quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Mais dois bons conselhos

Como diria Afonso da Maia, está hoje um tempo de Inglaterra. Como tal, e porque sei que mais anglófilos como eu espreitam regularmente este blogue, aqui ficam duas recomendações. Que para eles serão muito provavelmente desnecessárias, uma vez que já devem ter visto estes dois magníficos filmes, mas que valem para os restantes.


O antepenúltimo filme de Robert Altman, sete nomeações para os Oscars, incluindo melhor realizador, melhor filme e melhor actriz secundária — Dame Maggie Smith (palavras para quê?) e Dame Helen Mirren, que também já vi no teatro em 2001, numa peça de Strindberg, The Dance of Death, em que contracenava com Ian McKellen.


Uma quase fidelíssima adaptação do belíssimo e melancólico romance de  Kazuo Ishiguro. Realizado por James Ivory, teve entre os produtores o meu muito querido Mike Nichols. Oito nomeações para os Oscars, perdeu em todas as categorias. Convenhamos que concorria com gigantes, o ano não lhe foi muito favorável: os Oscars de melhor filme, melhor realizador e melhor argumento adaptado foram para A Lista de Schindler, o de melhor actor para Tom Hanks em Philadelphia, o de melhor actriz para Holly Hunter em O Piano (filme que odeio), o de melhor banda sonora original para John Williams — A Lista de Schindler, o seu quinto Oscar entre incontáveis nomeações.

Uma obra-prima.

domingo, 23 de outubro de 2011

Aceitem um bom conselho


Quem for da minha idade ou mais velho (mais novo já não será fácil) sorrirá deliciado e vagamente enternecido ao ouvir as primeiras notas lânguidas desta valsa que era o tema de abertura daquela que, ainda hoje, continuo a considerar uma das séries da minha vida, e há-de reconhecê-lo de imediato. Há coisas que nunca esquecemos.

Ando apaixonada por Downton Abbey, é o meu lado anglófilo, nada a fazer, já para não mencionar a participação da minha adorada Dame Maggie Smith. Ao mesmo tempo, à medida que vou vendo mais episódios (só a primeira temporada está editada em DVD, obrigada pelo resto, Charlotte!), vai crescendo em mim a sensação de déjà vu, e é irresistível não lembrar Upstairs Downstairs, que em Portugal começou a passar como A Família Bellamy, tinha eu treze anos, mesmo sendo a série de 1971 (tudo chegava cá com atraso).

Para quem conhece as duas séries, é impossível não achar que a mais recente foi inspirada na mais antiga, com aquela dicotomia tão rígida, criando uma linha divisória nítida entre o andar de cima e o de baixo, o dos amos e o dos criados, mesmo havendo breves intersecções possíveis, ainda que indesejáveis — people should know their places.

Há mais paralelismos, que começam nas épocas retratadas. A acção de Upstairs Downstairs vai de 1902 a 1930, ao longo de cinco temporadas, atravessando toda a época eduardiana e capturando ainda a maior parte do reinado de Jorge V — com grande incidência na terrível I Guerra Mundial, tal como em Downton Abbey. Como devem estar lembrados, Downton Abbey começa com a notícia da tragédia do Titanic (12 de Abril de 1912), que cria o grande problema da sucessão do título e da propriedade. Também em Upstairs Downstairs o naufrágio tem enormes repercussões, logo no princípio da terceira temporada.

Upstairs Downstairs retrata um meio de grande riqueza, mas menos imponente do que o de Downton Abbey. Lady Marjorie, a dona da casa e filha mais velha do conde de Southwold, vive com o marido, Richard Bellamy, membro do Parlamento, no n.º 165 de Eaton Place, na luxuosa Belgravia. Há também os dois filhos, James e Elizabeth, ele já adulto, ela a debutar na sociedade. Via de regra, o fio condutor dos episódios é mais trivial, doméstico e quotidiano do que em Downton Abbey, permitindo-nos um fascinante vislumbre da vida privada de duas classes sociais muito diferentes numa época em que o abismo entre ambas era praticamente intransponível.

