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sexta-feira, 15 de junho de 2012

The domino effect

«I have always depended on the kindness of strangers.» — esta frase célebre é da patética Blanche DuBois de Tennessee Williams em A Streetcar Named Desire. Patética no sentido de comovente, que inspira piedade, e não no sentido pejorativo e vulgarizado nos últimos anos, julgo que por influência directa do inglês. Nem de outra forma se poderia entender que Beethoven tivesse uma sonata para piano e Tchaikovsky uma sinfonia com esse nome. 

Tive a sorte e o privilégio de ver uma assombrosa Glenn Close no papel que já tinha dado a Vivien Leigh o seu segundo Oscar. Foi no National Theatre, em Outubro de 2002 (ver aqui a crítica do The Guardian). 

Devo dizer que há uma coisa que me põe doente no público teatral, quer em Londres quer em Nova Iorque: a rapidez com que despacha os aplausos, por mais extraordinário que seja aquilo que viu em palco. Duas ou três curtain calls e ala que se faz tarde. Com Glenn Close foi diferente. Quando ela surgiu para agradecer pela primeira vez irromperam berros e palmas entusiásticas vindos de umas quatro ou cinco filas atrás de nós, que estávamos na primeira, ao centro. Voltámo-nos para trás, tão invulgar aquilo era. De pé, aplaudindo furiosamente, estava Woody Harrelson. Os espectadores atrás dele, para verem melhor, acabaram por se levantar também, e em menos de nada a sala inteira aclamava de pé, numa ovação interminável que se repetiria mais umas cinco ou seis vezes, graças a ele (que tinha vivido com Glenn Close alguns anos antes). Os theatre buffs chamam a isto «the domino effect», na maior parte das vezes em tom trocista. Naquele caso justificava-se plenamente, e devo dizer que aquela produção, assinada por Trevor Nunn (a quem eu já devia a de Les Misérables), tinha um dos cenários mais espantosos que me lembro de ter visto, julgo que só superado pelo de The Breath of Life, de que já falei aqui.


Vivien Leigh e Marlon Brando, A Streetcar Named Desire (1951)

«Whoever you are, I have always depended on the kindness of strangers» é a frase final de Blanche DuBois, e tem-me ocorrido muitas vezes, perante as tantas mensagens de desconhecidos que me têm chegado nos últimos tempos. Uma delas calou especialmente fundo. Reproduzo-a abaixo, com autorização da autora, a que chamarei A. É um testemunho. É um documento. 

«Teresa,


Sou filha de um médico.

Durante anos, ao almoço, falar de fígado não significava necessariamente que a minha mãe tinha feito iscas, mas antes que o tema de discussão era a cirrose hepática de um doente alcoólico. Quando se juntavam amigos, então, era brutal: uma alma mais sensível teria dificuldades em acompanhar alguns jantares sem ficar mal disposta.

Habituei-me a ver fotografias de pernas ulcerosas, estômagos com feridas e intestinos roxos metidas no meio de belas recordações da minha família de férias na praia. 

Fiz cirurgias completas em todas as Tuxas que tive e muitas acabaram sem cabelo porque estavam a fazer quimio.

Nunca disse “vista”, mas olhos. Nem “peito”, mas mamas (ou maminhas, que cedo percebi que o mundo não estava preparado para ouvir uma miúda de 12 anos dizer assim mamas, com as letras todas. É a palavra mais feia da língua portuguesa, eu acho).  O meu pai fuzilava-me com os olhos quando eu, ranhosa, dizia que estava com gripe. Qual gripe, isso quanto muito é uma constipaçãozita! Ben-u-ron no bucho e segue, amanhã já estás boa.

Enquanto os meus coleguinhas na escola primária escreviam sobre a Primavera, eu lembro-me de inventar enredos mirabolantes, passados invariavelmente num hospital – para mim, o único lugar do mundo onde o luto nunca vencia, porque toda a gente usava sempre a mesma bata imaculadamente branca e, quando morria alguém, não havia tempo para chorar.  Tão deprimente e “adulto” que a Professora Fátima, coitadinha, ficava aflita e chamava a minha mãe à escola, para saber se havia problemas em casa.  Hei-de ter lá para casa essas pérolas, guiões infantis da Anatomia de Grey.

Desde miúda, portanto, que lido com as doenças como parte natural da vida. Claro que durante muitos anos fi-lo de modo abstracto: tudo era ciência, a cura não era um mito urbano, nem um milagre, mas antes um organismo a receber – e a aceitar – centenas de anos de investigação. Quando corria mal, corria mal – nos hospitais não há tempo para lutos. Salvemos o seguinte.

Com a idade e a chegada de mazelas aos meus, comecei a tentar levar a coisa da forma mais desassombrada que os afectos me permitem, num equilíbrio às vezes ténue entre o racional e o emotivo – porque é tudo muito bonito, isso da ciência e da lei da vida e da morte e tudo o mais, mas quando nos toca directamente a coisa muda de figura.

Percebi também que ter uma doença muito grave deve ser o momento mais solitário que se pode viver: somos só nós e a noção clara de ver uma pistola apontada à cabeça (que todos temos, mas só alguns vêem): tive a certeza disso quando acompanhei muito de perto a luta de um querido tio, que se debateu estoicamente durante 12 anos contra um estupor de um tumor cerebral. Benigno, como se uma coisa tão má e incapacitante algum dia pudesse ter um nanograma de benignidade (enfim). Esteve sempre connosco e entregue à melhor equipa de neurocirurgia do país, mas no fundo estava sozinho – a luta era contra ele próprio, contra a multiplicação de células que o seu organismo teimava em continuar. Coisa mais parva, quando uma pessoa quer tanto viver e a luta que tem é contra o seu próprio corpo.


Confesso que li o email que teve a delicadeza de me enviar e sabe o que achei que lhe tinha acontecido? Um problema qualquer com uma daquelas stalkers malucas. Quando à noite fui ao “gota” e li o título do seu post pensei: casou-se! (o Big C seria de Casamento). Claro que depressa percebi: afinal a Teresa está doente. Um cabrão de um cancro. Merda.

Não vale a pena dizer-lhe que hoje em dia uma percentagem muito significativa de doentes oncológicos superam o cancro e seguem a sua vida em frente – com eternas cicatrizes, físicas e morais, mas seguem.  Isso a Teresa já sabe.

Também não vale a pena dizer-lhe que, mesmo que as estatísticas digam que o cancro A tem uma taxa de mortalidade muito elevada, os milagres acontecem e a ciência blá blá blá.  Não é novidade, a Teresa sabe.

