
Há um teatro em Central Park, o Delacorte Theater, que pertence ao célebre Public Theater,
off Broadway, onde há sete anos, na primeiríssima noite, vimos a nossa querida menina
Elaine Stritch no seu
At Liberty que havia de lhe dar um havia muito merecido Tony que sempre lhe tinha fugido. Fecho os olhos e ainda a vejo, a figurinha elegantíssima aos 75 anos que tinha na época, uma camisa de seda branca e
collants pretos numas pernas ainda invejáveis. Ainda rio só de lembrar a abertura, ela sempre com aquele ar mal dispostucho que é seu apanágio, a resmungar «
It's like the prostitute said: it's not the work; it's the stairs».
At Liberty viria a transitar para a Broadway e a ser
the hot ticket in town, no ano seguinte foi para Londres e revimo-lo no querido Old Vic, ela sempre igual, aquele monstro de palco. Mas
Elaine Stritch merece um
post só seu (tal como Bea Arthur, por quem tenho autêntica adoração)...

Falava eu, antes da minha habitual dispersão (
get to the f***ing point!, diria o Vítor), do Delacorte Theatre, este maravilhoso anfiteatro a céu aberto (não pude fotografar enquanto lá estive, nunca antes tinha encontrado regras tão draconianas, se pegássemos na máquina ou no telefone nem que fosse para fotografar a pessoa ao nosso lado, confiscavam-nos o aparelho — e assistimos a isso, já no fim, toda a gente a dançar no palco e eu lavada em lágrimas, o que também é habitual, sempre com a sacramental pergunta bichanada ao Vítor: «Estou muito borrada?» É que não há maquilhagem que resista.
Pois, dizia eu
(vamos ver se é desta e me deixo de floreados), o Delacorte Theatre tem todos os Verões um festival chamado
Shakespeare in the Park. Apresentam uma peça de Shakespeare (este ano é
Hamlet) e uma outra peça. Os bilhetes são diariamente oferecidos, é só ir para a bicha. Lindo para os locais, que vão dormir para lá — deixo à vossa imaginação o comprimento da bicha, que vai até New Jersey... Impraticável para nós, que temos de sair daqui com tudo muito organizadinho e previamente comprado. A nossa idolatrada menina Meryl Steep é lá que tem feito teatro, no ano passado fez uma
Mãe Coragem debaixo de uma chuva diluviana, haja mesmo coragem! Há sete anos fez uma
Gaivota, de Tchekov, que me põe a ranger os dentes de desespero por não ter assistido.
Como foi então que pudemos ver
Hair?, perguntarão vocês. É que o Vítor é um génio a descobrir coisas. É que o Vítor descobriu que se podia fazer um donativo ao teatro e se era recompensado com um bilhete. Dois donativos... dois bilhetes (com direito a escolha de data). Um bocadinho mais caro, é certo, mas há coisas que não têm preço. E posso desde já garantir-vos uma coisa: da próxima vez que nossa menina Meryl pisar aquele palco NÓS ESTAREMOS LÁ!! Não podemos morrer sem ter visto a maior actriz do mundo ao vivo!
Hair foi considerado a primeira
ópera rock (ai, meu Deus! esta expressão mostra bem a minha idade!).
Hair estreou no Public Theater em 1967, tinha eu seis anos, transitou depois para a Broadway, já em 1968, em Abril, e ficou famoso. O facto de ter tido uma coisa tão revolucionária como
full frontal nude não terá sido o menos importante dos factores no
buzz que a obra gerou. Sete anos mais tarde, no Inverno de 1975 (Fevereiro, creio) a companhia inicial esteve em Lisboa, no Monumental, fui ver duas vezes. Tinha catorze anos e nunca esqueci. O irmão mais velho de um amigo nosso tinha o disco, eu e a Clara passámos tardes a
tirar as letras, sabíamos todas as músicas de cor.
O Public Theater reencenou
Hair no ano passado, a comemorar os seus quarenta anos. Neste Verão foi
a outra peça do
Shakespeare in the Park. A produção é tão boa que diz-se que vai passar para a Broadway. À minha visão falta objectividade, porque toda eu fui e sou emoção. Chorei, chorei e chorei. Enternecida por aquela juventude assim captada, a juventude que fez a Convenção Democrática de Chicago, que apoiava Robert Kennedy e se revia em Martin Luther King — quantos sonhos desfeitos! A juventude que repudiava a guerra do Vietname, a juventude pura e inocente, imensamente comovedora. Uma juventude mais velha do que eu, que devia ter nascido, contas feitas, uns doze anos mais cedo.
Deixo-vos uma música de
Hair, uma das minhas eternas favoritas.
Frank Mills. Tirem-lhe as roupagens, e há coisas intemporais. Digam lá se isto não é mesmo uma cantiga de amigo... (
ai flores, ai flores de verde pinho, se sabedes novas do meu amigo...).
A interpretação de Allison Case deste
Frank Mills foi pura magia. Nova, nova, meu Deus, tão nova! Frágil e triste. E inocente, tão inocente! Naquela noite voei para trás no tempo e voltei a um tempo que, não sendo meu, sinto muito como meu. Quando sair o disco (e acredito que sim, que vai haver disco) estou compradora. Agora só vos posso oferecer a versão original, pela qual me apaixonei há mais de trinta anos. Ah! Já me ia esquecendo! Uma desconhecida chamada Diane Keaton integrava esta companhia inicial.