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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Um trabalho muito jeitoso

Acreditem ou não, só hoje vi A Gaiola Dourada — de que gostei imenso, pôs-me bem-disposta, e boa disposição era coisa em falta depois destes três dias com os olhos postos nas notícias de Paris.

Mas do que quero mesmo falar é da qualidade do trabalho de legendagem, consistente e coerente nas asneiras medonhas ao longo de todo o filme. Deixo-vos apenas com alguns mimos colhidos aqui e ali.








Para tão portentoso trabalho foram precisos os esforços combinados de três (nada menos do que três!) tradutores e de um número não especificado de revisores. Grandes profissionais, assim dá gosto!



segunda-feira, 31 de março de 2014

Sei Lá - parte II

A nossa estimada Margarida Rebelo Pinto até pode ter um livrinho chamado Não Há Coincidências, pero que las hay...

Ora vejamos. No sábado à tarde passei pela loja de quinquilharias que há perto de minha casa. À porta, como sempre, um escaparate de livros usados. A que, como sempre, deitei uma olhadela. Entalado entre um Harold Robbins qualquer e um livro juvenil de uma colecção que, mesmo ainda adolescente, sempre desdenhei, lá estava essa obra de subido recorte literário que é Sei Lá. Vi naquilo um sinal do destino e, depois de verificar o número da edição (era a 7.ª), paguei sem regatear os 50 cêntimos que me eram pedidos. As coisas que uma pessoa não faz pelo rigor científico de uma investigação! As coisas que eu não faço pelos meus prezados leitores! Até comprar um livro de Margarida Rebelo Pinto, co'a breca!

Ainda no sábado, recebi à noite um e-mail de uma leitora, de seu nome Susana, que me contava que a seguir à leitura da primeira edição de Sei Lá tinha escrito à autora a alertá-la (jocosamente, é certo, mas convenhamos que era irresistível) para esse portento de um fim-de-semana com dois sábados — ou dois domingos, tanto faz. Para sua grande surpresa recebeu, pouco tempo depois, uma carta manuscrita de Margarida Rebelo Pinto (na altura ela ainda tinha, pelo menos aparentemente, alguma humildade, como aponta a Susana) a dizer que o erro seria corrigido na edição seguinte. E a Susana concluía filosoficamente que «Nunca deixou de me surpreender como tal coisa passou em branco, sempre achei que ninguém conseguiu ler o livro até ao fim antes de ser publicado.» 

Pois, meus bons amigos, munida que estou agora da 7.ª edição, posso dizer-vos abalizadamente que não senhores, que o erro não foi corrigido nas seis edições seguintes, pelo menos. O erro e os erros, os muitos erros. A minha sorte é Deus ter-me dado este olho imediato (quantas vezes odiosamente incómodo) para a asneira escrita, que parece que até pisca com uma intensidade de lâmpada de mil watts mal abro um livro, uma revista, um jornal ou um blogue, em menos de um quarto de hora detectei uma quantidade muito respeitável — tão grande como a falta de respeito que as letras da autora me merecem.

A 7.ª edição, revista por um senhor chamado Manuel Luís Evangelista, tem pérolas como estas que digitalizei e agora vos apresento.


Esta, como sabem, faz o meu enlevo. A Guidinha que experimente ir aos Preciados de Badajoz (esta minha veia saudosista é incorrigível, já não existem Preciados vai para mais de vinte anos) e pedir uns cremes na perfumaria, a ver a cara de incompreensão das asistentas. Creme, em castelhano, é um substantivo feminino. Las cremas, Guidinha, las cremas. ¿Vale?
Tenho para mim que, se não conhecemos uma língua, é mais prudente abstermo-nos de a usar, nem que seja nas interjeições mais curtas, como voilà — passo a vida a ler voilá em blogues, e rio sempre. A ignorância tem a mania pérfida de se autodenunciar. Mas mais grave, muito mais grave, é quando a ignorância diz respeito à nossa própria língua. A Guidinha escreveu duas vezes (pelo menos, foram as que encontrei) esse magnífico adjectivo tão do agrado da imprensa nacional e dos bloggers: solarengo. Por duas vezes o revisor achou bem e deixou passar, e tão criminoso é o que assalta a vinha como o que fica de guarda.



