domingo, 9 de março de 2008

Domingo musical (os discos da minha vida #4)

Ofereci-me este requintado presente no Natal. Temporariamente afastada de quase todos os meus discos, alturas há em que a saudade de uns quantos me rói os ossos. Era o caso de Ombra Mai Fu, pelo extraordinário Andreas Scholl. Um banquete de Händel... e eu adoro os barrocos em geral e Händel e Vivaldi em particular. Bach, esse, entra numa categoria tão à parte... que nem o incluo. Bach, para mim, vem logo a seguir a Mozart. Este The Essential Andreas Scholl reúne três discos: Stabat Mater de Vivaldi, English Folksongs & Lute Songs e, claro... Ombra Mai Fu (do qual tenho agora, portanto, dois exemplares).

Andreas Scholl é neste momento, julgo, o maior contratenor do mundo. Uma voz prodigiosa e uma delicada sensibilidade. Tive a felicidade de o ver várias vezes em palco. A mais memorável de todas foi a 28 de Junho de 2000, no Convento do Beato. Andreas Scholl cantava Händel, acompanhado pela muito justamente célebre Akademie für Alte Musik, de Berlim. Decorria o Europeu e Portugal tinha nesse dia um jogo decisivo contra a França. Tive pena de não poder vê-lo, mas não havia hesitação possível. A Música primeiro! - o concerto destronou o jogo. O Pedro foi-me mantendo informada por sms (sim, Ana e Mad, é o Pedro que vocês conhecem; por falar nisso, tenho-me esquecido, estamos todas convidadas para um jantar na quinta dele no Cartaxo, ele fornece tudo, comes e bebes, encarregou-me de fornecer a música, vocês fornecem só as vossas lindas presenças). Ainda antes do início do concerto, várias pessoas, percebendo que eu estava com informação ao minuto sobre o jogo, interrogavam-me com os olhos. E depois, durante o concerto, a cada intervalo entre duas árias, havia caras que se voltavam para mim expectantes... até àquele momento fatídico em que entrou mais uma mensagem, justamente no fim de uma ária. Penalty contra Portugal. Li em voz suficientemente audível para ser captada pelas pessoas mais próximas. Querem acreditar que Andreas Scholl, que deve ter percebido, foi TÃO, mas TÃO generoso (alguém lhe traduziu rapidamente o que estava a acontecer) que esticou ao máximo o momento de passar à ária seguinte?

Julgo que foi um ano depois que voltei a vê-lo, dessa vez na Gulbenkian (o homem adora Portugal, o que é uma sorte para nós, reduz consideravelmente os seus cachets milionários para cantar aqui). Confesso que o concerto não me encheu as medidas, apesar da voz indescritível. Eram as tais English Folksongs. Mas havia os encores, com eles contava. Não nos decepcionou. No fim dos aplausos intermináveis, voltou. Era de esperar. À primeira nota eu e o Vítor trocámos um olhar mudo e emocionado, era Ombra Mai Fu, a ária deslumbrante de Serse. A ária que mais queríamos ouvir, esta coisa mágica e feiticeira que está agora a tocar, Va Tacito, era coisa impossível. «Esquece, não há trompa», tinha eu dito ao Vítor no intervalo. Imaginem agora a nossa emoção quando, a seguir a uma trovoada de aplausos de pé... Andreas Scholl volta e com ele vem um músico com uma trompa! Já sabíamos o que íamos ouvir. Va Tacito, esta ária sublime do Giulio Cesare de
Händel (que tenho completo, o papel de César ainda cantado por uma mulher, a grande Jennifer Larmore - na verdade o papel foi concebido para um castrado). Eu e o Vítor abraçámo-nos um ao outro, num êxtase de felicidade. É que sabíamos que aquilo que íamos ouvir era esta ária que tínhamos julgado impossível naquela noite. Va Tacito. Notem o maravilhoso diálogo entre a voz puríssima e a trompa. Não é sublime?

sexta-feira, 7 de março de 2008

Giuseppe Di Stefano - E lucevan le stelle...

