quinta-feira, 14 de junho de 2007

Castle Howard Revisited (Et in Arcadia Ego)

Eram os feriados de Junho, que naquele ano foram especialmente simpáticos. No princípio da semana anterior o M. lembrou-se de que poderíamos ir para fora nesses dias, ia tratar do assunto. Dois dias depois ligou-me para o banco a meio da manhã.
— Vamos para a Escócia? perguntou-me.
Hã?
Era que, apesar dos esforços empenhados e quase desesperados da secretária, não tinha conseguido reservas em qualquer pousada ou hotel, estava tudo a rebentar pelas costuras, de norte a sul. O M. nunca foi homem de se atrapalhar. Lembrou-se da Escócia. Porquê a Escócia? Sei lá... foi o que lhe ocorreu. Quando me ligou já estava tudo marcado, carro à nossa espera em Heathrow. Como chegaríamos tarde, dormiríamos nessa noite em Londres e na manhã seguinte... Escócia com eles!
Gosto de preparar as viagens, de decidir antecipadamente aquilo que mais me interessa conhecer, se bem que tente deixar sempre algum espaço à improvisação. Não sei como foi, mas lembrei-me de repente de certas palavras mágicas e feiticeiras no final de cada episódio do Brideshead: «filmed on location in Castle Howard, Yorkshire». De Atlas aberto, a seguir com os olhos o trajecto de Londres para a Escócia e ao dar com o Yorkshire, no nordeste, mesmo no nosso caminho, percebi imediatamente que não havia hesitação possível.
Nunca chegámos à Escócia, apaixonámo-nos por aquela região, que era também a das irmãs Brontë. Durante cinco dias vaguéamos por ali, encantados com tudo o que víamos. Até os nomes das cidadezinhas ou minúsculas povoações eram deliciosos: Malton, Thornton-le-Dale, Hutton-le-Hole, Robin Hood’s Bay, Beck Hole... Na estação desta última, a dona da sala de chá, uma londrina reformada que conhecia muito bem Portugal e que tinha ido ali instalar-se para passar os seus últimos anos, deu-nos sugestões preciosas, enquanto esperávamos pelo comboio a vapor (sim, leram bem, a vapor) que nos levaria a Goathland, a escassos quilómetros. Indicou-nos a maravilhosa estalagem isabelina onde ficámos nessa noite, uma outra onde deveríamos ir tomar chá, fez-nos outras recomendações. Disse-nos que tínhamos ido parar à região mais bonita de Inglaterra, com palavras que nunca esqueci: «it hits the soul!...» Era verdade.
E que posso eu dizer de Castle Howard? Um sonho. Vimos tudo (à excepção do roseiral, que nada nos interessava, por não ter qualquer relação com Brideshead). Sentámo-nos nos degraus do templozinho onde Cordelia e Charkes Ryder se sentaram enquanto ela lhe ia contando a tragédia de Sebastian, dubruçámo-nos na ponte onde eles também se debruçaram enquanto ela prosseguia a sua narrativa, a mesma ponte em que vemos passar o cortejo fúnebre de Lady Marchmain. Caminhando pelos jardins, eu voltava-me para trás a cada momento, sem poder tirar os olhos daquela silhueta a um tempo imponente e graciosa. Sabendo que estava a viver um dos dias mais felizes da minha vida, o que é coisa bem rara quase sempre só mais tarde, às vezes muito mais tarde, nos lembramos e reconhecemos que em certo dia, em certo lugar, fomos felizes.
Por isso eu não conseguia impedir-me de repetir baixinho certas palavras de Sebastian naquele maravilhoso primeiro episódio, Et in Arcadia Ego, palavras que sabia e continuo a saber de cor. A crock of gold... A crock of gold
O M. ainda não lera o livro, ofereci-lho ali, comprado na gift-shop em duplicado, para ele e para mim, o meu segundo exemplar. Para o Victor não valia a pena, já lho tinha dado no Natal uns sete ou oito anos antes, levei-lhe um soberbo livro profusamente ilustrado. O M. estranhou a minha litania, quis saber o que era. A crock of gold... A crock of gold…?
Repeti-lhe as palavras de Sebastian debaixo da árvore, depois do vinho e dos morangos com sabor a céu, olhando absorto para as volutas do fumo do cigarro:
«Just the place to bury a crock of gold. I should like to bury something precious in every place where I’ve been happy and then, when I am old and ugly and miserable, I could come back and dig it up and remember.»
Nunca pensei pôr aqui um retrato meu. Abro uma excepção para este, tirado nesse dia. Lá ao fundo, por trás de mim... Castle Howard. Brideshead.