E, convenhamos, dizer de um andar que, além de espaçoso, é também solarengo, é uma autêntica «contradição em termos» (nem imaginam como deliro com esta tradução, tantas vezes encontrada, da expressão «a contradiction in terms»). 

Querem mais? Pois há mais, claro que há mais. E muito mais haveria por certo, tivesse eu tido paciência e não tivesse coisas de qualidade para ler. Fiquem só com mais esta, que dispensa comentários, tão medonha é.


O meu rigor científico poderia ter-se dado por satisfeito e ficado por aqui, mas a optimista incurável (ou ingénua, nem sei bem) que há em mim persistia na esperança de que edições posteriores — que houve seguramente, porque esta 7.ª é ainda de 1999 — tivessem dado uma boa varredela em tão vasto estendal de asneiras. Gastar mais dinheiro estava fora de questão, evidentemente, ir a uma livraria de propósito também, restava-me procurar na Internet. Procurei e encontrei aqui uma outra edição, podem consultar e corroborar as minhas conclusões.

Pois esta 14.ª edição, de 2009, foi revista por um outro senhor, chamado Henrique Tavares e Castro. A questão do fim-de-semana de três dias foi sanada com um providencial feriado a somar-se ao sábado e ao domingo, aleluia! Apraz-me igualmente dizer que aqueles dois solarengos passaram a ensolarado o primeiro (pág. 113 do pdf) e soalheiro  o segundo (pág. 115).

Já o resto, lamento lamentar, permanece igual. Os cremes não passaram a cremas, aquele vêm pavoroso não passou a vêem.

Numa adaptação muito livre de A Ceia dos Cardeais, só apetece dizer «Como é diferente a literatura em Portugal!»

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Da tradução e da revisão

Vou tentar que isto não fique muito longo. Vou tentar, principalmente, que não soe sentencioso.

Acabei já depois da uma da manhã este A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert, de Joël Dicker. Comecei a lê-lo cedo no domingo, ao pequeno-almoço, o que quer dizer que o despachei em dois dias — proeza de não pouca monta, se considerarmos as suas 684 páginas.

Que o livro se devora, que é viciante, é incontestável. Se é um grande livro? Não, sinceramente não me parece que seja. Não me imagino a relê-lo, o que  creio ser um bom critério inicial para avaliar qualquer livro. Digamos que é o novo Código Da Vinci. Como policial (à falta de melhor designação), digamos que é como um romance de crime aberto de Agatha Christie com o dobro do tamanho e metade da qualidade de escrita. Mas isto, repito, é apenas a minha opinião, estou aberta e até curiosa quanto às vossas opiniões discordantes. É que o livro recebeu apenas o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa (e quem sou eu para discordar da Academia Francesa, em que pontifica, no lugar n.º 12, o meu amado Jean d'Ormesson?), o Prémio Goncourt e o prémio da revista Lire para o Melhor Romance em Língua Francesa.

Mas não é sobre o livro em si que quero falar, é sobre questões de tradução e revisão que a bisarma que é esta edição portuguesa de 684 páginas ilustra às mil maravilhas.

Aos meus olhos, o bom tradutor é aquele que conhece a fundo a língua da qual traduz e que se exprime com elegância e correcção na língua para a qual traduz. O bom revisor deverá escrever com maior correcção ainda, porque é ele quem fixa o texto definitivo, são seus os últimos olhos a percorrerem o texto antes da entrada na gráfica e da saída para o mundo. O bom tradutor até pode pontuar deficientemente e fazer aqui ou ali o seu erro ortográfico, contanto que as palavras escolhidas espelhem fielmente e com riqueza as do autor; para o resto temos o revisor, para polir eventuais arestas, para suprir distracções mais do que naturais em quem, de tão mergulhado na conversão de um texto de uma língua para outra, de dar voltas e mais voltas, «deixa cá ver como é que fica melhor...», «não, antes assim», acaba fatalmente por perder as árvores de vista para só ver a floresta — a verdade é que tenho uma admiração e um respeito sem limites por um bom tradutor. E ambos, tradutor e revisor, devem ter, em doses iguais, uma boa cultura geral.