24.07.1921 - 3.03.2008

Estou muito, muito triste. Desolada. Só hoje (culpa, paredes meias, desta vida estúpida de demasiado trabalho com a boçalidade das nossas notícias - no gabinete vejo os jornais económicos, deixo o resto da informação a cargo da Sic Notícias, que está o dia inteiro ligada, baixinho) soube da morte dele, há quatro dias.

A sexta-feira é por excelência o dia que acaba mais cedo no Colosso. A partir das seis horas comecei a ter muito pouco que fazer. Ora de manhã eu tinha pensado que queria prestar aqui algumas homenagens, precisava de caçar fotografias. Ele era um dos alvos. O primeiro resultado que me apareceu (digito o assunto na barra do Google, só depois peço imagens) era da Wikipedia e li logo a data que me deixou siderada. Foi de lágrimas nos olhos que comecei a ler. Foi já a chorar (e a tentar ser discreta, partilho o gabinete com duas pessoas) que continuei a leitura. Giuseppe Di Stefano, o grande Giuseppe Di Stefano tinha morrido.

Saí cedo, faltava pouco para as oito. Entrei no carro, liguei o leitor de mp3 à telefonia, carreguei no botão. À primeira nota que se fez ouvir subiu em mim um arrepio impossível de descrever, que se converteu quase de imediato num ataque de choro: era E Lucevan le Stelle, a última e desgarradora ária de Cavaradossi na Tosca, o seu adeus à vida. Pela voz dele, nem precisava de esclarecer, pois não? Aquela gravação continua insuperável, tantos anos passados. Tenho nem sei bem quantas músicas no leitor de mp3, umas largas centenas - tantas que às vezes chego a ficar surpreendida quando oiço uma ou outra, nem me lembrava de lá ter posto aquilo -, de manhã, quando desliguei a geringonça lembro-me de ter sido mesmo no final do Canon de Pachelbel, nem fazia ideia do que se seguia. Era E Lucevan le Stelle, afinal. Estas inacreditáveis coincidências são perturbadoras, já antes tinha contado uma, a respeito da morte de John Denver (aqui).

Quando penso em Di Stefano, seguramente nos primeiros lugares entre os maiores de sempre, os adjectivos afluem em catadupa. Um daqueles seres que os deuses parecem cumular de bênçãos. Um devorador da vida - a Ópera, tão amada, por si só não lhe bastava (E non ho amato mai tanto la vita!). Há quem diga (quem sabe muito mais disto do que eu) que poderia ter sido tão grande como o mítico Caruso. Mas Di Stefano queria tudo, queria sentir tudo absolutamente (ai, Álvaro de Campos!), a carreira magnífica acabou bem mais cedo do que deveria e poderia. Restam-nos os discos, raras aparições captadas em filme, pobres e insuficientes para contarem o carisma deste homem e, sobretudo, esta VOZ. Linda, linda, linda. Tão linda, meu Deus! Luminosa, não me ocorre adjectivo melhor.

E vindas do nada, caprichosamente, vêm-me à memória as palavras centenas de vezes lidas do final do Príncipe Feliz, escritas por aquele senhor que é um dos amores maiores da minha vida, Oscar Wilde. E modifico-as livremente, adapto-as a esta grande perda:

«You have rightly chosen,» said God, «for in my garden of Paradise HE shall sing for evermore.»


E lucevan le stelle,

E lucevan le stelle,
e olezzava la terra
stridea l'uscio dell'orto,
e un passo sfiorava la rena.
Entrava ella, fragrante,
mi cadea fra le braccia.
Oh! dolci baci, o languide carezze,
mentr'io fremente le belle forme discogliea dai veli!
Svani per sempre il sogno mio d'amore...
L'ora e fuggita e muoio disperato!
E non ho amato mai tanto la vita!

Tonta mais tonta... não há!