27 comentários:

  1. ai ai como eu gostava de lá ir!

    Oh Teresa, cof cof cof... podias ter "recortado" a foto de forma a não aparecer aquele senhor que parece estar a fazer um xixi contra a vedação, enquanto tu olhas pudicamente para o lado oposto! hihihihihihi

    Ainda me lembro da série "reviver o passado em Brideshead" com o Jeremy Irons, mas não recordo grande coisa, na altura não era crescida o suficiente para gostar dela e, tinha televisão há pouco tempo.

    beijos d'enxofre

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  2. Só mesmo tu para te lembrares de uma coisa dessas, minha doida! A mim sempre me pareceu que o senhor estava a tentar arranjar o melhor ângulo para fotografar, mas eis que surges tu com nova interpretação dos factos. Não há dúvida, a história pode reescrever-se!

    Quanto ao Brideshead, está cá editado em dvd há que tempos, e nem é nada caro.

    Um beijo.

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  3. Teresa, obrigada por teres partilhado connosco estas memórias :)

    As tuas palavras levaram-me a viajar pelas tuas memórias... muito intenso.

    Beijos

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  4. Ah e tal, vamos para a Escócia?? E amigos desses, não se arranja aí para mim.
    Curiosamente, não me lembro muito da série, mas lembro-me do local...e adorei a deixa do Sebastian...
    E, o promenor da música foi fabuloso.
    Beijos e continua a partilhar viagens (aqui).

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  5. Grande série, grandes interpretações.

    E que grande passeio!

    Há locais que visitamos onde revemos pequenos pormenores, que a outros olhos serão insignificantes, mas que nos enchem de auto-estima.

    Sempre que fui a Veneza, recordei a céçebre frase " Ver Veneza e depois morrer!".
    Sentimo-nos privilegiados por poder desfrutar desses momentos.

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  6. Thunderlady,
    Foi mesmo muito intenso, sim.
    Dias inesquecíveis feitos de momentos inesquecíveis, todos eles.
    Um grande beijo.

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  7. Eskisito,
    Não era propriamente um amigo. Era o grande amor da minha vida (bom, um dos dois, não devo ser injusta com o outro) - o que faz toda a diferença, não é?

    Estava a decorrer o Mundial e enquanto estivemos em Inglaterra não vimos um único jogo, nem sequer à noite, no hotel.

    Quanto à série, só tenho uma palavra: obrigatória!

    Um beijo.

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  8. José,

    Para mim, juntamente com o I Claudius, o Six Feet Under e o Thirtysomething (tenho todas completas, à excepção da última, que nunca mais é editada em dvd), são as melhores séries de sempre.

    O passeio foi espantoso, sim. Cenários lindos. E tivemos um episódio curiosíssimo que um dia talvez valha a pena contar aqui, com o próprio Lord Howard (coisa que só descobri no dia seguinte), com quem eu tive uma pega e acabámos nos melhores termos.

    Descobri que o mais famoso retrato de Henrique VIII pelo Holbein está em Castle Howard (julgava-o numa National Collection, ou outro museu semelhante).

    Outra coisa que me esqueci de dizer no post: os frescos que aparecem a ser pintados pelo Charles Ryder (Jeremy Irons) na série estão lá (aqui para nós... não gostei nada, e não têm nada que ver com a casa) e foram pagos pela Granada Television. Giro, não?

    Rlativamente à famosa frase sobre Veneza (também maravilhosamente representada no Brideshead, lembra-se?)... não se costuma dizer o mesmo sobre Nápoles? Que não conheço e que tem um teatro quase igual ao nosso S. Carlos... e Capri mesmo em frente! Ah Como eu gostava de ir a Capri... Especialmente por causa do O Livro de San Michele, claro. A casa do Axel Munthe ainda lá está...

