terça-feira, 16 de setembro de 2008

Sursum corda!

São imagens como esta que alimentam e fazem crescer ainda e sempre mais a minha imensa e incondicional admiração pela América e pelos Americanos.

Sábado, 13 de Setembro, em Anahuac, Texas. O furacão Ike acaba de passar, destruindo 98% das casas. Que fortaleza de ânimo é necessária para este gesto tão profundamente simbólico, tão carregado de significado!

Arregaça-se imediatamente as mangas. Trabalha-se, reconstrói-se. Não há tempo para lamentações, tanto há a fazer e a refazer.

E vêm-me à memória uns certos versos, magníficos, de Florbela Espanca:

«Sobre um sonho desfeito erguer a torre
Doutro sonho mais alto e, se esse morre,
Mais outro e outro ainda, toda a vida!


Que importa que nos vençam desenganos,

Se pudermos contar os nossos anos
Assim como degraus duma subida?»

Estive nos Estados Unidos um mês depois do horror que foi o 11 de Setembro. Nova Iorque, Connecticut e Florida. Não havia montra, do mais humilde deli à mais requintada loja da Rua 57 ou da Quinta Avenida, que não ostentasse orgulhosa e desafiadoramente a bandeira americana. Não vi uma casa, no Connecticut ou na Florida, que não tivesse a sua bandeira desfraldada.

Há quatro anos, aquando do furacão Frances, estava em Miami, onde ele ameaçava aterrar. Acabou por embater mais a norte, mas fez muitos estragos, ainda assim. Quando pudemos finalmente sair do hotel, a actividade por todo o lado era febril: limpava-se, reparava-se, tentava-se retomar a normalidade o mais depressa possível.

Temos tanto a aprender com a América e com os Americanos!


sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Aftermath: The Falling Man

É isto que vou ver agora. Um documentário de uma hora e onze minutos sobre uma fotografia que chocou o mundo.



quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Generosidade, bondade, grandeza de alma...

Nunca poderei deixar passar esta data em branco. Ano após ano, lembro-me. Aquilo que pressentia, como disse ao Vítor poucas horas depois (e foi por mim que ele soube da tragédia a acontecer na cidade que tanto amamos), concretizou-se. As histórias individualizadas que viriam mais tarde a lume fizeram tudo ainda mais real, mais doloroso. Mas também maior de significado.

Esta é a linda Roselle, que se recusou a abandonar Michael Hingson, o seu dono cego, quando ele, encurralado no 78.º andar de uma das torres, a libertou para que ela pudesse escapar com vida. Um gesto de amor, o dele. Recompensado com outro, que amor com amor se paga. Para Roselle, toda generosidade, bondade, grandeza de alma, AMOR, deixá-lo ali estava fora de questão. Atravessando cenários de horror que nem podemos imaginar, puxou-o para baixo, para a luz, para a vida, ao longo da via sacra que devem ter sido aqueles lances e mais lances de escadas, intermináveis de medo e angústia, SETENTA E OITO andares.

Estes são os meus heróis mais queridos, ainda antes dos agentes do NYPD e do NYFD, aqueles para quem vai todo o meu coração.

«There were plenty of dogs to make Lassie proud on that day — so many that there weren't nearly enough gifts, medals and words of praise to go around. But at an honors ceremony on March 5, the PDSA Dickin Medal and Britain's highest respects were paid to guide dogs Roselle and Salty (Dorado), who led their humans (Michael Hingson, left, and Omar Rivera, center) down the frenzied stairwells to safety just minutes before the towers fell. On behalf of all search and rescue dogs who lent their senses, Apollo and NYPD partner Officer Peter Davis, right, accepted the PDSA Dickin Medal, which is "the highest honor Britain can bestow on any animal in time of conflict or in the face of extreme danger," according to spokesperson Marilyn Rydström. The coveted award is the animals' equivalent of the Victoria Cross.» — vale a pena ler tudo aqui, ver as fotografias destes heróis, nem queiram imaginar o que isto me comoveu.

