Fado Tropical
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Lá por 1978 comecei a comprar uma revista chamada Nova, que mais não era do que a versão basileira da celebérrima Cosmopolitan, à época ainda dirigida pela mítica Helen Gurley Brown. Confesso que não faço ideia de como a revista será hoje, mas naquele tempo era muitíssimo boa, e tornei-me leitora fiel desde o primeiro número, tanto que a partir daí esperava ansiosamente o seguinte. Mais do que qualquer outra coisa, e sempre a primeira que lia, conquistaram-me os artigos de Marina Colasanti, a extraordinariamente cativante mistura de sensibilidade, doçura e enorme sensatez da sua escrita. Pela revista descobri que muitos desses artigos, em 1980, tinham sido compilados em livro, e não descansei enquanto não lhe deitei as unhas. Mais tarde, e porque vários deles pareciam ter sido escritos directamente para uma amiga minha de vida conturbada e confusa, sempre a envolver-se com os homens errados, sempre a fazer enormes disparates pelos mais generosos e puros motivos... abdiquei dele para lho oferecer, certa de que em breve arranjaria outro exemplar.
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Nada envelhece tão mal como um mau livro. Este, pelo contrário, continua vivo, palpitante, porque fala de questões intemporais que continuam a desafiar as mulheres - aos poucos hei-de tentar pôr aqui alguns dos seus artigos, tenho a certeza de que serão devidamente apreciados.
Numa ponte emocional e emocionada, escolho para hoje uma música de um certo génio chamado Chico Buarque, homem que do lado de lá do Atlântico ama tanto como eu a língua que nos é comum e a maneja com mestria rara. E se alguém tiver e me puder enviar a versão original, em que a plavra sífilis é bem audível, antes de uma censura cretina a ter eliminado, deixando um hiato que o meu ouvido atento capta sempre... conta desde já com a minha enorme gratidão. Ora vejam se não notam como foi brutalmente apagada:
«Sabe, no fundo eu sou um sentimental
Todos nós herdámos no sangue lusitano uma boa dose de lirismo... (além da sífilis, é claro)
Mesmo quando as minhas mãos estão ocupadas em torturar, esganar, trucidar
Meu coração fecha os olhos e sinceramente chora...»
Podem ler o poema todo aqui, e maravilhar-se com as imagens que o poeta encontrou para aproximar Portugal e Brasil. Obrigada, de todo o CoRação, minha amiga...
Cresci com o meu pai a ouvir MPB. O artista favorito do meu pai é a Elis Regina. O meu é o Chico Buarque. Apaixonei-me pela Ópera do Malandro, pelo Cálice que canta com o Milton Nascimento e... pelo Fado Tropical. Nos US, era das músicas que mais ouvia quando tinha saudades de Portugal... lembra-me a infância, tão marcada pela cultura brasileira. No fundo sinto-me a mulata com rendas do alentejo.
ResponderEliminarNem imaginas o quanto me tocou, fundo fundo, abrir o teu blog hoje. Beijo.
AEnima querida,
ResponderEliminar... e o Rio Amazonas desagua no Tejo, não é?
Mais uma proximidade nossa da qual nem desconfiávamos...
Como já a debatemos em particular, limito-me a deixar-te um grande beijo.
Teresa querida,
ResponderEliminarfico contente que os correios finalmente tenham cumprido o seu papel... Sejam o meu e o seu, para enfim receberes a encomenda que pra tantos não teria interesse algum, mas pra ti sei o valor que tem e sinto-me aqui uma privilegiada por ter sido simplesmente "a ponte"... :) Teu post com tantos outros me emocionam, assim como o comentário anterior da AEnima No fundo sinto-me a mulata com rendas do alentejo... Eu também ao percorrer as ruas de Cascais senti-me um pouco ali, filha, e temos sem dúvida além das afinidades pessoais, as da nossa cultura que se entrelaça. O prazer foi todo meu de te enviar e ler isto aqui... Semana ganha :) Sorriso garantido! Que bom que apreciaste. Lembro dessa tua busca pelo Fado Original e não me esqueci dela, mas cho bem que tenhas publicado, assim somos em maior número atras de outro tesourinho perdido. Grande beijo
CoRa,
ResponderEliminarE não é engraçado que, neste post escrito para homenagear um livro querido e agradecer a quem mo ofereceu - TU! - se tenha revelado mais uma pessoa a quem tudo isto diz muito?
Visita o blogue da AEnima (a minha querida Cangalheira Emigra), vais sentir-te em casa... :)
Beijo enorme. OBRIGADA.
Teresa,
ResponderEliminarmais um post.
Mais uma lição ao meu ser profundamente deslavado perante o teu testemunho.
Aguardo, pois, os próximos posts (que prometes) em que trarás a nós, teus leitores, um pouco mais dessa relíquia...
Boa semana, Teresa.
E um beijo enorme!
Lisa
(acho que vou ficar muito caladinha)
ResponderEliminarbelo post T, que me deixa com imensa vontade de ler as crónicas desta Marina que não conheço.. E é um facto que, sempre que venho aqui, aprendo qualquer coisa. O meu ouvido pouco atento, nunca tinha dado pela hiato. Agora, não mais saberei ouvir esta música sem o sentir...
ResponderEliminarObservação importante: não tem nada a ver com este post!
ResponderEliminarFaz-me um favorzinho e vê isto. Pode ser traumatizante para quem gosta de gatos (que é o meu caso e o teu!)...
http://bp2.blogger.com/_NhP7KwIY0RI/RYxQy8NZDvI/AAAAAAAAABI/_NhwP5lx1lI/s320/cat.jpg
LOL!
Teresa, conheces a versão que o Moustaki fez desta música? Deves conhecer... é mais politizada, mas vale pela alegria de ouvir a frase mille fleurs vermeilles en avril au Portugal. Não sei se este link funciona, mas tenta. Beijinhos!
ResponderEliminarLisa,
ResponderEliminarVou ver se o ponho a digitalizar lá no colosso, pelo menos alguns artigos...
Beijo!
Mad,
E eu que tanto gostaria de ouvir o que tens a dizer... :)
Quanto à imagem... eu acho que pegaram num esfinge e o resto é photoshop...
Beijo!
TCL,
ResponderEliminarAcho que aprendemos todos uns com os outros.
E agora é impossível não dar pelo hiato, não é?
Beijo!
Hucleberry Friend,
Então não havia de conhecer? :)
Aliás o post de hoje é justamente sobre ele, Moustaki. O teu comentário fê-lo avançar em relação a tantos outros discos que também são discos da minha vida - obrigada!
Beijo!