domingo, 22 de novembro de 2009

Despedida

Vêm-me à memória Os Maias, e o Alencar, num Ramalhete enlutado, a seguir à morte dessa grandiosa personagem que é Afonso da Maia, todo na emoção de lembrar o passado e os amigos desaparecidos: «O que me vale agora são vocês, rapazes, a gente nova. Não me deitem à margem! Senão, caramba, quando quiser fazer uma visita, tenho de ir ao cemitério.»


O meu amigo Jorge partiu na madrugada de ontem. Bateu-se como um leão, mas a doença, que eu julgava que ele venceria, pôde mais. Aguentou estóico até ao fim, sem um queixume, escreveu no blogue até à antevéspera. A última entrada é de quinta-feira, às 18h37, a última de onze nesse dia. Detenho-me a analisar as horas a que cada um dos seus últimos pensamentos públicos foi publicado, tentando aproximar-me um pouquinho dele, tentando levantar um pouco a ponta do véu que cobre o grande mistério. À hora a que o Jorge escrevia pela última vez no seu Tomar Partido, eu estava ainda no Colosso. Os comentários não chegaram a entrar, tenho a certeza de que haverá muitos como o meu, a deixar-lhe um último beijo, a dizer-lhe que ele é importante nas nossas vidas.

Nos últimos anos tínhamos perdido contacto, reencontámo-nos graças ao Facebook, num dia de Outubro passado estremeci de alegria ao encontrar um pedido de amizade dele, de quem havia tanto nada sabia. Foi uma festa! Nesse dia, feriado, falámos horas e horas. O que nós falámos, santo Deus! E iguais a sempre, iguais aos anos perdidos da Católica, às aulas em que nos sentávamos lado a lado, aos gelados na Pindô, aos cafés no Penta. O Jorge chamava-me, já nesse tempo, Teresinha, assim continuava a chamar-me. Foi nesse dia 5 de Outubro que soube da doença. Mais recentemente, soube da recaída. Continuei sem acreditar, era absurdo pensar a morte do Jorge, um ano e um dia mais novo do que eu. E logo ele, uma pessoa tão boa, tão íntegra, tão exemplar! Deus não ia permitir.

Mas Deus permitiu. Não me revolto contra o que não compreendo, aceito, como aceito o sofrimento que daí me vem, tal como faço dele oferenda, desejando que possa servir para resgatar uma outra dor qualquer, algures, neste mundo tão cheio de sofrimento. Fico apenas perplexa, além de muito triste. E com uma noção ainda mais aguda da minha própria própria mortalidade. O Jorge, o querido Jorge, como disse, era mais novo do que eu um ano e um dia — chegámos a festejar juntos os nossos anos, o meu dia a prolongar-se no dele.

Impressiona-me também muito que o blogue do Jorge agora continue eternamente igual, imutável, a moderação de comentários a barrar a entrada de novos testemunhos. Não, decididamente, não quero a tal moderação de comentários no meu, mesmo correndo o risco de apanhar comentadores anónimos e peçonhentos — eu, que nada tenho a dar ou a dizer ao mundo, estou demasiado afeiçoada a este meu insignificante espaço, quero-o sempre vivo, vivo enquanto puder sê-lo, mesmo que eu não possa acompanhá-lo. Há muito que me saiu das mãos e que deixou de me pertencer.

Foi pela Helena, a milhares de quilómetros, em Berlim, que soube da partida do Jorge. Tinha lido a notícia, não era mais uma notícia de uma morte qualquer, anónima, esta morte tinha uma cara, a de uma pessoa que tinha conhecido recentemente e de quem guardava uma lembrança muito grata. Foi ao blogue, começou a ler a etiqueta "Pessoal", tropeçou numa referência a mim, escreveu-me imediatamente.

A página do Jorge no Facebook é neste momento uma interminável sucessão de testemunhos, de homenagens. Foi graças a esses testemunhos que fiquei a saber que, como se tudo o mais não bastasse, o Jorge também tinha sido um extraordinário Professor, daqueles que nos deixam marcas para a vida inteira. As mensagens entristecidas e carinhosas dos seus alunos, em que perpassa uma enorme admiração, são imensas. É de lágrimas nos olhos que as leio e releio, feliz de o saber tão querido.

É com um sorriso enternecido que releio a sua última entrada no Facebook, a trair aquela que era, a par da política, a sua outra grande paixão: o futebol (e o Benfica, claro!).



