domingo, 11 de setembro de 2011

In loving memory


Uma das muitas imagens de um dia de terror absoluto que nunca mais poderemos esquecer.

Fotografias minhas (são duas coladas), um mês depois. Tinha ido jantar ao Nobu, vim à rua fumar um cigarro, ao lado havia um centro de apoio às vítimas e seus familiares. Escusado será dizer que desatei a chorar quando li estes cartazes.

Hoje, no encantador Bryant Park, esta ideia linda. Em memória das 2753 vidas perdidas nas duas torres, 2753 cadeiras alinhadas no relvado, viradas para o local em que se erguiam aquelas duas silhuetas inesquecíveis (ver aqui).

«In remembrance of the 2,753 lives lost as the result of the September 11, 2001 World Trade Center attack, the Bryant Park lawn is filled with 2,753 chairs facing the site where the Twin Towers once stood.»



Lembremos também a linda Roselle, que já não está entre nós:


Por último, duas fotografias daquele dia medonho que nunca esquecerei:

O padre franciscano Mychal Judge, capelão do Departamento de Bombeiros de Nova Iorque. Morto quando administrava a Extrema Unção a uma vítima agonizante.
 
É em dias terríficos como foi aquele, que revelam o que de pior pode existir no Homem, que podem assomar também laivos de esperança. Enquanto houver compaixão, enquanto houver gestos de bondade tão singelos como este de dar oxigénio a um animalzinho em aflição, nem tudo está perdido.


sábado, 10 de setembro de 2011

Mundo muito mal feito, sr. Afonso da Maia

«Carlos, rindo, arrastou-o pelo corredor. E de repente, ao entrarem na antecâmara, deram com Afonso falando a uma mulher carregada de luto, que lhe beijava a mão, meio de joelhos, sufocada de lágrimas: e ao lado outra mulher, com os olhos turvos de água também, embalava dentro do xale uma criancinha que parecia doente e gemia. Carlos parara embaraçado; o marquês instintivamente levou a mão à algibeira. Mas o velho, assim surpreendido na sua caridade, foi logo empurrando as duas mulheres para a escada: elas desciam, encolhidas, abençoando-o, num murmúrio de soluços; e ele, voltando-se para Carlos, quase se desculpou numa voz que ainda tremia:
— Sempre estes peditórios... Caso bem triste todavia... E o que é pior, é que por mais que se dê nunca se dá bastante. Mundo muito mal feito, marquês.
— Mundo muito mal feito, sr. Afonso da Maia — respondeu o marquês comovido.»

Eça de Queiroz, Os Maias


Ainda estou para saber por que raio compro todas as semanas a ¡Hola! desde os 16 ou 17 anos, se só a folheio, vejo os bonecos e, regra geral, me limito a ler os títulos. Ontem tropecei numa reportagem que irresistivelmente me trouxe à memória esta passagem de Os Maias. A dita reportagem mostrava-nos as duas manas Ecclestone em todo o esplendor da sua riqueza e acompanhadas dos correspondentes sinais exteriores. Tudo excessivo, tirando aquilo que o dinheiro não compra — bom gosto e bom ar. Está bem que o pai, patrão da Fórmula 1, é de origens muito humildes (fiquei a saber, dei-me ao trabalho de ler), filho de pescador, houve certamente muito mérito e muito trabalho em tamanha ascensão. Mas não deixa de ser revoltante transformar os números vertiginosos que a revista nos revela em milhões de refeições ou em cuidados de saúde. Não deixa de ser revoltante comparar estas duas inúteis com alguém como a Maria, que toda a vida se esfalfou a trabalhar e que presentemente vive uma odisseia num país carenciado de tudo como é Timor.

Demos então uma olhadela a algumas das imagens das manas Ecclestone com que a ¡Hola! nos presenteia (e palavra que amaldiçoo o tempo que desperdicei a digitalizá-las, não estão na página da revista, não tive outro remédio).

A mana morena, Tamara, ao volante do seu Ferrari. Não podemos negar que é bonita, mas o ar está muitíssimo mais para o extinto Café Photo de S. Paulo (os homens devem saber o que era) do que para Mayfair ou Belgravia. Há mesmo coisas que o dinheiro não pode comprar.