A tradução deste A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert pareceu-me boa, muito boa até, mais ainda se considerarmos o gigantismo do trabalho. Detectei APENAS dois erros (o que é notável, considerando a aflitiva quantidade de baboseiras que passamos a vida a encontrar nas traduções mais banais, baboseiras essas que se tornam ainda mais ofensivas em livros com preços de capa acima dos vinte euros). O primeiro erro, nada de grave, a palavra "eficácia" quando deveria ser, claramente, "eficiência" — uma medida é eficaz, um desempenho é eficiente. Surge duas vezes. O segundo erro, para mim surpreendente e incompreensível, foi um "conquilhas Saint Jacques" encontrado a páginas tantas. "Coquilles Saint-Jacques" (não esqueçamos que o original é francês) são muito simplesmente vieiras.

E a revisão? Pois a revisão, a cargo de três revisores diferentes, o que pode ser bom numas coisas e mau noutras, também é excelente, apraz-me dizer. Francamente superior à média, se querem a minha opinião.

Não se deixem impressionar desfavoravelmente por esta selva de coisinhas encontradas e assinaladas, porque é mesmo disso que se trata quase sempre: coisinhas. Erros graves encontrei um único, um medonho "encarregue" como particípio passado, coisa que não existe, é "encarregado" — "fora encarregado", "tinha sido encarregado", por exemplo. A forma verbal "encarregue" existe apenas no conjuntivo (que eu encarregue, que ele encarregue). Infelizmente passamos a vida a ouvir e a ler este disparate. Erros de ortografia, que me lembre, também só encontrei um, um "reboliço" (escreve-se "rebuliço").

Foi muito agradável encontrar sempre (tirando um único caso, foi distracção, pela certa) bem escrita uma coisa que 97% das pessoas (sim, arrisco esta percentagem incrível) escrevem mal: o verbo deparar sem pronome reflexo. Toda a gente escreve "deparei-me com", "deparou-se com", e está errado; "deparei com", "deparou com", pura e simplesmente. Pensem um bocadinho, usem o bom senso, que é coisa muito útil. Há alguma necessidade do pronome reflexo? Não, pois não? Ora aí têm, é ou não é simples? Faz ou não faz sentido? 

Foi igualmente agradável verificar que, quase de certeza, apenas um dos revisores persiste no erro de escrever "ter a ver com" em vez do correcto "ter que ver com". E agora entramos na questão delicada que pode ser ter três pessoas a reverem uma obra. Podemos pensar, com toda a lógica, que três pares de olhos vêem mais do que um único, mas as coisas não são bem assim. Para começar, há que fixar critérios, para não depararmos [esta foi deliberada, confesso] depois com coisas ora escritas assim, ora assado. E isto do Português não é a casa da Joana, há regras, e a primeira coisa que o revisor deve fazer é conhecê-las e ater-se a elas. E não fica bonito ler ora "Coca-Cola" em redondo, ora "Coca-Cola" em itálico, como deve ser, já que é em itálico que as marcas devem ser grafadas. Tal como não fica bonito ler agora "no Alabama" para, umas quantas páginas adiante, já se ler "em Alabama". Foi por coisas destas, pela falta de uniformidade, que percebi o esquema de revisão adoptado: a cada revisor foram distribuídos bocados diferentes do livro. Se atentarem na imagem acima, talvez consigam ver que a floresta de post-its se adensa ali por volta das páginas 500, que registam gralhas muito mais frequentes do que o resto do livro; insignificantes? sim, sem dúvida; mas gralhas, ainda assim, e o que se quer, tanto quanto possível, é um livro absolutamente limpo.

Ora isso, um livro absolutamente limpo, é coisa quase utópica — há sempre uma maldita de uma sílaba que falta (alguns casos), quando não é mesmo uma palavra inteira (mais uns quantos) ou até uma vírgula que, por mais se leia e releia, não se vê que está a separar sujeito e predicado, crime de lesa-majestade na nossa língua; encontrei esse erro uma única vez, e foi seguramente distracção ou cansaço visual, nenhum destes três revisores deixaria passar tal coisa, percebi perfeitamente.