Upstairs Downstairs foi servida por um notável leque de actores. Impossível esquecer Gordon Jackson, o inflexível mordomo Hudson, de forte pronúncia escocesa. Ou Jean Marsh, uma das criadoras da série, como a criada Rose. Verdade, verdadinha, são todos inesquecíveis, desde Lady Marjorie e o marido ao pessoal da cozinha, em que reina a resmungona Mrs Bridges, de coração de ouro.

Bem vistas as coisas, e fazendo uma média, por enquanto a minha preferência continua do lado de Upstairs Downstairs, porque old loves die hard. É para ela que o meu coração se inclina mais. Consideremos a idade, 40 anos, e a disparidade de meios técnicos e financeiros. Basta ver como são raros os exteriores.

Como a maior parte dos que me lêem é bem mais nova do que eu, fica o meu conselho: não deixem fugir esta pérola. À laia de apresentação, fica aqui a primeira parte do primeiro episódio (as cinco temporadas estão disponíveis no YouTube), depois é só irem seguindo.



Por último, para fechar com chave de ouro e para quem quiser, depois de vista a série, fica este mimo final, que me ocupou hoje a tarde: The Story of Upstaisrs Downstairs, em cinco episódios.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Uma gorjeta memorável

Referi aqui a história de passagem. Hoje apeteceu-me contá-la.

Não se espantem com a banda sonora trepidante. Era assim que as coisas funcionavam no Great American Disaster: música rápida e aos berros. Acelerava o ritmo dos empregados  (eu conseguia levar quatro pratos de uma vez) e também acelerava o ritmo a que os clientes comiam. E este Enola Gay, dos Orchestral Manoeuvres in the Dark, foi seguramente uma das músicas que mais tocaram no Disaster naquele Verão de 1981.

Estava capaz de jurar que foi no sábado seguinte à inauguração. Aos sábados os clientes chegavam mais tarde, e eram mais grupos familiares. Chegou um senhor sozinho, instalou-se numa das minhas mesas (10 à 13, ainda me lembro, tal como lembro que as da Luísa eram da 5 à 9), fui atendê-lo. O senhor aconselhou-se imenso, fez imensas perguntas sobre os pratos, eu fui simpaticamente respondendo a todas as questões. Finalmente, acabou por decidir-se pelo bife da vazia, o prato mais caro da lista, 120 escudos (sim, sim, 60 cêntimos em moeda actual) e pela salada coleslaw. E lançou a pergunta da minha desgraça: «Então e para beber?»

— Bom, temos Pepsi, cerveja, sumo de laranja, água... — respondi eu.

— E vinho não?

Eu já estava naquela mesa havia imenso tempo, coisa que não contava, porque era relativamente cedo e havia muito pouco movimento. E tinha achado o senhor tão simpático que fui muito franca. Todos os vinhos eram das Caves Aliança e eu, que já achava que percebia umas coisas, não gostava de nenhum.

—  Temos. Mas (baixando a voz) não recomendo nada, é uma porcaria.

O senhor pestanejou. Depois disse que arriscava — eu, sempre irreverente, ainda bichanei um «depois não diga que não avisei», acho que foram parvoíces destas que me fizeram tão popular com os clientes, até postais do estrangeiro de turistas de passagem cheguei a receber, palavra. O senhor não foi para o vinho da casa, pediu a reserva.

O resto do almoço correu normalmente, mais gente chegada entretanto, eu já com muito trabalho e a correr de mesa em mesa. E se eu corria, senhores! Ainda tenho uma caricatura deliciosa que o Carlos fez da minha pessoa, cabelos ao vento, vários pratos na mão, batatas fritas a voarem, as minhas sabrinas azuis-escuras da Sapataria Lisbonense, e uma lagarta (obviamente caída de uma salada) a rastejar atrás de mim e a protestar «espera por mim, porra!»