A mana morena no seu quarto da sua mansão de Londres. Menção para a decoração intimista e acolhedora, sem mais comentários. Vejam também a panorâmica da sala de cinema, na imagem inferior. Lord, take me now!
A mana morena num modesto cantinho do seu gigantesco closet (fiquei a saber que, só de Louboutins, tem a frioleira de 14 armários), junto de algumas das suas malas. De notar o papel de parede do interior, em padrão monogramado Vuitton, sendo apenas que as letras LV foram substituídas pelas suas iniciais, TE. E continua com ar de Café Photo, nada a fazer.
Reparem nas duas imagens de baixo. A ¡Hola! informa-nos amavelmente de que Tamara tem 17 Birkins. Mas é impossível não ver também as carteiras Chanel na prateleira inferior (tentei contá-las, mas perdi a paciência). Quantas crianças poderia esta única esquina de armário alimentar, vestir e manter na escola durante um ano inteiro? Umas largas centenas, se fosse em África.
A mana loira (?), Petra, com o marido muito recente (tenho uma vaga ideia de ter visto há duas ou três semanas a reportagem na ¡Hola!, mas é a tal coisa, nem dei atenção, fiquei agora a saber que casaram no mesmo castelo de Roma que foi cenário do casamento de Tom Cruise e Katie Holmes). O novel casal na acolhedora sala (nada como o preto para dar essa sensação de aconchego) da sua mansão de Belgravia.
A mana loira (?) à secretária do seu escritório na mansão de Belgravia, ecologicamente forrada de pele de crocodilo (estou capaz de lhe encher aquelas trombas de estalos). Folgo em verificar que o ar Café Photo runs in the family.


 A singela moradia do casal em Los Angeles (só para o Outono, esclarece a ¡Hola!), em tempos propriedade de Aaron Spelling. Custou 120 milhões de dólares, 104 milhões de euros, mais coisa, menos coisa, sendo que o menos coisa poderia provavelmente equivaler a um belíssimo apartamento no Príncipe Real. Foi presente da mãe, croata, que arrebanhou a modesta quantia de 815 milhões de euros ao octogenário ex-marido no acordo de divórcio de há dois anos. Estas eslavas devem ter talentos inimagináveis.


Pois. O marido recente da loira (?) deu-lhe este presente de anos, apenas de valor sentimental, que esta gente não liga a dinheiro. Deve ser para quando ela tiver o capricho de guiar da mansão para ir às compras em Rodeo Drive, que andar de limo a toda a hora também enjoa.

Lembrei-me também de versos de Alberto Caeiro por causa de todo este meu ataque de maledicência, que não o é. A coisa cifra-se mais em desprezo. Não, não tenho fome da sobremesa alheia. Entristece-me é que este mundo esteja tão mal feito.
«Ontem o pregador de verdades dele
Falou outra vez comigo.
Falou do sofrimento das classes que trabalham
(Não do das pessoas que sofrem, que é afinal quem sofre).
Falou da injustiça de uns terem dinheiro,
E de outros terem fome, que não sei se é fome de comer.
Ou se é só fome da sobremesa alheia.
Falou de tudo quanto pudesse fazê-lo zangar-se.» 


Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

I ♥ Amazon


Cheira-me que vem novo vício a caminho. Uma das protagonistas é a minha muito querida Dame Maggie Smith. A ver se um dia destes vos conto aquela que foi uma das mais mágicas noites de Teatro de toda a minha vida, apenas duas actrizes em palco, ela e esse outro colosso chamado Dame Judi Dench, em The Breath of Life, a assombrosa peça de David Hare.


Adorei a primeira temporada, que já vi há mais de dois anos. Ainda não me tinha dado para passar à segunda, principalmente porque não posso comprar tudo o que cobiço.

Vi o filme há uns dez anos, quando investigava as prateleiras do clube de vídeo em busca de qualquer coisa que ainda não tivesse visto. O facto de ter as grandes Anne Bancroft e Ellen Burstyn no elenco convenceu-me, não podia ser mau. E não era mesmo. Um filme simples e terno, que me emocionou. Apetece-me revê-lo, lembrei-me muito dele há três anos, a jantar num histórico hotel do Wyoming, a gentilíssima dona fez-nos uma visita guiada, mostrando-nos os quartos que tinha livres. Quando abriu as portas de um grande armário para nos mostrar um dos seus maiores motivos de orgulho, fiz um grande "oh!" maravilhado. Muito bem dobrados e empilhados, mais de vinte quilts centenários, lindíssimos.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Cinco anos


Cinco anos de A Gota de Ran Tan Plan. Muitas vezes me perguntaram o porquê do nome, e nem eu mesma estou cem por cento segura. Só conhecia um blogue, o da minha amiga Carla, e era do Sapo. Naturalmente, foi por aí que comecei. Achei as explicações confusas, o processo pouco lógico, tinha de haver coisa mais simples! O primeiro resultado para a pesquisa que fiz, qualquer coisa como «how to create a blog», pôs-me no caminho do Blogger. Muito mais simples, muito mais fácil, muito mais inteligível. E foi logo na primeira etapa que surgiu a questão do nome, sem o qual não podia avançar. Não que fosse importante, porque não tencionava dar continuidade a isto, queria apenas familiarizar-me com as rotinas para poder criar o blogue do Liceu — esse sim era o meu objectivo. Nome? Que nome? Que havia eu de chamar a isto?

