terça-feira, 26 de agosto de 2008

Vou ali e já venho...

Não há outro lugar no mundo onde me apeteça mais festejar os meus anos, já amanhã, do que na minha cidade bem-amada. Quanta saudade!

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

O grande incêndio de Lisboa

Faz hoje vinte anos. Parece impossível, tão depressa passaram, mas faz mesmo vinte anos que aconteceu.

Eu tinha saído de casa bastante mais cedo do que o costume, às oito horas já estava na Adília, a minha costureira, no Campo Pequeno, a provar um vestido cor-de-rosa (lindo!) que queria pôr no jantar dos meus anos, daí a dois dias. Cheguei ao escritório ainda antes das nove, e estranhei que o telefone já estivesse a tocar.

Era o V., pequeno com que me arrastava valentemente a asa e com quem eu não queria nada, por ser casado. Nem sequer lhe tinha dado o número de telefone, ele moveu céus e terra para o arranjar, acabou por ser o Zé Calvário a dar-lho. O V. telefonava com o pretexto parvo de saber se eu estava bem, por causa do incêndio. Qual incêndio? — estranhei eu. Foi por ele que fiquei a saber do inferno que era a Baixa a essa hora.

À noite fui jantar com o Vítor e fomos espreitar aquele cenário de desolação absoluta. O Chiado não mais voltaria a ser igual. Eduardo Martins, Grandela (que era do pai da que viria a ser sogra da minha irmã, a querida Tia Vicas, que Deus tem, era Grandella de apelido), os Grandes Armazéns do Chiado, A Pompadour, a Ferrari, a Valentim de Carvalho, a Melodia, onde na adolescência eu me fechava numa cabine com a minha amiga Clara a ouvir uma pilha de discos, saindo depois sem comprar nada... tudo destruído. Destruída também a lindíssima Casa Batalha, a loja mais antiga de Lisboa, que datava de meados do século XVII...

No dia seguinte um jornal publicou um mapa da zona, identificando todas as lojas que tinham ardido. Eu e a minha irmã suspirámos de alívio quando descobrimos que a nossa adorada Luvaria Ulisses tinha sido poupada.

Em 1989, um ano depois, passei a trabalhar na Baixa, na Rua Augusta. Subi e desci muitas vezes as escadas metálicas que durante muito tempo fizeram a ligação entre a Rua do Carmo e a Rua Garrett. E espreitava sempre, com um aperto no coração, o pouco que se conseguia ver das ruínas, que tinham sido tapadas. Nem lembro ao certo quanto tempo terão durado as obras, mas juraria que foram quase dez anos.


domingo, 24 de agosto de 2008

Lições de vida

É sabido que eu travo sempre relações de amizade com toda a bicharada da vizinhança. Conheço-lhes os nomes e sei-lhes as histórias.

Ainda me lembro com especial afecto de dois grandes amigos que fiz quando vivia na Rio de Janeiro, o Rock e o Kaiser. O Rock era um bulldog encantador que bebia os ares por mim. Como consequência, o dono tentava evitar-me mal me avistava... é que persuadir um bulldog a afastar-se do seu objectivo está longe de ser tarefa fácil, é bom não esquecer que aquelas mandíbulas têm 800 quilos de força de tracção... O Rock amava-me, decididamente. Não foram poucas as vezes que me atirou ao chão, tão exuberante era nas suas demonstrações de afecto...

O Kaiser era um pastor belga lindo de cortar a respiração, imponente de porte, educadíssimo. No Apetite, o pronto a comer do prédio ao lado, o Kaiser só entrava se o dono autorizasse, e vinha cumprimentar-nos de aperto de mão ("Kaiser, cumprimenta as senhoras", dizia o dono...). A Nonô, a dona, servia-nos as melhores madalenas de Lisboa, às vezes eu oferecia-lhe uma, se o dono deixasse (era raro, que os cães não devem comer doces). Depois de engolida em duas dentadas, o Kaiser vinha agradecer: encostava-se a mim e lambia-me a mão. Mas o Kaiser tinha uma paranóia: apanhar folhas de árvores. Sim, leram bem. O Kaiser saltava na vertical a uma altura assombrosa, as árvores da avenida ostentavam nos ramos mais baixos uma boa quantidade de folhas ratadas. A minha irmã, quando lhe contei a história, achou que eu estava a inventar. Achou. Porque um dia, quando íamos a entrar juntas em minha casa, assistiu. E ficou parva. E saiu-se, claro, com a nossa célebre sigla SNVNA (se não visse não acreditava).

