domingo, 21 de julho de 2013

Ainda a minha amiga Paulinha

Poderia contar dezenas e dezenas de histórias em que ela é a protagonista, acho que mais vale criar uma etiqueta só para ela, sabendo de antemão que nunca poderei contar aqui algumas das melhores. Tenho amigos que adoram a Paulinha sem a conhecer, só pelas histórias que dela conto. Também andei pelo YouTube à procura de anúncios de televisão que ela protagonizou, sem encontrar um único. Debalde (alegria celestial poder usar este advérbio que me é tão querido). O primeiro anúncio que me vem à memória é o dos bolos Dan Cake, a Paulinha a fazer de freira com uma cara muito marota, passava todos os dias na televisão lá pelo fim dos anos 80. Precisavam de uma cara expressiva e lembravam-se logo dela, que ainda por cima tinha talvez a pele mais bonita que vi em toda a minha vida. Porcelana branca e leitosa, uma coisa de sonho. Só não podia beber vinho. Ficava com umas rosetas muito redondas e muito cor-de-rosa na pele linda, eu descia ao balcão e percebia logo: «BebesteS ao almoço, múlica!». Note-se que ainda hoje, com esta amizade tão antiga, não nos tratamos por tu, só o fazemos em momentos de riso. Ela trata-me por Leândrica. Eu trato-a por Menésica. E tratamo-nos uma à outra por múlica (a nossa versão privada de mula).

Vivemos juntas o inferno que foi a mudança de administração daquilo a que chamávamos em privado a Mercearia Montepio (não era um banco, era uma mercearia; não tinha clientes, tinha fregueses). A mim, secretária do presidente, chamaram-me logo no dia da tomada de posse a perguntar quanto queria eu para sair (sabia demasiadas coisas, sabia tudo, todos os podres, assistia às reuniões do conselho, as actas eram redigidas por mim). Armei-me em senhora, «Dinheiro? Eu?» e bem penei por causa disso, um ano inteiro sozinha num andar sem NADA que fazer. Costumava dizer que se não apanhei uma depressão nessa altura nunca mais apanhava, agora sei que o estuporzinho nos pode apanhar em qualquer curva da estrada. A Paulinha não teve a mesma sorte, transferiram-na para o balcão, puseram-na na caixa. Aguardem, há boas histórias a caminho, prometo.

Já vos disse que a Paulinha sabe mais de música clássica de olhos fechados do que todos nós com eles escancarados, certo? Nunca mais me esqueço de ter ido com ela rever O Silêncio dos Inocentes quando estreou, eu estava de férias no Algarve e vim de propósito a Lisboa, voltando na mesma noite, TINHA de ver o filme. Umas duas semanas mais tarde ofereci-me logo como companhia quando a Paulinha me disse que estava cheia de vontade de o ver. Na cena tremenda em que o Dr. Hannibal Lecter (e não esqueçam que a personagem foi considerada pelo American Film Institute o maior vilão da história do cinema) se evade, toca uma música num gravador de cassetes. A Paulinha disse automaticamente, às três primeiras notas: «Variações Goldberg pelo Glenn Gould». Acho que até foi mais longe e identificou a gravação, porque há várias. Dobrei-me em reverência.

Eis-me chegada aonde queria: a Paulinha e a música. A Paulinha, lá por 1992 (ou 93, não tenho bem a certeza) viu-se finalmente livre da Mercearia Montepio, recebeu um convite irrecusável de S. Carlos. E lá foi para assistente do director de cena. Um grande disparate, na minha opinião, porque ela sabia muito mais de música do que ele. A Paulinha, atrás da cortina, partitura à frente, dava o sinal de entrada aos cantores (devem perceber que isto tem de ser feito ao cagagésimo de segundo). A primeira ópera que fez foi Eugene Onegin, de Tchaikovsky. O director que ela assistia nem conhecia a obra, foi a Paulinha (a sabê-la de cor e salteado) que teve de fazer-lhe um breve resumo do enredo. O João Paulo Santos (grande amigo da Paulinha, director do fabuloso coro de S. Carlos e que considero um génio) perdeu a paciência para a ignorância do outro e resumiu a ópera nestas sucintas e eloquentes palavras: «Olha, ela no fim manda-o dar uma volta ao bilhar grande.» Haverá maneira mais brilhante de contar Eugene Onegin?

Um dia a Paulinha pediu ajuda: precisava de cartazes com o sinal de proibição de fumar em várias línguas, espalhados pelo palco em ensaios e pelos bastidores. Ainda não havia internet, mas eu trabalhava com um Macintosh, cacei o sinal num instante e fiz diferentes versões em português, francês, castelhano, alemão e inglês, imprimi-o em A4 e ampliei-o depois para A3. Entreguei à Paulinha uma pilha de sinais, que foram devidamente afixados em pontos estratégicos do teatro. É que, não sei se sabem, de cada vez que o palco é utilizado, mesmo para ensaios, tem de estar um batalhão de bombeiros a postos, tão velhas e inflamáveis são aquelas madeiras, coisa que custa muito dinheiro, e não queremos que aconteça a S. Carlos o mesmo que aconteceu ao Liceo ou ao La Fenice.

Imaginem agora a gargalhada que dei, num dia em que fui ter com a Paulinha ao teatro em ensaios para As Bodas de Figaro com o grande Gardiner (que ela odeia e acha um antipático insuportável) e deparei com o meu cartaz em inglês com um acrescento em baixo. Alguém tinha acrescentado a esferográfica um hilariante "trajo de passeio" por baixo do severo No  Smoking. Humor bicha no seu mais puro. 




3 comentários:

  1. Curti a leitura, Teresa, como sempre curto os seus posts. Aprecio sobretudo a maneira cuidada como escreve (sou um fanático da língua bem escrita e bem falada - eventualmente não saberei tudo, mas procuro corrigir-me sempre que erro - e adimito que erro, como os outros), mas não percebi esse "trajo de passeio"... :-(
    Esclareça-me, por favor! :-)

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  2. Teo, suponho que a designação "trajo de passeio" até possa ter já caído em desuso. É um dress code que costumava pôr-se nos convites, tal como o smoking ou black tie, daí o trocadilho.

    E reparo agora (a memória já não é o que era) que devia ter riscado a palavra smoking, que foi o que fizeram no cartaz original.

    Parece-me que a expressão também existe no Brasil, e alguém até a definiu como "esporte fino". É só ir ao nosso mágico amigo Google.

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  3. Adorei a sinopse do "Onegin". Já agora, foi uma das óperas apresentadas quando Lisboa foi Capital Europeia da Cultura. Uma encenação belíssima com cantores a condizer.
    Bons tempos esses, em que víamos Gardiner dirigir Mozart em São Carlos.

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