggie Smith. Adoro-a. Não é só a actriz genial, é a mulher irreverente e de sentido de humor perverso. Merecia mais Oscars do que os dois que tem. Vi-a em Londres em The Breath of Life. Muito possivelmente a experiência teatral mais electrizante de toda a minha vida. Hei-de contar.

Dame Judi Dench. Faz muito mais teatro do que cinema, para grande prejuízo dos comuns mortais como nós que não podem vê-la em cena. Vi-a uma vez, uma única, e foi suficiente para lhe perceber a genialidade. Foi em The Breath of Life (pronto, tenho mesmo de contar).

Dame Helen Mirren. Uma carreira no cinema que cresceu aos poucos, porque para ela o grande amor também é o teatro. Vi-a em Nova Iorque há mais de dez anos, em The Dance of Death, de Strindberg, numa parceria formidável com Sir Ian McKellen. Inesquecíveis.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Mágicas Noites de Teatro: War Horse

Vi a peça, adaptada do romance de Michael Morpurgo, no fim de Novembro de 2008. No National Theatre, claro. Mais tarde viria a transitar para o West End e também para a Broadway, onde ainda está em cena. Se forem a Londres ou a Nova Iorque não percam MESMO, porque é uma experiência única. A rainha e o duque de Edimburgo puseram pela primeira vez em quatro anos os pés num teatro para a ver (e aposto que a seguir foram jantar ao The Ivy). O venerável The Times considerou-a o acontecimento teatral da década. A lista de prémios, deste e do outro lado do Atlântico, é infindável.

E que tem a peça de tão especial? Para além de uma história profundamente comovedora, sobre a qual não quero falar muito, por não saber até que ponto o filme de Spielberg lhe é fiel, de ter como suporte música belíssima, tem como protagonistas assombrosas marionetas. Cavalos à escala real que nos deixam sem respiração pela veracidade de movimentos e de reacções. Ou a chorar baba e ranho, como aconteceu comigo em muitos momentos.  A cena em que Albert consegue vencer a desconfiança e o medo de Joey (o cavalo protagonista da história) e nasce a sua amizade é das coisas mais comoventes que me lembro de ter visto em toda a minha vida. Chorei como uma fonte.

A história passa-se na I Guerra Mundial, para a qual Joey é recrutado, sendo separado do seu adorado Albert. A odisseia de Joey nos campos de batalha choca-nos, horroriza-nos. Sei, sabia, o que tinha sido aquela guerra, muito tenho lido e visto sobre ela. Mas nunca tinha pensado que, de alguma forma, apesar do gás, apesar das trincheiras, apesar das novas estratégias, apesar de já haver aviação, tinha sido a última guerra a desenrolar-se ainda de acordo com fórmulas e esquemas centenários, e que havia animais, muitos animais no meio daquele pesadelo. Além dos milhões de vidas humanas, morreram quase dez milhões de cavalos. Cerca de 9 586 000. O número gela-nos.

A peça acaba por funcionar também como uma grande homenagem a todas essas vítimas inocentes, como são todas as vítimas. 

Para que possam captar alguma da sua magia, dos cavalos em movimento, das suas reacções humanas, vejam estas breves imagens (e notem que a música, que é da peça, é justamente aquela que sempre soube que escolheria para pôr aqui):


E fiquem também com estas, há muito retiradas da página do National Theatre, enquanto ainda estava lá em cena — como disse, há mais de três anos que andava para escrever sobre isto.











Banda sonora: Adrian Sutton and John Tams - The Year Turns Round Again (War Horse)

sábado, 29 de janeiro de 2011

Uma estrela fora do seu tempo

O título não é meu, como minhas não são as belíssimas palavras que se seguem. Título e palavras  são do Pedro Correia, num post de ontem no Delito de Opinião,  em tocante homenagem a uma grande actriz que os mais novos provavelmente nem conhecerão: Susannah York.

Há anos que procuro regularmente, sem nunca a encontrar, uma certa produção televisiva de La Voix Humaine, de Cocteau, em inglês. É de facto uma peça para uma voz. O texto, que só conheço no original francês, quando lido pode chegar a parecer trivial, de uma banalidade confrangedora. É a voz da actriz agarrada ao telefone numa conversa inconsequente com o ex-marido, por quem continua desesperadamente apaixonada (a peça é um longo monólogo, só ouvimos a voz dela), que lhe dá matizes que o tornam profundamente comovedor, verdadeiramente patético. Nessa produção inglesa há muito vista na RTP2 e nunca esquecida, a actriz era Susannah York.

