sábado, 29 de dezembro de 2012

Só para amantes de Ópera


Percebemos de repente que estamos a perder faculdades — ou que estamos simplesmente com a cabeça na lua — quando entramos numa loja de artigos de cabeleireiro e perguntamos se têm produtos da Elisabeth Schwarzkopf. Ou isso ou gostamos demasiado de Ópera.

Empregada perplexa a digerir a minha pergunta e a responder finalmente que não. Foi nesse instante que me apercebi do absurdo que tinha dito. Dame Elisabeth Schwarzkopf (the nazi diva, como lhe chamava um amigo meu muito tricha, Hitler adorava-a, como adorava Marlene Dietrich, nenhuma delas foi na conversa) foi uma das mais extraordinárias cantoras de ópera do século XX. Nada que ver com produtos capilares. Que havia na loja, sim. A marca claro que era Schwarzkopf.

E a trabalheira que a senhora devia ter a dar autógrafos, com aquele nome descomunal?

A máscara da morte

Esta fotografia representa bem o que de melhor há na blogosfera, e não encontro imagem mais eloquente para agradecer tantas silenciosas passagens por aqui, tantas mensagens privadas de desconhecidos. Longos, fortes e quase sempre inexplicáveis são os tentáculos de amizade que podem crescer na Internet. O Pedro fica aqui como embaixador.

O Pedro é bruto como as casas, mas eu gosto dele. O Pedro diz que eu sou bruta como as casas, mas gosta de mim. O Pedro irrompeu pelas cortinas sempre obstinadamente fechadas da minha cama, só eu, a música e os livros. E o Bóbí, claro, 24 horas por dia a pôr-me quimioterapia nas veias durante uma semana, mas do Bóbí falo noutro dia. Nunca nos tínhamos visto, mas eu reconheci-o logo. Há mais fotografias nesta sequência, nela aparece também o enfermeiro Paulo, o melhor enfermeiro do IPO. Adoro uma em que estamos os três, mas o enfermeiro Paulo tem horror a exposição e eu respeito isso. E ainda demos belas gargalhadas juntos quando vimos estas fotografias e o decote demasiado revelador da minha camisa de noite. «Não tem vergonha? Este decote é imoral!» Um alfinete-de-ama resolveu a coisa num instante.

A máquina do café (óptimo café e só por 40 cêntimos, diga-se de passagem) daquele piso estava avariada, o Pedro, eu e o inseparável Bóbí, que até dava um jeitão para pousarmos os copos, descemos ao rés-do-chão. Foi então que lhe falei da máscara da morte, de certeza que ele se lembra. Fui tosca e vaga nas palavras, não sabia explicar bem, talvez eu própria já a tivesse e não soubesse reconhecê-la no espelho. É um não sei quê que aprendi instintivamente a identificar há anos ali no IPO. Qualquer coisa indefinível na cor da pele e na estrutura óssea da cara que me fazia encolher toda por dentro numa pena imensa, ao mesmo tempo que ficava com a certeza de que aquela pessoa não ia safar-se. «Não sei explicar melhor, mas no meu quarto há uma senhora assim, tem a máscara da morte», disse eu ao Pedro.

Nessa mesma noite, lá pelas três ou quatro horas, acordei sobressaltada com um barulho de metal a cair no chão, provavelmente um tabuleiro. As minhas cortinas sempre fechadas impediam-me de ver em volta, mas eu era a mais nova das seis mulheres daquele quarto, e a que tinha maior mobilidade. «É preciso alguma coisa? Posso ajudar?», perguntei baixinho. A resposta foi firme e conciliadora, era da enfermeira de serviço, estava tudo bem, eu que descansasse.

De manhã cedo, ao levantar-me para ir com o Bóbí à casa de banho, arregalei os olhos para o espaço a que faltava uma cama, virei-os numa angústia para a senhora da cama ao lado da minha, nem precisei de perguntar nada. «Morreu esta noite», foi a resposta lacónica. Olhámo-nos demoradamente, numa mudez que era de medo por nós e de respeito imenso pela grande ceifeira que nessa noite tinha estado ali mesmo ao nosso lado. A cama ausente era a da senhora de quem eu tinha falado ao Pedro, a senhora a quem reconheci a máscara da morte. Não sei como se chamava.


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

A cancer guide for dummies

Parece que agora pegou a moda de pespegar as nossas caras nos blogues. Só o fiz aqui umas duas ou três vezes, em todas achei que se justificava. 

Hoje justifica-se provavelmente ainda mais, porque este retrato foi feito a seguir à última das 37 sessões diárias de radioterapia que fiz, de segunda a sexta, entre 23 de Julho e 12 de Setembro, as primeiras 25 de vinte minutos cada, as 12 últimas um pouco mais curtas, coisa de um quarto de hora, não me davam para rezar todas as minhas orações, entre novenas a Santa Teresinha do Menino Jesus, pedidos a S. Francisco de Assis, à Virgem Santíssima da Nazaré, de Fátima e de Lourdes, ao Santo Padre João Paulo II. Havia sempre muito a pedir por cada vez mais gente, havia que pedir força e coragem para mim. E havia que agradecer. Comigo está a maravilhosa equipa técnica que me acompanhou naquela longa e espinhosa jornada, só falta o Wilson, que estava de férias naquela semana.  À minha esquerda está a Rosa, a minha querida Rosinha, que desde o primeiro dia me acolheu com especial carinho debaixo da sua asa protectora. 