Muito menos valerá a pena tentar diminuir-lhe o terror que deve ter sido encarar a notícia. E o medo de viver o que aí vem. Ou forçá-la a desvalorizar o sofrimento, o desânimo, o desalento (caramba, tem de ser forte, não se pode ir abaixo). Se o seu cabelo cair, vai ser duro. É ridículo dizer-lhe “deixa lá, que cresce, isso não é nada”. Pois cresce, mas entretanto caiu todo e a Teresa gosta dele. É seu. Faz parte do que é.

Afirmar convictamente que a Teresa vai superar isto tudo e enviar-lhe muita força e energia? Saber-lhe-á bem sentir-se querida pela comunidade blogosférica? Acredito que sim, e muitos fá-lo-ão - porque se preocupam, porque gostam de si. Porque a querem acompanhar, ainda que à distância. E não vale a pena fugir desse abraço bem intencionado, mesmo que seja virtual. Pela parte que me toca, todos os dias estenderei os meus braços para si, de manhã, pelas 8 e tal, 9 e picos.

Eu não sei se vai correr tudo bem; quero muito que sim, acredite. O meu lado emotivo diz-me que voltará aos teatros londrinos, ouvirá muitas músicas ainda não gravadas, lerá muitos livros ainda não imaginados. Gozará o seu amado sol, com gatos meigolas a ronronar-lhe as pernas. Comemorará muitos Agostos. Confio na ciência e mais, confio na luta que vai encetar, por si e ao mesmo tempo contra si.

E de facto, como disse tão bem a Pólo Norte, dignidade é a melhor palavra para a descrever. A Teresa é uma mulher digna. Já a sabia leal. Testemos, a partir de agora, a sua resiliência.

Deixo-lhe um forte abraço e se quiser, use-me como fiel depositária das suas amarguras. A vida leva-se a rir, mas chorar também faz parte.

A.»


Banda sonora - Beethoven - Pathétique -Adagio Cantabile (Wilhelm Kempff)

sábado, 17 de março de 2012

Mágicas noites de Teatro: The Breath of Life

O que acontece quando uma mulher decide confrontar aquela que foi, durante muitos anos, a amante do marido? O que acontece quando a mulher traída é Dame Judi Dench e a amante é Dame Maggie Smith e tudo isto se passa no palco de um teatro? Magia pura.

O encantamento começou logo que entrámos na sala do belíssimo Haymarket Theatre, um dos mais antigos de Londres. A cortina subida deixava-nos ver o cenário e a minha reacção foi igual à de toda a gente que avançava pela coxia: um grande "oh!!" deslumbrado. Que me lembre, só tive  tal reacção a um cenário duas outras vezes. A Street Car Named Desire no National Theatre (Londres, com Glenn Close como Blanche Dubois e um Woody Harrelson a aplaudir furiosamente de pé umas filas atrás), e Dinner at Eight, no Lincoln Center, em Nova Iorque. Não eram cenários, eram interiores que só por si contavam histórias.

Escrita pelo grande David Hare (autor, entre muitas outras coisas, do guião de The Hours), a peça agarra-nos desde o primeiro segundo. Apenas duas actrizes, mas quem precisa de mais quando as actrizes se chamam Judi Dench e Maggie Smith?

O encontro-confronto das duas mulheres não começa da melhor maneira, como seria de esperar. Madeleine, a amante durante 19 anos, conservadora de museu reformada e mulher com o seu quê de excêntrico, vive agora na ilha de Wight. Frances, a mulher, a legítima, fingiu ignorar a traição durante grande parte da sua duração. Tinha sabido quase desde o princípio e tinha-se calado. Aquilo que nunca tinha dito ao marido, que entretanto a abandonara para ir viver com uma pateta com metade da sua idade, vem agora dizê-lo à antiga rival. Um confronto de titãs e muitas mágoas dos dois lados.

Posso garantir-vos que poderíamos ouvir cair um alfinete, tamanha a magia do que acontecia no palco. Podíamos ouvir como as pessoas não respiravam, suspensas, chegadas à frente nas cadeiras. E assistimos fascinados à conversa destas duas mulheres no ocaso da vida, uma conversa que traz memórias antigas, que esclarece dúvidas, que revela outras infidelidades das quais nenhuma sabia («não, isso não foi comigo»). As horas correm, o último barco que sai da ilha ja partiu, Frances fica para jantar e para dormir, e a conversa continua. Noutras circunstâncias, poderiam ter sido grandes amigas. Ficamos todos a fazer votos por essa amizade quando finalmente se separam, ambas apaziguadas, e Frances, no dia seguinte, muitas horas de muita conversa depois, apanha o barco que a leva da ilha. O traste passou a ser assunto devidamente arrumado para as duas. E mesmo no ocaso da vida, há vida para diante.


Apontamento cómico: Um mês depois o Vítor voltou a Londres e tinha novamente bilhetes para a peça (compra sempre dois, mesmo que vá sozinho). Eram disputadíssimos, the hot ticket in town, lembro-me de o meu amigo Pedro, irmão da actriz Margarida Marinho (uma grande actriz, na minha opinião)  me ter contado que ela tinha ficado inconsolável por não ter conseguido ver a peça. O Vítor chega ao Haymarket Theatre e há à porta uma data de gente suplicante a pedir um bilhete. Ele ia sozinho, puxou do bilhete extra. Antes que pudesse abrir a boca, um senhor ofereceu-lhe 300 libras por ele. Ia recusar, não? E o senhor, na certa, nem pôde acreditar na sua sorte quando viu que o lugar era na terceira fila ao centro.


sexta-feira, 16 de março de 2012

Elas

Há grandes actrizes nas novas gerações. Mas ainda lhes falta qualquer coisa. Tempo, experiência, vivências, não sei. O que sei é que estas são para mim as maiores entre as maiores. Talvez tenha deixado alguns nomes de fora, mas estas são mesmo as minhas escolhas.


Meryl Steep, a grande, a única. Descobri-a era ainda adolescente, em Holocausto, nunca mais a perdi de vista. A escolha da fotografia, tão antiga, foi deliberada: é desse tempo. Meryl é também, com enorme mágoa minha, a única das minhas eleitas que nunca vi no teatro.



Dame Vanessa Redgrave. Os mais furiosos amantes de teatro consideram-na a maior actriz viva. Vi-a no National Theatre naquela coisa desgarradora que foi The Year of Magical Thinking e tenho por ela um afecto muito especial, até por causa dos escassos minutos em que mais tarde, no restaurante, estivemos à conversa (contei aqui).


