quarta-feira, 7 de maio de 2008

Messy on a Hot Tin Roof

Esta manhã, por volta das oito horas, estando na cozinha a tratar do pequeno-almoço... aconteceu a tragédia.

Messy (Messalina) andava por ali a cirandar. A manhã fresca lá fora convidava: a cozinha dá para as traseiras, é um 1.º andar e o rés-do-chão tem quintal, com um telhado de chapa ondulada a resguardá-lo. Há árvores e ouve-se o canto dos pássaros. De costas para a janela... ouvi de repente um bonk! agoirento. Numa prece silenciosa (Meu Deus! Faz com que ela não tenha saltado!), voltei-me. Tinha saltado, já não estava no parapeito. Passeava-se com prazer evidente pelo telhado de zinco, aventureira e cheia de vontade de fazer explorações.

A hora seguinte foi de desespero impotente para mim. É inútil tentar convencer um gato a fazer seja lá o que for - só condescende se estiver para aí virado. Tentei tudo. A súplica. A lisonja. O suborno. A autoridade. A ameaça. Messy ignorou-me olimpicamente, chegou ao desplante de se pôr a lavar-se meticulosamente de costas para mim, num desprezo ostensivo e calculado, enquanto eu tentava atraí-la com Kitbits (que ela adora!) e lhe implorava que se aproximasse. Está bem, abelha!...

Estivemos nisto mais de uma hora, eu completamente desvairada, de cabeça perdida, e já atrasadíssima para ir para o Colosso. Acabei por desistir, à hora do almoço tive de vir a casa tentar resgatá-la — sim, ficou lá fora a manhã inteira! Depois conto o resto da história...

Fica só este patético apontamento filmado do meu desespero... E é favor não rir (muito).

Minha Pátria É a Língua Portuguesa


MANIFESTO
EM DEFESA DA LÍNGUA PORTUGUESA
CONTRA O ACORDO ORTOGRÁFICO

(Ao abrigo do disposto nos Artigos n.os 52.º da Constituição da República Portuguesa, 247.º a 249.º do Regimento da Assembleia da República, 1.º n.º 1, 2.º n.º 1, 4.º, 5.º, 6.º e seguintes da Lei que regula o exercício do Direito de Petição)


Ex.mo Senhor Presidente da República Portuguesa
Ex.mo Senhor Presidente da Assembleia da República Portuguesa
Ex.mo Senhor Primeiro-Ministro

1 – O uso oral e escrito da língua portuguesa degradou-se a um ponto de aviltamento inaceitável, porque fere irremediavelmente a nossa identidade multissecular e o riquíssimo legado civilizacional e histórico que recebemos e nos cumpre transmitir aos vindouros. Por culpa dos que a falam e escrevem, em particular os meios de comunicação social; mas ao Estado incumbem as maiores responsabilidades porque desagregou o sistema educacional, hoje sem qualidade, nomeadamente impondo programas da disciplina de Português nos graus básico e secundário sem valor científico nem pedagógico e desprezando o valor da História.
Se queremos um Portugal condigno no difícil mundo de hoje, impõe-se que para o seu desenvolvimento sob todos os aspectos se ponha termo a esta situação com a maior urgência e lucidez.

2 – A agravar esta situação, sob o falso pretexto pedagógico de que a simplificação e uniformização linguística favoreceriam o combate ao analfabetismo (o que é historicamente errado) e estreitariam os laços culturais (nada o demonstra), lançou-se o chamado Acordo Ortográfico, pretendendo impor uma reforma da maneira de escrever mal concebida, desconchavada, sem critério de rigor, e nas suas prescrições atentatória da essência da língua e do nosso modelo de cultura. Reforma não só desnecessária mas perniciosa e de custos financeiros não calculados. Quando o que se impunha era recompor essa herança e enriquecê-la, atendendo ao princípio da diversidade, um dos vectores da União Europeia.

