
O
JC deixou, na entrada anterior, um comentário muito pouco elogioso ao Liceu. E publicou no seu blogue uma entrada com o título
Os 100 anos do Liceu Camões e o reitor Joaquim Sérvulo Correia. Respeito o seu ponto de vista e posso até concordar com algumas críticas que faz ao Liceu, mas julgo que está errado no todo. Recomendo-lhe a compra do magnífico livro do Centenário, em que é feita uma extensa análise dessa complexa personagem que foi o Dr. Sérvulo Correia. Não me parece que o nosso Reitor (eu ainda o tive durante dois anos) fosse salazarista, não me parece que ele ligasse a política. Quer maior prova disso do que a confiança que tinha em Mário Dionísio,
JC? O Reitor trabalhou incansavelmente para construir um Liceu de grande qualidade de ensino, e fez dele o melhor do país. Contra factos não há argumentos. Invariavelmente, os alunos que se destacavam mais tarde nas faculdades, todas elas, os primeiros classificados em cada curso, vinham do Liceu de Camões. Onde a disciplina era férrea, sim senhor. Onde a exigência era absoluta. Onde uma média de 14 ou 15 equivalia a uma média de 16 ou 17 em qualquer outro liceu de Lisboa.
Eu era aluna de Quadro de Honra. Como a maior parte dos meus leitores é mais nova, explico que se entrava para o Quadro de Honra com média superior a 14. Estava permanentemente afixado no átrio da entrada, a cada período os jornais publicavam o Quadro de Honra dos vários liceus, e figurar nele era motivo de um imenso orgulho.
Por tudo isto,
JC, a seguir ao 25 de Abril e à bandalheira generalizada que se estabeleceu, o Liceu de Camões foi, de todos, o que menos foi abalado. Mesmo depois da revolução, nunca nos teria passado pela cabeça ser incorrectos com um professor. Éramos irrequietos, éramos tagarelas (éramos crianças, pronto!), sim. Mas ser malcriado com um professor teria sido coisa abominável no nosso código de honra.
Eu, no quinto ano (e já depois do 25 de Abril, portanto), estive em risco de ter de ir a exame se tivesse um segundo medíocre em comportamento; a média de dispensa era de 12, eu tinha 16, mas até poderia ter 20, com dois medíocres em comportamento ninguém me livraria do exame. O mesmo aconteceu com os meus grandes amigos Clara e João Viegas, também com média folgadíssima para a dispensa, também em risco de terem de ir a exame. E porquê? Porque éramos irrequietos nas aulas. Lembro-me de a Professora de Inglês desse ano ter dito num conselho de turma que o nosso problema era a dispersão. Como aprendíamos muito depressa, a seguir desligávamos e dispersávamo-nos. Provavelmente tinha alguma razão, mas tendo a achar que era mesmo a nossa personalidade extrovertida e comunicativa que nos metia em sarilhos.
Vergílio Ferreira, o grande Vergílio Ferreira, mudou-me de lugar no 6.º ano, já eu tinha 15 anos, porque não parava de tagarelar. Desterrou-me para uma carteira isolada, sem qualquer hipótese de conversa com os vizinhos — o que nunca influiu negativamente nas notas que me deu nos pontos. No ano seguinte viria a almoçar frequentemente com ele no refeitório, e conversávamos muito. Um dia, já nem sem me lembro do que estávamos a falar, saiu-se com esta tirada, que guardo como coisa preciosa:
— Gosto de falar contigo, és uma rapariguinha cativante, de paixões, com uma concepção interessante do mundo. Mas nas aulas eras simplesmente insuportável!
Diz o
JC, no comentário que aqui deixou, que havia por lá a
professorar meia dúzia de intelectuais de prestígio. Havia, sim, e já referi o maior de todos. Mas há muitos outros, anónimos, que dedicaram a sua vida ao ensino e cujos nomes não parecem nos jornais. Com três desses nomes tive a alegria de estar na sexta-feira. A Dr.ª Maria Helena Teixeira Ferreira, Mestra notável, ríspida, de humor cortante — se o meu português falado e escrito ainda vai tendo alguma correcção, uns bons 80% são mérito dela. A Dr.ª Maria Antónia Borges, professora de História no 7.º ano, que galvanizou uma turma entorpecida pela nulidade de professor que tínhamos tido no ano anterior e, ao organizar-nos em grupos de trabalho, nos lançou numa competição feroz e apaixonada pela melhor nota. A Dr.ª Jacinta, professora de Inglês do 6.º ano, que tinha feito o seu doutoramento em Oxford e era tão doida por Beatles como eu e o Duarte, os seus grandes favoritos. Só faltou a Dr.ª Teresa Monteiro, a quem devo Oscar Wilde e o Teatro, estava adoentada.
