domingo, 24 de agosto de 2008

Lições de vida

É sabido que eu travo sempre relações de amizade com toda a bicharada da vizinhança. Conheço-lhes os nomes e sei-lhes as histórias.

Ainda me lembro com especial afecto de dois grandes amigos que fiz quando vivia na Rio de Janeiro, o Rock e o Kaiser. O Rock era um bulldog encantador que bebia os ares por mim. Como consequência, o dono tentava evitar-me mal me avistava... é que persuadir um bulldog a afastar-se do seu objectivo está longe de ser tarefa fácil, é bom não esquecer que aquelas mandíbulas têm 800 quilos de força de tracção... O Rock amava-me, decididamente. Não foram poucas as vezes que me atirou ao chão, tão exuberante era nas suas demonstrações de afecto...

O Kaiser era um pastor belga lindo de cortar a respiração, imponente de porte, educadíssimo. No Apetite, o pronto a comer do prédio ao lado, o Kaiser só entrava se o dono autorizasse, e vinha cumprimentar-nos de aperto de mão ("Kaiser, cumprimenta as senhoras", dizia o dono...). A Nonô, a dona, servia-nos as melhores madalenas de Lisboa, às vezes eu oferecia-lhe uma, se o dono deixasse (era raro, que os cães não devem comer doces). Depois de engolida em duas dentadas, o Kaiser vinha agradecer: encostava-se a mim e lambia-me a mão. Mas o Kaiser tinha uma paranóia: apanhar folhas de árvores. Sim, leram bem. O Kaiser saltava na vertical a uma altura assombrosa, as árvores da avenida ostentavam nos ramos mais baixos uma boa quantidade de folhas ratadas. A minha irmã, quando lhe contei a história, achou que eu estava a inventar. Achou. Porque um dia, quando íamos a entrar juntas em minha casa, assistiu. E ficou parva. E saiu-se, claro, com a nossa célebre sigla SNVNA (se não visse não acreditava).

Tudo isto para vos falar do Quico, que conheci ontem, à porta da papelaria. O Quico é um cão de simpatia e alegria de viver transbordantes. O Quico ficou meu amigo até à morte e, de caminho, lambuzou-me toda. Eu, claro, adorei.

O Quico só tem três patas, falta-lhe a esquerda dianteira — eu digo o bracinho, mas isso é coisa minha... A dona contou-me a história. O Quico não nasceu assim. O Quico tem quatro anos. O Quico foi atropelado (por culpa do dono, que se distraiu) quando tinha dez meses. Passaram-lhe quatro carros por cima. O veterinário aconselhou a solução misericordiosa, dono e dona recusaram. Mas o bracinho esquerdo teve mesmo de ser amputado.

O bracinho esquerdo não faz falta nenhuma ao Quico. Vejam só a bela postura dele! O Quico é um cãozinho adorável e feliz, muito feliz. O Quico, de caminho, deu-me uma bela lição de vida, que recebi com toda a humildade.

Relativizar, eis um belo verbo, um verbo que conjugo muitas vezes. Ou que tento conjugar...

Há uns anos eu e o Vítor fizemos uma viagem operática a Munique, para ver e ouvir nossa menina Gruberova (Edita Gruberova, a voz maravilhosa que mais brilhantemente recolheu o testemunho da grande Dame Joan Sutherland) nos Puritanos. De caminho ainda vimos um Don Carlo magnífico, Zubin Metha a três metros de nós no fosso da orquestra. A estada foi de uns cinco ou seis dias e era Fevereiro, estávamos em pleno Inverno. Fomos a Dachau, o tristemente célebre campo de concentração. Não fiz uma única fotografia, e passámos lá um dia inteiro. Fotografar pareceu-me quase uma profanação, uma falta de respeito, um sacrilégio. Visitar um campo de concentração no Inverno lembra-nos ainda mais vivamente a dimensão do horror que ali aconteceu. Dachau estava coberto de neve, Dachau fica a cerca de vinte quilómetros de Munique. Munique regista sempre, no Inverno, temperaturas anormalmente baixas — mais baixas do que Vladivostok, se querem saber. Naquele dia estavam -14ºC. Embrulhados nos nossos quentíssimos casacos, protegidos com cachecóis, luvas e botas quentinhas e confortáveis, os pés forrados com dois pares de meias de lã, era impossível não lembrar que as pessoas que sofreram aquele calvário, com aquelas mesmas temperaturas, e foram milhões, tinham apenas a protegê-las um fino fato de riscas, toscos tamancos de madeira (nem sempre) e um magro cobertor, infestado de piolhos, e frequentemente a partilhar com mais uma ou duas pessoas.

