segunda-feira, 11 de setembro de 2006

American Tune

Quinto aniversário da infâmia. Tal como qualquer americano se lembra de como soube do assassínio de JFK, tal como qualquer português se lembra de como soube, onde estava e com quem quando soube da morte de Sá Carneiro, todos nós nos lembramos – apostaria – de como soubemos do horror que foi o 11 de Setembro.

Como soubemos? Gostaria que o reduzidíssimo número de pessoas que sabem desta página tonta, que neste dia não PODE ser dedicada ao riso, me contassem. Isto não pode ser esquecido.

Para mim era o primeiro dia de férias. Tinha chegado na véspera ao lusco-fusco – duas horas menos cinco da ponte Vasco da Gama à recepção da Quinta da Balaia, nada mal para um Fiat Punto. Na manhã de terça-feira ainda não eram oito horas e já eu estava no jardim a tomar um pequeno-almoço à séria. É favor não rir, a minha bagagem para o meu retiro anual na Balaia (este ano não vou) é meio bizarra. Levo coisas estapafúrdias como o espremedor de citrinos, duas ou três boas facas, duas ou três frigideiras (aquela cozinha não está equipada a meu contento) ou a balança da casa de banho. Além dos livros que viajam sempre comigo em férias. Eça (Os Maias), Fernando Pessoa (Álvaro de Campos e Alberto Caeiro), Oscar Wilde, Proust (pelo menos dois volumes daquele livro da minha eterna obsessão que releio religiosamente todos os anos), o Au Plaisir de Dieu, a Imitação de Cristo.

Mas voltemos àquele dia. Pequeno-almoço à séria, como disse. Chá, sumo de laranja, ovos com bacon. Às nove horas, depois do café da praxe na Martinique, já estava na praia Maria Luísa, sossegadíssima passada a insuportável época alta. Com um livro, pois claro. À uma hora, com o calor a apertar e o Sol mais agressivo, rumei a casa para almoçar. Breve passagem no supermercado para me abastecer de coisas que estavam a apetecer-me.

Compras arrumadas, salada a postos à espera de ser temperada, ofereci-me uma vodca tónica.

Instalei-me no jardim a saborear a dita, seriam umas duas e pouco quando o telemóvel tocou. Era uma amiga (ex-amiga, haja precisão, que a mulher mais tarde viria a tornar-se um pesadelo de intriga na minha vida), a perguntar onde estava eu e se tinha televisão. Claro que sim, corri a ligá-la – passava pouco das duas da tarde, nove e pouco em NY. Eu estava de viagem marcada para lá no mês seguinte... Incrédula e horrorizada como toda a gente, já não saí de casa nem voltei a lembrar-me de que era o meu primeiro dia de férias. Telefonei a algumas pessoas. Ao Victor, que ia viajar comigo e ainda estava a dormir depois de uma noite passada a trabalhar. Ao João, namorado à época. À minha irmã. Todos eles souberam por mim. Estava novamente ao telefone com a Ana quando assisti em directo ao desmoronar da primeira torre e larguei um grito apavorado “Mana, a torre caiu!” – ela comentou tristemente que “já só vais ver uma...” E chorei. Chorei outra vez quando caiu a segunda torre. Chorei quase ininterruptamente ao longo daquela tarde de horror absoluto.

Todos conhecemos o que se seguiu. E lembro-me de nessa noite de terça-feira, 11 de Setembro de 2001, data tão a registar no calendário da infâmia como as de 13 de Outubro de 1307, quando foi dada ordem de prisão aos cavaleiros do Templo (rezei em Paris junto ao local onde foi queimado o Grão-Mestre da Ordem, Jacques de Molay) ou a de 9 para 10 de Novembro de 1938, a Kristallnacht – ter comentado com o Victor que o pior ainda estava para vir: os dias seguintes,quando começassem a emergir as tragédias humanas pessoais, individualizadas, com um rosto e um nome. Ele disse que não tinha ainda pensado nisso, mas que pressentia que eu tinha razão.

Tinha, infelizmente.

Apetece-me agora lembrar os versos belíssimos de um certo génio chamado Paul Simon numa certa música muito da minha obsessão. American Tune. Que eu oiço sempre mentalmente na versão incomparável do concerto no Central Park, a voz de Art Garfunkel a transportá-la para outra dimensão.

