segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Joan Plowright como Lady Bracknell

Dame Joan Plowright, baronesa Olivier, Lady Olivier, a viúva de Lord Laurence Olivier, o actor mais reverenciado de todo o século XX, fundador e primeiro director do meu tão amado National Theatre. Adoro-a. Dame Joan detém também a glória de ser, até hoje, a única actriz a ter conquistado dois Globos de Ouro no mesmo ano.

Abaixo a sua assombrosa prestação como Lady Bracknell. Que, apesar de tudo, não é a minha favorita. Prefiro-lhe a caricatura de Dame Wendy Hiller. Dame Joan é, fisicamente, uma Lady Bracknell mais adequada, mais nova, diria que com a idade certa. É também, seguramente, a mais socialmente acertada e aceitável, com uma contenção admirável e, no entanto, irresistivelmente cómica. Dame Joan, não podemos esquecer, vem de uma escola de teatro mais natural e realista, fez a primeira produção do Entertainer de John Osborne, participou activamente em toda a renovação do teatro que foi o grupo dos Angry Young Men.

Uma grande senhora e uma das maiores glórias do teatro britânico.


Perdidos e achados

As conversas são como as cerejas. Foi na caixa de comentários do post anterior que a Izzie e eu, anglófilas convictas e maníacas por Oscar Wilde, a propósito do desempenho (que não vimos) de Patricia Routledge como Lady Bracknell, abrimos o baú das memórias.

As memórias são semelhantes, mas as versões favoritas são diferentes. A Izzie gastou até à exaustão a versão cinematográfica em VHS de The Importance of Being Earnest de 1952, com Michael Redgrave, da qual não gosto por muitas e variadas razões, sendo a principal o facto de o texto, o incomparável texto de Oscar Wilde, estar horrorosamente mutilado.

A minha versão favorita e inesquecível, mesmo depois de ter visto a grande Joan Plowright como Lady Bracknell, continua a ser a de 1985,  filmada para a televisão a partir da peça, da qual encontrei este cartaz da produção de 1981

E também eu tenho uma história com esta (para mim) insuperável versão filmada. Vocês que são muito mais novos talvez não saibam que quando os gravadores de vídeo começaram a ser vendidos havia dois sistemas, VHS e BETA. Durante uns tempos coexistiram nos clubes de vídeo, sendo que a qualidade do BETA era superior. O Rui, que ia sempre para o que de melhor havia, aderiu ao BETA. No espaço de dois ou três anos, o sistema foi desaparecendo, nos clubes as prateleiras tinham cada vez menos títulos, julgo que houve negócios de milhões por trás da sua agonia. Ora lá por 86 ou 87 o Rui, sabedor da minha paixão por Oscar Wilde, ofereceu-me esta maravilha, que tinha gravado da televisão. Em BETA, claro. Na altura eu nem gravador de vídeo tinha ainda, mas ele emprestou-me um SONY portátil (até alça para pôr ao ombro tinha) que muito viajou para casas de amigos, e nem imaginam a quantidade de vezes que nos deleitámos com esta peça.

O tempo foi passando, a cassete arrumada na estante, o sistema BETA já era apenas uma memória vaga. Subsistia em mim a ideia incómoda de que urgia passar aquilo a VHS quanto antes. Só o fiz lá por 94 ou 95, custou-me um dinheirão e o resultado foi tão desconsolador que até me telefonaram do laboratório a avisar de que aquilo estava impróprio para consumo. Teimosa, achando que se referiam apenas a uma imagem menos que perfeita, mandei-os ir em frente. Grossa asneira, como vim a verificar. Fiquei para todo o sempre com um mono na prateleira.

Criatura obstinada que sou, fiz incontáveis buscas na Amazon ao longo de todos estes anos. Edições em DVD nem vê-las. Só nunca me tinha lembrado de procurar no YouTube. Coisa que hoje fiz, por causa da conversa com a Izzie.

E aqui a têm, a minha versão de eleição, a grande Dame Wendy Hiller (vencedora de um Oscar), que talvez os mais velhos lembrem como a princesa Dragomiroff do Crime no Expresso do Oriente de Sidney Lumet, no papel de Lady Bracknell.

A qualidade da imagem deixa bastante a desejar, é bastante enevoada, mas ainda assim continuo a considerar esta a melhor versão filmada da peça. E aqui fica o texto integral do hilariante diálogo de Lady Bracknell com John Worthing. O diálogo que, tinha eu 16 anos, me apresentou a peça, como já contei algures lá trás.