A notícia do Público:

Morreu Jorge Ferreira, o político frontal e generoso
21.11.2009 - 18:33 Por Maria José Oliveira 



Das lutas políticas travadas no Liceu Gil Vicente, em Lisboa, após o 25 de Abril, até à fundação do Partido da Nova Democracia (PND), em 2003, e, mais recentemente, ao activismo espelhado no seu blogue (tomarpartido.blogs.sapo.pt), Jorge Ferreira manteve intocável uma das faculdades que mais o distinguiram na vida político-partidária: a frontalidade. É essa a qualidade mais evidenciada por quem acompanhou a sua vida política, ao seu lado e no campo adversário.

Jorge Ferreira, 48 anos, morreu esta manhã, em Lisboa, vítima de doença prolongada. O velório realiza-se hoje, a partir das 20h00, na igreja da Penha de França, em Lisboa. E o funeral sai amanhã, às 15h00, da igreja para o cemitério de Oeiras.

Na passada semana enviou aos seus alunos do Instituto Politécnico de Tomar, onde dava aulas há dez anos, uma carta de despedida. E no blogue que criou em Dezembro de 2006, o último texto que escreveu (sobre os cálculos do Governo para o défice deste ano) data da última quinta-feira, dia em que publicou 11 “posts”.

Através deste blogue, que actualizava quase diariamente, os leitores ficaram a conhecê-lo um pouco melhor: gostava dos Queen, de coleccionar postais antigos, e do filme “Era uma vez na América”, de Sergio Leone.

O activismo político deste advogado teve início nos movimentos associativos estudantis. Seguiu-se a Juventude Centrista (JC), onde conheceu Manuel Monteiro, e depois o CDS-PP. Durante a liderança de Monteiro ocupou as funções de vice-presidente do partido e, entre 1996 e 1998, foi líder da bancada parlamentar. “Já nas reuniões da JC nunca se preocupava em ter votos ou palmas, mas antes em dizer a verdade. E fez o mesmo no Parlamento”, recorda Monteiro. Que diz ter partilhado com Ferreira uma “lealdade” e uma “cumplicidade” singulares na política nacional. “Eu não perco um amigo; perco o amigo. Deu-me muito mais a mim do que eu a ele.”

Foi quando Ferreira liderava o grupo democrata-cristão que Maria José Nogueira Pinto se estreou no Parlamento, tendo sido a sua sucessora na presidência da bancada. “Foi extremamente generoso porque ensinou-me e explicou-me tudo na fase de transição”, afirma. “Tinha um feito muito especial. Era frontal e impulsivo”, lembra, sublinhando que “são pessoas assim que fazem falta.”

A frontalidade e a generosidade de Ferreira são também evocadas por Miguel Relvas, o social-democrata que, nas autárquicas, reencontrou-se com o seu amigo na corrida à câmara de Tomar – Relvas foi candidato à Assembleia Municipal, e Ferreira encabeçou o movimento independente “Tomar em primeiro lugar”. “Muitos dos seus adversários”, diz, “confundiam a sua frontalidade com uma atitude belicista, mas ele era muito generoso”.

João Almeida, secretário-geral do CDS/PP, afirmou, citado pela Lusa, que Ferreira “fez parte de uma geração que renovou o partido” em meados dos anos 90.»



Do político Jorge Ferreira não sei muito, a não ser que tentava persistente e baldadamente levar-me para o CDS. Só sei do meu amigo Jorge, e foi justamente por essa obstinação dele que há pouco mais de um mês muito rimos a lembrar uma história muito antiga. O Jorge andava havia dias a moer-me o juízo para me convencer a ir a um jantar de homenagem do CDS a Lucas Pires (que, por acaso, até era nosso professor). Eu despachava-o risonhamente, ele voltava sempre à carga. Ainda me lembro do preço do jantar: 500$00 (dois euros e meio, hem?). Não me lembro da data, julgo que terá sido em 1978 ou 1979. O que sei é que o jantar era na Churrasqueira do Campo Grande, e que o Jorge era um dos organizadores. No dia do jantar, ao fim da tarde, a caminho de casa, a passar num quiosque vejo os títulos nos vespertinos: a Churrasqueira do Campo Grande tinha sido quase totalmente destruída por um incêndio. Com a malícia dessa idade, enfiei-me imediatamente numa cabine, a telefonar ao Jorge, a anunciar-lhe que não ia haver jantar. O pobrezinho, que não sabia de nada, estava prestes a sair de casa, a princípio achou que eu estava a inventar. Suponho que o jantar de homenagem a Lucas Pires se tenha realizado noutro dia, noutro lugar, a Churrasqueira do Campo Grande ficou fechada durante mais de um ano para obras.


Não cheguei a estar com o Jorge, há tão pouco tempo reencontrado. Resta-me a memória. Voltaremos a encontrar-nos, meu querido.