Susannah York morreu no dia 15 de Janeiro e eu só soube ontem, no Delito de Opinião. Teria sabido mais cedo, é certo, se tivesse mais tempo para visitar certos fóruns de Teatro muito do meu agrado, em que muito tenho aprendido, nenhum outro como All That Chat, do fabuloso TalkinBroadway. Ainda assim, não vi qualquer notícia, por mais pequenina, em qualquer jornal, e tamanho alheamento choca-me.

Vi Susannah York em palco uma única vez, faz amanhã, dia 30 de Janeiro, doze anos.  Como lembro tão bem a data? É simples, muito simples, mesmo não tendo eu ainda, nessa época, o bom hábito de guardar o bilhete dentro do programa da peça. Voámos para Londres na manhã de 29 e nessa noite vi pela primeira vez  Chicago, paixão que me ficou para o resto da vida.  Para a noite seguinte tínhamos, arranjados pelo concierge do Dorchester, bilhetes para o revival de West Side Story, graças aos bons ofícios do meu amigo A., sempre íntimo de quem interessa em todos os hotéis de luxo, e para os nossos bilhetes pouco importou que ele em Londres fique sempre no Claridge's. Ora os tais bilhetes desencantados pelo Dorchester como grande prodígio eram em lugares para nós intoleráveis, lá para uma 15.ª fila. Exasperados, a espumar de fúria, nem o sumptuoso (e de preço obsceno) chá do Dorchester nos aplacou o rancor. E para aqueles lugares não íamos, era ponto assente.

Voltámos para o nosso hotel, o óptimo Westbury, mesmo sem os luxos asiáticos do Dorchester ou do Claridge's (e no segundo já fiquei, sei do que falo). Fomos desabafar o nosso desespero com o Blanco, o concierge. Afinal, não nos tinha ele conseguido, para essa noite ou para a seguinte — confesso que não tenho a certeza  —, essa coisa impossível que eram reservas para o Nobu, com uma lista de espera de dois meses para os comuns mortais como nós? O Blanco esteve à altura. Após dois ou três telefonemas, disse que nos arranjava grandes lugares para An Ideal Husband ou para Miss Saigon. Tentei reprimir a excitação: uma peça de Oscar Wilde, o meu tão amado Oscar Wilde! A escolha tinha de ser de pleno acordo. Vários factores pesaram na decisão, que tentámos fazer racional. Nenhum de nós conhecia ainda Miss Saigon (que venero), mas estava para durar e ambos preferimos sempre ver uma obra a que já conhecemos muito bem a música, a experiência é infinitamente mais completa; em contrapartida, An Ideal Husband estava com a chamada limited run, ficaria em cena mais um mês ou mês e meio, no máximo, e nós vivíamos e vivemos em Lisboa. Acresce que, ao princípio da tarde, muito antes de saber o que nos esperava, eu tinha citado Oscar Wilde e o Vítor tinha rido a bom rir: «To love oneself is the beginning of a lifelong romance.»  A frase era justamente de An Ideal Husband, foi com uma cotovelada de deleite que o Vítor ma assinalou, delirante, instalados nos nossos soberbos lugares da quinta fila ao centro.

E foi assim que vimos Susannah York no papel da maquiavélica Mrs Cheveley. Linda, linda (LINDA!). Mas, mais do que isso, perfeita na personagem. Mágica. Volto sempre a este adjectivo quando falo de inesquecíveis noites de Teatro. Porque são isso mesmo: mágicas.

Tenho algures num álbum, ainda por digitalizar, uma péssima fotografia de nós dois frente ao teatro. Muito escura, acho que era de uma daquelas máquinas descartáveis, e era Janeiro e era Londres. Pouco importa, o nome da peça, por trás de nós, é bem visível. E temos esta preciosa memória, que nada pode apagar. 

Chega de tagarelice. Passo a palavra ao Pedro Correia, que encontrou sobre Susannah York palavras que eu gostaria de ter escrito.



Há certas actrizes que nos parecem deslocadas da sua época. Senti sempre que era esse o problema com Susannah York. Esta inglesa nasceu para o cinema numa altura em que as deusas do celulóide eram vistas como uma relíquia do passado. Naquela década de 60, interessava “desmistificar” a mulher, torná-la “igual” aos homens, "libertá-la" de toda a encenação e todo o artifício. Carole Lombard, Ingrid Bergman, Rita Hayworth, Ava Gardner, Grace Kelly, Elizabeth Taylor e tantas outras rainhas dos anos dourados de Hollywood davam lugar à mulher banal, destituída de glamour, despojada daquele brilho cintilante que todas as estrelas irradiam. Era o tempo da Sally Field e da Jill Clayburgh e da Glenda Jackson e da Sarah Miles e da Karen Allen: figuras banais, rostos banais, que poderíamos ver a qualquer hora num restaurante de bairro ou num transporte público.