(…)
And I don’t know a soul who’s not been battered
I don’t have a friend who feels at ease
I don’t know a dream that’s not been shattered
Or driven to it’s knees
Oh, but it’s alright, it’s alright
For we lived so well so long
Still, when I think of the
Road we’re travelling on
I wonder what’s gone wrong
I can’t help it, I wonder what’s gone wrong

And I dreamed I was dying
I dreamed that my soul rose unexpectedly
And looking back down at me
Smiled reassuringly
And I dreamed I was flying
And high up above my eyes could clearly see
The Statue of Liberty
Sailing away to sea
And I dreamed I was flying

For we come on the ship they call the Mayflower
We come on the ship that sailed the moon
We come in the age’s most uncertain hours
And sing an American tune
Oh, and it’s alright, it’s alright, it’s alright
You can’t be forever blessed
Still, tomorrow’s going to be another working day
And I’m trying to get some rest
That’s all I’m trying… to get some rest

5 comentários:

  1. Recebi de Donis de Frol Guilhade, como sempre como se pedisse licença para existir, a peça que aqui cito, sem delongas e sem outro comentário que não um mais que adequado silêncio setembrino. Perante tais mudas palavras joaninas, escritas por certo a fogo, que não a ferro, em uma outra não menos tremente ínsula de Patmos, são elas como brasas que lembram, que choram, que amam, que saram, que perdoam... Audiens audens!

    “O que limita o verdadeiro é, não o falso, mas o insignificante”
    (René Thom, in «Prédire n’est pas expliquer»)




    Memorial pela execranda matança de 2.829 inocentes, nas torres gémeas de Baal, nova Babel em Iorque, no ameríndio reino de um Herodes em quase tudo quejando dum outro de vil antanho


    vi subir do nascente obsessiva uma voz
    de causar cadavéricos, vi-a surgir
    numerosa, que ninguém podia

    envolto em adamante, vigoroso íris
    o rosto tinha como fogo
    o sol aberto na planta da mão

    pela aparência para a guerra
    eram cavalos que pareciam cabeças
    plúmbeas como rostos aparelhados

    tinham o ventre como as mulheres
    eram couraças como leões
    e o ruído como combate de asas

    vi seis os cantos da terra
    a deterem os ventos sobre a maresia
    nefasta ou qualquer ânimo pútrido

    misturou-se sangue com granizo
    e estrela em novação formou-se: ardeu
    a devida parte e toda a daninha

    repente negro como um saco
    alma inteira como sangue
    e as estrelas por terra quais frutos à caída

    do céu a arder caem nós das nascentes
    arcaicas (em chama a parte das águas)
    ao absinto doutros amaros

    sobre a terra a chave
    do abismo abriu o poço das almas e dele
    subiam fumos como grande

    hão-de procurar sem que possam
    encontrá-la, mas a morte
    vai fugir-lhes sem que procurem

    quando o silêncio se esvaiu
    houve presenças na manhã
    por metade da hora

    cor de fogo, poder
    de banir uns e levar
    aos outros a mais enorme espada

    desde a mão a fumegar subiu
    o santo (d'aromas) e encheu em brasas
    que lançou aos trovões e um abalo

    tranquilo cada um até completar-se
    o número dos seus
    que estão para ser saudados

    morto heis-me vivente
    nas chaves de vencida --
    escreve o que tiveres e os sucessos depois deles

    quanto ao mystério que viste (O não)
    e aos de luz: são anjos
    lampadários são


    Colagem (soluçada em lágrimas de surdos gritos) com extractos de “Diadema”, 1991

    ResponderEliminar
  2. Acho que, como dizes, não há quem não se recorde do que estava a fazer naquele dia e de como soube o que estava a acontecer em Nova Iorque, em Washington e nos céus da Pensilvânia. Eu estava a almoçar e um colega meu que tinha ido comprar tabaco à zona do restaurante onde havia televisão, apareceu de repente a dizer que uma das torres do WTC tinha sido atingida. Passado um minuto, aparece de novo, dizendo que a segunda também e que tinha sido um avião. Acabámos de comer à pressa, fomos a correr para a redacção e ficámos especados a ver a CNN. Nesse dia só recomeçámos a trabalhar muito mais tarde do que o normal, pois não conseguíamos desprender os olhos da TV. Depois... escrever sobre 'aquilo' foi terrível. Não me apetecia nada dizer como estava o petróleo a reagir, quando tantas pessoas tinham acabado de morrer. Um dia no calendário da infâmia, sim. Terrível. O terrorismo não nos ensina nada, a não ser o medo. Só que a liberdade, felizmente, é mais forte do que o medo. Um beijo grande (a letra da música é belíssima - e a música também, obrigada pelo envio).