Patti LuPone, a grande dama da Broadway. Vi-a duas vezes, a primeira em Noises Off, a segunda em Gypsy, que lhe daria o seu quarto Tony. Foi a primeira Fantine, primeiro em Londres, depois na Broadway (e segundo Tony), e nunca ninguém conseguirá cantar I Dreamed a Dream como ela (estragou-me a música em palco, nunca consigo chorar, fica sempre aquém). Há dias arregalei os olhos quando lhe vi uma fugaz aparição em Glee, num episódio passado em Nova Iorque. Miss LuPone estava a jantar no Sardi's. Apropriado.

Glenn Close. Provavelmente a actriz mais injustiçada da história do cinema. Fiquei boquiaberta quando, há coisa de um ano, li que lhe tinha sido atribuída uma estrela no passeio da fama de Hollywood. E todas as outras flausinas sem qualquer mérito que a tiveram antes dela? O Oscar este ano fugiu-lhe mais uma vez, mas a rival era de peso. Perder para Meryl Streep é digno. Perder para Cher, como já aconteceu, é uma anedota de mau gosto. Vi-a no National Theatre como Blanche Dubois em A Street Car Named Desire. Nunca esquecerei essa noite.


Dame Maggie Smith. Adoro-a. Não é só a actriz genial, é a mulher irreverente e de sentido de humor perverso. Merecia mais Oscars do que os dois que tem. Vi-a em Londres em The Breath of Life. Muito possivelmente a experiência teatral mais electrizante de toda a minha vida. Hei-de contar.

Dame Judi Dench. Faz muito mais teatro do que cinema, para grande prejuízo dos comuns mortais como nós que não podem vê-la em cena. Vi-a uma vez, uma única, e foi suficiente para lhe perceber a genialidade. Foi em The Breath of Life (pronto, tenho mesmo de contar).

Dame Helen Mirren. Uma carreira no cinema que cresceu aos poucos, porque para ela o grande amor também é o teatro. Vi-a em Nova Iorque há mais de dez anos, em The Dance of Death, de Strindberg, numa parceria formidável com Sir Ian McKellen. Inesquecíveis.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Mágicas Noites de Teatro: War Horse

Vi a peça, adaptada do romance de Michael Morpurgo, no fim de Novembro de 2008. No National Theatre, claro. Mais tarde viria a transitar para o West End e também para a Broadway, onde ainda está em cena. Se forem a Londres ou a Nova Iorque não percam MESMO, porque é uma experiência única. A rainha e o duque de Edimburgo puseram pela primeira vez em quatro anos os pés num teatro para a ver (e aposto que a seguir foram jantar ao The Ivy). O venerável The Times considerou-a o acontecimento teatral da década. A lista de prémios, deste e do outro lado do Atlântico, é infindável.

E que tem a peça de tão especial? Para além de uma história profundamente comovedora, sobre a qual não quero falar muito, por não saber até que ponto o filme de Spielberg lhe é fiel, de ter como suporte música belíssima, tem como protagonistas assombrosas marionetas. Cavalos à escala real que nos deixam sem respiração pela veracidade de movimentos e de reacções. Ou a chorar baba e ranho, como aconteceu comigo em muitos momentos.  A cena em que Albert consegue vencer a desconfiança e o medo de Joey (o cavalo protagonista da história) e nasce a sua amizade é das coisas mais comoventes que me lembro de ter visto em toda a minha vida. Chorei como uma fonte.

A história passa-se na I Guerra Mundial, para a qual Joey é recrutado, sendo separado do seu adorado Albert. A odisseia de Joey nos campos de batalha choca-nos, horroriza-nos. Sei, sabia, o que tinha sido aquela guerra, muito tenho lido e visto sobre ela. Mas nunca tinha pensado que, de alguma forma, apesar do gás, apesar das trincheiras, apesar das novas estratégias, apesar de já haver aviação, tinha sido a última guerra a desenrolar-se ainda de acordo com fórmulas e esquemas centenários, e que havia animais, muitos animais no meio daquele pesadelo. Além dos milhões de vidas humanas, morreram quase dez milhões de cavalos. Cerca de 9 586 000. O número gela-nos.

A peça acaba por funcionar também como uma grande homenagem a todas essas vítimas inocentes, como são todas as vítimas. 

Para que possam captar alguma da sua magia, dos cavalos em movimento, das suas reacções humanas, vejam estas breves imagens (e notem que a música, que é da peça, é justamente aquela que sempre soube que escolheria para pôr aqui):


E fiquem também com estas, há muito retiradas da página do National Theatre, enquanto ainda estava lá em cena — como disse, há mais de três anos que andava para escrever sobre isto.











Banda sonora: Adrian Sutton and John Tams - The Year Turns Round Again (War Horse)

sábado, 29 de janeiro de 2011

Uma estrela fora do seu tempo

O título não é meu, como minhas não são as belíssimas palavras que se seguem. Título e palavras  são do Pedro Correia, num post de ontem no Delito de Opinião,  em tocante homenagem a uma grande actriz que os mais novos provavelmente nem conhecerão: Susannah York.

Há anos que procuro regularmente, sem nunca a encontrar, uma certa produção televisiva de La Voix Humaine, de Cocteau, em inglês. É de facto uma peça para uma voz. O texto, que só conheço no original francês, quando lido pode chegar a parecer trivial, de uma banalidade confrangedora. É a voz da actriz agarrada ao telefone numa conversa inconsequente com o ex-marido, por quem continua desesperadamente apaixonada (a peça é um longo monólogo, só ouvimos a voz dela), que lhe dá matizes que o tornam profundamente comovedor, verdadeiramente patético. Nessa produção inglesa há muito vista na RTP2 e nunca esquecida, a actriz era Susannah York.

Susannah York morreu no dia 15 de Janeiro e eu só soube ontem, no Delito de Opinião. Teria sabido mais cedo, é certo, se tivesse mais tempo para visitar certos fóruns de Teatro muito do meu agrado, em que muito tenho aprendido, nenhum outro como All That Chat, do fabuloso TalkinBroadway. Ainda assim, não vi qualquer notícia, por mais pequenina, em qualquer jornal, e tamanho alheamento choca-me.