A mulher destituída de aura hollywoodesca era uma mulher “libertada”, uma mulher “consciente” – dizia-se então. E até actrizes inegavelmente belas desse período, como Jane Fonda e Julie Christie, pareciam pedir desculpa aos espectadores, em sucessões contínuas de filmes urbano-depressivos, por serem tão bonitas. Nesses tempos carregados de ideologia, havia uma conotação implícita entre beleza e classe dominante, que devia ser derrubada pelas massas oprimidas. Muito sofreram algumas mulheres desses tempos. E muitos homens também...

Susannah York nada tinha de banal. Bastava vê-la surgir em cena para se perceber que era impossível permanecer indiferente ao fulgor daqueles olhos azuis, à sedução daqueles lábios volumosos e ao fascínio daquela voz quente e bem timbrada. Desempenhou papéis memoráveis em dois filmes galardoados com o Óscar: Tom Jones (1963) e Um Homem para a Eternidade (1966), ambos de produção britânica. Entrou numa das películas norte-americanas mais aclamadas da década de 60: Os cavalos também se abatem (1969). Fez de mulher de Marlon Brando no mega-sucesso Super-Homem (1978). Contracenou com Alan Bates num perturbante filme de culto: O Uivo (1979). Trabalhou também na televisão: lembro-me bem dela na versão britânica da série Dear John.

Filmar com Fred Zinnemann, Sydney Pollack, Richard Donner, Tony Richardson e Jerzy Skolimowski, entre outros nomes grandes da realização, é suficiente para garantir a alguém um lugar em qualquer enciclopédia do cinema. Mas fiquei sempre com a convicção de que Susannah York podia ter ido muito mais longe do que foi, tornando-se um verdadeiro ícone da sua época. O problema não foi dela, mas dos ventos dominantes daqueles dias que mandavam derrubar todos os ícones em nome da idolatria do cidadão comum. Um problema insolúvel para quem era incomum, como Susannah York. Tivesse ela nascido dez anos mais cedo ou vinte anos mais tarde, nada decorreria como decorreu. Nem, como sucedeu há dias, se despediria da vida – depois de se despedir do cinema – perante a lamentável indiferença de um público cinéfilo que em muitos casos não chegou sequer a saber quem ela foi.»


E os comentários:

De Teresa a 29 de Janeiro de 2011 às 00:47
Estou chocada, Pedro. E triste. É por si que, duas semanas depois, sei da morte de Susannah York. Sic transit Gloria Mundi, é qualquer coisa assim, não é? Esta partida silenciosa lembra-me a do grande Sir Georg Solti, que morreu poucos dias depois da Princesa Diana e da Madre Teresa de Calcutá. Dele ninguém falou nos noticiários, não vendia revistas. É que era só um grande maestro, um dos grandes do séc. XX. E a partida de um vulto destes não dá matéria para títulos de primeira página ou aberturas de telejornais.

Tive o privilégio de ver Susannah York no palco, no princípio de 1999, como a pérfida Mrs Cheveley de An Ideal Husband, de Oscar Wilde. Mágica. Mágica.

Mundo muito estúpido, que põe nos píncaros as Hannahs Montanas e os miúdos de cabelo ridículo (aquele Justin qualquer coisa).
De Pedro Correia a 29 de Janeiro de 2011 às 09:36
Que privilégio, tê-la visto em palco! Sempre admirei muito esta actriz e fiquei chocado com a indiferença quase generalizada face à notícia da morte dela. E afinal já nem devia surpreender-me com isto. A memória das pessoas está cada vez mais curta e é cada vez mais selectiva - no pior dos sentidos do termo.

sábado, 10 de janeiro de 2009

You'll Never Walk Alone...

Declaro-me oficialmente apaixonada por este GRANDE musical (mais um...). Nem poderia ser de outra maneira, considerando que é dos grandes Rodgers & Hammerstein, que nos deram coisas como The Sound of Music, Oklahoma ou South Pacific (deste último vi em Agosto uma produção fabulosa no Lincoln Center, até comprei uma t-shirt alusiva, que fará a inveja do mulherio, no dia em que puser aqui a imagem). Uma peça única, ou comprava na altura ou nunca mais a teria. Até o Vítor me incentivou: «Compra, é um espanto. E nunca mais a encontras.»

