Domingo musical (os discos da minha vida #4)
Ofereci-me este requintado presente no Natal. Temporariamente afastada de quase todos os meus discos, alturas há em que a saudade de uns quantos me rói os ossos. Era o caso de Ombra Mai Fu, pelo extraordinário Andreas Scholl. Um banquete de Händel... e eu adoro os barrocos em geral e Händel e Vivaldi em particular. Bach, esse, entra numa categoria tão à parte... que nem o incluo. Bach, para mim, vem logo a seguir a Mozart. Este The Essential Andreas Scholl reúne três discos: Stabat Mater de Vivaldi, English Folksongs & Lute Songs e, claro... Ombra Mai Fu (do qual tenho agora, portanto, dois exemplares).Julgo que foi um ano depois que voltei a vê-lo, dessa vez na Gulbenkian (o homem adora Portugal, o que é uma sorte para nós, reduz consideravelmente os seus cachets milionários para cantar aqui). Confesso que o concerto não me encheu as medidas, apesar da voz indescritível. Eram as tais English Folksongs. Mas havia os encores, com eles contava. Não nos decepcionou. No fim dos aplausos intermináveis, voltou. Era de esperar. À primeira nota eu e o Vítor trocámos um olhar mudo e emocionado, era Ombra Mai Fu, a ária deslumbrante de Serse. A ária que mais queríamos ouvir, esta coisa mágica e feiticeira que está agora a tocar, Va Tacito, era coisa impossível. «Esquece, não há trompa», tinha eu dito ao Vítor no intervalo. Imaginem agora a nossa emoção quando, a seguir a uma trovoada de aplausos de pé... Andreas Scholl volta e com ele vem um músico com uma trompa! Já sabíamos o que íamos ouvir. Va Tacito, esta ária sublime do Giulio Cesare de Händel (que tenho completo, o papel de César ainda cantado por uma mulher, a grande Jennifer Larmore - na verdade o papel foi concebido para um castrado). Eu e o Vítor abraçámo-nos um ao outro, num êxtase de felicidade. É que sabíamos que aquilo que íamos ouvir era esta ária que tínhamos julgado impossível naquela noite. Va Tacito. Notem o maravilhoso diálogo entre a voz puríssima e a trompa. Não é sublime?