Vi Susannah York em palco uma única vez, faz amanhã, dia 30 de Janeiro, doze anos.  Como lembro tão bem a data? É simples, muito simples, mesmo não tendo eu ainda, nessa época, o bom hábito de guardar o bilhete dentro do programa da peça. Voámos para Londres na manhã de 29 e nessa noite vi pela primeira vez  Chicago, paixão que me ficou para o resto da vida.  Para a noite seguinte tínhamos, arranjados pelo concierge do Dorchester, bilhetes para o revival de West Side Story, graças aos bons ofícios do meu amigo A., sempre íntimo de quem interessa em todos os hotéis de luxo, e para os nossos bilhetes pouco importou que ele em Londres fique sempre no Claridge's. Ora os tais bilhetes desencantados pelo Dorchester como grande prodígio eram em lugares para nós intoleráveis, lá para uma 15.ª fila. Exasperados, a espumar de fúria, nem o sumptuoso (e de preço obsceno) chá do Dorchester nos aplacou o rancor. E para aqueles lugares não íamos, era ponto assente.

Voltámos para o nosso hotel, o óptimo Westbury, mesmo sem os luxos asiáticos do Dorchester ou do Claridge's (e no segundo já fiquei, sei do que falo). Fomos desabafar o nosso desespero com o Blanco, o concierge. Afinal, não nos tinha ele conseguido, para essa noite ou para a seguinte — confesso que não tenho a certeza  —, essa coisa impossível que eram reservas para o Nobu, com uma lista de espera de dois meses para os comuns mortais como nós? O Blanco esteve à altura. Após dois ou três telefonemas, disse que nos arranjava grandes lugares para An Ideal Husband ou para Miss Saigon. Tentei reprimir a excitação: uma peça de Oscar Wilde, o meu tão amado Oscar Wilde! A escolha tinha de ser de pleno acordo. Vários factores pesaram na decisão, que tentámos fazer racional. Nenhum de nós conhecia ainda Miss Saigon (que venero), mas estava para durar e ambos preferimos sempre ver uma obra a que já conhecemos muito bem a música, a experiência é infinitamente mais completa; em contrapartida, An Ideal Husband estava com a chamada limited run, ficaria em cena mais um mês ou mês e meio, no máximo, e nós vivíamos e vivemos em Lisboa. Acresce que, ao princípio da tarde, muito antes de saber o que nos esperava, eu tinha citado Oscar Wilde e o Vítor tinha rido a bom rir: «To love oneself is the beginning of a lifelong romance.»  A frase era justamente de An Ideal Husband, foi com uma cotovelada de deleite que o Vítor ma assinalou, delirante, instalados nos nossos soberbos lugares da quinta fila ao centro.

E foi assim que vimos Susannah York no papel da maquiavélica Mrs Cheveley. Linda, linda (LINDA!). Mas, mais do que isso, perfeita na personagem. Mágica. Volto sempre a este adjectivo quando falo de inesquecíveis noites de Teatro. Porque são isso mesmo: mágicas.

Tenho algures num álbum, ainda por digitalizar, uma péssima fotografia de nós dois frente ao teatro. Muito escura, acho que era de uma daquelas máquinas descartáveis, e era Janeiro e era Londres. Pouco importa, o nome da peça, por trás de nós, é bem visível. E temos esta preciosa memória, que nada pode apagar. 

Chega de tagarelice. Passo a palavra ao Pedro Correia, que encontrou sobre Susannah York palavras que eu gostaria de ter escrito.



Há certas actrizes que nos parecem deslocadas da sua época. Senti sempre que era esse o problema com Susannah York. Esta inglesa nasceu para o cinema numa altura em que as deusas do celulóide eram vistas como uma relíquia do passado. Naquela década de 60, interessava “desmistificar” a mulher, torná-la “igual” aos homens, "libertá-la" de toda a encenação e todo o artifício. Carole Lombard, Ingrid Bergman, Rita Hayworth, Ava Gardner, Grace Kelly, Elizabeth Taylor e tantas outras rainhas dos anos dourados de Hollywood davam lugar à mulher banal, destituída de glamour, despojada daquele brilho cintilante que todas as estrelas irradiam. Era o tempo da Sally Field e da Jill Clayburgh e da Glenda Jackson e da Sarah Miles e da Karen Allen: figuras banais, rostos banais, que poderíamos ver a qualquer hora num restaurante de bairro ou num transporte público.

A mulher destituída de aura hollywoodesca era uma mulher “libertada”, uma mulher “consciente” – dizia-se então. E até actrizes inegavelmente belas desse período, como Jane Fonda e Julie Christie, pareciam pedir desculpa aos espectadores, em sucessões contínuas de filmes urbano-depressivos, por serem tão bonitas. Nesses tempos carregados de ideologia, havia uma conotação implícita entre beleza e classe dominante, que devia ser derrubada pelas massas oprimidas. Muito sofreram algumas mulheres desses tempos. E muitos homens também...

Susannah York nada tinha de banal. Bastava vê-la surgir em cena para se perceber que era impossível permanecer indiferente ao fulgor daqueles olhos azuis, à sedução daqueles lábios volumosos e ao fascínio daquela voz quente e bem timbrada. Desempenhou papéis memoráveis em dois filmes galardoados com o Óscar: Tom Jones (1963) e Um Homem para a Eternidade (1966), ambos de produção britânica. Entrou numa das películas norte-americanas mais aclamadas da década de 60: Os cavalos também se abatem (1969). Fez de mulher de Marlon Brando no mega-sucesso Super-Homem (1978). Contracenou com Alan Bates num perturbante filme de culto: O Uivo (1979). Trabalhou também na televisão: lembro-me bem dela na versão britânica da série Dear John.

Filmar com Fred Zinnemann, Sydney Pollack, Richard Donner, Tony Richardson e Jerzy Skolimowski, entre outros nomes grandes da realização, é suficiente para garantir a alguém um lugar em qualquer enciclopédia do cinema. Mas fiquei sempre com a convicção de que Susannah York podia ter ido muito mais longe do que foi, tornando-se um verdadeiro ícone da sua época. O problema não foi dela, mas dos ventos dominantes daqueles dias que mandavam derrubar todos os ícones em nome da idolatria do cidadão comum. Um problema insolúvel para quem era incomum, como Susannah York. Tivesse ela nascido dez anos mais cedo ou vinte anos mais tarde, nada decorreria como decorreu. Nem, como sucedeu há dias, se despediria da vida – depois de se despedir do cinema – perante a lamentável indiferença de um público cinéfilo que em muitos casos não chegou sequer a saber quem ela foi.»


