Era o destino. Contei aqui a compra destas sandálias, e a profunda desconfiança que me inspiraram.
Desconfiança tão grande que, compradas há mais de dois anos, só ontem me resolvi a calçá-las pela primeira vez. Já um bocadinho atrasada para ir para a inauguração da exposição da Nusha, a Madalena à minha espera, quase pronta, só faltava pôr brincos, Agripininha atravessa-se-me à frente no corredor. Não houve como não a pisar.
Um grito, um bufar danado, e os dentes fincados com todo o gosto na minha perna esquerda nua. Duas feridas das quais o sangue não parava de correr e as sandálias, que já não voltarão a ver a luz do dia, lixadas para todo o sempre (são de camurça). Meia hora na casa de banho, muito papel higiénico a tentar estancar o sangue — nota mental: comprar aquele lápis que os homens usam para os cortes do barbear. Finalmente a coisa lá parou.
Hoje tenho a perna, que me dói bastante, toda besuntada de Bacitracina. Coitadinha, ela não fez por mal, nem sequer lhe ralhei. Mas era escusado ser tão bruta, ninguém me manda ter um pequeno lince da Sibéria em casa. Quanto às sandálias, paz às sua almas (aqui com toda a propriedade), estava mesmo escrito que nunca havia de calçá-las.
Porque são um dos meus amores maiores na música. Porque esta é seguramente uma das três maiores que cantaram juntos (letra e música de Paul) — as outras duas são America e The Boxer. Outras há que me dizem mais, muito mais, como I Am A Rock, Kathy's Song, A Most Peculiar Man. Mas por razões minhas, íntimas, que não me impedem de discernir que as outras, as tais três grandes, são eternas.
E nunca consigo deixar de me maravilhar com a extraordinária voz de Art.
Dez anos depois este arrepiante poema já era estudado nos cursos de literatura das universidades americanas.
«Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence
In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone
'Neath the halo of a street lamp
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence
And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence
"Fools", said I, "You do not know
Silence like a cancer grows
Hear my words that I might teach you
Take my arms that I might reach you"
But my words, like silent raindrops fell
And echoed
In the wells of silence
And the people bowed and prayed
To the neon god they made
And the sign flashed out its warning
In the words that it was forming
And the sign said, "The words of the prophets are written on the subway walls
And tenement halls"
And whispered in the sounds of silence.»
Convosco, meus amigos, Simon & Garfunkel, no mítico festival de Monterey, 1967, o GRANDE ano da música. The Summer of Love. Os Mamas and Papas, outro amor igual de tão grande que é, também lá cantaram. Eu devia ter nascido doze anos mais cedo. Fiz as contas, bastavam doze.
Acontecimentos recentes na blogosfera trouxeram-me à memória o inefável Assurancetourix, bardo da irredutível aldeia gaulesa, aquele que na cena final de cada livro, a do banquete, fica sempre algures, amarrado e amordaçado, já que ninguém o pode ouvir.
Segundo a definição que Goscinny nos dá da personagem, as opiniões sobre ele dividem-se: ele considera-se genial, todos os outros o acham abominável.
Venus Sevilhana Scarlettjohanssing com Abanico e Castanholas
A Luna levou a sério o meu prémio. Inspirando-se na história que contei antes e, fazendo uso dos seus nunca demasiado gabados talentos com o Paint, traz-nos uma surpreendente abordagem da Vénus de Milo. Uma Vénus toda salerosa, pronta a sair por aí de abanico y castañuelas, bailando por sevillanas.
Obrigada, Luna! Que grande prémio! Enfia aquele telefone piroso cuja marca me recuso a referir aqui em qualquer caixote de lixo!
Já há bastante tempo que sabemos que a Luna é uma consumada artista do Paint. Por causa do autêntico circo que se armou no blogue dela acerca das fotografias roubadas a Scarlett Johansson (ver aqui, nos comentários, recomenda-se que saltem a leitura dos de uma tal Isabel, equivalentes a um batido de Valium, se não quiserem adormecer em 45 segundos).
O disparate foi tamanho que a Luna instituiu prémios (ainda estou à espera do meu), o da imagem acima calhou à Izzie. Escusado será dizer que ri à gargalhada quando vi a imagem, até pelas reminiscências com mais de um ano de um certo telefone que andou a ser distribuído ao desbarato blogosfera fora que nos traz (ver aqui). E mais ainda quando lembrei uma história muito antiga.
