sábado, 9 de fevereiro de 2008

Poema 20

Robin Hood's Bay, Yorkshire

Alguns anos depois ele leu-me este desgarrador poema ao telefone. E dedicou-mo. É que a nossa história era igual. Para dizer a verdade toda, era a nossa história roubada.


«Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: "La noche esta estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos".

El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.

Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.
La noche está estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa, y éstos sean los últimos versos que yo le escribo.»

Pablo Neruda, Veinte Poemas de Amor y Una Canción Desesperada

Now playing: Art Garfunkel - I Believe (When I Fall in Love it Will Be Forever)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Diamonds and rust

«Oxford, in those days, was still a city of aquatint» - Evelyn Waugh, Brideshead Revisited


Well I'll be damned
Here comes your ghost again
But that's not unusual
It's just that the moon is full
And you happened to call
And here I sit
Hand on the telephone
Hearing a voice I'd known
A couple of light years ago
Heading straight for a fall

As I remember your eyes
Were bluer than robin's eggs
My poetry was lousy you said
Where are you calling from?
A booth in the midwest
Ten years ago
I bought you some cufflinks
You brought me something
We both know what memories can bring
They bring diamonds and rust

Well you burst on the scene
Already a legend
The unwashed phenomenon
The original vagabond
You strayed into my arms
And there you stayed
Temporarily lost at sea
The Madonna was yours for free
Yes the girl on the half-shell
Would keep you unharmed

Now I see you standing
With brown leaves falling around
And snow in your hair
Now you're smiling out the window
Of that crummy hotel
Over Washington Square
Our breath comes out white clouds
Mingles and hangs in the air
Speaking strictly for me
We both could have died then and there

Now you're telling me
You're not nostalgic
Then give me another word for it
You who are so good with words
And at keeping things vague
Because I need some of that vagueness now
It's all come back too clearly
Yes I loved you dearly
And if you're offering me diamonds and rust
I've already paid

Joan Baez - Diamonds and Rust

P.S. Esqueci-me de dizer que aquela figurinha de camisa cor-de-rosa sou eu, num dia de felicidade absoluta. Speaking strictly for me we both could have died then and there.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

A surpreendente Estética Felina

Há uns anos, quando o Vítor ainda estava casado com a Ana (acho que foi com a separação deles, que eu conheci tão felizes durante tantos e tantos anos, que deixei de vez de acreditar no casamento), era habitual jantar-se em casa deles ao sábado. Era também uma tradição que o jantar de Natal do nosso grupo mais íntimo fosse lá, com a já esperada troca de presentes e o Vítor a picar-me pelo menos desde o princípio de Novembro com frases como «Nem sonhas o que tenho para ti no Natal...»

Ora no Natal de 95 (ou terá sido 96?) a Ana presenteou-me com este divertidíssimo livro: Why Cats Paint. O meu exemplar não está agora à mão, mas a capa e o título são estes. Eu adorei, claro, e foi motivo de muito riso e de grande galhofa, toda a gente a querer folheá-lo.

Neste mundo - e às vezes, ao que parece, especialmente na América - há doidos para tudo. E o que o livro dizia, preto no branco, era que uma tela comprovadamente pintada por um gato (entenda-se que acompanhada de fotografias mostrando o artista durante o processo de criação) atingia com a maior facilidade preços da ordem dos 15 mil dólares no mercado.

Quando li isto alto para toda a gente, o Vítor deu-me uma cotovelada e pôs os olhos em alvo:

- Já estou a ver... Nova Iorque, uma daquelas galerias de arte caríssimas do Soho... O cliente especado diante da tela, vê-se que quer comprar, mas ainda hesita... «Sim gosto muito, mas um milhão de dólares...» E o marchand: «E acha caro?! Por um Messalina Valéria?!»

Se duvidam, consultem, entre vários, este Museum of Non Primate Art. Aproveitem e vejam também os dois filmes...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Baú das Relíquias #2: Dizzy

Outra memória muito antiga, também dos meus oito anos. Esta música fez furor! E eu, claro, adorava-a! Como tinha primos mais velhos que tinham o disco, fartava-me de o pôr a tocar. Um belo dia, querendo imitar o que via fazer aos mais crescidos, pus-me a dançar. Sozinha, claro. E de repente, numa reviravolta qualquer, fiquei de frente para a porta, no meio daquela bailação desajeitada mas entusiástica, e dei com a minha Avó e a minha Tia Laura perdidas de riso a gozar o prato.

Essa cena deve estar, certamente, na origem de eu recusar, a partir dos 14 e 15 anos, todos os convites para festinhas, com as desculpas mais parvas, por achar que não sabia dançar. A primeira vez que me atrevi, muito apreensiva, já tinha 16 anos e meio, e foi na viagem de finalistas do Liceu à Madeira. Nunca mais me esqueço, foi o Hey Jude, dos meus queridos Beatles. Depois perdi o acanhamento e sempre adorei dançar.