«Deixai vir a Mim as criancinhas, é delas o reino dos Céus», disse o Salvador aos Apóstolos. Aposto o que quiserem, também incluía os animais. Só podia. Ninguém mais merecedor.



quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Prioridades

1. Visitar o blogue da CoRa como ele merece e sem desesperar por demorar coisa de vinte minutos a carregar (e mesmo assim com erros, que raio de problema); isto cá em casa, que no Colosso é coisa impossível...

2. Concluir um certo trabalho para o Rafeiro.

3. Repor as fotogafias que o (...) do Blogger me apagou. Dezenas...

4. Mandar uma certa música à Luna, a propósito do seu «I guess this is goodbye» de hoje.

5. Contar a história, há muito prometida, do meu encontro com Dame Vanessa Redgrave. Já lá vão quase dois meses.

Enquanto não as concretizo... estou toda entregue ao deleite da minha prioridade maior: dar todo o mimo do mundo a Messalina e Agripina. Os meus dias de trabalho são longos, muito longos, e quando chego a casa... há sempre coisas que me são bem mais apetecíveis do que sentar-me frente ao computador.

domingo, 7 de setembro de 2008

Hair


Há um teatro em Central Park, o Delacorte Theater, que pertence ao célebre Public Theater, off Broadway, onde há sete anos, na primeiríssima noite, vimos a nossa querida menina Elaine Stritch no seu At Liberty que havia de lhe dar um havia muito merecido Tony que sempre lhe tinha fugido. Fecho os olhos e ainda a vejo, a figurinha elegantíssima aos 75 anos que tinha na época, uma camisa de seda branca e collants pretos numas pernas ainda invejáveis. Ainda rio só de lembrar a abertura, ela sempre com aquele ar mal dispostucho que é seu apanágio, a resmungar «It's like the prostitute said: it's not the work; it's the stairs». At Liberty viria a transitar para a Broadway e a ser the hot ticket in town, no ano seguinte foi para Londres e revimo-lo no querido Old Vic, ela sempre igual, aquele monstro de palco. Mas Elaine Stritch merece um post só seu (tal como Bea Arthur, por quem tenho autêntica adoração)...

Falava eu, antes da minha habitual dispersão (get to the f***ing point!, diria o Vítor), do Delacorte Theatre, este maravilhoso anfiteatro a céu aberto (não pude fotografar enquanto lá estive, nunca antes tinha encontrado regras tão draconianas, se pegássemos na máquina ou no telefone nem que fosse para fotografar a pessoa ao nosso lado, confiscavam-nos o aparelho — e assistimos a isso, já no fim, toda a gente a dançar no palco e eu lavada em lágrimas, o que também é habitual, sempre com a sacramental pergunta bichanada ao Vítor: «Estou muito borrada?» É que não há maquilhagem que resista.

Pois, dizia eu (vamos ver se é desta e me deixo de floreados), o Delacorte Theatre tem todos os Verões um festival chamado Shakespeare in the Park. Apresentam uma peça de Shakespeare (este ano é Hamlet) e uma outra peça. Os bilhetes são diariamente oferecidos, é só ir para a bicha. Lindo para os locais, que vão dormir para lá — deixo à vossa imaginação o comprimento da bicha, que vai até New Jersey... Impraticável para nós, que temos de sair daqui com tudo muito organizadinho e previamente comprado. A nossa idolatrada menina Meryl Steep é lá que tem feito teatro, no ano passado fez uma Mãe Coragem debaixo de uma chuva diluviana, haja mesmo coragem! Há sete anos fez uma Gaivota, de Tchekov, que me põe a ranger os dentes de desespero por não ter assistido.

Como foi então que pudemos ver Hair?, perguntarão vocês. É que o Vítor é um génio a descobrir coisas. É que o Vítor descobriu que se podia fazer um donativo ao teatro e se era recompensado com um bilhete. Dois donativos... dois bilhetes (com direito a escolha de data). Um bocadinho mais caro, é certo, mas há coisas que não têm preço. E posso desde já garantir-vos uma coisa: da próxima vez que nossa menina Meryl pisar aquele palco NÓS ESTAREMOS LÁ!! Não podemos morrer sem ter visto a maior actriz do mundo ao vivo!