Pronto, está bem, estou generosa, encontrei a t-shirt, aqui fica. A frase I'm Gonna Wash That Man Right Outa My Hair é o título de uma música, uma das mais famosas de South Pacific (uma delícia em palco).

Voltemos a Carousel, do qual conhecia apenas a versão de If I Loved You por Barbra Streisand, no seu (grande) The Broadway Album. Pela qual tinha paixão a beirar a obsessão. Little I knew...

No dia 21 estarei no Savoy Theatre (quantas memórias de Oscar Wilde e dos maravilhosos Gilbert & Sullivan, outra parceria genial) a ver esta maravilha. Só na madrugada seguinte partirei para o verdadeiro objectivo da viagem, que é verdadeiramente uma peregrinação e não revelo por enquanto.

Fiquem com You'll Never Walk Alone.
When you walk through a storm
hold your head up high
And don't be afraid of the dark.
At the end of a storm is a golden sky

And the sweet silver song of a lark.
Walk on through the wind,
Walk on through the rain,
Tho' your dreams be tossed and blown.

Walk on, walk on with hope in your heart
And you'll never walk alone,
You'll never, ever walk alone.
Walk on, walk on with hope in your heart

And you'll never walk alone,
You'll never, ever walk alone.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

I Les Misérables - VI

O primeiro disco desta edição especial é, claro, o histórico concerto do 10.º aniversário, de que tenho posto aqui excertos. Reuniu aquilo a que passou a chamar-se o dream cast (discordo em absoluto quanto à escolha de Ruthie Henshall como Fantine, a senhora irrita-me, com aquela maneira de cantar muito explicadinha, como quem está a debitar uma lição na escola primária — cá para mim, Patti LuPone não estava disponível).

O segundo disco é um fabuloso documentário, Les Misérables Stage by Stage, em que é contada a criação do musical por Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, a história da sua passagem para o palco, em Londres, pelas mãos de Cameron Mackintosh, e da sua posterior difusão pelo mundo, com produções em (pelo menos) 35 países, passando por Israel, Japão, Islândia, Austrália, República Checa ou Hungria...

Tive a sorte de o ver ainda antes dos meus primeiros Miseráveis em palco, o meu amigo João N., que tinha a abençoada mania de gravar tudo e mais alguma coisa na televisão, tinha-o caçado havia coisa de um ano na RTP 2 e levou-mo, naquela fase em que eu só ouvia Miseráveis de manhã à noite.

Faltava apresentar Javert, o inspector da polícia, o eterno perseguidor de Jean Valjean (que no vídeo de Les Misbarack surge como John McCain). Eis Philip Quast, que não foi o criador do papel, mas que toda a gente concorda ser o maior Javert de sempre. Aqui fica ele em Stars, uma das mais belas músicas de Les Misérables.

Para ouvirem o grande Philip Quast, é favor parar a música lá em cima, que é a do original de Londres, cantada por Roger Allam, que criou o papel.







domingo, 2 de novembro de 2008

I Les Misérables - V

Chegámos finalmente onde eu queria, a esta música: One Day More. Que corre o sério risco de ser a minha favorita na admirável construção musical que é Les Misérables. Ou talvez não... que o capricho momentâneo vai-me fazendo eleger ora uma, ora outra, como as preferidas. Seja como for, é uma música extraordinária.

É o final do primeiro acto. Tudo fica em suspenso. Para todos. Jean Valjean é novamente perseguido por Javert, que lhe encontrou o rasto. Marius e Cosette acabam de se apaixonar. Éponine sofre. Os estudantes constroem a barricada... Tudo é uma imensa interrogação. O dia seguinte será decisivo. One Day More...

O retrato à esquerda, se bem que péssimo, é-me especialmente querido. Eu e o Vítor em Nova Iorque, Outubro de 2001. Fomos rever Les Misérables, claro. Um mês depois do horror que foi o 11 de Setembro, toda a gente a proclamar-nos doidos por irmos aos Estados Unidos naquela altura (já tinha começado o pesadelo do antraz, as malas no aeroporto foram-nos revistadas por polícias enluvados). Fomos, e ainda bem que fomos. We came in the most uncertain hour, como canta Paul Simon numa certa música cá muito das minhas obsessões. Tinha passado apenas um mês, a cidade ainda estava em estado de choque. Em volta do Ground Zero ainda se multiplicavam velas acesas e fotografias com apelos desesperados. MISSING! Aquela cidade, a maior do mundo, sentia-se de repente fragilizada, o amanhã era uma coisa incerta. One Day More...



