The domino effect
Durante anos, ao almoço, falar de fígado não significava necessariamente que a minha mãe tinha feito iscas, mas antes que o tema de discussão era a cirrose hepática de um doente alcoólico. Quando se juntavam amigos, então, era brutal: uma alma mais sensível teria dificuldades em acompanhar alguns jantares sem ficar mal disposta.
Habituei-me a ver fotografias de pernas ulcerosas, estômagos com feridas e intestinos roxos metidas no meio de belas recordações da minha família de férias na praia.
Fiz cirurgias completas em todas as Tuxas que tive e muitas acabaram sem cabelo porque estavam a fazer quimio.
Nunca disse “vista”, mas olhos. Nem “peito”, mas mamas (ou maminhas, que cedo percebi que o mundo não estava preparado para ouvir uma miúda de 12 anos dizer assim mamas, com as letras todas. É a palavra mais feia da língua portuguesa, eu acho). O meu pai fuzilava-me com os olhos quando eu, ranhosa, dizia que estava com gripe. Qual gripe, isso quanto muito é uma constipaçãozita! Ben-u-ron no bucho e segue, amanhã já estás boa.
Enquanto os meus coleguinhas na escola primária escreviam sobre a Primavera, eu lembro-me de inventar enredos mirabolantes, passados invariavelmente num hospital – para mim, o único lugar do mundo onde o luto nunca vencia, porque toda a gente usava sempre a mesma bata imaculadamente branca e, quando morria alguém, não havia tempo para chorar. Tão deprimente e “adulto” que a Professora Fátima, coitadinha, ficava aflita e chamava a minha mãe à escola, para saber se havia problemas em casa. Hei-de ter lá para casa essas pérolas, guiões infantis da Anatomia de Grey.
Desde miúda, portanto, que lido com as doenças como parte natural da vida. Claro que durante muitos anos fi-lo de modo abstracto: tudo era ciência, a cura não era um mito urbano, nem um milagre, mas antes um organismo a receber – e a aceitar – centenas de anos de investigação. Quando corria mal, corria mal – nos hospitais não há tempo para lutos. Salvemos o seguinte.
Com a idade e a chegada de mazelas aos meus, comecei a tentar levar a coisa da forma mais desassombrada que os afectos me permitem, num equilíbrio às vezes ténue entre o racional e o emotivo – porque é tudo muito bonito, isso da ciência e da lei da vida e da morte e tudo o mais, mas quando nos toca directamente a coisa muda de figura.
Percebi também que ter uma doença muito grave deve ser o momento mais solitário que se pode viver: somos só nós e a noção clara de ver uma pistola apontada à cabeça (que todos temos, mas só alguns vêem): tive a certeza disso quando acompanhei muito de perto a luta de um querido tio, que se debateu estoicamente durante 12 anos contra um estupor de um tumor cerebral. Benigno, como se uma coisa tão má e incapacitante algum dia pudesse ter um nanograma de benignidade (enfim). Esteve sempre connosco e entregue à melhor equipa de neurocirurgia do país, mas no fundo estava sozinho – a luta era contra ele próprio, contra a multiplicação de células que o seu organismo teimava em continuar. Coisa mais parva, quando uma pessoa quer tanto viver e a luta que tem é contra o seu próprio corpo.
Não vale a pena dizer-lhe que hoje em dia uma percentagem muito significativa de doentes oncológicos superam o cancro e seguem a sua vida em frente – com eternas cicatrizes, físicas e morais, mas seguem. Isso a Teresa já sabe.
Também não vale a pena dizer-lhe que, mesmo que as estatísticas digam que o cancro A tem uma taxa de mortalidade muito elevada, os milagres acontecem e a ciência blá blá blá. Não é novidade, a Teresa sabe.
Muito menos valerá a pena tentar diminuir-lhe o terror que deve ter sido encarar a notícia. E o medo de viver o que aí vem. Ou forçá-la a desvalorizar o sofrimento, o desânimo, o desalento (caramba, tem de ser forte, não se pode ir abaixo). Se o seu cabelo cair, vai ser duro. É ridículo dizer-lhe “deixa lá, que cresce, isso não é nada”. Pois cresce, mas entretanto caiu todo e a Teresa gosta dele. É seu. Faz parte do que é.
Afirmar convictamente que a Teresa vai superar isto tudo e enviar-lhe muita força e energia? Saber-lhe-á bem sentir-se querida pela comunidade blogosférica? Acredito que sim, e muitos fá-lo-ão - porque se preocupam, porque gostam de si. Porque a querem acompanhar, ainda que à distância. E não vale a pena fugir desse abraço bem intencionado, mesmo que seja virtual. Pela parte que me toca, todos os dias estenderei os meus braços para si, de manhã, pelas 8 e tal, 9 e picos.
Eu não sei se vai correr tudo bem; quero muito que sim, acredite. O meu lado emotivo diz-me que voltará aos teatros londrinos, ouvirá muitas músicas ainda não gravadas, lerá muitos livros ainda não imaginados. Gozará o seu amado sol, com gatos meigolas a ronronar-lhe as pernas. Comemorará muitos Agostos. Confio na ciência e mais, confio na luta que vai encetar, por si e ao mesmo tempo contra si.
E de facto, como disse tão bem a Pólo Norte, dignidade é a melhor palavra para a descrever. A Teresa é uma mulher digna. Já a sabia leal. Testemos, a partir de agora, a sua resiliência.
Deixo-lhe um forte abraço e se quiser, use-me como fiel depositária das suas amarguras. A vida leva-se a rir, mas chorar também faz parte.
A.»






