Acresce que, por isso mesmo, por um livro absolutamente limpo ser coisa quase utópica, temos de considerar uma última possibilidade: a de haver erros no original, erros não detectados quer pelo autor quer pelos revisores iniciais. Desses encontrei três, e fizeram-me sorrir, confesso. A acção do romance decorre nos Estados Unidos, mas o autor é europeu e escreve em francês, lembram-se? Pensamento e grafia atraiçoam-no por três vezes, fazendo-o deslizar para o terreno natal. É assim que, duas ou três vezes, uma tal "Terrace Avenue" surge de repente como "Terrasse Avenue"; é assim que nos surge primeiro um "gofres" (do francês "gaufres") para, lá mais para a frente, surgir a mesmíssima guloseima, desta vez correctamente, já que estamos nos Estados Unidos: "waffles". E é assim que, finalmente, se encontra um prato qualquer que, numa ementa, custa não sei quantos euros. Aqui tive de rir, confesso. Esperem, fui confirmar. Estava a esquecer-me de um outro erro, ainda por cima boçal. Eis o que pode ler-se na página 243: «Costoleta de porco: 8 euros.» "Costoleta", a sério? A palavra remete-me logo para restaurantes tascosos em que a redacção das ementas nos faz hesitar entre a vontade de rir e a de chorar.

Por último, e porque isto, tal como eu receava, está já a ficar demasiado extenso, devo dizer-vos que ao longo de todo o livro encontrei consistentemente a mesma forma de desacordo verbal que é um erro tão disseminado que às vezes pergunto a mim mesma, desconcertada, se só eu e mais duas ou três pessoas que (felizmente) conheço daremos por ela. E é coisa mesmo muito feia de ler, quando se abrem os ouvidos. Mas isso, meus bons amigos, fica no segredo dos deuses, por enquanto, reservado que está para a editora, à qual tenciono oferecer os meus préstimos. E apenas no caso de me contratar para a revisão da segunda edição, claro está, que sou boazinha mas não sou parva.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Um exemplo


Como traduziriam o título deste livro de David Littlejohn sobre ópera que me é muito querido? A Derradeira Arte? Disparate, não faz qualquer sentido! Claro que só pode ser A Arte Suprema.

A título de curiosidade, posso dizer que o livro me custou na Buchholz, no princípio de 1995, a infâmia de 8600$00 (coisa de 43 euros), o preço ainda está marcado a lápis na primeira página. Agora encontra-se disponível online, é só ir aqui. E se vale a pena! 

A banda sonora, La Cì Darem la Mano (Eberhard Wächter e Graziella Sciutti, na gravação de Giulini, que continua, tantos anos depois, sem rival), foi escolhida justamente para vos mostrar uma passagem do capítulo Don Giovanni: The Impossible Opera. Sobre este irresistível dueto, um pequeno tratado sobre a arte da sedução, escreve David Littlejohn:

«The lovely A-major duettino in which Don Giovanni wins Zerlina is a little drama all by itself. It starts with the achingly sweet intervals of his first appeal, which are answered about an octave higher in a charming expression of Zerlina's internal confusion ("Vorrei, e non vorrei" — "I want it, and I don't want it"). After a coy transition, and some twists on the fiddles, come faster and faster exchanges as the two grow closer and more heated. Her notes descend; the woodwinds press as she weakens ("Non son più forte!") until finally, after a last pause of dying conscience, she is pulled into breathless 6/8 harmony and cries along with him, "Andiam!"—"Let's go!"

The intercutting and blending of the musical lines, the very repeats and progresses duplicate the irresistible — and clearly sexual — movement from his to hers to theirs. Much as I abhor heartless seducers, and suffer for poor Masetto, so emotionally persuasive is this duet that I find myself wanting the seduction to succeed, and I feel as frustrated as Don Giovanni must feel when the ubiquitous Elvira interrupts his tender designs

Questões de tradução

Uma coisa que muito me irrita é encontrar invariavelmente em filmes e livros o adjectivo ultimate traduzido para derradeiro. Em muitos livros que revi acontecia a mesma coisa, encontrava a palavra, ia confrontar com o original inglês e via-me obrigada a alterar. É uma acepção possível, sim, mas acontece que na maior parte dos casos não é a correcta. Na maior parte dos casos, diria eu, a tradução mais correcta será supremo. Por isso fiquei há dias franca e agradavelmente surpreendida quando — aleluia! — encontrei num filme do canal Hollywood um altimate traduzido para supremo.