I ♥ Mrs Bucket (Bouquet)


É impossível não adorar esta odiosa e ridícula personagem, a protagonista de Keeping Up Appearances, que passou em Portugal no princípio dos anos 90.

A série está toda editada em DVD e tenho vindo a adiar a compra (a crise, ah, a crise!), mas ontem passei uma tarde divertidíssima a ver episódios no YouTube, e ri a bom rir.

Mrs Bucket (Bouquet, como insiste em ser tratada, sendo perpétua fonte de mortificação o facto de toda a gente persistir no Bucket que ela tanto detesta), de nome próprio Hyacinth, vinda da classe operária, vive para impressionar os vizinhos e tentar ascender socialmente. Uma name-dropper  (sobre pessoas que nem conhece) do pior, chapéu e luvas nunca faltam na sua indumentária, nem que seja nas visitas ao lado sombrio da sua vida, a família. Se é certo que em cada família há sempre uma ovelha ronhosa, Hyacinth foi tripla ou quadruplamente amaldiçoada. A irmã Daisy, uma desmazelada incurável, vive com o marido Onslow (outra figura impagável, sempre de camisola interior de alças, lata de cerveja na mão, instalado frente ao televisor) numa casa incrivelmente suja e desarrumada, em que vive também a irmã Rose (todas as irmãs têm nomes de flores, há ainda Violet, muito bem na vida, a única sobre a qual Hyacinth enche a boca a vangloriar-se, não perdendo ocasião de referir a moradia de luxo, o Mercedes, a sauna, and room for a pony). Temos também o pai senil, velho baboso sempre atrás de mulheres e a cometer os maiores desacatos.

A irmã Rose, só por si, é toda uma personagem. Uma espécie de Essex girl entradota, de ar extraordinariamente vulgar, cabelo loiro oxigenado, saias curtíssimas e saltos agulha, sempre envolvida com homens casados que invariavelmente, depois de duas ou três voltinhas, passam a ignorá-la e regressam ao aprisco conjugal.

Temos ainda Richard, o marido de Hyacinth, funcionário público que a atura com mansidão cristã, e o filho dos dois, Sheridan, que nunca vemos e a que só assistimos aos telefonemas, invariavelmente a pedir dinheiro. Hyacinth passa a vida a gabar o filho, que está na universidade e de quem tanto se orgulha, e com o qual tem um elo telepático. Nós rimos à socapa, pelas conversas a que assistimos, que nos deixam com a firme certeza de que Sheridan é gay, coisa de que nem remotamente passa pela inocente cabecinha de Hyacinth.

E temos Elizabeth, a vizinha do lado, que vive permanentemente aterrorizada pela personalidade dominadora de Hyacinth, e o seu irmão Emmet, com o qual Hyacinth namorisca subtilmente. Emmet mudou-se para casa da irmã a seguir ao divórcio e dirige uma sociedade operática amadora. Em pouco tempo sucumbe também ao terror que Hyacinth inspira, já que ela, de cada vez que o avista, se lança em cantorias supostamente líricas numa deixa pouco subtil para integrar a tal sociedade. Ambos aceitam com resignação o facto de serem convidados permanentes para os célebres little candlelight suppers de Hyacinth (que pena nunca assistirmos a um único!).

E que dizer da fórmula com Hyacinth que atende o telefone? «The Bouquet residence. The Lady of the house speaking.» Infelizmente, muitas das chamadas destinam-se invariavelmente ao take-away de um restaurante chinês, o que tem sempre o condão de a exasperar.

A personagem de Mrs Bucket (Bouquet) é magnificamente servida por Patricia Routledge, grande actriz de teatro — o Vítor viu-a há uns cinco anos como Lady Bracknell em The Importance of Being Earnest e ficou extasiado.

Deixo-vos a primeira parte do primeiro episódio. Depois é só irem seguido. Desejo-vos gargalhadas tão boas como as minhas.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Já não falta muito

Não falta, não. Não tarda nada, temos por aí os blogues que tanto gemeram por o Verão estar a eternizar-se quando queriam vestir os trapos novos, patati-patatá e a serpentina, a reclamarem do temporal que se instalou há vários dias e a suspirarem por praias de areia clara, mar azul e havaianas nos pés de unhas pintadas de cor-de-rosa (no caso dos blogues masculinos, espero que ao natural). Vão por mim, é coisa de dias, não falha. Com a precisão de um relógio suíço.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Mais dois bons conselhos

Como diria Afonso da Maia, está hoje um tempo de Inglaterra. Como tal, e porque sei que mais anglófilos como eu espreitam regularmente este blogue, aqui ficam duas recomendações. Que para eles serão muito provavelmente desnecessárias, uma vez que já devem ter visto estes dois magníficos filmes, mas que valem para os restantes.