Ao voltar a casa, a meio da tarde, descobri que estava sem luz (tinha-me esquecido de pagar a conta). Àquela hora já não podia ir pagar e voltar a ter luz nesse dia. Apetecia-me tremendamente rever (pela enésima vez) Música no Coração, porque tínhamos passado um dia em Salzburg, a cidade mágica a que hei-de ir no Verão — vi-a debaixo de um espesso manto de neve e até dei um homérico trambolhão nos Mirabel Gardens (isto para não falar do banho de neve que sofri junto do pavilhão onde é cantado Sixteen Going On Seventeen, quando o Vítor, por pura maldade, abanou um ramo de árvore em cima de mim) .

Não tinha luz! A chatice, o drama, o horror! Não podia rever Música no Coração! Não podia ouvir música! Mas depois lembrei-me de Dachau, dois dias antes... E tive vergonha.

Relativizar, meus amigos. Acendi velas, muitas velas, a casa parecia um centro de macumba, entretive-me com a leitura. Revi Música no Coração no dia seguinte, ouvi música no dia seguinte.

Desde então tento sempre relativizar. O Quico, ontem, mostrou-me uma vez mais como isso é importante. O Quico tem lugar cativo no meu coração.

P.S. Bem sei que, em bom Português, os nomes de animais devem ser grafados em itálico. Se estiver a rever um livro, respeito a regra, mas nunca a aplico na minha escrita pessoal. Era só o que faltava!

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Quem te viu e quem te vê...

Gorbachev, nova aquisição publicitária da Louis Vuitton, passa de limousine junto ao Muro de Berlim. Há quem fale de texto subversivo naquele coiso pousado no saco, eu fico-me pelo bizarro da imagem.

«Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.»

Camões


domingo, 17 de agosto de 2008

História de um leão

É uma história verdadeira, conheço-a há muitos anos, mais de trinta. Estas imagens continuam a fazer-me chorar tanto como quando as vi pela primeira vez na televisão, num documentário que nunca esqueci, teria uns treze ou catorze anos. Mais tarde, muito mais tarde, viria a procurá-lo e encontrei-o na Amazon, ainda em VHS, e apressei-me a encomendá-lo. Vejam primeiro o filme (terão de fazer o favor de parar a música na barra lateral, é só carregar no botãozinho), a seguir conto-vos o resto da história.




Quando viajou para o Quénia, para ser devolvido à vida selvagem, Christian foi entregue a George Adamson (que aparece no filme, em tronco nu e calções, e está na capa ao lado). George tinha sido casado com Joy Adamson e juntos tinha recolhido e criado uma leoazinha órfã, a que chamaram Elsa, e que viria a ser mundialmente famosa — a sua história é-nos contada no filme Born Free (em português Uma Leoa Chamada Elsa). Tanto Joy como George seriam assassinados; ela em 1980, por um antigo empregado, ele em 1989, por caçadores furtivos, quando acorreu em defesa de uma turista.

O filme de onde este maravilhoso excerto foi retirado chama-se Christian, The Lion at World's End, e foi realizado por Bill Travers, que deu vida à personagem de George Adamason em Born Free. Podem ler mais sobre Christian aqui, vale a pena.