I Les Misérables - IV

Jean Valjean é a personagem central de Os Miseráveis. Jean Valjean somos todos nós, e isso é bem a medida da genialidade de Victor Hugo. Jean Valjean, para mim, será sempre Colm Wilkinson. Nunca o vi em palco, tremenda mágoa, mas é ELE.

Quando a história começa, Jean Valjean cumpre trabalhos forçados há dezanove anos por ter roubado um bocado de pão. Eram outros tempos, estava-se em plena Revolução Industrial (alguém por aí terá lido Sem Família, de Hector Malot?), a propriedade era o valor maior, contava mais do que a vida humana.

Dezanove anos depois dão-lhe liberdade. Javert, que virá a ser a sua Némesis, adverte-o de que já não tem um nome, é só um número: 24601.

Poderia ter sido isso, poderia ter sido assim. Mas Jean Valjean encontra o bispo. E o bispo (lembram-se? Apaixonei-me perdidamente por ele no primeiro capítulo do livro, na minha adolescência) salva-o. Saído da cadeia, Jean Valjean é escorraçado por todos, todas as portas se lhe fecham. Acaba por encontrar guarida em casa do bispo, onde passa a noite. O bispo vive em enorme pobreza, tudo o que recebe é imediatamente dado aos que têm ainda menos. Mas tem dois bens preciosos, que a irmã e a criada cuidam com desvelo amoroso: dois castiçais de prata (provavelmente o bispo ainda não tinha olhado para eles com olhos de ver, ou já os teria convertido em ajuda para os necessitados). Jean Valjean rouba os castiçais. A polícia prende-o e leva-o à presença do bispo, o legítimo proprietário. O bispo mente com toda a firmeza: há ali um engano, os castiçais foram por ele oferecidos a Jean Valjean. A polícia parte. O bispo diz a Jean Valjean que acaba de lhe comprar a alma: desse dia em diante Jean Valjean é um instrumento de Deus e da Sua infinita bondade (podem ouvir aqui).

«But remember this, my brother
See in this some higher plan
You must use this precious silver
To become an honest man
By the witness of the martyrs
By the Passion and the Blood
God has raised you out of darkness
I have bought your soul for God!»


Assim será. Jean Valjean, todo revolta, debate-se contra o amor que não esperava. Mas o amor é mais forte, o amor opera o milagre. Jean Valjean muda. Encontramo-lo anos mais tarde, sob o nome de M. Madeleine, próspero proprietário, presidente da câmara. E justo, benevolente. Os castiçais de prata acompanham-no sempre, como lembrança da figura redentora do bispo.

Até um certo dia... Javert continua a perseguir Jean Valjean e julga tê-lo encontrado. O verdadeiro Jean Valjean luta com a sua consciência. Centenas de pessoas dependem agora dele. Mas poderá deixar um inocente pagar pelas suas culpas? M. Madeleine... Jean Valjean... 24 601...

Who Am I? A letra é desnecessária, está no vídeo. «My soul belongs to God, I know/I made that bargain long ago



Jean Valjean, julgo, é a maior personagem da literatura universal. A seguir vem Pierre Bezukhov, de Guerra e Paz (a personagem que, sendo já a minha favorita do livro, me fez apaixonar por Anthony Hopkins, tinha eu doze anos). Só depois vem o meu querido Afonso da Maia. Notem que estou a falar da grandiosidade de construção de uma personagem. Adoro-os a todos, mas as minhas personagens favoritas serão sempre Lizzie Bennet, de Jane Austen — a primeiríssima! —, seguidas pela Zé de Enid Blyton nos Cinco e, claro, pelo Guilherme (a saudade do Nuno a ferir outra vez).

Aqui, em Bring Him Home, quando resgata Marius pelos esgotos de Paris, depois de caída a barricada. Todo ele generosidade e abnegação. E aquela nota final a prolongar-se no infinito, a mostrar o extraordinário cantor que Colm Wilkinson é....