Pachelbel — Canon in D Major

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

I ♥ Sue Johanson

Descobri a fabulosa Sue Johanson nas férias de Julho do ano passado em Miami. A seguir ao lauto jantar num restaurante escolhido a dedo entre as melhores recomendações do Zagat, moídos do cansaço de um dia de grande podutividade na praia, aquela água única a 32ºC (ai, que saudade!), tentávamos apanhar um Starbucks ainda aberto, que Miami não é Nova Iorque, rumávamos depois ao hotel, a capota descida, a saborear a brisa morna daquele clima icomparável. Apesar de estoirados, prolongávamos a noite um bocadinho mais, eu fumava no terraço, o canal de um lado, o oceano do outro, o Vítor fazia-me companhia, os dois a jiboiarmos o jantar. Na maior parte das vezes ainda ligávamos a televisão na sala da suite (sim, meus amigos, temos the best kept secret de alojamento em Miami, um apartamento autêntico: sala enorme com zona de jantar, cozinha completamente equipada, só usada para fazer Nescafé, shame!), dois quartos e duas casas de banho sumptuosos, três plasmas — na sala e nos dois quartos.

Eu tinha os canais que nos interessavam anotados (da minha parte, enorme preferência pelo Animal Planet, que bem gostava de poder ver cá), fazíamos zapping à procura de reruns de velhas séries de televisão, quanto mais antigas melhor. E foi assim que, a fazer zapping, logo numa das primeiras noites, tropeçámos no extraordinário Talk Sex With Sue Johanson.

Mais do que com o programa, ficámos fascinados com a autora. Uma senhora mais velha do que as nossas Mães a falar de sexo com a maior das naturalidades, com uma alegria e uma vivacidade únicas, um humor malandro e encantador... que coisa refrescante! A partir dessa noite, ao voltarmos ao hotel, procurávamos o programa dela, havia sempre repetições, Julho é a estação morta. Ao fascínio pela sua fabulosa personalidade veio juntar-se uma imensa consideração.

Sue Johanson, agora com 79 anos, tudo acha natural, normal, a todos acolhe com a mesma afabilidade bem humorada (para quem nunca viu o programa, o formato explica-se numa penada: Sue recebe telefonemas de espectadores, que lhe fazem perguntas). Nenhuma questão a desarma, todas trata com a mesma simplicidade esclarecedora. Sem juízos de valor. O que Sue quer é que as pessoas, seja qual for a fórmula em que se associem, sejam felizes. E que vivam a sua sexualidade como coisa bonita, boa, alegre, divertida, marota, whatever. Aos seus olhos, todas as combinações são legítimas: homem-mulher, mulher-mulher, homem-homem; e continua imperturbável e risonha se na combinação entrarem mais pessoas, seja qual for o género. E dá conselhos esclarecidos, sugere inovações, atitudes, brincadeiras, seduções. Em simultâneo, Sue Johanson é uma ardorosa paladina da segurança: preservativo, preservativo, preservativo. A acrescer a tudo isto, Sue Johanson é humilde: quando posta perante uma questão nova, promete investigar, dar mais tarde uma resposta, a resposta satisfatória e iluminadora que no momento não tem. Impossível não adorar Sue Johanson, não?

Parece que não. Há de tudo, neste supermercado de Deus — a célebre tirada do Manelinho é sempre tristemente oportuna.

Descobri há coisa de dois meses que o programa já passava em Portugal, na Sic Mulher, ao fim da noite, única hora a que vejo televisão, já na cama, prestes a pegar no sono. Ora ontem, domingo, dia de sornice por excelência, estive uma eternidade a fazer aquilo a que chamo resistência passiva. Já de cara lavada, em roupão, prolonguei ao máximo o momento de ir para a cama, ainda espreitei uns blogues. Num dos que visito com bastante frequência, e a adiar o momento de abdicar do tempo para mim de que sou tão ferozmente ciosa, deu-me para lhe espreitar os links que não conhecia.

Foi assim que aportei a um blogue de escrita banal e com deficiências. Normal, até aqui, a esmagadora maioria afina por este diapasão. Mas depois, alto e pára o baile, o blogue referia-se ao programa de Sue Johanson, a quem chamava a velha. Isto, para começar, e se eu quiser ser suave, é malcriado. A verdade, se querem saber o que acho mesmo, é que é reles. Baixo nível. Designar uma senhora de idade por a velha é muito feio. As pessoas mais velhas merecem-nos respeito, consideração, deferência. Mais ainda se são notáveis como Sue Johanson, muito mais nova do que esta pobre de espírito, de ideias e de escrita que diz que ela a enoja (lindo!) e lhe chama velha.