O senhor tinha acabado de almoçar. Era capaz de jurar que, além do café, comeu uma tarte de maçã e bebeu um whisky de malte. Chamou-me discretamente a pedir a conta, que lhe levei.

— Estava tudo óptimo, adorei, e a menina é um amor. Só não gostei de uma coisa.

Um sobressalto. Eu tinha amor à camisola (t-shirt, que pena não ter guardado nenhuma!), fiquei muito atenta.

— Não gostei daquilo que disse sobre o vinho. Sabe... eu sou o dono das Caves Aliança.

Devo ter desejado que o chão nos engolisse, a mim e à minha língua de trapos, naquele preciso instante. O senhor largou a rir. Abriu a carteira e, além do preço do almoço (que hoje é difícil calcular, mas julgo que não terá ido além dos 250 escudos), acrescentou uma bela nota azulada com a efígie de D. Maria II, uma nota de mil escudos. A minha gorjeta, pelo menos quatro vezes o valor do almoço.

As gorjetas eram democraticamente divididas por todos, os meus colegas por pouco não me transportaram em ombros, não havia memória de uma coisa assim. O senhor voltou muitas vezes ao Disaster e fazia sempre questão de ser atendido por mim, mesmo que não ficasse numa das minhas mesas.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Para uma Amiga

Ela saberá que é para ela.

De uma obra que nunca me cansou, que nunca esgotei, que me fez pensar a minha fé de maneiras novas. E era uma criança, apenas catorze anos.



EVERYTHING'S ALRIGHT

MARY MAGDALENE
Try not to get worried, try not to turn on to
Problems that upset you, oh.
Don't you know
Everything's alright, yes, everything's fine.
And we want you to sleep well tonight.
Let the world turn without you tonight.
If we try, we'll get by, so forget all about us tonight

APOSTLES' WIVES
Everything's alright, yes, everything's alright, yes.

MARY MAGDALENE
Sleep and I shall soothe you, calm you, and anoint you.
Myrrh for your hot forehead, oh.
Then you'll feel
Everything's alright, yes, everything's fine.
And it's cool, and the ointment's sweet
For the fire in your head and feet.
Close your eyes, close your eyes
And relax, think of nothing tonight.

APOSTLES' WIVES
Everything's alright, yes, everything's alright, yes.

JUDAS
Woman your fine ointment, brand new and expensive
Should have been saved for the poor.
Why has it been wasted? We could have raised maybe
Three hundred silver pieces or more.
People who are hungry, people who are starving
They matter more than your feet and hair!

MARY MAGDALENE
Try not to get worried, try not to turn on to
Problems that upset you, oh.
Don't you know

APOSTLES' WIVES and MARY
Everything's alright, yes, everything's alright, yes.

JESUS
Surely you're not saying we have the resources
To save the poor from their lot?
There will be poor always, pathetically struggling.
Look at the good things you've got.
Think while you still have me!
Move while you still see me!
You'll be lost, and you'll be sorry when I'm gone.

MARY MAGDALENE
Sleep and I shall soothe you, calm you and anoint you.
Myrrh for your hot forehead/
Then you'll feel
Everything's alright, yes, everything's fine.
And it's cool and the ointment's sweet
For the fire in your head and feet.
Close your eyes, close your eyes, and relax
Think of nothing tonight.

APOSTLES' WIVES
Everything's alright, yes, everything's alright, yes.

MARY MAGDALENE
Close your eyes, close your eyes, and relax 

Metas sucessivas

Há dois anos e meio contei aqui como odeio ir ao cabeleireiro, como odeio conversa de cabeleireiro (a que chamo conversa de laca), como estava a tentar aguentar-me até aos 50 anos sem ter de começar a pintar o cabelo. Os 50 anos chegaram e passaram, os 51 cá estão. A ver se aguento até aos 52. Os cabelos brancos continuam a notar-se pouco, graças a Deus.