Jean Valjean é uma personagem universal e intemporal. Nele o bem e o mal lutam entre si, e o bem sai vencedor. Jean Valjean é um modelo: não é perfeito, mas tem, depois do encontro com o bispo, um ideal de perfeição. Ao qual tenta ser fiel. No momento da morte (muito lhe será perdoado, porque muito amou) suplica a Deus «forgive all my trespasses and take me to Your glory». Os fantasmas de Fantine e Éponine estendem-lhe as mãos, chamam-no, com aquelas maravilhosas palavras que foram bem a vida de Jean Valjean: «To love another person is to see the face of God


Jean Valjean morre em paz e rodeado de amor. É nesta fase do campeonato que os olhos inchados de tanto chorar já me dificultam a visão do palco, por melhores que sejam os lugares. Um gigantesco agradecimento ao Blanco, concierge do Westbury, onde tínhamos ficado, que nos proporcionou um Les Misérables absolutamente perfeito (house seats), o melhor de todos os que já vimos. E mesa no Nobu, coisa impossível à época. E lugares soberbos para An Ideal Husband, do meu amado Oscar Wilde... I Blanco.

O retrato abaixo é dessa noite memorável de Fevereiro de 1999. Eskisito, socorro! Isto está outra vez distorcido!


sexta-feira, 31 de outubro de 2008

I Les Misérables - III

Tinha devorado Os Miseráveis, de Victor Hugo, lá pelos meus treze ou catorze anos — os cinco volumes, sim. Apaixonei-me logo pela primeira personagem que nos é apresentada, o bispo, e a partir daí não consegui parar até chegar ao fim, coisa que levou menos de duas semanas. Viria, inevitavelmente, a reler tudo depois de ter conhecido a obra musical.

Quando o Vítor me ofereceu o disco, ainda na versão da Broadway (esta) fiquei muito tempo a olhar para a capa. Aquela imagem, que eu ainda não sabia ser da pequena Cosette, titilava memórias com mais de vinte anos. Eu conhecia aquela imagem! Fui direita à estante, peguei no primeiro volume, que reproduzia (como os restantes, aliás) as gravuras da edição original, de 1862. E encontrei a gravura de Émile Bayard que retratava Cosette quando ainda vivia com os tenebrosos Thénardier, antes de ser salva por Jean Valjean — a gravura que, cento e vinte e tal anos depois, viria a ficar célebre mundo fora como imagem do musical.

No musical é justamente nessa época de grande infelicidade que a pequena Cosette, enquanto varre e lava o chão da taberna, canta Castle on a Cloud. Podem ouvi-la no link, podem vê-la aqui, no já mítico concerto do 10.º aniversário:



Acabo de fazer uma descoberta sobre a qual as opiniões (como sobre o bardo Assurancetourix) podem dividir-se: para mim é dramática, para os leitores da Gota é provavelmente um alívio. Citando palavras do bispo, «see in this some higher plan», há uma coisa que eu quero pôr aqui no dia 3 de Novembro. Para tal, preciso de apresentar na véspera uma certa coisa dos Miseráveis. O que só me deixa livre o dia de amanhã. Adeus planos de vos apresentar coisas magníficas como a morte de Fantine, Red and Black ou Empty Chairs at Empty Tables. Ou o glorioso final. «Ora bolas! Com tantas coisas a cortar já não deve sobrar nada!», pensarão os meus amigos. Enganam-se, enganam-se! Falta Javert. E falta, claro está, Jean Valjean!

Não tinha pensado num possível plano B: pôr aqui tudo isso depois do dia 4 de Novembro. Começa a tentar-me, mesmo tendo alguns escrúpulos em ser injusta com outras grandiosas noites de Teatro que tive, cujo único azar é não estarem documentadas no Youtube.

Amanhã logo se vê. Esta noite ficam com a Cosette adulta e o jovem Marius, que acabam de se apaixonar, coisa que acontece no momento em que põem os olhos um no outro, na boa tradição da Ópera — aliás esta cena sempre me fez lembrar a do final do I acto da Bohème, entre Rodolfo e Mimì.

Cosette é Judy Kuhn, Marius é o espantoso Michael Ball, que criou o papel em Londres e na Broadway. Não posso deixar de mencionar os desgarradores àpartes de Éponine (Lea Salonga), de quem já falei, e que levou Marius ao encontro de Cosette. E que assiste às suas declarações de amor eterno. Every word that he says is a dagger in me... He was never mine to lose... These are words he'll never say... not to me...



domingo, 26 de outubro de 2008

I Les Misérables - II

Sempre que revemos Les Misérables tiramos um retrato, já se tornou uma tradição. Este, de 2002, é o meu preferido.

Como já disse, são três horas de choradeira quase ininterrupta. Ainda não decorreu meia hora e eu já estou a ficar sem lenços... Tirando os momentos em que aparecem os estalajadeiros, os Thénardier, pais de Éponine, que escravizam a pequena Cosette. Estes incríveis vilões resultam de uma grande comicidade e o momento em que surgem em cena faz-nos descomprimir, tamanho o drama em palco. Fantine, depois de se prostituir, de vender dentes e cabelo para assegurar o sustento da filha e fazer face às constantes exigências de dinheiro dos Thénardier, morre nos braços de Jean Valjean, que lhe promete que olhará por Cosette como se fosse sua filha.