Tudo isto para vos falar do Quico, que conheci ontem, à porta da papelaria. O Quico é um cão de simpatia e alegria de viver transbordantes. O Quico ficou meu amigo até à morte e, de caminho, lambuzou-me toda. Eu, claro, adorei.

O Quico só tem três patas, falta-lhe a esquerda dianteira — eu digo o bracinho, mas isso é coisa minha... A dona contou-me a história. O Quico não nasceu assim. O Quico tem quatro anos. O Quico foi atropelado (por culpa do dono, que se distraiu) quando tinha dez meses. Passaram-lhe quatro carros por cima. O veterinário aconselhou a solução misericordiosa, dono e dona recusaram. Mas o bracinho esquerdo teve mesmo de ser amputado.

O bracinho esquerdo não faz falta nenhuma ao Quico. Vejam só a bela postura dele! O Quico é um cãozinho adorável e feliz, muito feliz. O Quico, de caminho, deu-me uma bela lição de vida, que recebi com toda a humildade.

Relativizar, eis um belo verbo, um verbo que conjugo muitas vezes. Ou que tento conjugar...

Há uns anos eu e o Vítor fizemos uma viagem operática a Munique, para ver e ouvir nossa menina Gruberova (Edita Gruberova, a voz maravilhosa que mais brilhantemente recolheu o testemunho da grande Dame Joan Sutherland) nos Puritanos. De caminho ainda vimos um Don Carlo magnífico, Zubin Metha a três metros de nós no fosso da orquestra. A estada foi de uns cinco ou seis dias e era Fevereiro, estávamos em pleno Inverno. Fomos a Dachau, o tristemente célebre campo de concentração. Não fiz uma única fotografia, e passámos lá um dia inteiro. Fotografar pareceu-me quase uma profanação, uma falta de respeito, um sacrilégio. Visitar um campo de concentração no Inverno lembra-nos ainda mais vivamente a dimensão do horror que ali aconteceu. Dachau estava coberto de neve, Dachau fica a cerca de vinte quilómetros de Munique. Munique regista sempre, no Inverno, temperaturas anormalmente baixas — mais baixas do que Vladivostok, se querem saber. Naquele dia estavam -14ºC. Embrulhados nos nossos quentíssimos casacos, protegidos com cachecóis, luvas e botas quentinhas e confortáveis, os pés forrados com dois pares de meias de lã, era impossível não lembrar que as pessoas que sofreram aquele calvário, com aquelas mesmas temperaturas, e foram milhões, tinham apenas a protegê-las um fino fato de riscas, toscos tamancos de madeira (nem sempre) e um magro cobertor, infestado de piolhos, e frequentemente a partilhar com mais uma ou duas pessoas.

Ao voltar a casa, a meio da tarde, descobri que estava sem luz (tinha-me esquecido de pagar a conta). Àquela hora já não podia ir pagar e voltar a ter luz nesse dia. Apetecia-me tremendamente rever (pela enésima vez) Música no Coração, porque tínhamos passado um dia em Salzburg, a cidade mágica a que hei-de ir no Verão — vi-a debaixo de um espesso manto de neve e até dei um homérico trambolhão nos Mirabel Gardens (isto para não falar do banho de neve que sofri junto do pavilhão onde é cantado Sixteen Going On Seventeen, quando o Vítor, por pura maldade, abanou um ramo de árvore em cima de mim) .