    ResponderEliminar
  3. Dei ontem comigo a cachimbar a paz com os botões. Quem diria, hein? O que, tudo ponderado, significa sobremodo (por extensão) paz com todos, como desde pouco depois apercebi.
    “Eirini passi!”, assim dizem os cristãos ortodoxos gregos o que russos correspondem com seu eslavónico “Mir vciem!”, estranhas dizedelas litúrgicas que para nós outros, bastando transformadas em “Pax vobis!”, logo a coisa soa tão mais familiar, se bem que um tanto passadista no mais dos casos.
    O rezingar, entretanto, que é condição não natural no homem, por minoria de razão não deve ser tido por sua normalidade.
    Pois que é, afinal, a “normalidade” senão um mais que duvidoso e sempre questionável máximo denominador comum de toda a realidade humana, em todas as suas complexas e correlatas latitude e longitude?
    Ontem pois, por algum motivo, em um qualquer lugar de mim, algo não situável requebrou, adquirindo o todo digamos macieza anímica e ganhando em ânimo de mudança.
    Porém, bem vista a coisa (aqui, está de ver, a “coisa” é o tal do Restelo mesmo, o mais novo que o outro de antanho), não houve por ali ponta de alguma desajustança intestina que despontasse, ou pinga de belicose mal resolvida ou bem que o fora sequer, ou mesmo alguma réstia de uma eventualmente aceitável expectação apreensiva. Bem ao invés total disso tudo.
    O que chegou às colinas do Restelo, por onde peregrina o dito cujo de tanto fazer dar à costa azedio é agora, antes mesmo de tudo, algo que paradoxalmente (ou não) apenas radica de verdade no após tudo isso. Parece confuso, mas nem tanto.
    De facto (e retomo a primeira do singular), a minha recém-passada imagem reflectida no espelho da má consciência recordo-a eu, agora em desassombro (com um misto de tranquilidade franciscana e de estóica indiferença), como nitidamente aquém do razoável de aceitar por alguma alma qual seja ela e, de par com isso, além do que deveria em sanidade arriscar-se quem quer seja respeitador ao menos de si mesmo.
    Daí, pois, que a coisa tenha azedado sem remédio, para as bandas um pouco acima dos impassíveis Jerónimos.
    Daí também que até num dia, como o de ontem, de obrigado silêncio interior para humano que se preze de o ser (a boca estaria autorizada a falar, a alma apenas a bem calar) – ao passar de um quinquénio sobre a infâmia, como tão adequada e rigorosamente disse a proprietária deste canto de delicadas gotas, justamente desconsolada aliás com o azedume e os azimutes deste restelense (pensava-se que incurável) na sua pretensa novidade – a criatura, dizia, como que a soltar o derradeiro respiro, ainda se permitiu bolçar, como nunca antes tão acremente o fizera, contra a pobre senhora.
    Em nome póstumo pois do defunto, propriamente defuncto, que ora cessa tais execrandos modos na função, (e porque para tanto é escusada memória de elefante que bem o imponha e melhor o exija) aqui se deixa lavrada a intenção alfim nobre desta já antecipadamente mortuosa pestilência em pessoa.
    Enterrada ela pois e, demais, com o cuidado nosso de bem confirmar o acto, segue então uma boa cachimbada de paz com a Teresa, amiga recente, mas alta e funda quanto aqueles poucos raríssimos sobrevivos da semi-centúria de meus anos, e a estendo (como não?) a todos os humanos de vontade boa.
    Acabou a acre insídia “à portuguisa”, não acabou a presumível lucidez de um que se quer algo lucerna discreta e firme de quanto somos e devemos, de quanto somos e não devêramos, e o par de inversos disso. Era o que faltava. Vale.

    ResponderEliminar
  4. Cá estou, Teresa. Não para confirmar a verdade do que me disseste, como é óbvio, mas porque fiquei curiosa. E esta música, que eu adoro e que para mim também tem alguma coisa de obsessivo, atinge uma profundidade impensável assim associada a esta tragédia. Seja de Paul Simon ou de Bach (ambos génios musicais) deixa-me, ainda mais agora, como um fio eléctrico descarnado.
    Beijinhos

    ResponderEliminar
  5. Sem dúvida, sem dúvida!
    Gostei dessa tua imagem, tão expressiva, de um fio eléctrico descarnado. E os versos que assinalei a bold parecem relacionar-se intimamente com a tragédia, numa espécie de presságio, não achas?

    A minha obsessão (que outro nome não pode ter) chegou a ser tão grande que dava comigo a rabiscar versos dela em guardanapos de papel, a cantá-la baixinho na rua - um pouco como me aconteceu com o Lembro-me bem do seu olhar, de Fernando Pessoa, que eu acho que é completamente Álvaro de Campos e quem classificou o espólio fez ali argolada.

    A minha grande pena é não ter assinalado aqui o 25.º aniversário do Concerto do Central Park, a Gota tinha poucos dias e estava longe de ter uma linha definida. Bem... continua longe, convenhamos... :)
    Um beijo.

    ResponderEliminar