
Há coisa de duas semanas, num jantar em que se trocavam histórias de coisas embaraçosas que nos tinham acontecido, lembrei-me desta. E foi uma risota.
Algures na semana entre o Natal e o Ano Novo de 1996, ao fim da tarde, recebi um telefonema de um amigo. Pelo ruído em volta percebeu que eu estava na rua.
— Teresinha, onde está?
— Na Avenida da República.
— Calha bem, estou pertíssimo e tenho um presente de Natal para si na mala do carro. Tomamos um café no Monumental?
— Pode ser.
— Óptimo! Encontramo-nos em frente do BES, quem chegar primeiro espera.
Cheguei ao Saldanha em coisa de cinco minutos e avistei imediatamente um Porsche cor de vinho, o carro dele, parado em segunda fila. Tinha chegado primeiro, portanto. Alegremente, abri a porta, sentei-me e estendi a cara para lhe dar um beijinho, «olá, João!»
E recuei imediatamente, horrorizada. A pessoa ao volante não era o João, era um perfeito desconhecido, que me encarava como se eu fosse uma doida perigosa. Já de mão na porta e a escapulir-me, morta de vergonha, balbuciei desculpas incoerentes e atabalhoadas que soavam muito pouco convincentes. «Desculpe, combinei com um amigo aqui, o carro é igual, eu...» A expressão céptica do desconhecido era eloquente. «Sim, claro, o clássico número do Porsche errado...»
Nesse preciso momento, eu já com o rabo de fora mas de porta ainda aberta (tudo isto se passou em escassos segundos), parou à nossa frente um segundo Porsche, também cor de vinho, o do João, uma gloriosa chegada que me salvou a honra e a dignidade. Provavelmente nem eram do mesmo modelo, não faço ideia, identificar a marca de um carro já é para mim uma façanha, não me perguntem pelo modelo.
E em minha defesa só tenho a alegar uma coisa: lembram-se de muitos Porsches cor de vinho? Eu não. Até àquele dia, acho que só tinha visto o do João. What were the odds?!