Christian bebé, ainda em Londres
A fazer asneiras, como qualquer gatinho

Explicação necessária: a banda sonora de Born Free, assinada pelo grande John Barry, mereceu dois Oscars em 1966, incluindo melhor canção. Tenho o original e mais duas versões, esta é a minha favorita. E recuso-me a ouvir I Will Always Love You, que acompanha o filme do Youtube, cantado por Whitney Houston. A música é de Dolly Parton e ninguém a canta como ela, ponto final.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

A estupidez é democrática e universal...

Aliás, pensando bem, é provavelmente a mais democrática e universal de todas as características humanas.

Nas respostas a esta obtusa e apreensiva questão há de tudo, até incuráveis optimistas que acham que a Jessica B está a brincar. Eu não estaria tão segura...

Nem preciso de referir o brilho que é a ortografia — também temos muito disso deste lado do Atlântico, a blogosfera, por si só, é diariamente uma fonte inesgotável a comprová-lo. Outra característica democrática e universal, portanto.

(Lido aqui).

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Sei o que fizeste no Verão passado...

«Com a chegada das férias, o filme para muitos animais continua a ser o mesmo: o abandono. Com o aumento desta prática cruel, torna-se cada vez mais difícil conseguirmos ajudar todas as vítimas.

Denuncie às autoridades os casos de abandono. Porque não são só eles que sabem o que lhes acontece todos os Verões.»

http://www.uniaozoofila.org/

Obrigada, David, por lembrar. Nunca serão demasiadas vezes.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Olá! Olá!

De Palm Beach para a blogosfera, uma alegre saudação...

Eis-me de volta. O efeito reparador das férias paradisíacas, em que descansei realmente, até parece ter-se volatilizado, tão cansada me sinto depois do interminável voo de regresso de Miami e da espera de mais de três horas, em Madrid, pelo voo de ligação. É uma sorte o jet lag não querer nada comigo, que amanhã é dia de trabalho. Já o Vítor, coitado, tem seguramente pela frente uns cinco ou seis dias de horários e sonos trocados.

Se não fossem as saudades medonhas de minhas Pinxejas (que me receberam muito friamente — Messy estava gélida comigo —, por certo querendo deixar claro que reprovam em absoluto que as tenha abandonado duas semanas), era para aqui (à esquerda) que eu voltava a correr, era daqui que não me apetecia mesmo nadinha ter saído...

Uma infinidade de leituras para pôr em dia, mesmo já tendo dado umas espreitadelas aos meus blogues favoritos no Google Reader. Nos próximos dias visitarei todos, para me pôr a par das novidades.

Obrigada aos que me comentaram na minha ausência, mesmo em posts antigos: para esses vai um beijo especial.

E, como estou acordada desde as sete da manhã de ontem (hora de lá), agora vou descansar. Tenho saudades do peso de Messalina a dormir em cima da minha anca, Agripina encostada à barriga ou instalada junto aos meus pés. Sim, sim, parece que já me perdoaram...

A música, aparentemente, não tem nada que ver. Só aparentemente. Impossível dissociá-la desta estada, tantas vezes a ouvimos.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

I Miami!

Uma estada de sonho que se aproxima do fim a passos largos, demasiado largos. Hoje, depois de um memoravel (desculpem a falta de acentos, teclado americano...) dia de praia, a agua a 32 graus — das mais quentes do mundo —, fomos ate ao Delano Hotel (vale a pena espreitar) e jantamos no meu adorado Blue Door, o meu restaurante favorito absoluto, ja ha uns anos que destronou o Asia de Cuba, de Londres, o meu anterior grande favorito.

Deixo-vos com as vistas do nosso terraco. Fotografias feitas na primeira manha, bem cedo, ainda antes das sete...

Do lado direito (Poente), o canal e, la ao fundo, a baixa de Miami...


Do lado esquerdo (Nascente), a praia a poucos metros e o Atlantico. Tanto Mar...

Beijos, muitos beijos a todos!