Hair foi considerado a primeira ópera rock (ai, meu Deus! esta expressão mostra bem a minha idade!). Hair estreou no Public Theater em 1967, tinha eu seis anos, transitou depois para a Broadway, já em 1968, em Abril, e ficou famoso. O facto de ter tido uma coisa tão revolucionária como full frontal nude não terá sido o menos importante dos factores no buzz que a obra gerou. Sete anos mais tarde, no Inverno de 1975 (Fevereiro, creio) a companhia inicial esteve em Lisboa, no Monumental, fui ver duas vezes. Tinha catorze anos e nunca esqueci. O irmão mais velho de um amigo nosso tinha o disco, eu e a Clara passámos tardes a tirar as letras, sabíamos todas as músicas de cor.

O Public Theater reencenou Hair no ano passado, a comemorar os seus quarenta anos. Neste Verão foi a outra peça do Shakespeare in the Park. A produção é tão boa que diz-se que vai passar para a Broadway. À minha visão falta objectividade, porque toda eu fui e sou emoção. Chorei, chorei e chorei. Enternecida por aquela juventude assim captada, a juventude que fez a Convenção Democrática de Chicago, que apoiava Robert Kennedy e se revia em Martin Luther King — quantos sonhos desfeitos! A juventude que repudiava a guerra do Vietname, a juventude pura e inocente, imensamente comovedora. Uma juventude mais velha do que eu, que devia ter nascido, contas feitas, uns doze anos mais cedo.

Deixo-vos uma música de Hair, uma das minhas eternas favoritas. Frank Mills. Tirem-lhe as roupagens, e há coisas intemporais. Digam lá se isto não é mesmo uma cantiga de amigo... (ai flores, ai flores de verde pinho, se sabedes novas do meu amigo...).

A interpretação de Allison Case deste Frank Mills foi pura magia. Nova, nova, meu Deus, tão nova! Frágil e triste. E inocente, tão inocente! Naquela noite voei para trás no tempo e voltei a um tempo que, não sendo meu, sinto muito como meu. Quando sair o disco (e acredito que sim, que vai haver disco) estou compradora. Agora só vos posso oferecer a versão original, pela qual me apaixonei há mais de trinta anos. Ah! Já me ia esquecendo! Uma desconhecida chamada Diane Keaton integrava esta companhia inicial.


Frank Mills
I met a boy called Frank Mills
On September twelfth right here
In front of the Waverly
But unfortunately
I lost his address

He was last seen with his friend,
A drummer, he resembles George Harrison of the Beatles
But he wears his hair
Tied in a small bow at the back

I love him but it embarrasses me
To walk down the street with him
He lives in Brooklyn somewhere
And wears this white crash helmet

He has gold chains on his leather jacket
And on the back is written the names
Mary
And Mom
And Hell's Angels

I would gratefully
Appreciate it if you see him tell him
I'm in the park with my girlfriend
And please

Tell him Angela and I
Don't want the two dollars back
Just him!

sábado, 6 de setembro de 2008

Querido, querido Pavarotti!

Faz hoje um ano que partiu. A Gota de Ran Tan Plan faz hoje dois anos, mas que importância tem isso? O dia 6 de Setembro agora vem-me sempre à memória associado à morte do gigantesco Luciano Pavarotti. Larger than life... Maior do que a vida, sim. Por ser maior do que a morte, ao continuar tão vivo na voz milagrosa que os discos nos deixaram.

É por a música ser na minha vida um imenso amor, talvez o maior de todos (livros e bichos são sérios rivais, tão sérios que não sei a qual dar a primazia), que amo tanto a voz de Pavarotti e até sou capaz de fechar os olhos às tristes coisas que fez nos últimos anos — reencontro-o sempre nos discos e reconcilio-me com ele.