Lamenta-se que as entidades que assim se arrogam autoridade para manipular a língua (sem que para tal gozem de legitimidade ou tenham competência) não tenham ponderado cuidadosamente os pareceres científicos e técnicos, como, por exemplo, o do Prof. Doutor Óscar Lopes, e avancem atabalhoadamente sem consultar escritores, cientistas, historiadores e organizações de criação cultural e investigação científica. Não há uma instituição única que possa substituir-se a toda esta comunidade, e só ampla discussão pública poderia justificar a aprovação de orientações a sugerir aos povos de língua portuguesa.

3 – O Ministério da Educação, porque organiza os diferentes graus de ensino, adopta programas das matérias, forma os professores, não pode limitar-se a aceitar injunções sem legitimidade, baseadas em “acordos” mais do que contestáveis. Tem de assumir uma posição clara de respeito pelas correntes de pensamento que representam a continuidade de um património de tanto valor e para ele contribuam com o progresso da língua dentro dos padrões da lógica, da instrumentalidade e do bom gosto. Sem delongas deve repor o estudo da literatura portuguesa na sua dignidade formativa.

O Ministério da Cultura pode facilitar os encontros de escritores, linguistas, historiadores e outros criadores de cultura, e o trabalho de reflexão crítica e construtiva no sentido da maior eficácia instrumental e do aperfeiçoamento formal.

4 – O texto do chamado Acordo sofre de inúmeras imprecisões, erros e ambiguidades – não tem condições para servir de base a qualquer proposta normativa.

É inaceitável a supressão da acentuação, bem como das impropriamente chamadas consoantes “mudas” – muitas das quais se lêem ou têm valor etimológico indispensável à boa compreensão das palavras.
Não faz sentido o carácter facultativo que no texto do Acordo se prevê em numerosos casos, gerando-se a confusão.
Convém que se estudem regras claras para a integração das palavras de outras línguas dos PALOP, de Timor e de outras zonas do mundo onde se fala o Português, na grafia da língua portuguesa.
A transcrição de palavras de outras línguas e a sua eventual adaptação ao português devem fazer-se segundo as normas científicas internacionais (caso do árabe, por exemplo).

Recusamos deixar-nos enredar em jogos de interesses, que nada leva a crer de proveito para a língua portuguesa. Para o desenvolvimento civilizacional por que os nossos povos anseiam é imperativa a formação de ampla base cultural (e não apenas a erradicação do analfabetismo), solidamente assente na herança que nos coube e construída segundo as linhas mestras do pensamento científico e dos valores da cidadania.

Os signatários,

Ana Isabel Buescu
António Emiliano
António Lobo Xavier
Eduardo Lourenço
Helena Buescu
Jorge Morais Barbosa
José Pacheco Pereira
José da Silva Peneda
Laura Bulger
Luís Fagundes Duarte
Maria Alzira Seixo
Mário Cláudio
Miguel Veiga
Paulo Teixeira Pinto
Raul Miguel Rosado Fernandes
Vasco Graça Moura
Vítor Manuel Aguiar e Silva
Vitorino Barbosa de Magalhães Godinho
Zita Seabra
...


À margem: assinei a petição no domingo, sendo a minha assinatura a n.º 1900; à hora da publicação deste post somos mais de onze mil; quem quiser juntar-se-nos só tem de ir a Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa contra o Acordo Ortográfico


Banda Sonora: Carlos Seixas - Concerto em lá maior (Allegro)
Um compositor português, SIM!

domingo, 4 de maio de 2008

Cenas de filmes da minha vida #15: Barry Lyndon

Vi Barry Lyndon, para mim a obra-prima de Stanley Kubrik, quando estreou nos cinemas, em 1977. Lembro-me de o ter visto no Apolo 70, no fim do meu 7.º ano do liceu, com o Duarte, a Vanda e o Manel, e lembro-me de ter ficado vivamente impressionada. Mais tarde viria a ler o romance de Thackeray no qual é baseado (apesar de lhe preferir o feroz Vanity Fair, principalmente por causa da gigantesca personagem que é Becky Sharp).

