sexta-feira, 14 de maio de 2010

Tempus Fugit

A criança que esperei ansiosamente como se fosse minha, a criança para quem gravei cassetes e cassetes de Mozart, para quem nunca comprei um presente que não fosse cor-de-rosa, não por ser a cor que se associa às raparigas mas só por ser a minha cor de felicidade e por eu querer à viva força que a Marta fosse feliz... essa criança foi crescendo e faz hoje 17 anos.

A minha Marta, a minha sobrinha e afilhada Marta (Marta Vanessa vamos-nessa, private joke como é o nome da Rita, a mana mais nova, Rita Soraia sempre-na-gandaia, eu e a minha irmã temos um sentido de humor perverso) faz hoje 17 anos. DEZASSETE anos.

Acho graça ir à sua página do Facebook. Acho graça a todos os gaviões em voo picado em cima desta menina que não podemos proteger mais do que o razoável. Aos 17 anos já se tem discernimento, e a Marta sempre foi uma menina muito sensata. Para tudo há um tempo na vida. Pus música para a Marta no Facebook, mas sem tags, para não a embaraçar face aos seus 666 amigos — como não sou de maluqueiras, o número hediondo não me inquietou nem um bocadinho, mesmo sendo impossível não reparar nele.

Haveria músicas mais significativas para pôr agora aqui, à cabeça o desgarrador At Seventeen de Janis Ian (que pus no Facebook para a Marta) à cabeça, mas é uma música para um patinho feio, e a Marta nunca conhecerá aquela angústia, privilegiadamente bonita como é. Conhecerá outras, certamente, não está ao nosso alcance resolver-lhe a vida toda, só estamos cá para a amparar quando alguma coisa correr mal.

A música escolhida hoje, para os 17 anos da Marta, é uma cumplicidade nossa muito antiga, é um certo dueto de Mozart numa ópera por mim muito amada, a mais amada de todas, e que a Marta ouviu até à exaustão na barriga da Mãe, tantas as cassetes que gravei para as duas. A Marta tinha menos de um mês, a Tia (eu), sem qualquer jeito para crianças, ficou a tomar conta dela. Incontáveis espreitadelas para tentar perceber se estaria a respirar ou não, mais tarde dar-lhe o biberão e ficar numa angústia sem saber se a princesa teria arrotado ou não (não é assim tão óbvio, ok?). Tenho uma relação fácil com crianças, principalmente se gostar delas, mas bebés são coisa muito mais complicada. E dei comigo a ter de entreter a Marta, ou fosse lá o que fosse, que não tinha a menor ideia do que era suposto fazer. E comecei a cantarolar, aquela trouxinha toda rosada no meu colo. Mozart. O dueto de Papageno e Papagena no III Acto da Flauta Mágica. Incrédula e maravilhada, vi surgir um sorriso naquelas adoráveis gengivas carecas, sorriso a abrir-se em riso. Nunca esquecerei aquele momento, por muitos anos que viva. A minha sobrinha pequenina a reconhecer Mozart, o Mozart que já muito tinha ouvido.


[Hermann Prey (claro!) e Renate Holm]]

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