Mais de três meses passados, não há ida minha ao IPO que dispense uma passagem pelo pavilhão da radioterapia para dar um beijinho aos meus meninos. E à Luísa, que não foi minha médica porque acompanha a radioterapia de outras especialidades, entre elas a pediatria, mas é minha amiga desde os 12 anos e conhece o meu processo clínico de cor de uma ponta à outra. E à Maria, a lindíssima Maria, a minha médica, no gabinete ao lado. Na semana passada estava a tagarelar no gabinete da Luísa quando ela entrou a rir: tinha percebido que eu estava ali, tinha sentido o meu perfume no corredor. O meu Rive Gauche nunca falha. A humilde D. Joana das limpezas, um sorriso de bondade e claridade imensa na pele tão negra, reconheceu-me pelo cheiro. A senhora do perfume! Eu tinha passado mutas vezes por ela durante os dois internamentos, agarrada ao Bóbí (essa é outra história), encontrou-me depois à porta da sala dos pensos, ela de esfregona na mão, eu de pé à espera de ser chamada. Foi quando me falou. Tinha o perfume comigo, pulverizei-lho no pulso, ficou a cheirá-lo maravilhada  Num dos meus mealheiros já estão alguns euros destinados a oferecer-lho. Um perfume também é um pouco de sonho, e a D. Joana merece.

Mas antes que isto fique demasiado extenso, um muito breve esclarecimento que todos merecem, todos os que iam passando por aqui a ver se havia novidades. Estou bem, estou o melhor possível. Nesta fase só há que tragar mais um mau bocado, uma operação dentro de dias. Depois espero ficar livre deste bicho negro. Só nunca sabemos por quanto tempo, porque ele tende a voltar. Mas a vida é assim mesmo, incerta, certeza só temos a do desfecho, que no que depender de mim não será tão cedo.

E agora falemos do SOB como ele é, como tem sido para mim, e desejo que a minha experiência possa ajudar alguém que tenha aterrado aqui por acaso e esteja a começar a viver isto. Não desejo a ninguém que possa ser útil em dias futuros, porque no meu mundo ideal mais ninguém teria de passar por esta maldita doença.

Então cá vai, em breves pinceladas, aquilo que acho mais importante dentro do tanto que tenho aprendido:

1. Não é um passeio no parque, lamento. Mas também não é assim tão terrível, se vivermos um dia de cada vez, se confiarmos nos médicos, enfermeiros e auxiliares, se seguirmos as suas indicações à risca. Sejam sempre muito simpáticos (e o sentido de humor ajuda), a última coisa que querem é conquistar a animosidade de alguém com o poder de vos espetar agulhas e de vos fazer outras tropelias ainda mais dolorosas. Não sofram por antecipação, como algumas vezes aconteceu comigo. Um dia de cada vez, lembrem-se.

2. Os amigos. 
Vão ter surpresas, aviso já. Boas e más. A rede de apoio é terrivelmente importante, mas sejam indulgentes com as pessoas que subitamente desaparecerem do mapa. Esta cabra desta doença é um pré-aviso de morte, nem toda a gente consegue lidar bem com isso e é bem possível que algumas pessoas que achavam que nunca vos faltariam fiquem de repente mudas como carpas. E completamente ausentes. Pensem também que essas mesmas pessoas poderão estar mergulhadas em problemas, não se precipitem a julgar.

E os outros amigos? Céus, a lista é tão extensa! A cabeça a minha irmã e o grupo do Liceu. A minha irmã que ficou com as mãos negras de tanto que lhas apertei enquanto me faziam uma biópsia, o corpo alheio à minha vontade a arquear-se todo de dor. O grupo do Liceu. A cabeça o Ricardo, a Tina, a São (e a mãe dela), as duas Eunices, o João e a Leninha, a Clara, o Zé Afonso, o Pedro T., os dois Miguéis, o V. G. e o C., a Vanda. Sobre estes tenho mesmo de falar noutra dia. E sem ser do Liceu, meu amigo até ao meu último sopro de vida, o Pedro, o meu visitor from Charleston. E o Abel, minha old soul. E a Alexandra. E...