Esta noite tive frio (durmo de janela aberta e estava apenas com um cobertor e lençóis de flanela). Levantei-me e fui buscar um edredão. Esta manhã dobrei-o e pu-lo aos pés da cama. E eis que, ao voltar da casa de banho, de secar o cabelo, deparo com Agripina nestes preparos.

Saco imediatamente da máquina. Sem pilhas, irra! Felizmente há o telefone. Fica registado para a posteridade mais um adorável momento de tonteira dos muitos em que Agripina é pródiga.

Bom fim-de-semana para todos!


quinta-feira, 6 de março de 2008

Cenas de Filmes da Minha Vida #10: Música no Coração

E pronto, só de rever isto antes de publicar aqui, já estou a chorar como uma parva, com um sorriso de felicidade estúpida... É o efeito que este filme tem em mim: choro copiosamente o tempo inteiro. Abençoada evasão!

Considero que esta cena é possivelmente a segunda cena de amor mais bonita da História (aqui com maiúscula) do Cinema (também com maiúscula). A primeira - e riam lá agora todos a bandeiras despregadas - é a cena do restaurante italiano de A Dama e o Vagabundo. Lembro-me de há muitos anos eu e o meu primeiro namorado, D., lá pelos meus 16 anos e 17 dele, termos levado a nossas irmãs pequeninas, à época com dez, ao Tivoli a uma reposição do filme. A assistência, está bom de ver, era só miudagem. Gritaria, confusão. Na tal cena, eu e ele (claro!, eu sei escolher as minhas pessoas!) chorávamos como Madalenas, a Ana e a Picky nem pestanejavam... Viríamos mais tarde a ser reabilitados - e de que maneira! - quando vi, num documentário qualquer, um certo génio chamado Steven Spielberg declarar que considerava a cena do restaurante italiano de A Dama e o Vagabundo (Disney, sim. Desenhos animados, também sim. Não encntro no Youtube, alguém tem? Obrigada) a maior cena de amor da história do cinema.

Esta que aqui vos deixo (fraudulentamente arranjada, don't ask) faz-me chorar sempre, fatidicamente, tão emotiva é. Faz-nos voltar ao tempo em que os príncipes casavam com pastorinhas. É a cena da dança. The Ländler. Uma espécie de equivalente ao momento mágico de música em que, na Bohème, Rodolfo e Mimi põem os olhos um no outro.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Os homens são todos iguais

Infiéis. Uns impostores do pior!

Coisa que este anúncio, que considero um dos mais deliciosos que alguma vez vi, só vem provar - como se ainda fosse preciso. Rio sempre que o revejo.


É favor reparar no requinte da minha escolha de música para pano de fundo (a modéstia hoje tirou férias): Porgi, Amor, na voz maravilhosa de Gundula Janowitz. Mozart, As Bodas de Fígaro. Ah, já agora... não será má ideia parar a música para ver o filme... Mozart perdoa.

Breve explicação para os menos familiarizados com a ópera: Beaumarchais escreveu uma famosa trilogia de peças: O Barbeiro de Sevilha, As Bodas de Fígaro e La Mère Coupable. Só as duas primeiras foram transpostas para ópera. A peça de onde esta ópera foi retirada é hoje considerada um dos mais explosivos rastilhos da Revolução Francesa. Esta condessa de Almaviva que aqui canta esta ária pungente sobre a natureza efémera do amor é a alegre e maliciosa Rosina do Barbeiro de Sevilha (a obra precedente). Passaram alguns anos, ela casou com o conde... e não sabe o que aconteceu ao amor - parece que entre o século XVIIII e os nossos dias não mudaram muitas coisas, afinal. Apropriado ao filme, não vos parece?

terça-feira, 4 de março de 2008

The Sound of Music Sing-a-Long-a

Sendo Música no Coração (que já vi, seguramente, bem para cima de cem vezes) um dos filmes da minha vida, fácil é perceber que A-D-O-R-A-V-A assistir a isto.

