Parece que agora pegou a moda de pespegar as nossas caras nos blogues. Só o fiz aqui umas duas ou três vezes, em todas achei que se justificava.
Hoje justifica-se provavelmente ainda mais, porque este retrato foi feito a seguir à última das 37 sessões diárias de radioterapia que fiz, de segunda a sexta, entre 23 de Julho e 12 de Setembro, as primeiras 25 de vinte minutos cada, as 12 últimas um pouco mais curtas, coisa de um quarto de hora, não me davam para rezar todas as minhas orações, entre novenas a Santa Teresinha do Menino Jesus, pedidos a S. Francisco de Assis, à Virgem Santíssima da Nazaré, de Fátima e de Lourdes, ao Santo Padre João Paulo II. Havia sempre muito a pedir por cada vez mais gente, havia que pedir força e coragem para mim. E havia que agradecer. Comigo está a maravilhosa equipa técnica que me acompanhou naquela longa e espinhosa jornada, só falta o Wilson, que estava de férias naquela semana. À minha esquerda está a Rosa, a minha querida Rosinha, que desde o primeiro dia me acolheu com especial carinho debaixo da sua asa protectora.
Mais de três meses passados, não há ida minha ao IPO que dispense uma passagem pelo pavilhão da radioterapia para dar um beijinho aos meus meninos. E à Luísa, que não foi minha médica porque acompanha a radioterapia de outras especialidades, entre elas a pediatria, mas é minha amiga desde os 12 anos e conhece o meu processo clínico de cor de uma ponta à outra. E à Maria, a lindíssima Maria, a minha médica, no gabinete ao lado. Na semana passada estava a tagarelar no gabinete da Luísa quando ela entrou a rir: tinha percebido que eu estava ali, tinha sentido o meu perfume no corredor. O meu Rive Gauche nunca falha. A humilde D. Joana das limpezas, um sorriso de bondade e claridade imensa na pele tão negra, reconheceu-me pelo cheiro. A senhora do perfume! Eu tinha passado mutas vezes por ela durante os dois internamentos, agarrada ao Bóbí (essa é outra história), encontrou-me depois à porta da sala dos pensos, ela de esfregona na mão, eu de pé à espera de ser chamada. Foi quando me falou. Tinha o perfume comigo, pulverizei-lho no pulso, ficou a cheirá-lo maravilhada Num dos meus mealheiros já estão alguns euros destinados a oferecer-lho. Um perfume também é um pouco de sonho, e a D. Joana merece.
Mas antes que isto fique demasiado extenso, um muito breve esclarecimento que todos merecem, todos os que iam passando por aqui a ver se havia novidades. Estou bem, estou o melhor possível. Nesta fase só há que tragar mais um mau bocado, uma operação dentro de dias. Depois espero ficar livre deste bicho negro. Só nunca sabemos por quanto tempo, porque ele tende a voltar. Mas a vida é assim mesmo, incerta, certeza só temos a do desfecho, que no que depender de mim não será tão cedo.
E agora falemos do SOB como ele é, como tem sido para mim, e desejo que a minha experiência possa ajudar alguém que tenha aterrado aqui por acaso e esteja a começar a viver isto. Não desejo a ninguém que possa ser útil em dias futuros, porque no meu mundo ideal mais ninguém teria de passar por esta maldita doença.
Então cá vai, em breves pinceladas, aquilo que acho mais importante dentro do tanto que tenho aprendido:
1. Não é um passeio no parque, lamento. Mas também não é assim tão terrível, se vivermos um dia de cada vez, se confiarmos nos médicos, enfermeiros e auxiliares, se seguirmos as suas indicações à risca. Sejam sempre muito simpáticos (e o sentido de humor ajuda), a última coisa que querem é conquistar a animosidade de alguém com o poder de vos espetar agulhas e de vos fazer outras tropelias ainda mais dolorosas. Não sofram por antecipação, como algumas vezes aconteceu comigo. Um dia de cada vez, lembrem-se.
2. Os amigos.
Vão ter surpresas, aviso já. Boas e más. A rede de apoio é terrivelmente importante, mas sejam indulgentes com as pessoas que subitamente desaparecerem do mapa. Esta cabra desta doença é um pré-aviso de morte, nem toda a gente consegue lidar bem com isso e é bem possível que algumas pessoas que achavam que nunca vos faltariam fiquem de repente mudas como carpas. E completamente ausentes. Pensem também que essas mesmas pessoas poderão estar mergulhadas em problemas, não se precipitem a julgar.
E os outros amigos? Céus, a lista é tão extensa! A cabeça a minha irmã e o grupo do Liceu. A minha irmã que ficou com as mãos negras de tanto que lhas apertei enquanto me faziam uma biópsia, o corpo alheio à minha vontade a arquear-se todo de dor. O grupo do Liceu. A cabeça o Ricardo, a Tina, a São (e a mãe dela), as duas Eunices, o João e a Leninha, a Clara, o Zé Afonso, o Pedro T., os dois Miguéis, o V. G. e o C., a Vanda. Sobre estes tenho mesmo de falar noutra dia. E sem ser do Liceu, meu amigo até ao meu último sopro de vida, o Pedro, o meu visitor from Charleston. E o Abel, minha old soul. E a Alexandra. E...
Os desconhecidos que não o são. A Susana a muitos milhares de quilómetros A Rita, a querida Rita, de férias em Itália, mandou-me um maravilhoso ramo todo branco no segundo dia do meu primeiro internamento Não sei o nome de metade das flores, mas o ramo era lindo e tenho fotografia. O Pipoco, a quem devo um longuíssimo agradecimento há demasiado tempo. O Pedro, que foi ver-me ao hospital em dupla embaixada, representando também a querida Pólo Norte, então no término de uma gravidez de alto risco, e levando uma fotografia de Mestre Diniz que fez as minhas delícias e as de muitos enfermeiros. O outro Pedro, o Pitx. Caímos nos braços um do outro como se nos conhecêssemos realmente desde sempre. Temos fotografias, se ele autorizar publico uma, aquela em que estamos só os dois. O raio do homem é tão bonito e doce em pessoa como consegue ser agreste no blogue. A A. de quem publiquei aqui apenas uma de várias extraordinárias mensagens. A Maria Antónia (acho um nome lindo) e a Tita, supostamente minhas inimigas e que tiveram a generosidade de me enviar particularmente mensagens que tanto e tão fundo calaram. E a Luna e a Izzie, claro, that goes without saying. Foram aliás as duas primeiras pessoas da blogosfera a quem contei que estava doente, ainda antes de contar aqui. E o Harvey, o meu querido Harvey, cujo extravagantemente luxuoso presente de anos me pôs a chorar baba e ranho. Sabiamente escolhido, como só ele saberia. Noutra vida talvez fosse o homem para mim. Mas é seis anos mais novo. Seja como for, adoro-o.
3. Preparem-se para mentir muito. Nunca mintam aos médicos, mas mintam àqueles que se preocupam mesmo convosco. Digam sempre que estão melhorzinhos, que se sentem bem. Poupam-lhes preocupações adicionais, e a coisa também funciona ao contrário, tamanho pode ser o poder da sugestão: à custa de repetirem que estão bem, acabam mesmo por se sentir bem. Ou menos mal. Comecei por dizer que isto não era um passeio no parque, nem tudo são flores.
4. Há mais algumas directrizes, e eu até queria mudar esta música que adoro, substituí-la por Gracias a la Vida, por Joan Baez. Mas já estou exausta. Essa é outra das partes más: estamos sempre infinitamente cansados. Mas aguenta-se, acreditem em mim. Um dia de cada vez, a coisa vai.