terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A Mulher da Ópera

A história é antiga, muito antiga, tem uns 16 ou 17 anos. Começou numa noite em que fui jantar ao Fidalgo com o meu querido amigo João Navarro. Só o meu imenso gostar dele me fazia e faz tolerar o Bairro Alto, que sempre odiei. Isto vale para tudo e para todos os sítios supostamente trendy — que as serigaitas da blogosfera acham que descobriram e que eu  já conhecia antes de elas nascerem.  Isto não faz de mim velha (mesmo caminhando para lá), apenas faz delas parvas e deslumbradas. Pap'Açorda? Não suporto ficar mais de meia hora à espera de mesa mesmo com reserva, e ainda tenho muito vivo na memória um certo jantar em que eu e o senhor da mesa ao lado nos cumprimentámos afavelmente. O meu acompanhante, curioso, perguntou-me quem era. Com a voz no registo mais baixo possível contei a embaraçosa verdade: «É o meu ginecologista.» O pobre rapaz ia-se engasgando com o vinho. Frágil? Oh, poupem-me! Nunca percebi que graça achavam àquilo, perplexidade que viria a repetir-se muitos anos mais tarde no Lux. A verdade é que a graça da noite lisboeta é coisa há muito perdida. Alguém se lembra do Ascott, onde íamos comer sopa de feijão às seis da manhã? Ou do Mufla? E das velhas noites no querido Stone's em que nos serviam, oferta da casa, sopa ou spaghetti bolognese, o Duarte a largar o seu silvo característico, passando entre as mesas? Essa noide de Lisboa, cálida, em que encontrávamos sempre as mesmas eternas caras da boémia (e tantas já desaparecidas, meu Deus!) perdeu-se para sempre. Agora há mais sítios, muito mais sítios, mas não têm a graça de antigamente. E se, nas muito raras vezes em que saio à noite, em que prolongo um jantar num bom restaurante num sítio a que é suposto ir, e encontro caras do antigamente, invariavelmente caímos num abraço apertado, numa intimidade nova, nascida apenas de nos sentirmos sobreviventes num mundo que já não é o nosso e de que nem gostamos especialmente.

Eu e o meu vício dos quilómetros de letras! Ia eu contar-vos um certo jantar no Fidalgo, lá por 1993 ou 94, eu e o João. O João é toda uma personagem, noutro dia falarei mais alongadamente dele. Registemos agora apenas um dado essencial sobre a sua pessoa: o João é quase surdo. Comunicar com ele é uma espécie de lotaria, nunca sabemos o que nos vai sair na rifa. Às vezes falamos muito baixinho e ele não perde uma sílaba, outras vezes  só na base do grito nos fazemos entender (ainda sou perseguida pelo trauma de uma certa viagem Lisboa-Albufeira que me deixou afónica durante dois dias). Tive há pouco uma conversa telefónica com ele que é uma (mais uma) peça de antologia, sempre por causa da surdez.

Rewind! Rewind! Estávamos eu e o João no Fidalgo, a debater com o dono as possibilidades da ementa. Nisto abre-se a porta, entram dois meninos e o meu bichómetro desata logo aos guinchos. Aproximam-se de nós e um deles aborda logo o dono, com um gesto floreado  e entoação afectada:  «Olhe, ainda tem aquelas lulas estupendas?» Fiz esforços desesperados para não largar a rir, porque se há adjectivo que para mim identifica a léguas um gay amaneirado é justamente estupendo. Tranquilizados por ainda haver lulas, os meninos instalaram-se numa mesa perto da nossa, eu e o João pedimos os nossos pratos e retomámos a conversa.