Está em Londres desde 1999, no Prince Charles Cinema. Nem sei bem quantas vezes lá fui desde essa altura, teria de puxar pela memória, o que sei é que nunca consegui ir ver este The Sound of Music Sing-a-long-a, e a razão é bem simples: Londres tem o melhor teatro do mundo, ir ver isto equivale a renunciar a uma peça... e acabo sempre por decidir que fica para a próxima visita. Mas sempre que vou jantar ao Asia de Cuba, o meu restaurante favorito em Londres, que fica no St Martins Lane Hotel, a dois passos, não resisto a ir espreitar os cartazes, mortinha que ando há quase dez anos para participar neste fabuloso arraial (tal como, já agora, assistir nos Estados Unidos, num sábado, a uma sessão da meia-noite do The Rocky Horror Picture Show, mas isso é outra história, não quero dispersar-me).

De concreto, o que é isto? É uma projecção de
Música no Coração legendada, com o cinema em peso a cantar a plenos pulmões com as personagens. Conseguem imaginar a chinfrineira? Mas é mais, é muitíssimo mais. Para começar, há muito boa gente que não resiste a ir mascarada da sua personagem favorita (o que pode redundar em 60 Marias, 20 Madres Superioras, 15 Capitães von Trapp... etc.), aliás as máscaras são mais do que bem-vindas: são encorajadas (nem morta...).

A coisa começa, ainda antes do início do filme, com um caramelo a conduzir o aquecimento vocal da plateia. São distribuídos goody bags, há prémios para as melhores máscaras, indicações especiais para momentos-chave, e a assistência é instruída nos procedimentos de rigueur: euforia de aplausos para Fräulein Maria, sempre que entra em cena, apupar e assobiar a Baronesa, ladrar a Rolf, etc. E, como eles próprios dizem no site, a partir daí as regras são não haver regras... e a tonteira impera! (esta é minha)

Por último, este apontamento que roubei no site (ainda levo com um processo em cima):


«In 2001, Elton John and 40 of his friends dressed up as nuns to ‘sing-a-long with Julie’. Elton had hired the smash hit show Sing-a-long-a Sound of Music for a private party to celebrate boyfriend David Furnish’s birthday. After a celebratory lunch at The Ivy (um restaurante célebre onde é tradicional ir a seguir ao teatro, até a rainha lá vai; jantei lá uma vez, o único famoso que vi foi John Napier, e bem me apetecia ir dar-lhe um abraço lacrimejante a agradecer aquele Les Misérables que é um amor imorredoiro meu), the party of 40 donned habits and tuned their vocal chords to sing-a-long with the smash hit show Sing-a-long-a Sound of Music. Celebrity faces spotted under their wimples included Elton John and boyfriend David, Lulu, Janet Street Porter, Neil Tennant of The Pet Shop Boys, Hugh Grant and Joan Collins.»

Última recomendação: Não deixem de ver o muito curto filme que o site disponibiliza, está aqui.


segunda-feira, 3 de março de 2008

Há comentários que merecem um post

É o caso destes, que hoje me entraram num post de Novembro passado (aqui).

As inefáveis Portuguese Divokitties,* agremiação na qual julgo que a Casa de Santa Zita recrutará o grosso dos seus efectivos, voltam a dar um ar de sua graça.

Pois Débora, querida, malcriada, lamento lamentar, acaba mesmo de provar que é, ao recorrer a uma expressão tão labrega como «um murro no meio dos olhos». Mas olhe... o que é que a menina quer? Achei-lhe graça, achei-lhe mesmo um piadão! E, claro está, vibrei com a excelsa qualidade do seu português...

A menina é muito novinha, mas recomendo-lhe que tente encontrar musiquinhas de um senhor chamado Art Sullivan, que há trinta anos fazia as delícias de quem tem o seu género de gosto musical. E já sabe... apareça sempre, querida! Nós aqui gostamos muito de rir.


* Fãs descabeladas de uma associação criminosa de saloios de nacionalidades diversas que dá pelo nome de Il Divo.