E os comentários:

De Teresa a 29 de Janeiro de 2011 às 00:47
Estou chocada, Pedro. E triste. É por si que, duas semanas depois, sei da morte de Susannah York. Sic transit Gloria Mundi, é qualquer coisa assim, não é? Esta partida silenciosa lembra-me a do grande Sir Georg Solti, que morreu poucos dias depois da Princesa Diana e da Madre Teresa de Calcutá. Dele ninguém falou nos noticiários, não vendia revistas. É que era só um grande maestro, um dos grandes do séc. XX. E a partida de um vulto destes não dá matéria para títulos de primeira página ou aberturas de telejornais.

Tive o privilégio de ver Susannah York no palco, no princípio de 1999, como a pérfida Mrs Cheveley de An Ideal Husband, de Oscar Wilde. Mágica. Mágica.

Mundo muito estúpido, que põe nos píncaros as Hannahs Montanas e os miúdos de cabelo ridículo (aquele Justin qualquer coisa).
De Pedro Correia a 29 de Janeiro de 2011 às 09:36
Que privilégio, tê-la visto em palco! Sempre admirei muito esta actriz e fiquei chocado com a indiferença quase generalizada face à notícia da morte dela. E afinal já nem devia surpreender-me com isto. A memória das pessoas está cada vez mais curta e é cada vez mais selectiva - no pior dos sentidos do termo.

sábado, 8 de novembro de 2008

Mágicas Noites de Teatro #3: Cabaret

Sam Mendes é principalmente um homem de teatro (apesar de, na sua estreia como realizador, ter logo conquistado um Oscar por American Beauty, sempre há gente muito talentosa...) e até já esteve à frente daquele monumento que é a Donmar Warehouse, en Londres. E foi justamente em Londres que a sua produção de Cabaret começou. Não a vi lá, com infinita pena minha, mas ainda fui a tempo de a apanhar na Broadway, para onde viria a ser transferida. E vi-a em Outubro de 2001, como podem comprovar pela capa do programa.

Já estávamos nós com os bilhetinhos comprados, lá por volta do fim de Junho, quando foi anunciado que Brooke Shields ia ser a nova Sally Bowles. Pré-apoplexias para mim e para o Vítor. Claro que já não íamos ver Alan Cumming como MC ou Natasha Richardson como Sally (lembram-se? — vi-a em Julho, a jantar com a senhora sua mãe, Dame Vanessa Redgrave), que tinham sido os actores iniciais em Londres e na Broadway, onde ambos ganharam o Tony, mas... Brooke Shields a fazer Sally Bowles...? A menina da Lagoa Azul? Que mal tínhamos nós feito a Deus?!

Cheios de ressentimento, lá fomos, mesmo assim, para os nossos fantásticos lugares, prontos a odiar Brooke Shields. Pois, meus amigos, naquela noite apaixonámo-nos por ela! Estava perfeita no papel, e muito tocante, além de ter aquela beleza que se sabe. De resto, é suposto Sally Bowles cantar num cabaret de terceira na decadente Berlim que antecede a II Guerra Mundial, nem faz muito sentido que seja uma grande cantora, ou faz?

A produção era uma coisa verdadeiramente assombrosa. O Studio 54, que foi entre 1977 e 1980 a mais famosa boîte do mundo — na pista acotovelava-se gente como Andy Warhol, Calvin Klein, Carolina do Mónaco, Freddie Mecury ou Mick Jagger com ou sem Jerry Hall, — depois de muitos acidentes de percurso foi transformado em teatro e o Cabaret de Sam Mendes foi precisamente a sua estreia no novo ramo.

Para recriar a atmosfera pretendida, a de um cabaret dos anos 30, toda a plateia foi substituída por mesas para quatro pessoas, com um candeeirinho que depois era apagado e serviço de bar antes do início do espectáculo e no intervalo. A nossa, que partilhámos com dois desconhecidos, obviamente, era na primeira fila de mesas, ao centro. Já no balcão, como era impossível pôr mesas, puseram pranchetas com a mesma função a cada dois lugares. Foi aliás nessa noite que ouvi pela primeira vez a célebre interpelação «Hey you poor people up there! Hey you in the cheap seats!" feita pelo MC.

Tanta e tamanha pontaria tivemos que apanhámos Brooke Shields na sua penúltima noite. Na noite seguinte ela encerrava a sua passagem por Cabaret e nós estávamos em Tampa, Florida, a ver a nossa adorada Bea Arthur.

Se quiserem ouvir Liza Minnelli, a Sally Bowles no cinema, e que é de facto uma extraordinária cantora, podem fazê-lo aqui. Eu prefiro a versão de Natasha Richardson, que me comove muitíssimo mais. A música é a mesma. Maybe This Time.

P.S. Como devem calcular, não tenho a mais remota intenção de ir investigar o que Filipe La Féria fez a esta obra. Não leves a mal, Wednesday...

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Mágicas Noite de Teatro #2: Les Misérables

Les Misérables (Les Mis, assim lhe chamamos afectuosamente, nós os taradinhos), como tema para um post, anda na minha cabeça há mais de ano e meio. Acabo por desistir sempre, que a minha paixão por esta obra é imensa, e receio de não ser capaz de a transmitir como desejaria e, acima de tudo, como ela merece. Mas agora o post torna-se premente porque quero partilhar convosco uma coisa hilariante, e a data-limite está cada vez mais próxima, é já a 3 de Novembro...

A imagem à esquerda é do programa da primeira vez que vi Les Misérables em palco, no querido Palace Theatre de Londres. Uma noite inesquecível de um fim-de-semana que foi o presente (antecipado) do Vítor pelos meus 35 anos. Um dia talvez conte a história toda. De como, depois de uma sucessão incrível de azares, acabámos por ocupar duas gigantescas suites contíguas no famoso Claridge's. Mas o melhor da história talvez seja mesmo o argumento dos melões de Almeirim, com que confrontei o gerente e nos rendeu um pequeno-almoço de nababos. Adiante...

Depois dessa primeira noite (retrato à direita), ia o musical em quase dez anos de representações, houve outras, em Londres e também em Nova Iorque. Em Londres era sempre melhor (para restabelecer o equilíbrio, o Chicago de Nova Iorque é sempre melhor, se bem que, acreditem ou não, o melhor Chicago que vi foi... em Lisboa), agora já não há termo de comparação, já não há Les Misérables na Broadway.