Escolhi pôr aqui hoje, para lembrar a alguns e para apresentar a quase todos, a Bohème mais mítica de todas as Bohèmes, a de Karajan. Pavarotti é Rodolfo, o poeta. A sua amiga querida de toda a vida (quase a sua Teresa, se ele se chamasse Vítor), a maravilhosa Mirella Freni, é Mimì. Já falei desta cena há quase um ano, aqui — leiam, se vos apetecer: esta é provavelmente a mais arrebatadora cena de amor da história da Ópera e capta essa coisa fugaz que é o nascimento de um amor. Primeiro ele, a seguir ela, em duas árias sublimes. Depois as vozes dos dois unem-se num dueto de felicidade tão grande que parece impossível. Todos queremos um amor assim, por muito mal que possa acabar.

Dois breves apontamentos:

1. Sobre a primeira frase da ária de Rodolfo, Che Gelida Manina, lembro-me de ter lido há muitos anos, na autobiografia de Pavarotti, sobre a dificuldade extrema de a cantar.

2. Na ária de Mimì (Sì. Mi Chiamano Mimì) a minha adorada Mirella Freni canta como mais ninguém a frase mágica «Ma, quando vien lo sgelo, il primo sole è mio

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

I NY

É uma paixão, pronto. Uma paixão que só não se reacende quando volto... porque está sempre presente, sem nunca se extinguir.

Cinco dias são muito pouco para Nova Iorque, tão inesgotável a cidade é. Um exemplo: queríamos ir à Frick Collection, mas descobrimos entetanto que estava uma grande exposição de Dalí (que adoramos) no MoMA. Mudança de planos, claro. A exposição, afinal, revelou-se um tanto decepcionante. Mas esse é o género de conclusão a que apenas se pode chegar... indo ver.

Na primeira manhã, apesar de na véspera me ter deitado tardíssimo (comemoração dos meus anos, aproveito por agradecer a todos os que me telefonaram ou mandaram mensagens), nada me conseguiria manter na cama. Às sete horas já deambulava pelas ruas, feliz só por estar ali. Feliz? Muito mais do que meramente feliz: em estado de graça. Dei um longuíssimo passeio de mais de três horas, iniciado com a obrigatória paragem no Starbucks mais próximo, logo ao virar para a Rua 57. De café na mão — haverá muitas imagens mais nova-iorquinas? —, deambulei pelas ruas e avenidas, a alma em festa.

Foram cinco dias em que andámos quilómetros — de tal maneira que eu, rapariga previdente, e aproveitando as vantagens indiscutíveis das carteiras onde cabe este mundo e o outro, levava a postos as minhas sandálias de combate, descalçando as sandálias mais desconfortáveis mal saía do restaurante de arromba onde tínhamos ido almoçar ou jantar. Na fotografia ao lado, por exemplo, tirada na Broadway, já perto de Times Square, já estava com uns bons trinta quarteirões palmilhados desde o restaurante, o FA-BU-LO-SO Buddakan (espreitem e façam o tour, aparece no filme Sex & The City). Estes simpáticos membros do NYPD fizeram questão de posar comigo quando, enquanto esperava à porta do Starbucks que o Vítor trouxesse os cafés, perguntei se os podia fotografar. Nada disso! Um deles tomou-me logo a máquina e atirou-me para o meio dos colegas. Uns amores!

Cinco dias fantásticos, que voaram, em suma. Do teatro, das coisas que vi, falarei noutro dia. Agora ponho só aqui duas músicas que para mim e para o Vítor são o resumo mais que perfeito do que vivemos. E não só nesta viagem... O I've Loved These Days é muito, muito abrangente, e nele cabem também as outras três: as Montanhas Rochosas, Londres e Miami. A música diz-nos muito, dir-nos-á sempre muito, até por fazer parte do extraordinário Movin' Out, que tivemos o privilégio de ver há cinco anos, também em Nova Iorque, claro — seguramente o mais assombroso espectáculo de dança que vi em toda a minha vida, uma história dançada criada em redor das músicas de Billy Joel, coreografia da grande Twyla Tharp a ganhar um Tony. (o equivalente ao Oscar, para o Teatro). Inesquecível.