O single do Dizzy devo-o a um namoro fugaz (uns dois meses) que me deixou óptimas lembranças. Até foi ele que acabou, por motivos que compreendi perfeitamente. Tive pena, mas não pude deixar de lhe admirar a honestidade e de concordar com ele: tinha de ir viver uma história importante que ficara por acabar. Seja como for, foram dois meses muito bons e alegres. O T., que era uns dez ou onze anos mais velho, tinha vivido em cheio aquela época que eu adorava e em que não passava de uma miudinha, e lembro-me de que nessa despedida, num almoço, uma das últimas coisas que me disse foi que nunca esqueceria que eu lhe tinha devolvido a música da sua adolescência. Uma vez fomos de propósito, altas horas da noite e saídos do Stone's, a casa dos pais dele, onde ele sabia ter ainda todos os seus discos dos anos 60 - era Verão e os pais estavam fora de férias, a casa, aliás casarão, que eles eram nove irmãos, estava vazia. Lá surgiram aqueles velhos álbuns para guardar singles (só os mais velhos se lembrarão deles, vendiam-se em qualquer papelaria de bairro, a maior parte das vezes com umas capas de fugir de pirosas), que eu me pus a investigar, excitadíssima. No meio de exclamações extasiadas e da pilha dos que ia seleccionando para ouvirmos a crescer, dei com o... Dizzy, de Tommy Roe. Nem queria acreditar! No Stone's não o tinham, tinha passado muitos anos sem o ouvir. E continuava incrédula a olhar para a capa e só dizia «O Dizzy... O Dizzy...», numa emoção doida. O T. tirou-me o álbum, sacou o disco da bolsinha e estendeu-mo, enternecido. «Tome, é para si. Ofereço-lho.» Atirei-me ao pescoço dele, doida de alegria com tão maravilhoso presente.

E sim, já há muito que tenho o Dizzy em CD. Não é uma grande música, claro está. Mas tenho-lhe um carinho enorme.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Baú das Relíquias #1: Daydream

Há tempos encontrei em casa da minha Mãe uma pilha de singles muito, muito antigos. Digitalizei-lhes as capas (algumas um tanto estragadotas), sorrindo das memórias que cada um me trazia.

Este Daydream, dos Wallace Collection - um grupo belga, acreditem ou não - é-me, ainda hoje, especialmente querido. Nem imaginam a doideira que eu tinha por esta música, aos oito anos! Era capaz de ficar a ouvi-la repetidamente horas a fio.

Poucos anos mais tarde, uns três ou quatro, viria a descobrir que uma certa passagem era um plágio flagrante do Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky - como debati há poucos dias com a AV, do Porta do Vento -, mas nem mesmo isso abalou o meu amor incondicional pela música. Preferi achar, o que era bem mais cómodo, que não passava de uma infeliz coincidência.

Encontrei dois vídeos de Daydream, mas, curiosamente, nenhum deles é aquele que me lembro de ter visto uma vez na televisão - e se a minha memória é boa!

Fica aqui este, tão ao sabor da época (1969) e de uns restos sonhadores de Flower Power.



Now playing: Wallace Collection - Daydream
(click to listen)

P.S. E porque a memória também é uma coisa muito caprichosa, acabo de me lembrar de que o exemplar de Daydream que tocava no Stone's, igualzinho a este (não poucas vezes lhe vi a capa encostada ao vidro da cabine), era um empréstimo do Nuno. Nunca lhe foi devolvido, claro. Onde andará?

sábado, 2 de fevereiro de 2008

John Lennon - Love

Acabo de encontrar este vídeo, que me tocou imensamente. Nem precisava de ser ao som de Love, uma das músicas de John Lennon que mais me comovem.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Cabides para as carteiras do mulherio...

O prometido é devido, e eu gosto de cumprir as minhas promessas. Uma vez que a TCL e a Lisa já estão de posse dos seus cabides - foram as primeiras a mostrar grande empenho em arranjar cada uma o seu, achei justo assegurar-lhos -, posso agora divulgar aqui onde comprei.

Bem sei que para quem não mora em Lisboa é mais complicado, mas há sempre uma amiga disposta a fazer o favorzinho, não é? Então tomem lá nota: S. Pereira Leão, L.da (antiga Drogaria Alvarez), Rua da Prata, 221 a 225 - é uma grande drogaria como as de outros tempos e como já restam muito poucas. Os cabides custam cinco euros e já havia muito poucos, talvez uns quatro ou cinco.

Entretanto, absolutamente por acaso, vi iguais (três, parece-me) numa outra casa, na esquina da Rua da Conceição com a Rua da Prata, mas a seis euros.

Quem é amiguinha, quem é?