Vou tentar que isto não fique muito longo. Vou tentar, principalmente, que não soe sentencioso.
Acabei já depois da uma da manhã este A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert, de Joël Dicker. Comecei a lê-lo cedo no domingo, ao pequeno-almoço, o que quer dizer que o despachei em dois dias — proeza de não pouca monta, se considerarmos as suas 684 páginas.
Que o livro se devora, que é viciante, é incontestável. Se é um grande livro? Não, sinceramente não me parece que seja. Não me imagino a relê-lo, o que creio ser um bom critério inicial para avaliar qualquer livro. Digamos que é o novo Código Da Vinci. Como policial (à falta de melhor designação), digamos que é como um romance de crime aberto de Agatha Christie com o dobro do tamanho e metade da qualidade de escrita. Mas isto, repito, é apenas a minha opinião, estou aberta e até curiosa quanto às vossas opiniões discordantes. É que o livro recebeu apenas o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa (e quem sou eu para discordar da Academia Francesa, em que pontifica, no lugar n.º 12, o meu amado Jean d'Ormesson?), o Prémio Goncourt e o prémio da revista Lire para o Melhor Romance em Língua Francesa.
Mas não é sobre o livro em si que quero falar, é sobre questões de tradução e revisão que a bisarma que é esta edição portuguesa de 684 páginas ilustra às mil maravilhas.
Aos meus olhos, o bom tradutor é aquele que conhece a fundo a língua da qual traduz e que se exprime com elegância e correcção na língua para a qual traduz. O bom revisor deverá escrever com maior correcção ainda, porque é ele quem fixa o texto definitivo, são seus os últimos olhos a percorrerem o texto antes da entrada na gráfica e da saída para o mundo. O bom tradutor até pode pontuar deficientemente e fazer aqui ou ali o seu erro ortográfico, contanto que as palavras escolhidas espelhem fielmente e com riqueza as do autor; para o resto temos o revisor, para polir eventuais arestas, para suprir distracções mais do que naturais em quem, de tão mergulhado na conversão de um texto de uma língua para outra, de dar voltas e mais voltas, «deixa cá ver como é que fica melhor...», «não, antes assim», acaba fatalmente por perder as árvores de vista para só ver a floresta — a verdade é que tenho uma admiração e um respeito sem limites por um bom tradutor. E ambos, tradutor e revisor, devem ter, em doses iguais, uma boa cultura geral.
A tradução deste A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert pareceu-me boa, muito boa até, mais ainda se considerarmos o gigantismo do trabalho. Detectei APENAS dois erros (o que é notável, considerando a aflitiva quantidade de baboseiras que passamos a vida a encontrar nas traduções mais banais, baboseiras essas que se tornam ainda mais ofensivas em livros com preços de capa acima dos vinte euros). O primeiro erro, nada de grave, a palavra "eficácia" quando deveria ser, claramente, "eficiência" — uma medida é eficaz, um desempenho é eficiente. Surge duas vezes. O segundo erro, para mim surpreendente e incompreensível, foi um "conquilhas Saint Jacques" encontrado a páginas tantas. "Coquilles Saint-Jacques" (não esqueçamos que o original é francês) são muito simplesmente vieiras.
E a revisão? Pois a revisão, a cargo de três revisores diferentes, o que pode ser bom numas coisas e mau noutras, também é excelente, apraz-me dizer. Francamente superior à média, se querem a minha opinião.
Não se deixem impressionar desfavoravelmente por esta selva de coisinhas encontradas e assinaladas, porque é mesmo disso que se trata quase sempre: coisinhas. Erros graves encontrei um único, um medonho "encarregue" como particípio passado, coisa que não existe, é "encarregado" — "fora encarregado", "tinha sido encarregado", por exemplo. A forma verbal "encarregue" existe apenas no conjuntivo (que eu encarregue, que ele encarregue). Infelizmente passamos a vida a ouvir e a ler este disparate. Erros de ortografia, que me lembre, também só encontrei um, um "reboliço" (escreve-se "rebuliço").