Deve ter sido então que me lembrei de uma conversa com o Vítor, na véspera ou dois dias antes, ao telefone. Relembrávamos um ao outro velhas piadas dos livros de Lucky Luke, que veneramos. Os irmãos Dalton e Ran Tan Plan sempre estiveram entre as nossas personagens favoritas, sempre delirámos com a incrível estupidez do cão mais obtuso a Leste e a Oeste do Oeste. E ríamos, a lembrar a eterna gota de baba a cair. Ah! Aquela gota! A gota de Ran Tan Plan! «Olha, está aí um belo título para um livro! A Gota de Ran Tan Plan!», acrescentei eu. O Vítor concordou, se bem que nenhum de nós pudesse ter qualquer ideia quanto ao conteúdo de tal coisa. Como sempre, ríamos pelo prazer de rir, na nossa costumeira galhofa de disparate puro.

E pronto, a minha experiência teria como título A Gota de Ran Tan Plan. Nada surpreendentemente, o nome estava disponível. Uns cinco minutos depois (dez, vá lá), escrevi a primeira entrada. E o trabalho que me deu pôr aquele retrato de minha saudosa Messy? O Blogger era então muito mais rudimentar, a aplicaçãozinha para inserir fotografias lá estava, mas por mais que a assinalasse nada acontecia. Toca de ir à ajuda. Sugeriam-me que carregasse fotografias através do Picasa. Obedientemente, instalei o Picasa e a coisa funcionou.

Nos primeiros seis meses escrevi muito pouco, um total de 18 posts — há quem escreva mais num único dia. Até o Nuno (outra saudade), uma das três únicas pessoas que tiveram conhecimento do blogue, chegou a enviar-me um e-mail a refilar, lembrando-me que a ideia de ter um blogue passava pela sua actualização regular. Dedicava todo o meu tempo livre ao blogue do Liceu, então uma animação pegada. Depois, aos poucos, comecei a vir mais aqui, a conhecer outros blogues, a interagir com os seus autores. Et voilà!

Com mais ou menos regularidade, vou escrevendo, e não tenho qualquer intenção de parar. Fiz amizades na blogosfera. Algumas, poucas, claro, tornaram-se mesmo grandes amizades. O saldo é francamente positivo. O meu muito obrigada aos que me lêem. Um blogue aberto ao público sem admitir comentários é coisa que para mim não faz grande sentido, quantas grandes conversas já tive em caixas de comentários! A única excepção, que me lembre, é a Bad Girl, mas percebo as razões que a levaram a encerrar os comentários, farta de receber coisas idiotas ou insultuosas. Como, nestes cinco anos, não tive grandes razões de queixa nessa matéria, os comentários continuam, e sem moderação. Aboli apenas os anónimos, e nem sequer foi há muito tempo.

Obrigada a todos, uma vez mais.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

I ♥ Amazon

Mais um para a minha colecção de livros sobre Oscar Wilde. Em segunda mão, vindo dos Estados Unidos. Encadernado, como novo, tirando aquela minúscula mossa da sobrecapa de papel no canto inferior esquerdo.


O preço? A anedota abaixo. Fnac who?


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Agatha dearest

«One knows that an author has been well loved if, when he or she dies, fans wish there was one more book left for them to read; no one is more deserving of such an accolade than Agatha Christie.»

Estas são as linhas finais de um livro que li há pouco tempo, graças à I., já que lhe desconhecia a existência, e que me apaixonou: Agatha Christie and the Eleven Missing Days, de Jared Cade.

Tanto a I. como eu achámos o livro apaixonante e (palavras dela em privado, com as quais concordo integralmente), escrito com muito carinho e humanidade. Eu vou um bocadinho mais longe: acho que o livro é uma soberba biografia. Para devotas da obra de Agatha Christie como nós, juntou muitas pontas soltas, pontas muito dolorosas para a escritora, coisas que nem sequer remotamente aflorou na sua autobiografia (cuja leitura, ainda assim, recomendo).

Muitas vezes, ao reler Agatha Christie (sim, eu releio-lhe os livros), tropecei na sua imensa compaixão por amores desesperados, nas descrições que intuí serem quase pessoais. À cabeça ponho a Elinor de Sad Cypress (em português Poirot Salva o Criminoso), senti que havia ali muito do seu imenso amor pelo primeiro marido, Archie; ponho também a Elsa de Five Little Pigs (Poirot Desvenda o Passado), que me parece um exercício quase catártico. Outras personagens há. Até no ciúme feroz e orgulhoso de Mary Cavendish, no seu primeiro livro, poderíamos já encontrar pistas para o seu trágico primeiro casamento.

