terça-feira, 11 de novembro de 2008

A guerra para acabar com as guerras

Chamaram-lhe durante vinte e um anos a Grande Guerra, ou «a guerra para acabar com as guerras» — até vir a outra, mais terrível ainda. Hoje chamamos-lhe I Guerra Mundial. O cessar-fogo teve lugar, oficialmente, às onze horas do dia onze do décimo primeiro mês do ano. O ano era 1918, faz hoje 90 anos. Foi o Armistício.

Na Grã-Bretanha é o Remembrance Day, ou Poppy Day (daí as papoilas nas lapelas).

Vinte milhões de mortos, dos quais, entre militares e civis, mais de 89 mil eram portugueses (ver aqui).

Como sempre, é-me mais fácil traduzir-me em música, e esta que ouvem agora sempre me comoveu profundamente. É de Chris de Burgh, num disco de que ainda havemos de falar, talvez amanhã...

É uma carta de um soldado inglês em 1917, na véspera do desfecho do pesadelo que foi Passchendaele, uma das maiores batalhas de toda a guerra, também conhecida como a terceira batalha de Ypres. A carta é dirigida à mulher, noiva, namorada (não sabemos) que deixou em Inglaterra. Na miséria da trincheira lamacenta, certamente encharcado até aos ossos, o soldado tem pouco tempo para escrever, o dia seguinte é o grande dia. Dá-lhe notícias telegráficas. Conta que «they caught old Bill»: não sabemos se ela o conhecia pessoalmente ou apenas das cartas, mas ficamos a saber que Bill morreu; o sargento continua algures lá fora, ferido, na terra-de-ninguém entre as trincheiras adversárias, sem que consigam acudir-lhe ou resgatá-lo.

Se me perguntarem por que me comove tanto esta música, sei perfeitamente.

Primeiro, a certeza de que esta carta imaginária terá tido muitas cartas reais semelhantes. A intuição diz-nos que chegou às mãos da destinatária com a notícia da morte do seu autor.

Segundo, a evocação saudosa da terra natal, como se ele precisasse de se alimentar da memória de coisas outrora pequeninas, banais, de todos os dias, e agora tão queridas, tão luminosas que quase parecem irreais e ele precisa de se certificar de que elas continuam a existir, para que aquilo faça alguma espécie de sentido, para conseguir enfrentar o horror da trincheira, do gás, da morte sempre ali mesmo ao lado. É Novembro, provavelmente na igreja já ensaiam os cânticos do Natal próximo. Quando tudo acabar (que visão apaziguadora!) voltarão a fazer juntos as coisas que lhes eram queridas, velejar em Dover, pescar...

Não tem tempo para continuar a escrever. A carta acaba aqui. If they get me, my love, you will know...

Só a minha imaginação continua.

Passchendaele


This Song For You
Hello darling, this is the army,

I've just got the time to write,

Today we attack, there's no turning back,

the boys they're all ready for the fight.

Yes, I'm well but this place is like hell,

they call it Passchendaele,

In nineteen seventeen the war must be ending,

the General said this attack will not fail;


So I'm writing down this little melody

When you play it my love, think of me...

We'll be together in this song for you,
And it goes Lalala... sing it darling... Lalala...


They got old Bill and the Sergeant is still out there

Wounded in some shellhole,

They say this war will end all wars,

Oh God I really hope it will,


Oh how's old England, are they still singing
those songs that we loved to sing?

When all this is over, we'll go sailing in Dover,

catching fish like we used to with a string,


Oh I miss you, I miss you, I miss you so,
If they get me my love you will know...
We'll always be together in this song for you...

And it goes Lalala...


I have to go now... take care of yourself my love.

6 comentários:

  1. Eu já nem digo que nos conhecemos noutra vida. Devemos é ter sido a mesma pessoa.

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  2. Tens de me explicar isso... :)

    Afinidades de alma, de sensibilidade...? Depois trocas em miúdos.

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  3. Ah querida Teresa, bullseye again. o meu idolatrado Spanish Train And Other Stories, de longe o melhor álbum do nobre irlandês e onde se inclui esta canção. Mas é mesmo um colar de pérolas, o raio do LP que ouvi «roubado» à minha Mãe: Patricia The Stripper à cabeça («she calls herself Delicia/and the reason isn't...very hard to see»), The painter, A spaceman came travelling...Hoje em dia ouvir DeBurgh é quase um guilty pleasure. Mutatis mutandis, é o que é. Thanks for the memories - again.

    PS- Hmmm...Não leve a mal, mas o que o general disse foi «this attack will not fail»; dificilmente «attach»...:)

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  4. Querido Nuno,

    CORRIGIDO, como lhe expliquei por mail. Devia ter lido a leta toda até ao fim, ter encontrado um erro logo nas primeiras linhas devia ter-me redobrado a atenção.

    E pronto, sim, vou mesmo homenagear o álbum. Concordo consigo (porque será?...), Patricia the Stripper é a melhor música, mas vou pôr a música que dá o nome ao disco. Façomais posts, o blogue é meu. É que... também tenho paixão por Lonely Sky (apostava que o meu amigo também). :)

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  5. Como disse, querida Teresa, gosto mesmo de todas. Curiosamente o Lonely Sky, embora linda, está numa ténue fronteira com a lamechice que me faz comichão. Mas é linda, é. E o Spanish train é de facto a minha segunda canção favorita do disco! :)

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  6. Querida Teresa, antes de mais nada, feliz 2015 para ti! Segui o link que deixaste num comentário anterior. Como ainda é de actualidade... alias, sempre será. Estes pedaços de história estão tão presentes em mim. Sobre a outra guerra, enviaram-me há meses o D-Day de Massena, nao sei se conheces. Beijo! J.

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