Nunca esqueci o filme, procurei-lhe persistente e obcecadamente a banda sonora, que o meu querido amigo Artur acabaria por me encontrar em Londres, em 1995 - posso jurar que durante duas semanas não ouvimos praticamente mais nada.

Só voltaria a revê-lo vinte anos depois, já em 1997. A Nita tinha-o em VHS e emprestou-mo. Foi quase reverencialmente que o revi, tal a sua magia. E depois, a certa altura, o grande sobressalto: as imagens do parque, a silhueta do palácio de Lady Lyndon (Marisa Berenson)... eu conhecia aqueles verdes, aquele templo, aquela ponte... «I had been there before. I knew all about it.» Era Castle Howard, para mim sempre Brideshead.

Fiz uma troca com a Nita: Ela deu-me o seu Barry Lyndon, eu dei-lhe o meu A Amante do Tenente Francês, que ela muito desejava e já não encontrava à venda.

Na semana seguinte devo ter revisto o filme umas quatro ou cinco vezes. Até hoje não mudei de opinião. Esteticamente, corre o risco de ser um dos mais belos filmes alguma vez feitos. Uma autêntica tapeçaria. Cada imagem é uma pintura.

Deixo aqui duas cenas.

A da abertura, em que a sombria Sarabande de Händel tem um tom ominoso a pressagiar tragédia. Não há no filme, de resto, uma única cena feliz, um único momento de alegria — a cada instante perpassa uma imensa melancolia, que a extraordinária banda sonora sublinha admiravelmente.




A cena do início do romance entre Redmond Barry (mais tarde Barry Lyndon) e Lady Lyndon. O que mais me fascina nesta cena é a luz — ou a falta dela. É assim que imagino uma sala de ópera no século XVIII, com esta luz bruxuleante a projectar sombras misteriosas.



sábado, 3 de maio de 2008

Rui Pedro, o parente pobre

O texto é da Ana, no seu brilhante Porta do Vento. Reproduzo-o na íntegra. Julgo que estou dispensada de explicar porquê.

Sempre que o "caso Maddie" me invade a casa, numa esquizofrenia mediática que roça a loucura colectiva, tenho vontade de relembrar este outro caso, o do Rui Pedro. Passado igualmente por cá, debaixo do nosso nariz português, mas com gente que, infelizmente, não tem o mesmo poder de captar a atenção do mundo e as verbas milionárias que são precisas para se manter na ribalta das notícias.

Não há um casal fotogénico nem uns bonecos gémeos loirinhos, para a fotografia. Não há aberturas de telejornais. Não há audiência com o Papa, nem nas Nações Unidas. Não há tablóides ingleses a obrigar a nossa Judiciária a puxar pelos galões. Não há uma Fundação. Não há um encarte no último Harry Potter, de tiragens que se multiplicam até ao infinito. Não há missas, nem nannies, nem advogados a pôr-se em bicos de pés para ficar com o caso. Não há nada, praticamente, pelo menos que se veja.

Há só uma mãe desesperada, que não desiste. E a consciência dessa desigualdade obriga-me a este acto de mera justiça e solidariedade - colaborar nesta campanha.
Tenho assistido, como todos os que quiserem reparar nisso, à incessante batalha desta mãe, impotente mas nunca vencida. Sem recursos, sem divulgação mediática internacional (mesmo a nacional tem sido quase inexistente), sem apoios de nenhuma espécie, a mãe do Rui Pedro não permite - sempre que lho permitem a ela - que nos esqueçamos do seu filho desaparecido. Uma mulher bonita que envelheceu à nossa vista, corajosamente exposta e inconformada.

Sei que este não é o único caso de crianças portuguesas desaparecidas, longe disso. Mas a imagem desta mãe, devastada pelo desgosto e pela expectativa interminável, atira-me à cara a sorte que tive em ter acompanhado o crescimento dos meus filhos e tê-los tido sempre por perto. A mãe do Rui Pedro apenas pode imaginar, auxiliada por um retrato robot feito por um computador, como será (ou seria?) o seu filho agora. E esse simples pensamento já é insuportável.

Aqui fica, por isso, o meu humilde contributo.