O antepenúltimo filme de Robert Altman, sete nomeações para os Oscars, incluindo melhor realizador, melhor filme e melhor actriz secundária — Dame Maggie Smith (palavras para quê?) e Dame Helen Mirren, que também já vi no teatro em 2001, numa peça de Strindberg, The Dance of Death, em que contracenava com Ian McKellen.


Uma quase fidelíssima adaptação do belíssimo e melancólico romance de  Kazuo Ishiguro. Realizado por James Ivory, teve entre os produtores o meu muito querido Mike Nichols. Oito nomeações para os Oscars, perdeu em todas as categorias. Convenhamos que concorria com gigantes, o ano não lhe foi muito favorável: os Oscars de melhor filme, melhor realizador e melhor argumento adaptado foram para A Lista de Schindler, o de melhor actor para Tom Hanks em Philadelphia, o de melhor actriz para Holly Hunter em O Piano (filme que odeio), o de melhor banda sonora original para John Williams — A Lista de Schindler, o seu quinto Oscar entre incontáveis nomeações.

Uma obra-prima.

domingo, 23 de outubro de 2011

Aceitem um bom conselho


Quem for da minha idade ou mais velho (mais novo já não será fácil) sorrirá deliciado e vagamente enternecido ao ouvir as primeiras notas lânguidas desta valsa que era o tema de abertura daquela que, ainda hoje, continuo a considerar uma das séries da minha vida, e há-de reconhecê-lo de imediato. Há coisas que nunca esquecemos.

Ando apaixonada por Downton Abbey, é o meu lado anglófilo, nada a fazer, já para não mencionar a participação da minha adorada Dame Maggie Smith. Ao mesmo tempo, à medida que vou vendo mais episódios (só a primeira temporada está editada em DVD, obrigada pelo resto, Charlotte!), vai crescendo em mim a sensação de déjà vu, e é irresistível não lembrar Upstairs Downstairs, que em Portugal começou a passar como A Família Bellamy, tinha eu treze anos, mesmo sendo a série de 1971 (tudo chegava cá com atraso).

Para quem conhece as duas séries, é impossível não achar que a mais recente foi inspirada na mais antiga, com aquela dicotomia tão rígida, criando uma linha divisória nítida entre o andar de cima e o de baixo, o dos amos e o dos criados, mesmo havendo breves intersecções possíveis, ainda que indesejáveis — people should know their places.

Há mais paralelismos, que começam nas épocas retratadas. A acção de Upstairs Downstairs vai de 1902 a 1930, ao longo de cinco temporadas, atravessando toda a época eduardiana e capturando ainda a maior parte do reinado de Jorge V — com grande incidência na terrível I Guerra Mundial, tal como em Downton Abbey. Como devem estar lembrados, Downton Abbey começa com a notícia da tragédia do Titanic (12 de Abril de 1912), que cria o grande problema da sucessão do título e da propriedade. Também em Upstairs Downstairs o naufrágio tem enormes repercussões, logo no princípio da terceira temporada.

Upstairs Downstairs retrata um meio de grande riqueza, mas menos imponente do que o de Downton Abbey. Lady Marjorie, a dona da casa e filha mais velha do conde de Southwold, vive com o marido, Richard Bellamy, membro do Parlamento, no n.º 165 de Eaton Place, na luxuosa Belgravia. Há também os dois filhos, James e Elizabeth, ele já adulto, ela a debutar na sociedade. Via de regra, o fio condutor dos episódios é mais trivial, doméstico e quotidiano do que em Downton Abbey, permitindo-nos um fascinante vislumbre da vida privada de duas classes sociais muito diferentes numa época em que o abismo entre ambas era praticamente intransponível.

Upstairs Downstairs foi servida por um notável leque de actores. Impossível esquecer Gordon Jackson, o inflexível mordomo Hudson, de forte pronúncia escocesa. Ou Jean Marsh, uma das criadoras da série, como a criada Rose. Verdade, verdadinha, são todos inesquecíveis, desde Lady Marjorie e o marido ao pessoal da cozinha, em que reina a resmungona Mrs Bridges, de coração de ouro.

