sábado, 31 de janeiro de 2009

Saudade, saudade, saudade...

Não é linda? Linda, linda, linda!
Vêem aqueles fios esquisitos no canto do sofá? Foram as unhinhas dela, quero lá saber!
O que eu queria era tê-la de volta.

Ainda não cheguei ao momento da saudade boa que me desejava o querido Xívico Anacleto. A partida de Messy é demasiado recente, os dias contam-se pelos dedos de uma só mão. A saudade rói-me os ossos, consome-me. A todo o momento vêm-me à memória os momentos de pavor em que Messy se ficou no meu colo e, já tão cansada de lutar contra esta doença que tinha cinco anos e acabou por ma levar, ainda teve forças para levantar a cabecinha e mordiscar-me a ponta do nariz, suprema manifestação de ternura num gato. Se o vosso gato vos morder gentilmente o nariz é mesmo porque está perdido de amor.

Eu sabia que Messy vivia em cima de um barril de pólvora, o veterinário tinha-me avisado. O veterinário, em Novembro de 2003, quando a grande crise se revelou, chegou a dá-la por perdida: Messy esteve mais de um mês internada, eu a ir de Sintra à Alameda vê-la todos os dias, a soluçar incontrolavelmente quando a via, pele e osso, um trapinho autêntico. Viraram-na do avesso com exames, alguns requeriam a deslocação de um médico à clínica. Custou uma fortuna, e eu ralada! Mais depressa teria ido atacar para o Intendente, a Messy é que nunca poderia faltar nada.

Como eu dizia, o veterinário, o extraordinário Dr. Joaquim Henriques, chegou a dá-la por perdida, mas só mais tarde mo confessou. No meio do pesadelo que foi aquele final de Novembro de 2003, havia uma clareira de cinco dias livres, a minha irmã desafiou-me para ir fazer ski (coisa que adoro) para a Serra Nevada, tinha um grupo giro, o marido não podia acompanhá-la. Impensável, com Messy na clínica. Foi o Dr. Joaquim Henriques que me persuadiu a ir, que eu estava a fazer por Messy tudo o que podia fazer, que me daria notícias diariamente. Fui, mas de coração dividido, a sensação de estar a faltar-lhe, mesmo só podendo, nesses dias, vê-la uns dez minutos. O Dr. Joaquim Henriques telefonou-me todos os dias. Ao terceiro tinha palavras de esperança: Messy já se lavava! Só quem tem gatos sabe da importância de lavação (palavra minha, muito antiga) na vida deles, obcecados com limpeza. Se um gato não se lava... há qualquer coisa muito errada. E lembr perfeitamente o momento em que recebi a notícia, o telefonema do Dr. Joaquim Henriques: estava eu empoleirada numa cadeira, a caminho da primeira descida da manhã. Tenho retratos, algures, hei-de procurar.

Messy foi passar o Natal a casa. Para essa alta gloriosa tive de aprender a picá-la, tinha de lhe dar uma enormidade de soro todos os dias. Messy pesava nessa altura um quilo e setecentos, o peso dela tornou-se uma obsessão para mim. Logo a seguir teve uma recaída, mais uma semana de internamento, eu desfeita, desesperada. Houve um dia em que, acabada de almoçar no Cantinho de S. Pedro, telefonemas frenéticos para a clínica a pedir notícias, tive de parar o carro na estrada do autódromo, de tal maneira a catadupa de lágrimas que me inundava os olhos tornava a condução perigosa. Rezei em desespero a S. Francisco de Assis a sua maravilhosa oração, que sei de cor («Senhor, fazei de mim instrumento da Vossa Paz...»), pedi-lhe a soluçar, a ele, o mais Santo de todos os Santos, a ele, que é também o padroeiro dos animais — por que é que acham que o Dia Mundial do Animal é a 4 de Outubro? Porque é o dia de S. Francisco de Assis, a data da sua morte e do seu nascimento para a Vida Eterna — que olhsse para Messy e se condoesse, que pedisse por ela a Deus Todo-Poderoso, que me salvasse Messy, eu iria a Assis em agradecimento.

Messy voltou para casa, com a ajuda de S. Francisco. Ainda não cumpri a minha parte do acordo, mas não passa do próximo ano (para este talvez esteja difícil). Devo a S. Francisco cinco anos inteirinhos da felicidade de ter Messy viva.

Por essa época, o meu querido JL, que não tem blogue mas comenta aqui esporadicamente, disse-me sobre a recuperação de Messy uma coisa que nunca mais esqueci: que era um milagre de Amor. O meu Amor por ela; o Amor dela por mim.

Durante os meses seguintes, o peso de Messy tornou-se para mim uma obsessão. Cada 50 gramas conquistados eram uma vitória a celebrar. Tenho uma folha de Excel em que apontei diariamente o seu peso, de manhã e à noite. Quando chegou aos dois quilos e meio senti que tínhamos vencido. Três meses mais tarde, o marco glorioso dos três quilos foi comemorado com Veuve Clicquot.

Isto terá continuação, agora estou emocionalmente exausta... e Agri precisa de mim.

No fundo, no fundo... era só para contar que a presente da Tatiana calou fundo em mim, e que percebi que contar-vos coisas de Messy atenua um bocadinho a dor física da ausência dela (neste momento estaria instalada no meu colo, a dificultar-me o acesso ao teclado, and I would be loving every minute of it).

