Sessão de ternura com Messalina...
... e fugaz aparição de Agripina (ao melhor estilo de cameo role).
P.S. Para parar a música é só clicar naquele pontinho azul, em cima à direita. Mas mais vale ouvirem a voz de Louis Armstrong do que a minha...
... e fugaz aparição de Agripina (ao melhor estilo de cameo role).
... e o pior é que achei pilhas de graça!
Tudo por causa deste post... Razão tenho eu quando digo que os pecados antigos projectam sombras compridas! E o sítio, que se chama IL DIVO Forum, continua a despejar-me excursões de visitantes, o que só confirma a veracidade da célebre frase de Brendan Behan: «there is no such thing as bad publicity» (corto o remate para dar maior efeito). Curiosamente, nenhuma das apaixonadas fãs das quatro lambisgóias que compõem o daninho quarteto me irrompeu pela caixa de comentários com impropérios. Limitam-se a vir espreitar... entram mudas e saem caladas, que pena!!!
O Vasco faria hoje 60 anos. Quando aqui falei dele ainda só a Excomungada e o Rafeiro me liam, eu escrevia muito pouco na Gota.
Uma bela noite, lá por 1983, estávamos nós no Stone's em alegre bailação, começa a tocar uma música que eu não conhecia (chamava-se Derniers Baisers, recuso-me a profanar a minha rica Gota com tamanha xaropada). "Que bodega é esta?", perguntei eu, irritada, ao mesmo tempo que deitava uma olhadela de censura ao Pedro Oom, na cabine. "São os Chats Sauvages" - resposta pronta do Vasco, a ignorância musical em pessoa. "QUEM?!" "Os Chats Sauvages", repetiu ele, imperturbável. Acenei afirmativamente ("está bem, abelha!"), ele ficou a gozar o pratinho. Assim que saímos da pista, umas quantas músicas depois, fui logo perguntar ao Pedro quem cantava aquela purga francesa que ele tinha posto. "Les Chats Sauvages", foi a resposta. Ao meu lado, o Vasco largou aquele risinho seco tão dele. Eu estava siderada. Ele explicou modestamente que sabia... porque os tinha visto no Casino Estoril, a meio dos anos 60, mas não tinha resistido a, por uma vez na vida, mostrar que também sabia umas coisas de música. E acabámos a rir, como sempre.
A saudade do Vasco não acaba, porque não tem princípio nem fim. Agradeço à Teresa A. estes retratos que tão generosamente me cedeu, os que tenho do Vasco não são muitos e estão neste momento fechados num caixote. Gostava de poder pôr aqui um que temos com uma certa leoazinha bebé ao colo, na festa dos seis anos do Filipe, sobrinho dele e meu afilhado. A Teresa acompanhou os últimos anos da vida do Vasco e com ele ficou até ao fim. Quando lhe perguntei se não se importava que publicasse aqui uma fotografia dos dois, a resposta foi peremptória: "Terei sempre orgulho em ser vista com o Vasco!". E é de ter, Teresa. É de ter. Entristeceu-me especialmente uma certa coisa que ela me contou: os dois tinham planeado duas grandes festas: a dos 40 anos dela e a dos 50 dele. O Vasco não viveu para estar fisicamente presente em nenhuma delas, foi-nos roubado quando tinha apenas 49, cumpridos havia pouco.Adenda: Tantas memórias! O presente do M. (a pessoa por trás do que acabo de contar, e que o Vasco conheceu muito bem) nos meus 31 anos foi a obra completa dos meus idolatrados Beatles em CD. Pediu ajuda à minha querida Paulinha, numa conspiração de amor, para lhos arranjar na Valentim de Carvalho, ele em Barcelona teria dificuldade em fazê-lo. Eu à época nem leitor de CD tinha ainda... Faltou um único, o álbum branco, não foi possível arranjá-lo. Algum tempo depois, num jantar com o Vasco em que lhe contei da minha grande felicidade reencontrada (é o padrão mais presente na minha vida, todas as pessoas voltam sempre), mencionei isso de passagem. Dois dias depois um paquete do hotel foi levar-me o álbum branco dos Beatles em CD à "Mercearia M." (um dia há-de haver aqui post sobre esse sítio surreal). Presente do Vasco.
Nessa noite, como em quase todas, o Nuno apareceu para o café e para sairmos a seguir (Stone's, Alcântara-Mar, Kremlin, etc., muito boémia fui eu!). Já não saímos. Ficámos a noite toda a ouvir aquele extraordinário disco.