Trabalhava eu à época na Quinta da Beloura. Um dia, vinda de almoçar no restaurante do clube de golfe e a voltar para o escritório, pareceu-me de repente ver uma certa coisa no jardim de uma grande moradia de esquina. Incrédula, a pensar com os meus botões que não devia ter visto bem, meti travões a fundo, quase batendo com a testa no pára-brisas. Os meus receios confirmaram-se: no jardim havia mesmo uma réplica, em escala menor (Deus seja louvado!), do David de Miguel Ângelo. Quando entrei no escritório ainda ia a rir, e contei a toda a gente.
Aquela moradia e os seus donos eram um prodígio, só vos digo. Quando chegou o Natal apareceu um gigantesco abeto todo decorado com laçarotes encarnados e luzes, muitas luzes. Aquela gente não poupava dinheiro nem esforços.
E depois, numa bela manhã, ainda antes das nove, ia eu a entrar na quinta no carro do Luís K. W., vemos no jardim dois operários e uma pessoa com ar de dono da casa e de estar a dar instruções para um trabalho qualquer. Piscámos o olho um ao outro.
— Oh, não! O que é que ele vai inventar desta vez? — gemi eu — Uma Vénus de Milo? E se calhar com braços!
— E castanholas! — acrescentou o Luís, de humor rápido e ferino.
Há duas noites às quais eu, que Deus me perdoe, teria mesmo vendido a alma ao Diabo para poder ter assistido. Uma é a da primeira Lucia di Lammemoor de Dame Joan Sutherland em Covent Garden, a 19 de Fevereiro de 1959, que a catapultou para o estrelato — uma impossibilidde absoluta, se considerarmos que nem sequer tinha nascido. A outra é a do concerto de Simon & Garfunkel no Central Park, que faz hoje trinta anos.
A televisão transmitiu-o algum tempo depois, já em 1982, e vi-o com o querido Tio Fernando, já velhinho, no Hotel Florida, onde ele vivia. Ia-lhe explicando a importância daqueles dois rapazes (tinham passado apenas dez anos desde a separação do duo) e por que lhes tinha eu tanto amor. Ele sorria, divertido, bonacheirão, até porque eu não resistia a cantarolar as letras que sabia de cor. Mas a certa altura, quando começaram a cantar The Boxer, seguramente uma das suas três maiores canções, dei um pulo sobressaltado no sofá. «Que foi, filha?», perguntou o tio Fernando, admirado. Toquei-lhe no braço a pedir silêncio, depois explicava, toda eu olhos e ouvidos para os versos que eu não conhecia, que não estavam no disco original.
«Now the years are rolling by me They are rockin' evenly I am older than I once was And younger than I'll be, that's not unusual. No it isn't strange After changes upon changes We are more or less the same After changes we are more or less the same.»
Foi com um nó na garganta que os ouvi. As lágrimas saltaram-me com o olhar de soslaio que Paul deita a Art aos 2:29, o sorriso de quem tem muita história comum ao baixar os olhos logo a abrir-se num riso alegre, e correram livremente aos 2:42, com a mão carinhosa de Art nas costas de Paul. Tanto passado, o daqueles dois!
No Verão de 1983, de férias no Algarve, costumava passar ao fim da tarde, depois da praia, no Calypso, o lindo bar ao lado do Summertime, ambos decorados por Pinto Coelho. Tinham um ecrã gigantesco e tinham o filme do concerto. Revi-o incontáveis vezes, àquela hora havia pouca gente e os empregados adoravam-me. Acho que no fim das férias todos eles sabiam também todas as letras de cor.
Mais uma vez, o site em que alojo a música está em baixo. Por isso mantenho a tocar American Tune, a música que ouvi pela primeira vez no concerto e que muito depressa se tornou para mim uma obsessão. É só carregarem no botãozinho de pausa, lá em cima à direita, para verem e ouvirem Paul e Art. Não percam, vão por mim.
Que alguém que se diz jornalista e escritora, que escreve regularmente em jornais, que tem livros diversos publicados, escreva eminência por iminência (eminência é, entre outras coisas, o tratamento que usamos para um cardeal, estar na iminência de é estar prestes a qualquer coisa) e dignatários por dignitários — esta asneira, diga-se de passagem, ouço-a com frequência na televisão.
Também é certo que em tempos citou uma passagem deste blogue e conseguiu pôr erros ortográficos antes inexistentes e mexer na pontuação, que ficou defeituosa (a sorte foi que também o link para aqui ficou mal posto). Como tal, nada de novo.