À medida que vou envelhecendo, os livros de Agatha Christie vão-me sendo ainda mais queridos. Comecei a lê-la aos 16 anos, incitada pelo D., o meu namorado. A Colecção Vampiro Gigante, que ia publicar a sua obra integral por ordem cronológica, tinha acabado de ser lançada. Um livro novo de três em três meses, dei comigo a desejar que aquilo se prolongasse muito mais, não queria o dia em que já não houvesse um livro novo para ler.

Outras palavras de Jared Cade que me tocaram muito, por perceber muito bem aquilo de que ele fala, aquela nostalgia de um tempo perdido:

«Agatha was destined to be known as the disappearing novelist in more ways than one; much of the world she knew and wrote about has almost completely vanished: a world of chauffeured Daimlers and Bentleys, solvent aristocracy and stately homes.» — a isto voltarei amanhã, a propósito de Miss Marple.

Não foi fácil encontrar um retrato de Agatha Christie para pôr aqui, um retrato que lhe fizesse justiça, o mais provável é que fosse apenas pouco fotogénica. Jared Cade é peremptório, era uma mulher muito atraente e com grande encanto, foi-o até depois dos 40 anos, quase até aos 50, repete-o várias vezes ao longo do livro.

E agora temos um novo destino de sonho, a I. e eu: Greenway.

Mais, muito mais haveria a dizer sobre Agatha Christie. Acho que fica para outro dia, tão cansada me sinto.

Recado para a Charlotte: corre a comprar o livro. É uma autêntica biografia. E das melhores.

Apontamento à margem: este retrato de Agatha Christie é de 1926, o ano da grande tempestade, que só detonou em grande em Dezembro. Aposto que o casaco de malha que Agatha veste era de Archie: abotoa ao contrário, à homem.

sábado, 13 de agosto de 2011

Que diabo?


Há coisas em que sou muito esquisita. Gosto de ter tudo organizadinho, tudo bonitinho. E isso também passa pelo meu iPod. Gosto que as músicas sejam acompanhadas pela capa do disco. Manias, pronto. Ora, por qualquer misterioso capricho divino, nem sempre o iTunes me encontra automaticamente as capas (e outras vezes encontra-me capas disparatadas). Fico irritada e ponho-as à pata. Quem não tem cão caça com girafa, assunto resolvido.

Ora hoje reparei que nem numa única das faixas de Jesus Christ Superstar, essa obra-prima de Andrew Lloyd Weber, que nunca mais fez nada à altura, aparecia a capa. Toca a ir buscá-la. E, claro, abri o primeiro resultado que me apareceu no Google, para gravar a imagem, e que foi esta página. Imaginem agora a minha cara de parva quando dei com a publicidade. Agência Funerária Ponte de Lousa?!

Escolho para banda sonora aquela que é, para mim (como é para o Vítor, como era para o Nuno) a melhor música da obra, basta ouvir a extraordinária letra de Tim Rice. um dia destes tenho de falar mais alongadamente de Jesus Christ Superstar, e de como uma obra tão pouco ortodoxa alargou a minha visão dos Evangelhos, aos 14 anos.


My mind is clearer now
At last
All too well
I can see
Where we all
Soon will be
If you strip away
The myth
From the man
You will see
Where we all
Soon will be

Jesus!
You've started to believe
The things they say of you
You really do believe
This talk of God is true

And all the good you've done
Will soon be swept away
You've begun to matter more
Than the things you say

Listen Jesus
I don't like what I see
All I ask is that you listen to me
And remember
I've been your right hand man all along
You have set them all on fire
They think they've found the new Messiah
And they'll hurt you when they find they're wrong

I remember when this whole thing began
No talk of God then, we called you a man
And believe me
My admiration for you hasn't died
But every word you say today
Gets twisted 'round some other way
And they'll hurt you if they think you've lied

Nazareth's most famous son
Should have stayed a great unknown
Like his father carving wood
He'd have made good
Tables, chairs and oaken chests
Would have suited Jesus best
He'd have caused nobody harm
No one alarm

Listen Jesus, do you care for your race?
Don't you see we must keep in our place?
We are occupied
Have you forgotten how put down we are?
I am frightened by the crowd
For we are getting much too loud
And they'll crush us if we go too far
If we go too far

Listen Jesus to the warning I give
Please remember that I want us to live
But it's sad to see our chances weakening with ev'ry hour
All your followers are blind
Too much heaven on their minds
It was beautiful, but now it's sour
Yes it's all gone sour
Ah --- ah ah ah --- ah
God Jesus, it's all gone sour

Listen Jesus to the warning I give
Please remember that I want us to live
So come on, come on, listen to me.
Ah --- ah
Come on, listen, listen to me.
Come on and listen to me.