Os meus mortos estão vivos, porque andam sempre comigo. O Vasco continua vivo. Ainda há coisa de um mês eu e o A4 (Carlos S.) estivemos duas noites inteiras a lembrar histórias dele, ou em que ele entrava. As Cangalheiras assistiram a uma delas e são testemunhas.
O meu ódio ao preconceito é coisa muito antiga. Tenho amigos gays, nunca me dei com lésbicas. Por razões que escapam à minha compreensão, parecem não gostar muito uns dos outros. Podia contar aqui uma história divertidíssima de um grande amigo meu (gay), coroada por uma frase daquelas de passar ao bronze, mas não o farei - é preconceituosa e embarca no chavão. Aos vinte anos ia com frequência a um bar da zona do Príncipe Real cujo nome não refiro, acho que ainda existe. Na gíria dos iniciados era A Emília (nome da senhora à entrada). Entrava lá por especial favor, basicamente era a única mulher entre quatrocentos homens. Encontrei lá de tudo. Colegas de faculdade, namorados de amigas, pais de amigas; todos, mas mesmo TODOS, ficavam verdes quando me viam (UMA GALINHA!), vinham entreter-me com conversas em que eu fingia acreditar (ia aqui a passar, ai que giro, não sabia que havia aqui um bar, vamos lá ver como é...). Só entrava na Emília quem era da casa, eu era admitida porque era amiga de um menino (um dos homens mais bonitos que conheci em toda a minha vida, casado e com duas filhas) que lá... era da casa. E devo dizer-vos que me divertia como uma doida. A começar nas casas de banho... Uma tinha o clássico letreiro "HOMENS", na outra, alguém tinha substituído o "SENHORAS" por... "OPERADAS".
ODEIO (ai, nem sabem quanto!) perguntas imbecis deste jaez. Lembro-me sempre de uma coisa que o meu amigo Nuno, que morreu há um mês e era total e devotadamente heterossexual, me disse uma vez e calou fundo: Deus não anda a espreitar os quartos das pessoas. Parei a uma certa distância, a observar, cheia de suspeitas tenebrosas, cheia de vontade de saltar à jugular do miúdo. Os turistas que andam em bandos por ali (raro é o dia é que não sou abordada para tirar uma fotografia a um grupo, se é um casal e vou a passar, eu própria sou capaz de me oferecer para o fotografar, a clássica fotografia com o arco como fundo, a estátua de D. José a espreitar por trás e o rio, tão azul nos dias de sol, a dar o remate final) acham todos muita graça. E eu não percebo o que possa haver de engraçado num animalzinho numa imobilidade forçada, com um cesto improvisado para recolher donativos pendurado na boca. E isto horas a fio. Se passo lá à hora do almoço, estão lá. Nas muito raras vezes em que lá passo no regresso a casa, sinal de que saí do colosso a horas minimamente cristãs (antes das oito, entenda-se...), é certo e sabido que continuam lá. Ou continuavam, que estas fotografias foram tiradas em dias diferentes e as últimas já têm mais de duas semanas. Agora anoitece mais cedo e começam a vir os primeiros frios...
O pior é que isto está a alastrar, parece ter-se tornado moda. Se a coisa parece resultar para um, há logo outro que pega na ideia e a repete. Portugal é assim. Lembro-me de, no fim dos anos 70, os centros comerciais abarrotarem de lojecas cheia de bonecada pindérica (supostamente queridinha) com dizeres obtusos como "és tão fofinha!" ou indigências mentais semelhantes. Nos anos 80 houve a moda das croissanterias. Abriu a primeira no Campo Pequeno e, em poucos meses, tropeçava-se noutra a cada cem metros, por toda a cidade.
Poucos dias depois, dei com este pekinois à hora do almoço, ainda lá estava perto das oito horas. Parei para lhe fazer festas, a mão sub-repticiamente a investigar-lhe o focinhito, a tentar perceber se a sua obstinação em manter a boca fechada (e os cães respiram pela boca!) não teria marosca por trás. Não tinha, é certo. Deve ter sido muito bem treinado - prefiro nem pensar como. Já viram este olhar de imensa tristeza? Acham isto normal?
Já se sabe que, parecendo tratar-se de uma moda, os seguidores não tardam em aparecer. Agora há mais um. E até o instrumento é sempre o mesmo. Haverá algures uma escola a dar formação acelerada em acordeão para produzir todos estes tocadores que surgiram de repente, vindos sabe-se lá de onde, com cãezinhos o mais pequenos possível, para atrair maiores simpatias e moedas de valor na proporção inversa do seu diminuto tamanho?
Não gosto disto. Não gosto mesmo nada disto.
As fotografias (ando sempre com a máquina na carteira) são de 28 e 31 de Agosto e 19 de Outubro.