É então que os Thénardier nos são apresentados. E a casa vem abaixo! De repente, é impossível não rir., e não rir muito Porque os actores são sempre fantásticos e porque a letra é absolutamente brilhante.

Ora vejam... Alun Armstrong, grande actor, é o odioso mas irresistivelmente cómico M. Thénardier (o papel foi criado por ele). Jenny Galloway é Mme. Thénardier. Um grande momento de Teatro!



quinta-feira, 23 de outubro de 2008

I Les Misérables - I

Chora-se muito nesta obra. Chora-se baba e ranho quatro quintos do tempo. Como me disse um americano um nadinha embaraçado há coisa de dez anos, provavelmente encorajado pelo facto de me ter apanhado em flagrante a enxugar uma torrente de lágrimas, no fim do primeiro acto, «é sempre a mesma coisa! Já é a quinta vez que vejo isto e não consigo parar de chorar!». Já me fartei para aqui de chorar, só de coligir material para este post, que é sobre... Éponine.

Éponine é filha dos estalajadeiros, os Thénardier (lá iremos). À esquerda têm Frances Ruffelle, a primeira Éponine em Londres e em Nova Iorque, a mesma que estão a ouvir, no disco de Londres. Cheguei dez anos atrasada, nunca a vi em palco. Conhecemos Éponine criança (no livro), com a idade da pequena Cosette, escravizada pelos seus abomináveis pais. No musical só conhecemos a Éponine jovem mulher, e é infinitamente comovedora.

Apaixonou-se por Marius, que nem se apercebe da sua existência. Éponine assiste à paixão fulminante de Marius por Cosette (que não reconhece, evidentemente, é a criança de dez anos que Jean Valjean, fiel à promessa feita a Fantine, livrou dos desprezíveis Thénardier, seus pais). E sofre. Éponine faz-se mensageira, até leva um recado de um Marius perdido de amores a Cosette. Mas sofre. É o que nos conta em On My Own.

ON MY OWN
«And now I'm all alone again

Nowhere to turn, no one to go to.
Without a home, without a friend
without a face to say hello to
But now the night is near
And I can make-believe he's here

Sometimes I walk alone at night
When everybody else is sleeping
I think of him and then I'm happy
With the company I'm keeping
The city goes to bed
And I can live inside my head

On my own
Pretending he's beside me
All alone
I walk with him 'til morning
Without him, I feel his arms around me
And when I lose my way, I close my eyes and he has found me

In the rain
The pavement shines like silver
All the lights are misty in the river
In the darkness, the trees are full of starlight
And all I see is him and me forever and forever

And I know it's only in my mind
That I'm talking to myself and not to him
And although I know that he is blind
Still I say there's a way for us

I love him
But every day I'm lonely
All my life I've only been pretending
Without me, his world will go on turning
The world is full of happiness that I have never known

I love him
I love him
I love him...
But only on my own... »

Julgo que menos de meia dúzia, entre as pessoas que me lêem, vão dar-se ao trabalho, ou ter a curiosidade de ver e ouvir o que aqui fica hoje, e que tão tremendamente me toca. Não tem grande importância, é como na parábola do Evangelho, talvez a que me é mais querida: «Saiu o semeador a semear...»

Linzi Hately, a primeira Éponine que conheci, ainda antes daquela mágica primeira noite em Londres. O meu amigo João N., ao saber que eu estava viciada na obra, ofereceu-me Les Misérables - Stage by Stage em VHS. Há muito que tenho também em DVD.



Lea Salonga, a mesmíssima que foi a primeira Miss Saigon, na mesma cena, naquela tal noite que me teria feito vender a alma ao Diabo, a noite do 10.º aniversário.



Pouco adiante, Éponine morre nas barricadas. A Little Fall of Rain (ruidosos soluços cá deste lado). Morre nos braços de Marius, o seu amor impossível. Se não verterem abundantes lágrimas com esta cena, com esta música, só há uma explicação possível: vocês, meus amigos, têm uma calota polar no lugar do coração.




quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Mágicas Noite de Teatro #2: Les Misérables

Les Misérables (Les Mis, assim lhe chamamos afectuosamente, nós os taradinhos), como tema para um post, anda na minha cabeça há mais de ano e meio. Acabo por desistir sempre, que a minha paixão por esta obra é imensa, e receio de não ser capaz de a transmitir como desejaria e, acima de tudo, como ela merece. Mas agora o post torna-se premente porque quero partilhar convosco uma coisa hilariante, e a data-limite está cada vez mais próxima, é já a 3 de Novembro...