Isto lembra-me um comentário anónimo (que surpresa!) que recentemente tive por aqui, e em que também me chamavam velha (acho que está na entrada sobre o livro do Liceu, sou muito liberal a dar visibilidade aos meus detractores). Esta gentinha é mesmo estúpida, e contra a estupidez nada há a fazer. Ser novo é uma coisa meramente momentânea, que se esvai num fósforo. Não há nisso qualquer mérito, é circunstancial. É novo? É nova? Olhe que bom para si! Mas que depressa que isso vai passar — é que nem imagina quão depressa! E, quando passar, que é que lhe vai ficar?

A tal entrada da tal cretina tinha dois comentários à altura (baixa). Fechei a página sem comentar, e para não voltar. A minha provecta idade escolheu um lado, o da qualidade. O de Sue Johanson, entre outros. Longe daquilo. Graças a Deus.


Banda sonora: The Doors — People Are Strange

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

I guess I'd rather be in Berlin...*

Já devem ter percebido, tamanha a falta de assiduidade a escrever aqui, que a minha paciência para a blogosfera anda em níveis anormalmente baixos. Não só não me tem apetecido escrever como ando numa fase de torcer o nariz a quase tudo o que me aparece pela frente no Google Reader. E se tropeço em erros ortográficos temos o caldo entornado. Hoje mesmo apaguei do GR dois blogues que até seguia há alguns meses, só por terem dois erros tão crassos, tão imperdoáveis que, no momento em que, implacável, os eliminava da minha lista de leituras, a indiferença já a sobrepor-se à irritação, só pensei: «Passo bem sem ler bodegas destas!»

Não é que o lado fútil tenha uma incidência menor em mim do que na maioria das mulheres por essa blogosfera fora, que gosto tanto de trapos, de carteiras, de sapatos ou de cremes como todas as outras. É apenas que começo a ficar farta de tropeçar a toda a hora em blogues que se cingem a pouco mais do que isso. Ou que tecem considerações levezinhas sobre as relações entre os sexos, quase sempre com muito pouco ou mesmo nenhum sumo. Espremido, não sai nada. E nada me é acrescentado. Ora o meu tempo, o tempo que tenho para estar comigo, é um bem precioso.

Dir-me-ão vocês que um blogue é isso mesmo, um espaço ameno, descomplicado, onde se vai descomprimir. Que quem quer boa escrita vai procurar outras coisas (Saramago, não? Livra!). Certo. Parcialmente certo. Percebo a ideia, mas não comungo totalmente dela

Bem sei que nesta vasta blogosfera há espaço para todos as escritas e para todos os registos. Mas a verdade, meus amigos, é que o tempo que me sobra depois das longas horas em que estou por conta de quem me paga o ordenado e me põe comida na mesa é pouco, e há que fazer escolhas, gerir criteriosamente um bem que é escasso face a necessidades que são múltiplas.

Posto isto, e porque continua (o Senhor seja louvado!) a haver muitos blogues a que aporto sempre com prazer, blogues que me fazem reflectir, que me ensinam coisas, que, eles sim, me acrescentam, confesso que hoje, 9 de Novembro, estou cheia de inveja da Helena. Porque a Helena vive em Berlim e tem-me mostrado, aqui e ali, muitas coisas que me deixam a suspirar e só avivam o meu grande desejo de conhecer a cidade.

Numa entrada muito antiga, sendo o assunto completamente outro, acabei por contar aqui as minhas reminiscências dessa noite histórica de há vinte anos:

quinta-feira, 17 de Maio de 2007


Jornalista Acidental


As minhas aventuras e desventuras como astróloga já foram assunto de um post, há coisa de dois meses. Na altura resolvi dar ao venerável e já extinto jornal um nome fictício, A Patada (a Diabba, fina como um coral, topou logo a origem do nome), e A Patada continuarei a chamar-lhe.

Não pensem, porém, que só de mapas astrais e previsões imbecis foram feitos os meus dias naquela nobre instituição! Todos os dias aconteciam coisas, muitas coisas tantas que é possível que este post venha a ter continuação.

Decidi ilustrá-lo com uma notícia sobre o acontecimento mais marcante daquela época, a queda do Muro de Berlim. Foi uma noite fervilhante de excitação, as notícias não paravam de chegar, o telex (alguém ainda sabe o que isso era?) não parava de vomitar informação, as telefotos chegavam em catadupas. Em Berlim fazia-se História, e nós estávamos a assistir. Os primeiros alemães de Leste transpunham timidamente os escombros do muro e vinham deslumbrados e ainda meio desorientados espreitar como era o mundo do lado de cá. Por causa dessa noite única e emocionante o mapa da Europa sofreria mudanças incríveis nos anos seguintes. E durante uns tempos o que de mais próximo dos novos contornos geográficos que se iam desenhando se conseguia arranjar passaram a ser os mapas da Europa anteriores à Grande Guerra, a de 1914-1918, a tal guerra para acabar com as guerras, como lhe chamaram. Viu-se...»