Bem vistas as coisas, e fazendo uma média, por enquanto a minha preferência continua do lado de Upstairs Downstairs, porque old loves die hard. É para ela que o meu coração se inclina mais. Consideremos a idade, 40 anos, e a disparidade de meios técnicos e financeiros. Basta ver como são raros os exteriores.

Como a maior parte dos que me lêem é bem mais nova do que eu, fica o meu conselho: não deixem fugir esta pérola. À laia de apresentação, fica aqui a primeira parte do primeiro episódio (as cinco temporadas estão disponíveis no YouTube), depois é só irem seguindo.



Por último, para fechar com chave de ouro e para quem quiser, depois de vista a série, fica este mimo final, que me ocupou hoje a tarde: The Story of Upstaisrs Downstairs, em cinco episódios.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Uma gorjeta memorável

Referi aqui a história de passagem. Hoje apeteceu-me contá-la.

Não se espantem com a banda sonora trepidante. Era assim que as coisas funcionavam no Great American Disaster: música rápida e aos berros. Acelerava o ritmo dos empregados  (eu conseguia levar quatro pratos de uma vez) e também acelerava o ritmo a que os clientes comiam. E este Enola Gay, dos Orchestral Manoeuvres in the Dark, foi seguramente uma das músicas que mais tocaram no Disaster naquele Verão de 1981.

Estava capaz de jurar que foi no sábado seguinte à inauguração. Aos sábados os clientes chegavam mais tarde, e eram mais grupos familiares. Chegou um senhor sozinho, instalou-se numa das minhas mesas (10 à 13, ainda me lembro, tal como lembro que as da Luísa eram da 5 à 9), fui atendê-lo. O senhor aconselhou-se imenso, fez imensas perguntas sobre os pratos, eu fui simpaticamente respondendo a todas as questões. Finalmente, acabou por decidir-se pelo bife da vazia, o prato mais caro da lista, 120 escudos (sim, sim, 60 cêntimos em moeda actual) e pela salada coleslaw. E lançou a pergunta da minha desgraça: «Então e para beber?»

— Bom, temos Pepsi, cerveja, sumo de laranja, água... — respondi eu.

— E vinho não?

Eu já estava naquela mesa havia imenso tempo, coisa que não contava, porque era relativamente cedo e havia muito pouco movimento. E tinha achado o senhor tão simpático que fui muito franca. Todos os vinhos eram das Caves Aliança e eu, que já achava que percebia umas coisas, não gostava de nenhum.

—  Temos. Mas (baixando a voz) não recomendo nada, é uma porcaria.

O senhor pestanejou. Depois disse que arriscava — eu, sempre irreverente, ainda bichanei um «depois não diga que não avisei», acho que foram parvoíces destas que me fizeram tão popular com os clientes, até postais do estrangeiro de turistas de passagem cheguei a receber, palavra. O senhor não foi para o vinho da casa, pediu a reserva.

O resto do almoço correu normalmente, mais gente chegada entretanto, eu já com muito trabalho e a correr de mesa em mesa. E se eu corria, senhores! Ainda tenho uma caricatura deliciosa que o Carlos fez da minha pessoa, cabelos ao vento, vários pratos na mão, batatas fritas a voarem, as minhas sabrinas azuis-escuras da Sapataria Lisbonense, e uma lagarta (obviamente caída de uma salada) a rastejar atrás de mim e a protestar «espera por mim, porra!»

O senhor tinha acabado de almoçar. Era capaz de jurar que, além do café, comeu uma tarte de maçã e bebeu um whisky de malte. Chamou-me discretamente a pedir a conta, que lhe levei.

— Estava tudo óptimo, adorei, e a menina é um amor. Só não gostei de uma coisa.

Um sobressalto. Eu tinha amor à camisola (t-shirt, que pena não ter guardado nenhuma!), fiquei muito atenta.

— Não gostei daquilo que disse sobre o vinho. Sabe... eu sou o dono das Caves Aliança.

Devo ter desejado que o chão nos engolisse, a mim e à minha língua de trapos, naquele preciso instante. O senhor largou a rir. Abriu a carteira e, além do preço do almoço (que hoje é difícil calcular, mas julgo que não terá ido além dos 250 escudos), acrescentou uma bela nota azulada com a efígie de D. Maria II, uma nota de mil escudos. A minha gorjeta, pelo menos quatro vezes o valor do almoço.

As gorjetas eram democraticamente divididas por todos, os meus colegas por pouco não me transportaram em ombros, não havia memória de uma coisa assim. O senhor voltou muitas vezes ao Disaster e fazia sempre questão de ser atendido por mim, mesmo que não ficasse numa das minhas mesas.