Venham daí as chibatadas

Nunca fui à Primark. Tenho a vaga noção de que fica num grande centro comercial na Amadora. Ora eu, se necessário for, pago para não entrar em centros comerciais. É só fazer as contas.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Trinta anos

Trinta anos certos são os que nos separam hoje, à Luísa e a mim, desta imagem. Foi justamente a 18 de Outubro de 1981, eu com vinte e um anos, ela com vinte. Nas voltas da vida, esta fotografia e outras viriam a ser-me discretamente surripiadas de um álbum, a Luísa trouxe-ma de volta há dois meses, no dia dos meus anos.

Trabalhávamos então no Great American Disaster do Marquês de Pombal, que inaugurámos e que nos deixou histórias hilariantes para o resto da vida. Era um trabalho em part-time (para nós duas, no mesmo turno, e amigas para sempre, terças, quintas, sábados e domingos ao almoço, do meio-dia às quatro), só admitiam estudantes universitários e eram esquisitíssimos na selecção — era bem trabalhar no Disaster, de filhos de embaixadores a filhos de ministros havia de tudo. Em Outubro um amigo do Vasco, que era um dos donos, ia abrir o Biergarten em Cascais e pediu-lhe pessoal para a inauguração. Já não me lembro de quem fez a selecção, se ele ou o Vasco, só sei que eu e a Luísa fomos convidadas e depois destacadas para ficar à entrada, a receber os convidados, naquelas fatiotas ridículas, uma espécie de dirndls pindéricos.

O trabalho de duas noites foi regiamente pago, andou perto do valor de um mês de ordenado no Disaster. Como ocupou as noites de sábado e domingo, o M. ficou muito melindrado. Na primeira noite, quando me foi buscar, já madrugada e com trombas de palmo e meio, entregou-me uma carta. Sim, nessa época os namorados escreviam-nos cartas, e ele escrevia especialmente bem. Nunca esqueci uma frase dessa carta daquele 18 de Outubro: "Não há dinheiro no mundo que possa pagar o tempo que devia ser nosso."

Como se pode ser tonto quando se é muito novo! Foi justamente esse dinheiro que tanto o irritava que nos custeou uma semana de férias no Baleal. O M., cabecinha brilhante, tinha-se formado em Junho. Já trabalhava na empresa havia um ano, assim que se formou foi logo promovido a director financeiro (era uma grande multinacional do ramo automóvel). Mas como tinha comprado um carro e tinha prestações muito altas para despachar aquilo mais depressa, a liquidez era pouca. Posso dizer que a partir de meio do mês saídas (o nosso adorado Stone's) e cigarros eram pagos pela minhas gorjetas no Disaster. E eu era positivamente a campeã das gorjetas. É provavelmente por isso que ainda hoje faço questão de deixar uma gorjeta simpática nos restaurantes, nunca abaixo de dez por cento — nos Estados Unidos é que dói mesmo na pele, aí já acho um exagero. Mas tenho histórias delirantes de gorjetas, à cabeça a do dono das Caves Aliança (a Luísa deve lembrar-se) e a de um certo casal americano.

E agora desceu sobre mim uma saudade. Lembrei-me do Jorge, do querido Jorge. Foi ele que me telefonou um dia a dizer que o Great American Disaster precisava de empregados, estaria eu interessada? Eu jantava lá com muitas vezes, à época era sítio na moda, achei a ideia divertida. Anos mais tarde, seria também o Jorge a telefonar-me a dizer que o Rui precisava de uma secretária, e que achava que eu era a pessoa certa. E assim, estranhamente, o Jorge ficou para sempre ligado a coisas que tão importantes viriam a ser na minha vida por tudo o que me trouxeram, pessoas, vivências, aprendizagem.