A Helena foi viver para a Alemanha três dias antes da queda do muro. Esta noite a Helena está em Berlim. Ouçamos o que ela conta, ao som da filarmónica da cidade hoje em festa (uma das maiores orquestras do mundo, há quem sustente ser a maior de todas), regida por Karajan, nesse maravilhoso e exultante cântico que é o andamento final da 9.ª de Beethoven.


Conta mais, Helena...

08 Novembro 2009


os olhos cheios de água


Há vinte anos caía o muro, e Berlim comemora.


Dizem que anda por aí um milhão de turistas, mas eu sei mais que eles: um milhão e dois, que são o nosso Giordano Bruno e a esposa. Tenho andado num stress cultural que nem queiram saber.

Ao longo da antiga linha do muro, entre a Potsdamer Platz e o lado de lá do rio, junto ao Reichstag, fizeram um dominó com mil blocos pintados. Estes foram enviados para todo o mundo, para receber as diversas interpretações deste acontecimento. Tem blocos pintados por habitantes de países ainda hoje divididos, blocos pintados por artistas, blocos pintados por miúdos das escolas primárias. Há um feito pela família do Nelson Mandela, outro feito em conjunto por crianças israelitas e palestinianas.

Já estão expostos, preparados para o grande acontecimento de amanhã: a Festa da Liberdade, Fest der Freiheit.

Por volta das 8 da noite, Lech Walesa empurrará a primeira pedra, que empurrará a seguinte, que empurrará a terceira... até à Porta de Brandemburgo. No outro extremo, Durão Barroso (melhor dizendo: o Presidente da Comissão Europeia) empurrará também uma pedra, que empurrará a seguinte... até à Porta de Brandemburgo. Um dominó democrático muito carregado de simbolismo.

Pelo meio muita música, discursos, as figuras políticas que há vinte anos tornaram este milagre possível, fogo de artifício.

(Desconfia-se até que as nuvens se abrirão para deixar passar o espírito de Reagan, mas ainda não é certo)


Lá estaremos, claro. Já estou a tirar o pó aos fatos de ski, para tentar sobreviver a umas 4 ou 5 horas de pé ao frio. O que a gente não faz só para poder ser parte do momento...

Ontem passeámos ao longo dos blocos, apreciando a criatividade e o grito de Esperança que sai de cada um deles. Lindos. Mas, mais belo ainda, era ver as pessoas que avançavam lentamente ao longo da linha de blocos: com os olhos cheios de água.


Berliner Philarmoniker, Herbert von Karajan

* Adaptação do título de uma certa música de John Denver, I Guess He'd Rather Be In Colorado.

domingo, 18 de outubro de 2009

Em defesa do Liceu de Camões

O JC deixou, na entrada anterior, um comentário muito pouco elogioso ao Liceu. E publicou no seu blogue uma entrada com o título Os 100 anos do Liceu Camões e o reitor Joaquim Sérvulo Correia. Respeito o seu ponto de vista e posso até concordar com algumas críticas que faz ao Liceu, mas julgo que está errado no todo. Recomendo-lhe a compra do magnífico livro do Centenário, em que é feita uma extensa análise dessa complexa personagem que foi o Dr. Sérvulo Correia. Não me parece que o nosso Reitor (eu ainda o tive durante dois anos) fosse salazarista, não me parece que ele ligasse a política. Quer maior prova disso do que a confiança que tinha em Mário Dionísio, JC? O Reitor trabalhou incansavelmente para construir um Liceu de grande qualidade de ensino, e fez dele o melhor do país. Contra factos não há argumentos. Invariavelmente, os alunos que se destacavam mais tarde nas faculdades, todas elas, os primeiros classificados em cada curso, vinham do Liceu de Camões. Onde a disciplina era férrea, sim senhor. Onde a exigência era absoluta. Onde uma média de 14 ou 15 equivalia a uma média de 16 ou 17 em qualquer outro liceu de Lisboa.

Eu era aluna de Quadro de Honra. Como a maior parte dos meus leitores é mais nova, explico que se entrava para o Quadro de Honra com média superior a 14. Estava permanentemente afixado no átrio da entrada, a cada período os jornais publicavam o Quadro de Honra dos vários liceus, e figurar nele era motivo de um imenso orgulho.