A imagem à esquerda é do programa da primeira vez que vi Les Misérables em palco, no querido Palace Theatre de Londres. Uma noite inesquecível de um fim-de-semana que foi o presente (antecipado) do Vítor pelos meus 35 anos. Um dia talvez conte a história toda. De como, depois de uma sucessão incrível de azares, acabámos por ocupar duas gigantescas suites contíguas no famoso Claridge's. Mas o melhor da história talvez seja mesmo o argumento dos melões de Almeirim, com que confrontei o gerente e nos rendeu um pequeno-almoço de nababos. Adiante...

Depois dessa primeira noite (retrato à direita), ia o musical em quase dez anos de representações, houve outras, em Londres e também em Nova Iorque. Em Londres era sempre melhor (para restabelecer o equilíbrio, o Chicago de Nova Iorque é sempre melhor, se bem que, acreditem ou não, o melhor Chicago que vi foi... em Lisboa), agora já não há termo de comparação, já não há Les Misérables na Broadway.

Eu e o Vítor somos juntos, desde os catorze anos, aquilo que vocês já vão sabendo. Partilhamos tudo, partilhamos, mais do que quaisquer outras coisas, e porque são o melhor de nós mesmos, o riso e a música. Aos dezassete anos, sentados lado a lado, distraíamo-nos do tédio das aulas de Direito (aulas em que se fumava, pasmem!) a fazer listas. Listas das melhores músicas dos Beatles, das melhores músicas dos Simon & Garfunkel... Mas só a meio da casa dos trinta começámos a partilhar a Ópera (o meu contributo para o património comum) e os Musicais (o dele). E tudo começou com esta obra. Não vou contar aqui a história, é demasiado pessoal, demasiado íntima. A música com que o Vítor me apresentou Les Misérables vinha direitinha ao encontro de coisas que me doíam muito e, quando chegou ao fim, eu estava lavada em lágrimas. E pedi para ouvir outra vez. E mais outra... Nem sequer vou dizer qual é, talvez um dia um de vocês adivinhe.

No dia seguinte o Vítor ofereceu-me o disco (este, a versão da Broadway, que foi a que ouvimos nos tempos seguintes, têm à esquerda a capa do programa de Nova Iorque, guardo tudo religiosamente). Aquilo tornou-se para mim uma obsessão, não se ouvia outra coisa em minha casa. Peguei a obsessão ao namorado nessa época recente, a primeira vez que o vi chorar foi a ouvir a cena da morte de Fantine... Come to Me, a maravilhosa Patty Lupone, que vi há mês e meio numa outra mágica noite de Teatro, e Colm Wilkinson, o meu trovador irlandês, o primeiro e inesquecível Jean Valjean... O passo seguinte era ver Les Misérables ao vivo, coisa que aconteceu dois meses depois.

No teatro, ao intervalo, o Vítor ofereceu-me o disco original, o de Londres, o melhor (a orquestra nem se compara),o que oiço sempre. Os cantores principais são os mesmos, dois anos mais tarde, em 1987, Les Misérables estreava na Broadway: Colm Wilkinson, Patty Lupone, Philip Quast, Frances Ruffelle, etc.

O post vai longo e a hora adiantada. Amanhã continuo, que muito há ainda a dizer. Deixo-vos com Do You Hear the People Sing?, que está longe (muito longe) de ser a minha música preferida. Acontece apenas que é uma das mais imediatas e empolgantes, talvez a que mais imediatamente se nos instala no ouvido como uma mania. As palavras fabulosas de Herbert Kretzmer, o senhor das letras inglesas de Charles Aznavour. E há outra razão: o vídeo, este vídeo do concerto de celebração do 10.º aniversário. Les Misérables tinha corrido mundo, já havia incontáveis produções. Nessa noite (que Deus me perdoe, mas também teria vendido a alma ao Diabo para ter lá estado), DEZASSETE Jean Valjeans de dezassete produções diferentes da obra cantam esta música, cada um na língua da respectiva produção. O primeiro é Colm Wilkinson, o criador do papel em Londres e na Broadway, e que nessa noite tinha voltado a cantá-lo. O segundo é Phil Cavill... que foi o meu primeiro Jean Valjean em palco, naquele dia 6 de Agosto de 1995.

Preparem-se para um momento mágico.