Os desconhecidos que não o são. A Susana a muitos milhares de quilómetros  A Rita, a querida Rita, de férias em Itália, mandou-me um maravilhoso ramo todo branco no segundo dia do meu primeiro internamento Não sei o nome de metade das flores, mas o ramo era lindo e tenho fotografia. O Pipoco, a quem devo um longuíssimo agradecimento há demasiado tempo. O Pedro, que foi ver-me ao hospital em dupla embaixada, representando também a querida Pólo Norte, então no término de uma gravidez de alto risco, e levando uma fotografia de Mestre Diniz que fez as minhas delícias e as de muitos enfermeiros. O outro Pedro, o Pitx. Caímos nos braços um do outro como se nos conhecêssemos realmente desde sempre. Temos fotografias, se ele autorizar publico uma, aquela em que estamos só os dois. O raio do homem é tão bonito e doce em pessoa como consegue ser agreste no blogue. A A. de quem publiquei aqui apenas uma de várias extraordinárias mensagens. A Maria Antónia (acho um nome lindo) e a Tita, supostamente minhas inimigas e que tiveram a generosidade de me enviar particularmente mensagens que tanto e tão fundo calaram. E a Luna e a Izzie, claro, that goes without saying. Foram aliás as duas primeiras pessoas da blogosfera a quem contei que estava doente, ainda antes de contar aqui. E o Harvey, o meu querido Harvey, cujo extravagantemente luxuoso presente de anos me pôs a chorar baba e ranho. Sabiamente escolhido, como só ele saberia. Noutra vida talvez fosse o homem para mim. Mas é seis anos mais novo. Seja como for, adoro-o.

3. Preparem-se para mentir muito. Nunca mintam aos médicos, mas mintam àqueles que se preocupam mesmo convosco. Digam sempre que estão melhorzinhos, que se sentem bem. Poupam-lhes preocupações adicionais, e a coisa também funciona ao contrário, tamanho pode ser o poder da sugestão: à custa de repetirem que estão bem, acabam mesmo por se sentir bem. Ou menos mal. Comecei por dizer que isto não era um passeio no parque, nem tudo são flores.

4. Há mais algumas directrizes, e eu até queria mudar esta música que adoro, substituí-la por Gracias a la Vida, por Joan Baez. Mas já estou exausta. Essa é outra das partes más: estamos sempre infinitamente cansados. Mas aguenta-se, acreditem em mim. Um dia de cada vez, a coisa vai.


quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Expiration dates are overrated

Há dias despachei alegremente meio quilo de iogurte com pedaços de morango cujo prazo de validade acabava lá pelos princípios de Outubro. Trabalhar no arame pode ter a sua graça, e viver perigosamente pode ter os seus encantos.

Não me aconteceu nada. Umas largas horas depois continuava sã como um pêro. Considering.

sábado, 16 de junho de 2012

E por falar em iPods


Eu e o Abel perseguimos em conjunto esta beldade: uma edição especial com a obra original dos Beatles completa (ver aqui). O iPod já ele tem, mas, sendo coleccionador, queria a caixa completa. Querendo eu apenas o iPod (tenho a obra completa dos Beatles em quatro versões diferentes, acho que não faz sentido ter uma quinta), temos a situação ideal para uma compra a meias, o iPod para mim, o resto para ele. Há dois anos o Abel chegou a conseguir a edição no eBay, ainda selada, por 500 dólares (eram 500, não eram, Abel?), estávamos radiantes. Mas o cretino do americano roeu a corda no último minuto, julgo que para não pagar portes de envio para Portugal. Ficámos de mãos a abanar. Continuamos de mãos a abanar.

Banda sonora: The Beatles - While My Guitar Gently Weeps
(eternamente uma das minhas grandes favoritas)

The kindness of strangers

Poucos minutos depois da publicação do último post, chegou-me um mail de uma leitora regular e comentadora ocasional com o oferecimento pronto e espontâneo de um iPod Nano que tem guardado e que não usa. Suponho que imaginam o que tal gesto me sensibilizou. Não identifico a sua autora, que tem blogue, mas não posso deixar de voltar a agradecer-lhe e a repetir aquilo que lhe respondi: não posso aceitar, de forma alguma, não posso mesmo. Mas, como também lhe disse, é como se ele estivesse a cantar nos meus ouvidos. Obrigada, muito obrigada!

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Am I lucky or what?

1. Avariou-se-me o leitor de DVD. O prejuízo não é grande, porque aquilo foi baratíssimo. Era basicamente uma caixa de ar, com um mínimo de funções, escolhida em função do facto de ser multi-regiões. O meu primeiro leitor de DVD, que foi um presente e ainda deve ter sido carote, era de óptima marca, fazia imensas tretas (a que eu nem dava grande uso) e avariou como os outros. 

2. Perdi o meu adorado iPod. Para além de não se tratar exactamente de uma pechincha, a Apple já não faz aquele modelo de Nano. 

3. Quase em frente de minha casa há uma escola primária. Não sei a que raio se deve isto (ATL?), só sei que é música em altos berros toda a santa tarde. Já quase choro de desespero quando oiço pela milésima vez a Rosa Branca ou o Cheira Bem, Cheira a Lisboa, na voz de um nome que eu já tinha esquecido: Ada de Castro. Como passo agora muito tempo deitada, a falta do iPod faz-se sentir ainda mais. Era uma fuga estratégica em grande estilo, convenhamos.