Por tudo isto, JC, a seguir ao 25 de Abril e à bandalheira generalizada que se estabeleceu, o Liceu de Camões foi, de todos, o que menos foi abalado. Mesmo depois da revolução, nunca nos teria passado pela cabeça ser incorrectos com um professor. Éramos irrequietos, éramos tagarelas (éramos crianças, pronto!), sim. Mas ser malcriado com um professor teria sido coisa abominável no nosso código de honra.

Eu, no quinto ano (e já depois do 25 de Abril, portanto), estive em risco de ter de ir a exame se tivesse um segundo medíocre em comportamento; a média de dispensa era de 12, eu tinha 16, mas até poderia ter 20, com dois medíocres em comportamento ninguém me livraria do exame. O mesmo aconteceu com os meus grandes amigos Clara e João Viegas, também com média folgadíssima para a dispensa, também em risco de terem de ir a exame. E porquê? Porque éramos irrequietos nas aulas. Lembro-me de a Professora de Inglês desse ano ter dito num conselho de turma que o nosso problema era a dispersão. Como aprendíamos muito depressa, a seguir desligávamos e dispersávamo-nos. Provavelmente tinha alguma razão, mas tendo a achar que era mesmo a nossa personalidade extrovertida e comunicativa que nos metia em sarilhos.

Vergílio Ferreira, o grande Vergílio Ferreira, mudou-me de lugar no 6.º ano, já eu tinha 15 anos, porque não parava de tagarelar. Desterrou-me para uma carteira isolada, sem qualquer hipótese de conversa com os vizinhos — o que nunca influiu negativamente nas notas que me deu nos pontos. No ano seguinte viria a almoçar frequentemente com ele no refeitório, e conversávamos muito. Um dia, já nem sem me lembro do que estávamos a falar, saiu-se com esta tirada, que guardo como coisa preciosa:

— Gosto de falar contigo, és uma rapariguinha cativante, de paixões, com uma concepção interessante do mundo. Mas nas aulas eras simplesmente insuportável!

Diz o JC, no comentário que aqui deixou, que havia por lá a professorar meia dúzia de intelectuais de prestígio. Havia, sim, e já referi o maior de todos. Mas há muitos outros, anónimos, que dedicaram a sua vida ao ensino e cujos nomes não parecem nos jornais. Com três desses nomes tive a alegria de estar na sexta-feira. A Dr.ª Maria Helena Teixeira Ferreira, Mestra notável, ríspida, de humor cortante — se o meu português falado e escrito ainda vai tendo alguma correcção, uns bons 80% são mérito dela. A Dr.ª Maria Antónia Borges, professora de História no 7.º ano, que galvanizou uma turma entorpecida pela nulidade de professor que tínhamos tido no ano anterior e, ao organizar-nos em grupos de trabalho, nos lançou numa competição feroz e apaixonada pela melhor nota. A Dr.ª Jacinta, professora de Inglês do 6.º ano, que tinha feito o seu doutoramento em Oxford e era tão doida por Beatles como eu e o Duarte, os seus grandes favoritos. Só faltou a Dr.ª Teresa Monteiro, a quem devo Oscar Wilde e o Teatro, estava adoentada.

Os poucos anos que o JC me leva de avanço podem pesar. Na verdade eu era demasiado miúda, o Dr. Sérvulo Correia foi meu Reitor quando eu tinha 12 e 13 anos. Mas posso contar-lhe que na sexta-feira, cá fora, junto ao busto de Camões, outra grande Professora, a Dr.ª Cristina Esmeraldo (Inglês, o Ricardo e o Vítor beijam o chão que ela pisa), à conversa com o meu grupo, contou a insanidade que foi encontrar no Padre António Vieira quando para lá transitou, em 1975/76. Os alunos a quererem tratá-la por tu. «Olha, tratas-me por Sr.ª Dr.ª, por Setora, por Dr.ª Cristina... por tu é que não me tratas, que os meus filhos também não». Os alunos a atirarem professores ao lago, era o reinado dos manos Baltazar. Alunos com pistolas nas aulas... Abençoada disciplina do Camões, que fez com que fosse o liceu que menos avacalhou em todo o país!

O JC quer saber como foi comigo. Transcrevo aqui o original do meu testemunho. O editor pedia-me 10 a 15 linhas, foi bastante mais extenso. Havia limitações de paginação, mais de metade disto foi cortado, o que vem no livro é bastante mais curto. Mas notará, JC, que eu própria me insurjo com algumas coisas. Nomeadamente a expulsão de cinco meninas quando eu tinha 12 anos, que não se conseguiu provar, e de que só eu me lembrava. O João Lisboa restabeleceu-me a confiança na minha memória na sexta-feira: era verdade, sim. E eram mesmo cinco, e já lhes sabia os nomes, tinha falado com uma delas.

