terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Questões de Português #2: n por cento de...

Cartaz (parece que a designação técnica é mupi) visto hoje já quase a chegar ao Colosso e que fotografei quando saí para almoçar.

«70% das mulheres não toma a pílula de forma correcta», adverte o dito.

A frase está errada numa percentagem bem superior, a dos 100%. A advertência é muito válida e aplaudo-a, a redacção é que é uma tristeza.

Isto é uma concordância verbal errada, totalmente errada. Correcto seria escrever que «70% das mulheres não TOMAM a pílula de forma correcta.»

Neste caso concreto, que, se não me falha a memória, é designado por concordância verbal com uma expressão partitiva, o predicado (o verbo tomar) concorda com o nome (mulheres) que a percentagem designa: se esse nome estiver no plural, como acontece, o predicado é plural (tomam).

Imaginemos uma construção diferente: que vos parece? Como completar isto?

«70% da juventude portuguesa não (verbo usar) preservativo.»

Simples, não? A juventude portuguesa é singular, logo o predicado deverá ser também singular: usa. «70% da juventude portuguesa não usa preservativo.»

Claro que há sempre as excepções, abençoada seja a nossa língua, sempre cheia de ratoeiras. Se o numeral da percentagem for singular (um por cento)... já se poderá admitir a concordância quer com ele, quer com o nome. As duas frases que se seguem estão igualmente correctas.

Um por cento das claques de futebol é violento.
Um por cento das claques de futebol são violentas.

Espero ter conseguido explicar-me bem, espero ter sido útil.

E é claro que é de lastimar que publicidade como esta, por mais louvável que seja (e é), se imprima às centenas ou aos milhares, sem que haja o cuidado de lhe verificar a correcção, ajudando a difundir ainda mais um erro já demasiado generalizado.

15 comentários:

  1. Muito útil, sim!
    (Porque não mandar um email para a agência que assina a campanha? Sempre aprendiam...)

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  2. Tenho uma amiga copy que apanhou na cabeça por ter escrito concerteza num slogan na seguinte frase: "É uma casa portuguesa concerteza" (talvez se lembrem). Mesmo tendo saído impresso em itálico. E fazia totalmente sentido no contexto em que se inseria (não me lembro do produto, desculpem, mas ou era azeite, detergente para a loiça, ou similar).

    Manda para a agência. Aqui é asneira da grossa e não faz sentido nenhum.

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  3. O cliente é a Schering, um mega-laboratório. Ainda por cima é uma agência das grandes - mais se justifica a crítica.

    (Ó prós meus anos de marketing a virem ao de cima!)

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  4. Diabba,
    Lá estou eu, sim. É assim tão censurável? :)

    Van Dog e Mad,
    Claro que pensei imediatamente nisso, se bem que já não travasse nada, aquilo já está nas ruas.
    A única coisa que sabia (a que estava no mupi) era que aquilo era encomendado pelos laboratórios Schering-Plough. A seguir entrei numa espiral crescente de trabalho que só acabou à nove da noite. Lembrem-me de vos contar algumas histórias hilariantes subordinadas ao tema "disparate". Uma certa capa do Relatório e Contas da extinta Comissão dos Descobrimentos que nunca viu a luz do dia (faltava um "n" num sítio fulcral, até o presidente, quando se deu pela asneira, andou de rabo para o ar na gráfica a apanhar capas, não fosse alguma cair nas mãos da imprensa)... campanhas da McCann-Erickson... :)

    Sabemos do que estamos a falar, em resumo.

    Beijos aos três.

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  5. Acredita que pode fazer diferença. Empresa nenhuma quer fazer má figura, se isto chegar aos jornais (ou à imprensa da especialidade, que para eles é a Bíblia).

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  6. e no caso da juventude a 70%, em singular, vale lembrar que se falassem 70% "dos jovens" portugueses, ou brasileiros... também já seria plural... Até na TV, colegas meus de telejornalismo já vi falarem disparates do mesmo quilate. Vergooonha...

    PS reparaste que volto a postar no blogspot? Aquele festim deu-me muita dor de cabeça... além de NÃO ser gratuito

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  7. A Edite Estrela pediu-me para informar que é solidária apesar de já não tomar a dita e ainda se identificar com a cor .)

    XinXin

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