Falávamos de Ópera, passávamos em revista títulos e nomes que tinham brilhado nos papéis principais. Eu, claro, evocava recorrentemente o nome da minha querida Dame Joan. E, como devem calcular, mesmo não me apetecendo nada ser ouvida pelo restaurante inteiro, sendo o interlocutor o João, era difícil evitar que pelo menos as mesas mais próximas me ouvissem. E foi assim que, a meio do jantar, o menino das lulas estupendas se levantou e veio ter comigo, estendendo-me uma cassete: «Desculpe estar a ouvir, mas já vi que temos a mesma paixão. Diga-me o que acha disto.» Percorri os títulos da gravação caseira, deliciada. Eram árias de óperas diversas, mais de metade cantada por Dame Joan. Havia Lucia, havia Norma, havia Traviata, havia Rigoletto. «Parece-me perfeita! — sorri — Que engraçado, comprei há uma semana o Rigoletto, precisamente com ela!» Ele ficou extasiado. «É uma Gilda incomparável!» E, para grande embaraço do João, que deslizava cadeira abaixo, desatou a cantar Caro Nome.

Trocámos mais meia-dúzia de frases e ele regressou à mesa. Nós acabámos de jantar, o João desafiou-me para ir beber um copo a um bar ali perto (de cujo nome nunca me lembro nem sei se ainda existirá, era um de esquina com janelas para a rua) e, complacente, acrescentou: «Se quiseres, podes dizer aos teus novos amigos para irem lá ter.» O convite foi feito, quando íamos a caminho da porta, fomos ao tal bar, mas os meninos não apareceram. Fim do episódio, nunca mais me lembrei de tal.

Umas semanas, talvez  mais de um mês depois, numa das minhas muito frequentes noitadas que iam até à manhã seguinte, vindos do Gambrinus, do Centro de Bridge, do Stone's, do T-Club, da Kapital (corríamos vários sítios na mesma noite, éramos polivalentes), entro no Alcântara-Mar com o Nuno, o Pedro e o primo dele, também Pedro. Eram quase sete da manhã, cá fora já era dia claro. A tentar habituar os olhos à penumbra reinante, íamos passar o reposteiro que  nos separava da boîte propriamente dita quando me surge à frente uma criatura efusiva e com ar exultante. «Oláááá!!! Que prazer encontrá-la!!!»

Fiquei atrapalhadíssima. Eu conhecia aquela cara, sim! Mas de onde, que diabo?!

«Não está a ver quem eu sou, pois não?» Enfiada, gaguejei que sim, que sabia quem era, mas não estava a ver... ele que desculpasse...

O Nuno e os Pedros parados a meu lado, ele abre teatralmente os braços e berra, feliz da vida: «A mulher da Ópera!!!»

Fez-se luz instantaneamente, percebi logo que era o menino do restaurante, abraçámo-nos como se fôssemos velhos amigos. O Nuno e os Pedros riam. Mesmo a Leste da história, mesmo sabendo do meu amor por  Ópera, perceberam imediatamente que a mulher da Ópera não era eu... era ele!

Foi um fim de noite hilariante. O Alexandre (assim se chamava, como só então fiquei a saber, era pessoa divertidíssima e educadíssima, filho de embaixador, um trato palaciano). Ralhei com ele, não tinha aparecido no bar na noite do Fidalgo. «Ahh! Eu bem queria! Mas o meu namorado ficou cheio de ciúmes por causa do seu amigo, aquele tipaço! Mas hoje estou à solta, ele está no Porto!»

E, baixando a voz e a falar-me ao ouvido, malicioso: «Sua açambarcadora, não tem vergonha? Entrar-me aqui com TRÊS homens! Mata-me de inveja! Vamos combinar uma coisa: a menina vai circular por aí e eu fico aqui a tomar conta deles. Hã?»

O Pedro ainda hoje, de vez em quando,  me relembra este episódio tão divertido. O Nuno... O Nuno é uma saudade que vai fazer quatro anos

(Lucia di Lammermoor, Donizetti)

1 comentário:

  1. Olá Teresa,
    Já aqui não vinha há algum tempo, mas gostei de vir, especialmente hoje, ler este divertido texto, sua... açambarcadora e provocadora de umas boas gargalhadas!!!
    Boa noite

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