Não isento de defeitos, é o meu Liceu, ser-lhe-ei leal até à morte. Este é o meu testemunho:


Liceu de Camões, 1972-1977
Contar cinco anos de Liceu (sempre com maiúscula, é o nosso Liceu) entre 10 a 15 linhas é coisa impossível, que 10 ou 15 folhas, frente e verso, não chegariam nem para começar a contar a marca que esses cinco anos deixaram – pelo menos ao meu grupo de amigos, que continua a reunir em jantares trimestrais que são uma explosão de alegria, jantares em que voltamos todos, estranha viagem no tempo, aos 14 anos que um dia tivemos e a um qualquer intervalo grande, o de 20 minutos, sempre o mais apetecido. Os nossos jantares são um perpetuar de coisas que nem sempre se conciliam facilmente com as nossas vidas cada vez menos simples: alegria, inocência, optimismo, confiança. Até temos um blogue, que isto de ter uma forte ligação com o passado não nos impede de viver o presente em pleno, porque é no presente que se constrói a saudade futura.

«Éramos felizes e não sabíamos», dizia-me há tempos, num desses jantares, um desses amigos. Não foi aluno de Vergílio Ferreira, paciência. Eu sabia, tal como quase todos nós, os do meu grupo de nome propositadamente ridículo, Associação das Tágides Caducas e dos Adamastores Zarolhos, sabíamos.

Quase todos nós ingressámos no Liceu em 1972, quase todos na turma A, a dos mais novinhos, 12 anos acabados de fazer ou ainda incompletos. Meninas para um lado e meninos para outro, claro, a separação era rígida e qualquer infracção era severamente punida – a Luísa foi chamada ao gabinete da Vice-Reitora por ter sido vista a falar com um rapaz à porta do Liceu; era o irmão mais velho, como pôde provar, não houve sanções. Um curso de transição, apanhado em cheio pelo 25 de Abril, no ano lectivo seguinte.

Fiz parte do segundo ano em que o Liceu admitiu meninas. A bata branca era obrigatória, e que bonita era! Nivelava socialmente, naquela época os pré-adolescentes nada sabiam de marcas. Claro que havia algumas (poucas) meninas precoces, que levavam a bata debaixo do braço e só a vestiam à esquina do Liceu, as mesmas que levavam os (poucos) livros e cadernos na mão e já se
maquilhavam discretamente. Nós levávamos todos os livros e cadernos necessários para o dia de aulas, sábado incluído (só depois do 25 de Abril deixou de haver aulas ao sábado), em pastas robustas e pesadas, usávamos saias de pregas e meias de lã até ao joelho e mudávamos todos os dias de bata, que a coisa de sarja imaculadamente branca com que saíamos de casa era muito diferente da coisa vergonhosamente emporcalhada com que voltávamos, culpa dos jogos de mata nos intervalos – a linha divisória do nosso campo ainda continua nitidamente marcada no asfalto, ou lá como se chama aquilo (poupa-me, António! Sou uma mulher de Letras!), do pátio Norte, confirmei recentemente com um sorriso enternecido.

Até ao 25 de Abril as meninas tinham uma disciplina chamada Lavores, com a nobre missão de nos ensinar prendas de agulha uma hora por semana. No primeiro período cada turma confeccionava um enxoval de bebé completo, que era entregue no dia de Natal nas maternidades, para oferecer às crianças pobres (na altura ainda dizíamos aos pobrezinhos). Éramos totalmente destalentosas com a agulha (a minha querida Luísa, hoje distinta médica de Radioterapia do IPO, passou as aulas daquele período inteiro a embainhar uma fralda, o luxo das fraldas descartáveis ainda não existia), mas apresentámos um enxoval magnífico. Havia peças lindas, havia peças de sonho: mantas, botinhas, cueiros, camisinhas, casaquinhos, que as nossas mães, essas sim, eram muito dotadas e esmeraram-se.