Os poucos anos que o
JC me leva de avanço podem pesar. Na verdade eu era demasiado miúda, o Dr. Sérvulo Correia foi meu Reitor quando eu tinha 12 e 13 anos. Mas posso contar-lhe que na sexta-feira, cá fora, junto ao busto de Camões, outra grande Professora, a Dr.ª Cristina Esmeraldo (Inglês, o Ricardo e o Vítor beijam o chão que ela pisa), à conversa com o meu grupo, contou a insanidade que foi encontrar no Padre António Vieira quando para lá transitou, em 1975/76. Os alunos a quererem tratá-la por tu. «Olha, tratas-me por Sr.ª Dr.ª, por
Setora, por Dr.ª Cristina... por tu é que não me tratas, que os meus filhos também não». Os alunos a atirarem professores ao lago, era o reinado dos manos Baltazar. Alunos com pistolas nas aulas... Abençoada disciplina do Camões, que fez com que fosse o liceu que menos avacalhou em todo o país!
O
JC quer saber como foi comigo. Transcrevo aqui o original do meu testemunho. O editor pedia-me 10 a 15 linhas, foi bastante mais extenso. Havia limitações de paginação, mais de metade disto foi cortado, o que vem no livro é bastante mais curto. Mas notará, JC, que eu própria me insurjo com algumas coisas. Nomeadamente a expulsão de cinco meninas quando eu tinha 12 anos, que não se conseguiu provar, e de que só eu me lembrava. O João Lisboa restabeleceu-me a confiança na minha memória na sexta-feira: era verdade, sim. E eram mesmo cinco, e já lhes sabia os nomes, tinha falado com uma delas.
Não isento de defeitos, é o meu Liceu, ser-lhe-ei leal até à morte. Este é o meu testemunho:
Liceu de Camões, 1972-1977
Contar cinco anos de Liceu (sempre com maiúscula, é o nosso Liceu) entre 10 a 15 linhas é coisa impossível, que 10 ou 15 folhas, frente e verso, não chegariam nem para começar a contar a marca que esses cinco anos deixaram – pelo menos ao meu grupo de amigos, que continua a reunir em jantares trimestrais que são uma explosão de alegria, jantares em que voltamos todos, estranha viagem no tempo, aos 14 anos que um dia tivemos e a um qualquer intervalo grande, o de 20 minutos, sempre o mais apetecido. Os nossos jantares são um perpetuar de coisas que nem sempre se conciliam facilmente com as nossas vidas cada vez menos simples: alegria, inocência, optimismo, confiança. Até temos um blogue, que isto de ter uma forte ligação com o passado não nos impede de viver o presente em pleno, porque é no presente que se constrói a saudade futura.
«Éramos felizes e não sabíamos», dizia-me há tempos, num desses jantares, um desses amigos. Não foi aluno de Vergílio Ferreira, paciência. Eu sabia, tal como quase todos nós, os do meu grupo de nome propositadamente ridículo, Associação das Tágides Caducas e dos Adamastores Zarolhos, sabíamos.
Quase todos nós ingressámos no Liceu em 1972, quase todos na turma A, a dos mais novinhos, 12 anos acabados de fazer ou ainda incompletos. Meninas para um lado e meninos para outro, claro, a separação era rígida e qualquer infracção era severamente punida – a Luísa foi chamada ao gabinete da Vice-Reitora por ter sido vista a falar com um rapaz à porta do Liceu; era o irmão mais velho, como pôde provar, não houve sanções. Um curso de transição, apanhado em cheio pelo 25 de Abril, no ano lectivo seguinte.