Em Março de 2007 (há quase dois anos) criei um blóguio chamado O Estranho Mundo de Messy. Está em branco, porque eu tinha a esperança fervorosa de a ter comigo por muito mais tempo. É a porta de entrada para um mundo feliz onde ficarão registadas histórias delirantes dela. Algumas virão aqui parar. Desse estranho mundo de Messy julgo que só quatro pessoas, na blogosfera inteira, têm conhecimento: A Actriz Principal, a Mad, a Ana (ainda não agradeci o prémio que não aceito, desculpa) e o Pedro. O blóguio, evidentemente, será de acesso restrito. Só por convite. A seu devido tempo serão informados.


13 comentários:

  1. Por que será?

    Veio-me à cabeça a figura de uma negra enorme, a cantar descalça...

    Beijos

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  2. Olá Teresa
    Ainda hoje sinto a perda da Julieta, foi há cerca de dois anos e viveu connosco 17 anos, era uma amor de bichinha... fez algumas cirurgias, até lhe perdi a conta... e no ultimo ano de vida dela foi um corropio semanal e depois diario à clinica, até que também deixou de se lavar, tinha que ser eu a fazê-lo e varias vezes ao dia para que se sentisse confortável, os ultimos dias dela foram de garrafa de soro uma atrás da outra... até que, a conselho do vet, tive que ter a coragem para a deixar na clinica para ser abatida porque o sofrimento era demasiado e já não havia nada a fazer... Também me mordia o nariz, era ela o meu despertador todos os dias, acordava-mecom suaves mordidelas no nariz... fê-lo também na despedida... saí de lá inconsolável... eu e a Titó chorámos dias a fio, nada nos confortava, foi uma tristeza profunda ficar sem ela, mas o tempo foi atenuando esse sentimento transformando-o em alegre saudade, relembrando-a sempre... Jurámos que não queríamos mais miaus, mas eu não aguentei e a meio do ano passado adoptei dois que ficaram logo a fazer parte da familia, que são a alegria da casa, que são mimados e também nos mimam, são uns amores! E, ainda hoje e sempre vamos recordando "coisitas" da Julieta e nos rimos :)
    Tem dias que até me engano e em vez de chamar pela Lira, chamo Julieta...
    Quem gosta de animais e ama os gatos (como eu) é assim mesmo, custa a sarar a ferida da perda mas o tempo vai ajudar. Força!

    Olha que tenho pensado tanto em criar um outro blog só para falar dos meus miaus...
    E... já agora também gostaria de ser convidada para poder ler as histórias da Messy, se assim o entenderes :)

    Ron ron's para a Agri e uma beijoca para ti*

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  3. Hádesme dizer por que é que eu não tenho direito a resposta...

    E continua a vir-me à ideia a tal negra ENORME, a cantar e a dançar descalça...

    Beijos

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  4. Cenourita,
    Eu sei, eu sei... Há-de doer menos, quando passar tempo suficiente. Agora é demasiado cedo. E tu, que passaste por tudo isso com a Julieta, bem sabes do que falo.
    Sim, serás convidada. Vais ficar a achar que sou doida, mas não faz mal... :)
    Um beijo, obrigada.

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  5. Tu sabes quem,
    Bem que desconfiei que podias ser tu, meu grande estafermo!
    Queres converssa, é o que é...

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  6. "Se o vosso gato vos morder gentilmente o nariz é mesmo porque está perdido de amor."

    E eu que pensava que a autorização para fazer festas na barriga (chega a deitar-se de barriga para o ar) já era muito bom! Nunca mais ralho com a Mafalda por causa do mau hálito! :)

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  7. Querida Teresa,

    Esta catarse far-te-à bem. Escreve muito sobre Messy, que eu também quero saber mais sobre essa gatinha tão valente.
    (tenho Nádia ao colo enquanto teclo, e o Boris deitado a meu lado, o meu Gil mais afastado, como é seu hábito, e depois de ler o teu post tive, porque tive mesmo, de fazer uma festa aos três).
    Beijo grande

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  8. Um amigo nunca se perde...fica para sempre no nosso coração.
    Mas eu sei o que é perder um amiguinho peludo. É terrivel e doloroso para sempre. quando olho para trás e vejo a minha querida Julie, a Marradinhas, o Pinóquio (que morreu na minha mão)e outros, sinto uma saudade imensa, mas tento sempre lembrar os momentos bons e rir com eles.
    Beijos.

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  9. Eu não sei nada do "estranho mundo de Messy", Teresa, mas sei que estás muito triste com a falta dela.
    Por isso, um beijo.

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  10. Atrás de tempos vêm tempos, Teresa.

    Peder um animal, para pessoas como nós, é como perder uma amigo querido ou um familiar próximo...

    Quem não entende este sentir, nunca amou um animal ao ponto de querer defendê-lo com a própria vida. Torna-se irracional, porque é isso que o amor é: irracional.

    Quando a minha cadela morreu, cheguei a ter alturas em que parecia que a ouvia ladrar... Não tem explicação!!!

    A tua menina estará seguramente bem guardada e em paz.

    O meu menino, em vez do nariz, morde-me o cotovelo !!!

    :)

    beijos querida

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