Não tinha luz! A chatice, o drama, o horror! Não podia rever Música no Coração! Não podia ouvir música! Mas depois lembrei-me de Dachau, dois dias antes... E tive vergonha.

Relativizar, meus amigos. Acendi velas, muitas velas, a casa parecia um centro de macumba, entretive-me com a leitura. Revi Música no Coração no dia seguinte, ouvi música no dia seguinte.

Desde então tento sempre relativizar. O Quico, ontem, mostrou-me uma vez mais como isso é importante. O Quico tem lugar cativo no meu coração.

P.S. Bem sei que, em bom Português, os nomes de animais devem ser grafados em itálico. Se estiver a rever um livro, respeito a regra, mas nunca a aplico na minha escrita pessoal. Era só o que faltava!

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Quem te viu e quem te vê...

Gorbachev, nova aquisição publicitária da Louis Vuitton, passa de limousine junto ao Muro de Berlim. Há quem fale de texto subversivo naquele coiso pousado no saco, eu fico-me pelo bizarro da imagem.

«Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.»

Camões


domingo, 17 de agosto de 2008

História de um leão

É uma história verdadeira, conheço-a há muitos anos, mais de trinta. Estas imagens continuam a fazer-me chorar tanto como quando as vi pela primeira vez na televisão, num documentário que nunca esqueci, teria uns treze ou catorze anos. Mais tarde, muito mais tarde, viria a procurá-lo e encontrei-o na Amazon, ainda em VHS, e apressei-me a encomendá-lo. Vejam primeiro o filme (terão de fazer o favor de parar a música na barra lateral, é só carregar no botãozinho), a seguir conto-vos o resto da história.




Quando viajou para o Quénia, para ser devolvido à vida selvagem, Christian foi entregue a George Adamson (que aparece no filme, em tronco nu e calções, e está na capa ao lado). George tinha sido casado com Joy Adamson e juntos tinha recolhido e criado uma leoazinha órfã, a que chamaram Elsa, e que viria a ser mundialmente famosa — a sua história é-nos contada no filme Born Free (em português Uma Leoa Chamada Elsa). Tanto Joy como George seriam assassinados; ela em 1980, por um antigo empregado, ele em 1989, por caçadores furtivos, quando acorreu em defesa de uma turista.

O filme de onde este maravilhoso excerto foi retirado chama-se Christian, The Lion at World's End, e foi realizado por Bill Travers, que deu vida à personagem de George Adamason em Born Free. Podem ler mais sobre Christian aqui, vale a pena.

Christian bebé, ainda em Londres
A fazer asneiras, como qualquer gatinho

Explicação necessária: a banda sonora de Born Free, assinada pelo grande John Barry, mereceu dois Oscars em 1966, incluindo melhor canção. Tenho o original e mais duas versões, esta é a minha favorita. E recuso-me a ouvir I Will Always Love You, que acompanha o filme do Youtube, cantado por Whitney Houston. A música é de Dolly Parton e ninguém a canta como ela, ponto final.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A estupidez é democrática e universal...

Aliás, pensando bem, é provavelmente a mais democrática e universal de todas as características humanas.

Nas respostas a esta obtusa e apreensiva questão há de tudo, até incuráveis optimistas que acham que a Jessica B está a brincar. Eu não estaria tão segura...

Nem preciso de referir o brilho que é a ortografia — também temos muito disso deste lado do Atlântico, a blogosfera, por si só, é diariamente uma fonte inesgotável a comprová-lo. Outra característica democrática e universal, portanto.

(Lido aqui).

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Sei o que fizeste no Verão passado...

«Com a chegada das férias, o filme para muitos animais continua a ser o mesmo: o abandono. Com o aumento desta prática cruel, torna-se cada vez mais difícil conseguirmos ajudar todas as vítimas.

Denuncie às autoridades os casos de abandono. Porque não são só eles que sabem o que lhes acontece todos os Verões.»

http://www.uniaozoofila.org/

Obrigada, David, por lembrar. Nunca serão demasiadas vezes.