Fiz parte do segundo ano em que o Liceu admitiu meninas. A bata branca era obrigatória, e que bonita era! Nivelava socialmente, naquela época os pré-adolescentes nada sabiam de marcas. Claro que havia algumas (poucas) meninas precoces, que levavam a bata debaixo do braço e só a vestiam à esquina do Liceu, as mesmas que levavam os (poucos) livros e cadernos na mão e já se
maquilhavam discretamente. Nós levávamos todos os livros e cadernos necessários para o dia de aulas, sábado incluído (só depois do 25 de Abril deixou de haver aulas ao sábado), em pastas robustas e pesadas, usávamos saias de pregas e meias de lã até ao joelho e mudávamos todos os dias de bata, que a coisa de sarja imaculadamente branca com que saíamos de casa era muito diferente da coisa vergonhosamente emporcalhada com que voltávamos, culpa dos jogos de mata nos intervalos – a linha divisória do nosso campo ainda continua nitidamente marcada no asfalto, ou lá como se chama aquilo (poupa-me, António! Sou uma mulher de Letras!), do pátio Norte, confirmei recentemente com um sorriso enternecido.
Até ao 25 de Abril as meninas tinham uma disciplina chamada Lavores, com a nobre missão de nos ensinar prendas de agulha uma hora por semana. No primeiro período cada turma confeccionava um enxoval de bebé completo, que era entregue no dia de Natal nas maternidades, para oferecer às crianças pobres (na altura ainda dizíamos aos pobrezinhos). Éramos totalmente destalentosas com a agulha (a minha querida Luísa, hoje distinta médica de Radioterapia do IPO, passou as aulas daquele período inteiro a embainhar uma fralda, o luxo das fraldas descartáveis ainda não existia), mas apresentámos um enxoval magnífico. Havia peças lindas, havia peças de sonho: mantas, botinhas, cueiros, camisinhas, casaquinhos, que as nossas mães, essas sim, eram muito dotadas e esmeraram-se.
Foi numa dessas aulas de Lavores, algures no princípio de 1973, que o Reitor entrou na sala e nos fez uma prelecção para explicar a recente expulsão de cinco meninas (ou três, é aqui que a memória me falha) do ano acima do nosso, em cujas carteiras foram encontrados panfletos e um livro de Manuel Alegre, O Canto e as Armas. Todas elas tinham 13 anos. Expulsas sem apelo nem agravo. À laia de parábola, o nosso Reitor comparou-se a um lavrador com um pomar de maçãs. Algumas das maçãs eram bichosas e havia que deitá-las fora, não fossem elas contaminar as outras. Claro que não percebemos nada da explicação, mas retive as palavras até hoje. Não quero denegrir a imagem do último Reitor que o nosso Liceu teve. Respeitava-o, e muito. Não lhe tinha medo, isso era coisa que viria a ter, irracionalmente, mais tarde, ao Dr. Salvador do Carmo, Professor de Físico-Químicas. Até cheguei a ter vintes em pontos dele, mas o terror era absoluto e incontrolável.
Os tempos que se seguiram ao 25 de Abril foram conturbados, o nosso Liceu foi, muito provavelmente, o menos afectado no país inteiro. Não tenho memória de uma falta de respeito a um professor. Éramos traquinas, éramos tagarelas, éramos irrequietos, malcriados nunca fomos. Tive alguns Professores (agora com uma maiúscula muito merecida) inesquecíveis, para com os quais tenho uma dívida de gratidão sem princípio nem fim. Só um desses Professores já partiu, mas é imortal e a Academia Nobel voltou a fazer asneira nunca lhe atribuindo o prémio, que ele merecia como nenhum outro português. Chamava-se Vergílio Ferreira e é para mim um enorme orgulho ter assistido às suas aulas. Os outros Professores a quem devo tanto que devo quase tudo do que sou hoje são três senhoras, que continuam vivas e cheias de saúde. A Dr.ª Maria Helena Teixeira Ferreira (Português). A Dr.ª Teresa Monteiro (Inglês, responsável pela minha paixão por Oscar Wilde e Teatro), a Dr.ª Maria Antónia Borges (História).
(porque evoca toda a pureza e inocência daqueles anos)