Foi numa dessas aulas de Lavores, algures no princípio de 1973, que o Reitor entrou na sala e nos fez uma prelecção para explicar a recente expulsão de cinco meninas (ou três, é aqui que a memória me falha) do ano acima do nosso, em cujas carteiras foram encontrados panfletos e um livro de Manuel Alegre, O Canto e as Armas. Todas elas tinham 13 anos. Expulsas sem apelo nem agravo. À laia de parábola, o nosso Reitor comparou-se a um lavrador com um pomar de maçãs. Algumas das maçãs eram bichosas e havia que deitá-las fora, não fossem elas contaminar as outras. Claro que não percebemos nada da explicação, mas retive as palavras até hoje. Não quero denegrir a imagem do último Reitor que o nosso Liceu teve. Respeitava-o, e muito. Não lhe tinha medo, isso era coisa que viria a ter, irracionalmente, mais tarde, ao Dr. Salvador do Carmo, Professor de Físico-Químicas. Até cheguei a ter vintes em pontos dele, mas o terror era absoluto e incontrolável.

Os tempos que se seguiram ao 25 de Abril foram conturbados, o nosso Liceu foi, muito provavelmente, o menos afectado no país inteiro. Não tenho memória de uma falta de respeito a um professor. Éramos traquinas, éramos tagarelas, éramos irrequietos, malcriados nunca fomos. Tive alguns Professores (agora com uma maiúscula muito merecida) inesquecíveis, para com os quais tenho uma dívida de gratidão sem princípio nem fim. Só um desses Professores já partiu, mas é imortal e a Academia Nobel voltou a fazer asneira nunca lhe atribuindo o prémio, que ele merecia como nenhum outro português. Chamava-se Vergílio Ferreira e é para mim um enorme orgulho ter assistido às suas aulas. Os outros Professores a quem devo tanto que devo quase tudo do que sou hoje são três senhoras, que continuam vivas e cheias de saúde. A Dr.ª Maria Helena Teixeira Ferreira (Português). A Dr.ª Teresa Monteiro (Inglês, responsável pela minha paixão por Oscar Wilde e Teatro), a Dr.ª Maria Antónia Borges (História).

(porque evoca toda a pureza e inocência daqueles anos)

sábado, 17 de outubro de 2009

O cromo da TVI

O meu querido Liceu fez ontem cem anos. CEM.

Foi uma tarde emotiva. Houve o lançamento do livro. Liceu de Camões — 100 Anos 100  Testemunhos. O meu também lá figura, e nem percebo bem como nem porquê, entre os testemunhos de tantos nomes tão conceituados e importantes. Suponho que meramente por ser uma espécie de porta-voz do meu grupo, cuja ligação ao grande casarão cor-de-rosa em que vivemos anos tão felizes continua tão forte.

Já se sabe que não somos um liceu qualquer, somos O Liceu (até o Presidente da República frisou esse orgulho indisfarçável com que nos proclamamos antigos alunos daquela casa). E cumprir cem anos de gloriosa existência não é para todos, nem sequer para o nosso arqui-rival, aquele liceuzito ali para os lados da Estrela... Como tal, estavam estacionadas no pátio Sul carrinhas da RTP, da SIC e da TVI.

Esta última, fiel à rasquice que é a sua imagem de marca, não desmereceu.

Primeiro, para não afugentar a caça, pretextei fotografar a São e o Paulo, cuja dificuldade em  conter o riso era monstra, só não se percebe aqui por causa dos smileys (topem a carrinha, à esquerda, o verdadeiro objectivo).



A seguir, muito à vol d'oiseau, muito como quem não quer a coisa, desloquei a câmara, fiz zoom e...



Enquanto não chega Sua Excelência o Presidente da República, cá temos o ronceiro do repórter da TVI a serrar madeira, com uns pés que não devem ver água e sabão há vários dias. O tempore, o mores!


(isto requer alguma solenidade, bolas!)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Hitler reage à reportagem de Maitê Proença

Isto é demasiado bom para não ser divulgado. Despudoradamente roubado à Luna, que já o tinha roubado aos autores, do blogue Hype e Ranho — não conhecia; a explorar. Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão, não é o que diz o povo?

As cenas são tiradas de Downfall (no original Der Untergang), filme de 2004 nomeado para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Que tenho, pois está claro. E que recomendo vivamente a todos.

Espero que riam tanto como eu ri.

domingo, 11 de outubro de 2009

Como alargar sapatos apertados

Curiosamente, este filme foi-me enviado por e-mail por um homem, mas apressei-me a reencaminhá-lo para tudo o que era mulherio. Aparentemente, a Kitty Fane não recebeu e acaba de escrever sobre o martírio que uma saída nocturna foi para os seus pobres pés.

O truque parece-me convincente, mas ainda não experimentei. Tenho ali uns sapatos azuis-escuros da Dior, lindos que até dói, para aí com uns 16 ou 17 anos, e que estão novos porque me magoam horrores, das poucas vezes que os calcei só os aguentei por escassas horas. Acho que é com eles que vou fazer a experiência.