Eu e o Vítor somos juntos, desde os catorze anos, aquilo que vocês já vão sabendo. Partilhamos tudo, partilhamos, mais do que quaisquer outras coisas, e porque são o melhor de nós mesmos, o riso e a música. Aos dezassete anos, sentados lado a lado, distraíamo-nos do tédio das aulas de Direito (aulas em que se fumava, pasmem!) a fazer listas. Listas das melhores músicas dos Beatles, das melhores músicas dos Simon & Garfunkel... Mas só a meio da casa dos trinta começámos a partilhar a Ópera (o meu contributo para o património comum) e os Musicais (o dele). E tudo começou com esta obra. Não vou contar aqui a história, é demasiado pessoal, demasiado íntima. A música com que o Vítor me apresentou Les Misérables vinha direitinha ao encontro de coisas que me doíam muito e, quando chegou ao fim, eu estava lavada em lágrimas. E pedi para ouvir outra vez. E mais outra... Nem sequer vou dizer qual é, talvez um dia um de vocês adivinhe.

No dia seguinte o Vítor ofereceu-me o disco (este, a versão da Broadway, que foi a que ouvimos nos tempos seguintes, têm à esquerda a capa do programa de Nova Iorque, guardo tudo religiosamente). Aquilo tornou-se para mim uma obsessão, não se ouvia outra coisa em minha casa. Peguei a obsessão ao namorado nessa época recente, a primeira vez que o vi chorar foi a ouvir a cena da morte de Fantine... Come to Me, a maravilhosa Patty Lupone, que vi há mês e meio numa outra mágica noite de Teatro, e Colm Wilkinson, o meu trovador irlandês, o primeiro e inesquecível Jean Valjean... O passo seguinte era ver Les Misérables ao vivo, coisa que aconteceu dois meses depois.

No teatro, ao intervalo, o Vítor ofereceu-me o disco original, o de Londres, o melhor (a orquestra nem se compara),o que oiço sempre. Os cantores principais são os mesmos, dois anos mais tarde, em 1987, Les Misérables estreava na Broadway: Colm Wilkinson, Patty Lupone, Philip Quast, Frances Ruffelle, etc.

O post vai longo e a hora adiantada. Amanhã continuo, que muito há ainda a dizer. Deixo-vos com Do You Hear the People Sing?, que está longe (muito longe) de ser a minha música preferida. Acontece apenas que é uma das mais imediatas e empolgantes, talvez a que mais imediatamente se nos instala no ouvido como uma mania. As palavras fabulosas de Herbert Kretzmer, o senhor das letras inglesas de Charles Aznavour. E há outra razão: o vídeo, este vídeo do concerto de celebração do 10.º aniversário. Les Misérables tinha corrido mundo, já havia incontáveis produções. Nessa noite (que Deus me perdoe, mas também teria vendido a alma ao Diabo para ter lá estado), DEZASSETE Jean Valjeans de dezassete produções diferentes da obra cantam esta música, cada um na língua da respectiva produção. O primeiro é Colm Wilkinson, o criador do papel em Londres e na Broadway, e que nessa noite tinha voltado a cantá-lo. O segundo é Phil Cavill... que foi o meu primeiro Jean Valjean em palco, naquele dia 6 de Agosto de 1995.

Preparem-se para um momento mágico.

domingo, 19 de outubro de 2008

Mágicas Noites de Teatro #1: Encontro com Dame Vanessa Redgrave

Foram dois dias absolutamente fantásticos, mas falarei apenas sobre a peça, que foi o que me levou a Londres naquele fim-de-semana de 12 e 13 de Julho. Com grande pena minha, nem um café consegui tomar com o Coveiro, que se demorou imenso a almoçar em Richmond (estava com a cara-metade, está mais do que perdoado, teve logo a minha bênção) no único tempo que eu tinha razoavelmente livre e que planeava dedicar à Tate Modern.

Tenho paixão por Londres, mesmo quando não a compreendo, mesmo quando ela me desgosta, mesmo quando discordo, mesmo quando me escandalizo com os preços absurdos, mesmo quando perco a paciência com os funcionários e empregados de balcão de inglês deficiente — o adjectivo é eufemismo, razão tem o Nick, grande amigo do Vítor, inglês upper class de linguagem puríssima e pronúncia estonteante: se formos a um Starbucks, antes de fazer os pedidos, sempre melindrosos, tantas as combinações possíveis, e perante a diversidade étnica dos empregados, só mesmo muito raramente anglo-saxónicos, talvez seja prudente antepor ao pedido uma pergunta de crucial importância: «Do you speak English?» Acreditem que pagar três libras e meia por um café para descobrir (demasiado tarde) que o caramelo que nos atendeu, todo sorrisos e simpatia, não pescou um boi das nossas instruções e nos encomendou coisa substancialmente diversa... não é pêra doce. Talvez fique para outro dia a pega que tive com uma imbecil de uma innit (calão local para os indianos, deliciosamente parodiados na fabulosa Goodness Gracious Me) em Heathrow, a tentar comprar uns bons auriculares para o meu MP3. Pôr um estafermo com aquela limitação de vocabulário aliada a uma pronúncia ininteligível a atender o público não lembra ao diabo. Ainda por cima a cretina tinha aquilo a que os americanos chamam attitude. Acabei por a arrumar com um já muito irritado «You are a very rude person. I really would love to know what your employer would think about your attitude towards customers, if only he knew.» Em Londres, a maior parte do tempo — qualquer pessoa que conheça a cidade concordará comigo — a pergunta omnipresente é mas onde raio se meteram os londrinos? Ou os ingleses, tout court.

A introdução vai longa, já sabem como sou a falar das minhas paixões. Let's get to the point. A peça: The Year of Magical Thinking. Londres tem o melhor Teatro do mundo em geral (sim, a Broadway foi considerada), mas o National Theatre é a perfeição absoluta, e aqui não há volta a dar. As coisas que já lá vi! A mera travessia a pé da ponte de Waterloo já é um ritual cumprido em excitada expectativa (também vale para o Old Vic, que fica um pouco mais adiante).

Eu sabia que tinha pela frente uma noite de emoções poderosas, tinha lido o livro que deu origem à peça, um e outra saídos da pena (nunca este substantivo foi mais tristemente irónico) de Joan Didion. Não quis ler a peça antes, preferi recebê-la em cheio como coisa nova.

The Year of Magical Thinking é um longo monólogo de mais de hora e meia protagonizado pela extraordinária Dame Vanessa Redgrave, um dos membros daquela que é, provavelmente, a mais incrível dinastia do Teatro de sempre, a dinastia Redgrave. Esqueçam os Barrymore, esqueçam os Fonda, os Redgrave vão muito mais longe.