Baú das relíquias #6: Silence Is Golden

Este disco foi a segunda parte do presente de anos da querida Nita em 1986 — puxei pela memória e rendi-me à evidência, foi nos meus 26 anos que ela mo ofereceu.

Uma boa memória mais não é do que uma boa capacidade de associar ideias. Lembrava-me de que na Primavera de 1986, no restaurante do meu amigo Miguel Amaral nas Amoreiras, àquela hora em que, fregueses despachados, ficávamos alegremente à conversa, tinha ouvido esta música pela primeiríssima vez. Éramos bastantes, os sobreviventes de um grupo que tinha partilhado histórias quase surreais no The Great American Disaster. Assim de caras, aposto que nesse dia estávamos à mesa, além do Miguel, da então mulher, a João (Joãozinha, onde andas?! — até o teu blóguio, mesmo sendo estritamente familiar, está parado) e de mim, o Carlos S. (aqui o comentador A4, também sumido), o João P., o Zé P. (em anos idos e atribulados o mítico Zé Cow-boy das festas lisboetas), a Cristina P., irmã da João e, claro, a Nita. Nesse dia, quase vinte anos depois (o original dos Four Seasons, de 1964, não fez história — isto já é investigação minha —, esta versão dos Tremeloes é de 1967, o grande ano da música), ouvi este Silence Is Golden pela primeira vez, e fiquei deliciada. Pedi para porem várias vezes, queria saber quem cantava esta coisa tão querida.

Só a Nita sabia, e fez um brilharete: eram os Tremeloes. Calou-se muito caladinha e em Agosto, nos meus anos, no jantar na Gôndola (o dos 27 anos foi no Pap'Açorda e ela ofereceu-me A Corte do Norte, de Agustina Bessa-Luís), ofereceu-me o seu velho single, de quando tinha 14 anos, juntamente com Le Ruisseau de Mon Enfance, que já aqui pus.

Pergunta só para ela: olha lá, mula... nunca me falaste deste José Reis que tem o nome na capa! Quem era?! :)

Aqui fica também o videoclip. Atrevam-se lá a dizer na minha cara que não é uma perfeita ternura...



quinta-feira, 1 de maio de 2008

Baú das relíquias #5: Le Ruisseau de Mon Enfance

Nos anos 60 ainda éramos uma civilização profundamente francófona, coisa que viria a mudar em breve, no turbilhão iniciado pelos Beatles - sim, sem quaisquer conhecimentos de Sociologia, arrisco que as mudanças começaram com a música. Comprava-se a Paris Match e a Jours de France, os adolescentes (coisa que eu estava a uma década de ser...) devoravam a Salut les Copains. Os novos títulos da Bouquins e da Livre de Poche desapareciam da Férin (a livraria francesa na Rua Nova do Almada) assim que chegavam.

Adamo (Salvatore Adamo) teve uma época de glória. Em Portugal fez furor. Eu era demasiado pequena, mas lembro-me de ver os discos à venda, até nas papelarias, as mesmas que vendiam aqueles álbuns para guardar discos. Adamo fez tanto sucesso em Portugal que chegou até a cantar em português, estão a ver a dimensão da coisa... Lembro-me muito bem de o ouvir na telefonia.

Reencontrei esta canção (que me é muito querida - vá lá, chicoteiem-me!) muito mais tarde, numas féria na Suíça em 1985, em casa do namorado com quem ia casando. Não casar foi, muito provavelmente, a decisão mais sensata que tomei em toda a minha vida. Fica a música, vale a música. Lembrava-me perfeitamente dela, ouvi-a dezenas de vezes, deliciada, no reencontro enternecido com uma memória auditiva da minha infância afinal muito presente.

Dois anos mais tarde, a minha grande amiga Nita, sete anos mais velha e que viveu esta época em pleno, ofereceu-me o single, que ainda conservava, este cuja capa aqui vêem, no dia dos meus anos. Juntamente com um outro que aqui apresentarei noutro dia... Ainda os tenho, como devem calcular...