    Um beijo, gosto de o ver de volta.

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  9. Teresa,

    nem todos têm o privilégio de reviver duplamente Brideshead, como lhe acontece a si!

    e a foto era absolutamente imprescindível. suspeito que, no momento, o homemzinho era o detalhe menos importante da paisagem...

    lembro-me que uns bons anos antes de Brideshead também passaram duas excelentes produções britânicas, claro:
    The Forsyte Saga (depois de ver a série ainda li os 3 volumes que sairam)e Upstairs,Downstairs.

    fiquei ainda com mais vontade de conhecer Yorkshire por causa deste seu post!

    Beijo

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  10. sempre tive curiosidade de conhecer esta parte de inglaterra, mas ainda não surgiu a oportunidade... um dia destes quem sabe...

    a minha irmã tem esta série. acho que, se conseguir acabar o trabalho todo amanhã, me vou deliciar com ela durante o fim-de-semana.

    beijo

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  11. Deve realmente ser divino! E fica sabendo, que de todas as Viagens possíveis, Escócia é sem dúvida o meu grande sonho!Não chegaste a lá ir, nem mais tarde?

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  12. Wednesday,
    Foi delicioso, sim :)
    Obrigada pela visita, volta sempre.

    Kuska,
    Lembro-me perfeitamente das duas, apesar de o The Forsyte Saga ter passado ainda era eu muito miúda (dez/11 anos), foi aliás a pimeira coisa de adultos que me deixaram ver, e era a única noite em que podia ficar na sala até mais tarde (é preciso lembrar que dantes, fôssemos ricos ou pobres, só havia uma televisão - a preto e branco e com dois canais - em cada casa, e na sala). Li e reli muitas vezes o livro, aliás livros, e na verdade são seis volumes - tenho-os todos. Os quatro primeiros são de longe os melhores - e vai reencontrar a Fleur Forsyte (Susan Hamppshire) no Living Free :)
    Revi-a há uns anos em vhs, já está editada em dvd, mas é francamente cara. Lá está no meu carrinho de compras da Amazon à espera de dias mais prósperos...

    Upstairs Downstairs> tenho em dvd, mas incompleta - hei-de comprar.

    Lembro mais quatro, que deram todas entre os meus 11 e 12 anos:

    Guerra e Paz, Anthony Hopkins como Pierre. Fabulosa. Tenho-a em dvd, está disponível na Amazon.

    As Seis Mulheres de Henrique VIII

    Isabel I (Elizabeth R, com Glenda Jackson

    E uma francesa: Lagardère.

    Lembra-se de todas?


    E, claro, Os Pequenos Vagabundos... Ofereci à minha sobrinha Marta, que também adorou. E eu aproveitei para rever.

    Um grande beijo.

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  13. Maria Cunha,
    Vale mesmo a pena, hei-de lá voltar.

    Espero que consigas acabar o trabalho a tempo, porque não consigo imaginar melhor programa para o fim-de-semana, principalmente se o tempo se mantiver como está.

    Um grande beijo.

    Bolachinha,
    Acabei por não ir à Escócia dessa vez, e não cheguei a ir depois. Mas Escócia e Irlanda estão entre as minhas prioridades de viagens futuras. Ainda em Inglaterra, queria ir à Cornualha, que não conheço.

    Um grande beijo.

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  14. Eu estou aqui minha querida amiga! Recebi hoje um DVD que sei que vou amar. Com um cartão lindo que está no meu placard de lembranças para nunca mais me esquecer dele! Porque adoro o que traz escrito e tenho um grande carinho pela pessoa que mo escreveu...

    Dos livros que leste, ainda não li nenhum. Também não tenho tido muito tempo para actualizar as minhas leituras por isso, acho que o próximo livro que vou comprar é mesmo o Harry Potter, o último livro. Aquela 1ª edição que falta na minha estante... É que estão dois em lista de espera e o outro sai daqui a um mês!