Foi muito agradável encontrar sempre (tirando um único caso, foi distracção, pela certa) bem escrita uma coisa que 97% das pessoas (sim, arrisco esta percentagem incrível) escrevem mal: o verbo deparar sem pronome reflexo. Toda a gente escreve "deparei-me com", "deparou-se com", e está errado; "deparei com", "deparou com", pura e simplesmente. Pensem um bocadinho, usem o bom senso, que é coisa muito útil. Há alguma necessidade do pronome reflexo? Não, pois não? Ora aí têm, é ou não é simples? Faz ou não faz sentido?
Foi igualmente agradável verificar que, quase de certeza, apenas um dos revisores persiste no erro de escrever "ter a ver com" em vez do correcto "ter que ver com". E agora entramos na questão delicada que pode ser ter três pessoas a reverem uma obra. Podemos pensar, com toda a lógica, que três pares de olhos vêem mais do que um único, mas as coisas não são bem assim. Para começar, há que fixar critérios, para não depararmos [esta foi deliberada, confesso] depois com coisas ora escritas assim, ora assado. E isto do Português não é a casa da Joana, há regras, e a primeira coisa que o revisor deve fazer é conhecê-las e ater-se a elas. E não fica bonito ler ora "Coca-Cola" em redondo, ora "Coca-Cola" em itálico, como deve ser, já que é em itálico que as marcas devem ser grafadas. Tal como não fica bonito ler agora "no Alabama" para, umas quantas páginas adiante, já se ler "em Alabama". Foi por coisas destas, pela falta de uniformidade, que percebi o esquema de revisão adoptado: a cada revisor foram distribuídos bocados diferentes do livro. Se atentarem na imagem acima, talvez consigam ver que a floresta de post-its se adensa ali por volta das páginas 500, que registam gralhas muito mais frequentes do que o resto do livro; insignificantes? sim, sem dúvida; mas gralhas, ainda assim, e o que se quer, tanto quanto possível, é um livro absolutamente limpo.
Ora isso, um livro absolutamente limpo, é coisa quase utópica — há sempre uma maldita de uma sílaba que falta (alguns casos), quando não é mesmo uma palavra inteira (mais uns quantos) ou até uma vírgula que, por mais se leia e releia, não se vê que está a separar sujeito e predicado, crime de lesa-majestade na nossa língua; encontrei esse erro uma única vez, e foi seguramente distracção ou cansaço visual, nenhum destes três revisores deixaria passar tal coisa, percebi perfeitamente.
Acresce que, por isso mesmo, por um livro absolutamente limpo ser coisa quase utópica, temos de considerar uma última possibilidade: a de haver erros no original, erros não detectados quer pelo autor quer pelos revisores iniciais. Desses encontrei três, e fizeram-me sorrir, confesso. A acção do romance decorre nos Estados Unidos, mas o autor é europeu e escreve em francês, lembram-se? Pensamento e grafia atraiçoam-no por três vezes, fazendo-o deslizar para o terreno natal. É assim que, duas ou três vezes, uma tal "Terrace Avenue" surge de repente como "Terrasse Avenue"; é assim que nos surge primeiro um "gofres" (do francês "gaufres") para, lá mais para a frente, surgir a mesmíssima guloseima, desta vez correctamente, já que estamos nos Estados Unidos: "waffles". E é assim que, finalmente, se encontra um prato qualquer que, numa ementa, custa não sei quantos euros. Aqui tive de rir, confesso. Esperem, fui confirmar. Estava a esquecer-me de um outro erro, ainda por cima boçal. Eis o que pode ler-se na página 243: «Costoleta de porco: 8 euros.» "Costoleta", a sério? A palavra remete-me logo para restaurantes tascosos em que a redacção das ementas nos faz hesitar entre a vontade de rir e a de chorar.
Por último, e porque isto, tal como eu receava, está já a ficar demasiado extenso, devo dizer-vos que ao longo de todo o livro encontrei consistentemente a mesma forma de desacordo verbal que é um erro tão disseminado que às vezes pergunto a mim mesma, desconcertada, se só eu e mais duas ou três pessoas que (felizmente) conheço daremos por ela. E é coisa mesmo muito feia de ler, quando se abrem os ouvidos. Mas isso, meus bons amigos, fica no segredo dos deuses, por enquanto, reservado que está para a editora, à qual tenciono oferecer os meus préstimos. E apenas no caso de me contratar para a revisão da segunda edição, claro está, que sou boazinha mas não sou parva.