domingo, 4 de maio de 2008

Cenas de filmes da minha vida #15: Barry Lyndon

Vi Barry Lyndon, para mim a obra-prima de Stanley Kubrik, quando estreou nos cinemas, em 1977. Lembro-me de o ter visto no Apolo 70, no fim do meu 7.º ano do liceu, com o Duarte, a Vanda e o Manel, e lembro-me de ter ficado vivamente impressionada. Mais tarde viria a ler o romance de Thackeray no qual é baseado (apesar de lhe preferir o feroz Vanity Fair, principalmente por causa da gigantesca personagem que é Becky Sharp).

Nunca esqueci o filme, procurei-lhe persistente e obcecadamente a banda sonora, que o meu querido amigo Artur acabaria por me encontrar em Londres, em 1995 - posso jurar que durante duas semanas não ouvimos praticamente mais nada.

Só voltaria a revê-lo vinte anos depois, já em 1997. A Nita tinha-o em VHS e emprestou-mo. Foi quase reverencialmente que o revi, tal a sua magia. E depois, a certa altura, o grande sobressalto: as imagens do parque, a silhueta do palácio de Lady Lyndon (Marisa Berenson)... eu conhecia aqueles verdes, aquele templo, aquela ponte... «I had been there before. I knew all about it.» Era Castle Howard, para mim sempre Brideshead.

Fiz uma troca com a Nita: Ela deu-me o seu Barry Lyndon, eu dei-lhe o meu A Amante do Tenente Francês, que ela muito desejava e já não encontrava à venda.

Na semana seguinte devo ter revisto o filme umas quatro ou cinco vezes. Até hoje não mudei de opinião. Esteticamente, corre o risco de ser um dos mais belos filmes alguma vez feitos. Uma autêntica tapeçaria. Cada imagem é uma pintura.

Deixo aqui duas cenas.

A da abertura, em que a sombria Sarabande de Händel tem um tom ominoso a pressagiar tragédia. Não há no filme, de resto, uma única cena feliz, um único momento de alegria — a cada instante perpassa uma imensa melancolia, que a extraordinária banda sonora sublinha admiravelmente.




A cena do início do romance entre Redmond Barry (mais tarde Barry Lyndon) e Lady Lyndon. O que mais me fascina nesta cena é a luz — ou a falta dela. É assim que imagino uma sala de ópera no século XVIII, com esta luz bruxuleante a projectar sombras misteriosas.



9 comentários:

  1. Lindo...
    Tudo. As cenas... A banda sonora (aqui "trilha" sonora) E o sorturno que as envolve só enriquece... Afinal porque as lágrimas são e serão sempre tão lindas? Não seriam por estarem "carregadas" de emoção?

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  2. tira o r do soturno pra mim? rsrsrs...

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  3. Cinema não é o meu forte mas, depois desta lindíssima entrada no seu belogue, estou mortinho para ver esse filme!!!

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  4. Belíssima análise, Teresa! Também adoro o Barry Lyndon, e não percebo porque é que foi injustiçado pela crítica, que o considerou "chato". Só se foi pelo ritmo, mas eu acho que ele é um dos trunfos desta história soberba. Tens razão, o filme é uma autêntica pintura.
    E a Berenson era magnífica! desapareceu, não foi? Nunca mais vi nenhum filme com ela...
    Beijinhos

    PS: Por mais voltas que dê, ainda não descobri o plágio. Bolas!

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  5. Nunca vi mas fiquei curioso. pela musica, pelo ambiente, porque dizes que sim.
    Beijos

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  6. assumo que não conheço o filme, apesar de gostar muito de stanley kubrik, este é anterior à minha descoberta do realizador e, provavelmente, por não ter sido muito elogiado, não o procurei, mas aguçou-me o apetite de o ver.

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  7. Finalmente! Só agora é que o youtube me deixou ver as cenas!
    Não conhecia e algo me diz que vou gostar!

    Apenas dois reparos - apesar da iluminação a velas não propiciar uma iluminação por aí além, a luz nos teatros de ópera deveria ter alguma intensidade. Isto porque Luisa Toddi, nos últimos anos de carreira no palco, e já sofrendo da vista, que a iria levar à cegueira total, mandava cobrir a toda iluminação no palco - velas, entenda-se - com seda verde, de forma a que não lhe ferisse a vista.

    Outro repardo, que não consigo perceber - aquele sinal é mesmo da actriz ou é caracterização? É que se for é mau sinal - os sinais falsos, geralmente de veludo utilizados na época serviam para esconder os inúmeros eczemas e outros problemas de pele, causados pela (muita) maquilhagem que então se usavam, fabricados geralmente com óxido de chumbo, extremamente venenosos.

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  8. Vi estas duas cenas e... fiquei comprada! Tenho que ver! Do ano do meu nascimento ainda por cima! Sou fã de longa data de Kubrick tendo visto muitos dos seus filmes inúmeras vezes, mas este nunca!

    Obrigada pela sugestão.

    Beijinho

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  9. Descobri há pouco tempo o seu blog e dei com este post, que trata de um dos mais extraordinários filmes que vi. Deixo-lhe as certeiras palavras de um outro grande mestre do cinema, Martin Scorsese:

    «I’m not sure if I can say that I have a favourite Kubrick picture, but somehow I keep coming back to Barry Lyndon. I think that’s because it’s such a profoundly emotional experience. The emotion is conveyed through the movement of the camera, the slowness of the pace, the way the characters move in relation to their surroundings. People didn’t get it when it came out. Many still don’t. Basically, in one exquisitely beautiful image after another, you’re watching the progress of a man as he moves from the purest innocence to the coldest sophistication, ending in absolute bitterness – and it’s all a matter of simple, elemental survival. It’s a terrifying film because all the candlelit beauty is nothing but a veil over the worst cruelty. But it’s real cruelty, the kind you see every day in polite society.»

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