    Adorei ler a tua viagem. Parece que foi o máximo. Nunca fui à Escócia... Nem a Londres... Talvez um dia possa viajar! Consta que em princípio dentro de pouco tempo, a seguir ao Verão, terei que o fazer! Mas em trabalho... E já sei que não é Holanda!

    Um beijo muito grande deste teu amigo

    M. (Não o da viagem...)

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  15. Teresa,

    lembro-me de todas as séries que mencionou, não falei nelas porque não me ocorreram quando fiz o comentário. e claro que também me lembro de Lagardère... e de Thierry La Fronde (c/Jean-Claude Druot).

    já agora para completar as séries britânicas ainda temos A Família Bellamy..

    curiosamente lá em casa imperou a mesma lei: eu e os meus dois irmãos só podíamos escolher 1 dia na semana para ficar a ver televisão até mais tarde, o que era frustrante porque havia sempre mais do que uma série que nós queríamos ver.

    nessa altura as crianças não tinham voz activa!

    xxx

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  16. Morsa,
    Vais adorar o filme.
    E certamente que vais viajar, e com certeza em breve! There's such a lot of world to see, como diz o Moon river.
    Beijo grande.

    Kuska,
    Thierry La Fronde não vi de certeza, já que não me lembro.
    E olhe que A Família Bellamy é o Upstairs Downstairs, que confusão é essa, quando até já me tinha falado da série?
    Houve uma outra, bastante mais tarde, teria eu os meus 16 anos, que também adorei: Clayhanger, mas essa não está editada em dvd. E, claro, Poldark (que já tenho) e respectivo livro, em quatro volumes.

    O que veio dar cabo disto tudo, cada vez me convenço mais, foi o despique de audiências. Passámos a ser bombardeados com telenovelas e reality shows. Resta a 2, heróica resistente.
    Grande beijo.

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  17. Oh Morsa,

    Achas-te especial?? Deixa-te de merdas, o meu cartão é melhor que o teu!!!!

    Enxofrada

    P.S. Desculpa T. tinha que dizer isto...
    2º P.S. muito obrigada pelo filme, vou vê-lo com carinho E muita atenção, o meu inglês não é grande coisa!

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  18. olá Teresa,

    ainda bem que não deixa escapar nada.. isto de escrever em dois locais diferentes dá-me direito a sofrer de "jetlag" ;0)

    beijos da Elsa para a Teodora!!!

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  19. Querida Teresa,
    Acho a Escócia fascinante e adoro os escoceses com as suas tradições e encantos muito próprios. Gostei do ambiente que descreveu e apesar de ter visto muito poucos episódios da série lembro-me do Mr. Irons. Na verdade nunca vi muita televisão, o que ainda hoje acontece. Bonita foto em comparação com outra que vi (aquela em que tem um gato ao colo) a Teresa nesta está bem diferente.
    Beijos

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  20. Kuska,
    Já percebi dtudo... :)
    Já viu pelo menos o Born Free, não foi?
    Um beijo.

    António,
    E eu continuo sem ir à Escócia, imagine!
    Desta viagem e de Castle Howard tenho fotografias lindas, mas numas estou com o M. (e nunca as poria aqui, claro), outras são grandes planos... decidi-me por esta, que é vaga q.b.

    E não é gato, é GATA!

    Um beijo e as melhoras.

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  21. Querida Teresa,
    Sei qu está a fazer um retiro mas mesmo assim e de acordo com o meu gosto não pude deixar de a nomear e caso queira ou não aceitar a nomeação sob o meu pont de vista é merecida. Está lá no meu blog.
    Beijos

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  22. Gosto muito deste blog : ler sobre livros e tantas coisas que me recordam experiências parecidas ... e depois com esta música deliciosa ...
    nestas alturas tenho pena que o meu blog não seja em português para trocarmos mais "cromos"(no bom sentido ;;;)

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  23. Querido António,
    Apesar do enorme atraso, lá irei ver. Confesso que já fui ao seu cantinho mas, como percebi que estava ausente, ainda não comentei. Uma nomeação...? Mau, Maria...

    Um beijo.

    Brikebrock,
    Não vejo qualquer problema, podemos trocar "cromos": eu leio perfeitamente inglês e francês e percebo razoavelmente o italiano.

    Um beijo, volte sempre.

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