The Year of Magical Thinking é um longo e penoso exercício sobre a perda. Num único ano, Joan Didion perdeu o marido e a única filha, e é isso que nos conta. Como foi, como reagiu, como sofreu. John Gregory Dunne, também escritor, tinha sido seu marido durante quarenta anos menos um mês e a relação dos dois era invulgarmente próxima e feliz, e foi sempre assim até ao fim súbito dele. Nesse dia Quintana, a filha dos dois, já estava no hospital, em coma (tinham-na visitado juntos nessa tarde de fim de Dezembro de 2003), viria a morrer também.

Repito que The Year of Magical Thinking é um remexer doloroso em feridas que são uma chaga ainda viva. É um processo catártico e libertador, mas terrivelmente doloroso. E abraçamo-lo, fazemo-lo nosso, ao identificarmo-nos com Joan Didion, representada no palco, a poucos metros (a eterna terceira fila ao centro foi desta vez substituída pela primeira, mas sempre ao centro) por uma assombrosa Dame Vanessa Redgrave. Suspeito que nas vidas de todos nós há pedras de toque, porque frases há no texto que de repente, num sobressalto, redespertam em nós uma qualquer dor antiga que já julgávamos esquecida. É a melhor explicação que encontro para as lágrimas que devastavam muitas outras caras além da minha no final (sim, sim, tive o clássico «Estou muito borrada?» para o Vítor; ele disse que não, a intuição, tamanha tinha sido a minha choradeira, fez-me ir à casa de banho à saída. Estava uma lástima...).

Este retrato acompanha o fim da peça, regista para todo o sempre uma família que a morte separou tão cruelmente. A figura puríssima de Dame Vanessa a recortar-se diante dele só fazia mais pungente aquela imagem, lembrando-nos que as suas palavras eram da mulher em segundo plano, como que distanciada, com alguma coisa de premonição, o copo de whisky que estava a partilhar com John, o marido, esquecido no parapeito, toda ela embevecida e entregue à contemplação daquelas duas pessoas que eram a sua vida.

Levitámos no caminho de regresso ao West End, feito a pé, como gostamos, a discutir a peça, a lembrar momentos, ainda embargados pela emoção, a imaginar que outras actrizes poderiam fazer aquele papel (concordámos que só admitiríamos rever a peça com Meryl Streep ou Dame Judi Dench no papel de Joan Didion). Tínhamos reserva para as dez e meia no The Wolseley, imensamente na moda, e que eu ainda não conhecia. Por minha vontade teríamos ido ao Asia de Cuba, pelo qual tenho paixão, mas cedi à exigência do Vítor...

Em boa hora cedi. Tínhamos acabado de fazer os pedidos quando o Vítor, de frente para a porta, diz de repente:

— Não vais acreditar! É ela! Vai a sair!
— Ela... quem?!
— A Vanessa Redgrave!!!

Virei-me para trás a toda a pressa, já só consegui ver um vulto. Nem sei bem por que raio pousei o guardanapo e me levantei num impulso, dizendo ao Vítor que ia atrás dela, talvez a visse ainda a entrar para o carro, ou coisa parecida.

Agora imaginem a minha cara de parva quando o porteiro me abre a porta e eu dou de repente com Dame Vanessa Redgrave parada na rua, placidamente a fumar um cigarro! Não tinha saído, tinha apenas ido fumar um cigarro!

Eu tinha transposto a porta esbaforida... e de repente estava ali parada a olhar para ela. Tinha suposto ir ainda a tempo de a ver entrar para um carro, um táxi... tudo menos aquilo. Nem sei onde fui buscar coragem para a interpelar, coisa que sempre supus que só seria capaz de fazer com a minha idolatrada Dame Joan Sutherland...

— Miss Redgrave?...

Ela, que estava meio de costas, a olhar distraidamente para a rua, voltou-se. Pude ler instintivamente o desagrado, tão compreensível. Pedi desculpa:

— I probably shouldn't be doing this...

— You probably shouldn't... — concordou ela num aviso, a luminosidade azul dos olhos, muito claros e transparentes, transformada num cinza gelado. Uma idiota de uma fã, era mesmo só o que lhe faltava!

Senti-me uma perfeita atrasada mental, tinha de emendar a mão a qualquer custo. Impulsiva, disse num arranque:

— Let me thank you for a magical evening. I was at the theatre tonight...

Encarou-me a soprar o fumo, os olhos a perderem algum cinzento e a recuperarem um pouco do azul magnífico. Registei mentalmente como era bela, de uma beleza intemporal e sem artifícios: a cara lavada, o cabelo todo branco apanhado no mesmo singelo rabo de cavalo com que tinha estado em cena (acho que o elástico até era o mesmo), uma túnica de fino linho branco a vestir a figura elegante.

— You were at the theatre?

Trocámos mais uma meia dúzia de frases, eu atropeladamente, com horror a que ela me achasse intrometida, a dizer que me tinha fartado de chorar, que o texto era magnífico, que ela tinha sido magnífica... Such a powerful text, so moving... I had read the book, but listening to you on stage... disse eu, e aqui a voz embargou-se-me, porque revivi a emoção de duas horas antes, saiu-me já perigosamente perto das lágrimas.

Os olhos dela, que já estavam completamente azuis, sem vestígios do cinzento desconfiado, transformaram-se em luzeiros de compreensão (que olhos maravilhosos!). Já de frente para mim, estendeu a mão livre, a esquerda (a outra tinha o cigarro) e apertou-me o pulso direito, o polegar a afagar-me a pele num agradecimento.

— Thank you — disse baixinho — Thank you...

Dame Vanessa Redgrave tinha percebido que eu não era uma fã à cata de um autógrafo, que era simplesmente alguém que tinha sido profundamente tocada pela sua arte. Não quis incomodá-la mais, voltei para dentro, ela ficou a acabar o cigarro.

Ainda não estava completamente recomposta quando contei a história ao Vítor e o fiz saber que afinal ela ia voltar, estava ali a jantar como nós.

— Aí vem ela! — soprou-me ele, pouco depois, com um discreto sinal de cabeça a indicar uma mesa à minha esquerda, pertíssimo de nós. Também discretamente, olhei, mesmo a tempo de ver a pessoa que estava com ela levantar-se para lhe dar passagem no sofá.

— E está com a filha! — exclamei.

— Qual filha?! — interessou-se o Vítor.

— A Natasha!!! — exclamei eu, até parecendo que andámos juntas na costura, a apanhar alfinetes. Mas é que Natasha Ridcharson, filha de Dame Vanessa Redgrave, casada com Liam Neeson, é a inesquecível Sally Bowles do mágico Cabaret de Sam Mendes...

Estava de costas, e essas costas, nuas num vestido de alças quase invisíveis, pareceram-me mais rechonchudas do que a figura que eu lembrava, admiti que podia ter-me enganado. Quando saíram, ainda nem estávamos na sobremesa, foi a vez de o Vítor lhes ir no encalço, só para tirar teimas. Voltou perdido de riso.

— Que viciadas! A mãe já estava a fumar no passeio, e a filha estava a sacudir furiosamente o isqueiro, a tentar acender o cigarro! Tinhas razão, era mesmo a Natasha!

E pronto, aqui fica a história, há muito prometida, do meu encontro com Dame Vanessa Redgrave. Dois encontros, na verdade...



domingo, 7 de setembro de 2008

Hair


Há um teatro em Central Park, o Delacorte Theater, que pertence ao célebre Public Theater, off Broadway, onde há sete anos, na primeiríssima noite, vimos a nossa querida menina Elaine Stritch no seu At Liberty que havia de lhe dar um havia muito merecido Tony que sempre lhe tinha fugido. Fecho os olhos e ainda a vejo, a figurinha elegantíssima aos 75 anos que tinha na época, uma camisa de seda branca e collants pretos numas pernas ainda invejáveis. Ainda rio só de lembrar a abertura, ela sempre com aquele ar mal dispostucho que é seu apanágio, a resmungar «It's like the prostitute said: it's not the work; it's the stairs». At Liberty viria a transitar para a Broadway e a ser the hot ticket in town, no ano seguinte foi para Londres e revimo-lo no querido Old Vic, ela sempre igual, aquele monstro de palco. Mas Elaine Stritch merece um post só seu (tal como Bea Arthur, por quem tenho autêntica adoração)...

Falava eu, antes da minha habitual dispersão (get to the f***ing point!, diria o Vítor), do Delacorte Theatre, este maravilhoso anfiteatro a céu aberto (não pude fotografar enquanto lá estive, nunca antes tinha encontrado regras tão draconianas, se pegássemos na máquina ou no telefone nem que fosse para fotografar a pessoa ao nosso lado, confiscavam-nos o aparelho — e assistimos a isso, já no fim, toda a gente a dançar no palco e eu lavada em lágrimas, o que também é habitual, sempre com a sacramental pergunta bichanada ao Vítor: «Estou muito borrada?» É que não há maquilhagem que resista.

Pois, dizia eu (vamos ver se é desta e me deixo de floreados), o Delacorte Theatre tem todos os Verões um festival chamado Shakespeare in the Park. Apresentam uma peça de Shakespeare (este ano é Hamlet) e uma outra peça. Os bilhetes são diariamente oferecidos, é só ir para a bicha. Lindo para os locais, que vão dormir para lá — deixo à vossa imaginação o comprimento da bicha, que vai até New Jersey... Impraticável para nós, que temos de sair daqui com tudo muito organizadinho e previamente comprado. A nossa idolatrada menina Meryl Steep é lá que tem feito teatro, no ano passado fez uma Mãe Coragem debaixo de uma chuva diluviana, haja mesmo coragem! Há sete anos fez uma Gaivota, de Tchekov, que me põe a ranger os dentes de desespero por não ter assistido.

Como foi então que pudemos ver Hair?, perguntarão vocês. É que o Vítor é um génio a descobrir coisas. É que o Vítor descobriu que se podia fazer um donativo ao teatro e se era recompensado com um bilhete. Dois donativos... dois bilhetes (com direito a escolha de data). Um bocadinho mais caro, é certo, mas há coisas que não têm preço. E posso desde já garantir-vos uma coisa: da próxima vez que nossa menina Meryl pisar aquele palco NÓS ESTAREMOS LÁ!! Não podemos morrer sem ter visto a maior actriz do mundo ao vivo!

Hair foi considerado a primeira ópera rock (ai, meu Deus! esta expressão mostra bem a minha idade!). Hair estreou no Public Theater em 1967, tinha eu seis anos, transitou depois para a Broadway, já em 1968, em Abril, e ficou famoso. O facto de ter tido uma coisa tão revolucionária como full frontal nude não terá sido o menos importante dos factores no buzz que a obra gerou. Sete anos mais tarde, no Inverno de 1975 (Fevereiro, creio) a companhia inicial esteve em Lisboa, no Monumental, fui ver duas vezes. Tinha catorze anos e nunca esqueci. O irmão mais velho de um amigo nosso tinha o disco, eu e a Clara passámos tardes a tirar as letras, sabíamos todas as músicas de cor.

O Public Theater reencenou Hair no ano passado, a comemorar os seus quarenta anos. Neste Verão foi a outra peça do Shakespeare in the Park. A produção é tão boa que diz-se que vai passar para a Broadway. À minha visão falta objectividade, porque toda eu fui e sou emoção. Chorei, chorei e chorei. Enternecida por aquela juventude assim captada, a juventude que fez a Convenção Democrática de Chicago, que apoiava Robert Kennedy e se revia em Martin Luther King — quantos sonhos desfeitos! A juventude que repudiava a guerra do Vietname, a juventude pura e inocente, imensamente comovedora. Uma juventude mais velha do que eu, que devia ter nascido, contas feitas, uns doze anos mais cedo.

Deixo-vos uma música de Hair, uma das minhas eternas favoritas. Frank Mills. Tirem-lhe as roupagens, e há coisas intemporais. Digam lá se isto não é mesmo uma cantiga de amigo... (ai flores, ai flores de verde pinho, se sabedes novas do meu amigo...).

A interpretação de Allison Case deste Frank Mills foi pura magia. Nova, nova, meu Deus, tão nova! Frágil e triste. E inocente, tão inocente! Naquela noite voei para trás no tempo e voltei a um tempo que, não sendo meu, sinto muito como meu. Quando sair o disco (e acredito que sim, que vai haver disco) estou compradora. Agora só vos posso oferecer a versão original, pela qual me apaixonei há mais de trinta anos. Ah! Já me ia esquecendo! Uma desconhecida chamada Diane Keaton integrava esta companhia inicial.


Frank Mills
I met a boy called Frank Mills
On September twelfth right here
In front of the Waverly
But unfortunately
I lost his address

He was last seen with his friend,
A drummer, he resembles George Harrison of the Beatles
But he wears his hair
Tied in a small bow at the back

I love him but it embarrasses me
To walk down the street with him
He lives in Brooklyn somewhere
And wears this white crash helmet

He has gold chains on his leather jacket
And on the back is written the names
Mary
And Mom
And Hell's Angels

I would gratefully
Appreciate it if you see him tell him
I'm in the park with my girlfriend
And please

Tell him Angela and I
Don't want the two dollars back
Just him!