quarta-feira, 24 de outubro de 2007

São precisos ritos...

... como muito bem ensinava a Raposa ao Principezinho.

Eu e o Victor temos os nossos. Muitos. E não temos qualquer problema em confessar o genuíno prazer que é para nós um bom jantar num bom restaurante.

Na segunda-feira hesitámos entre o Aya (somos doidos por sushi e sashismi, mais até o segundo) e o Terraço. Ganhou o Terraço, por uma razão muito simples: quantas mais noites poderemos ainda jantar ao ar livre, neste Verão que parece eternizar-se* mas está irremediavelmente a chegar ao fim?

O jantar foi fantástico. Ainda antes das entradas (sopa de legumes para ele, folhado de queijo cabra para mim), trouxeram-nos um amuse-bouche, cortesia do chefe, que era uma coisa absolutamente divinal, uma minúscula porção de uma espécie de salada que já anotei mentalmente para pedir da próxima vez que lá for. Dividimos o prato, como fazemos muitas vezes, principalmente no estrangeiro, fiéis ao nosso desígnio de experimentarmos o máximo possível quando estamos num grande restaurante ao qual não sabemos quando poderemos voltar**. Primeiro vieram os crêpes de lagosta com arroz branco e molho de tomate, depois o cherne grelhado com legumes e béarnaise. Perfeição absoluta. Um vinho igualmente perfeito, Monte da Penha. Como de costume, eternizámo-nos à mesa, tantas as coisas que temos sempre a dizer, a contar, a comentar. O Victor, que tem uma necessidade-quase-dependência de açúcar, quis sobremesa, pediu uma fatia de abacaxi, e depois uma segunda, eu fiquei-me por um café e um Famous Grouse (em balão , com muito gelo, as pedras sempre em número ímpar).

Finalmente, porque estava a ficar tarde, pedimos a conta. O Victor tem o bom hábito de a verificar sempre, coisa que, confesso, eu nunca me lembro de fazer. Caro? Claro que era caro, trata-se de um hotel de cinco estrelas; qualidade da cozinha, cenário magnífico e a simpatia do serviço (tão gentil, sem ser sabujo, que nos faz desculpar algumas falhas) justificam o preço elevado. Mas foi impossível não ficarmos escandalizados com o preço das duas fatias de abacaxi: 18 euros (nove cada). Um autêntico assalto à mão armada, nem vou fazer contas para determinar a percentagem de lucro que representa.

Há pouco, só por curiosidade, fui ver o preço do dito fruto em dois supermercados muito diferentes, Continente e Corte Inglés. Pois num o preço do abacaxi é de 75 cêntimos por quilo, no outro de 2,99 euros. Quer isto dizer que, a preços de Continente, pagámos 24 quilos de abacaxi e, a preços de Corte Inglés, coisa de seis.

Paciência, mesmo assim deixámos uma generosa gorjeta, os preços não são feitos pelos empregados... E adorámos o jantar, havemos de voltar ao Terraço muitas vezes. Só não voltaremos a pedir abacaxi, que não vamos ao ponto de achar graça a ser explorados.


* Este post começou a ser escrito quando cheguei a casa, vinda do jantar, não o acabei porque entretanto me pus à conversa com a Cangalheira Emigra no msn. Hoje choveu...

** O que já deu origem a uma situação divertida em Londres. Jantámos no Asia de Cuba, que durante uns tempos foi o meu grande favorito (até ser destronado pelo Blue Door de Miami, lamento lamentar). Fomos servidos por um irlandês engraçadíssimo (e cá uma brasa...). Como a nossa mesa ficava numa zona um pouco mais elevada, estava ele a despedir-se de nós, já desfardado, de gorro na cabeça, separados por uma balaustrada, quando vem um outro perguntar o que queríamos de sobremesa. "For God's sake! - interpelou ele o outro, a esticar-se todo, com a cabeça ao nível das nossas pernas - These people already had FOUR dishes!!!"
Largámos todos a rir, evidentemente.

domingo, 21 de outubro de 2007

Lido por aí...

Resolvi estrear uma nova rubrica, a que chamarei RR (de random reading) - coisas que encontro e a que acho graça, ou de que gosto, ou com as quais concordo, ou... (you get the picture).

Retirado do meu amigo Luís Serpa. Não gosto de tudo o que ele escreve, mas gosto de quase tudo.

On est toujours le héro de quelqu'un

Uma das coisas a que acho piada no Brasil é que eles acham que Portugal é um país "europeu": pensam, por exemplo, que não há corrupção, que a burocracia funciona, e que os bancos são bancos, não as casas de penhores que realmente são.

Eu não os desminto, claro. Não por nacionalismo, patriotismo ou seja o que for (se bem não veja nada de errado nesses sentimentos), mas porque não gosto de desfazer ilusões. Para quê? Se eles cá vierem, a realidade encarregar-se-á disso; se não vierem, de pouco lhes servirá saber a verdade.

Cenas de Filmes da Minha Vida #7: Amadeus

Digam lá que não estavam a estranhar que eu não falasse de Mozart já há uns tempos...

Por meios fraudulentos que agora não interessam nada, pude deitar as unhas a esta preciosidade. A cena de Amadeus em que Salieri (F. Murray Abraham, Oscar por este magistral desempenho) faz, com palavras lindas que continuam a fazer-me chorar, o impossível: descrever música.

Lembro que o filme foi retirado da peça homónima de Peter Shaffer, que tive a felicidade de ver no Old Vic há oito anos, David Suchet (Agatha Christie's Poirot) como Salieri. Esta cena também está na peça e a música que se ouve (claro!) é esta mesma. A maravilhosa Gran Partita de Mozart. Obrigada pelas palavras, Mr Shaffer!

On the page it looked nothing. The beginning simple, almost comic. Just a pulse - bassoons and basset horns - like a rusty squeezebox. And then suddenly - high above it - an oboe, a single note, hanging there unwavering, untill a clarinet took it over and sweetened it into a phrase of such delight! This was no composition by a performing monkey! This was a music I'd never heard. Filled with such longing, such unfulfillable longing... It seemed to me that I was hearing the voice of God.


Com dedicatória para o Coveiro, que tambem é apaixonado por esta cena.

Convocatória (mandatory)

Sim, sim, sei perfeitamente que ando indecentemente em falta com imensa gente da blogosfera, com pessoas que muito prezo. Se já tiverem feito desaparecer o link para este meu cantinho nos vossos cantinhos só posso baixar a cabeça, o castigo é justo, eu mereço. Mais do que a qualquer outra pessoa, devo grandes explicações à Thunderlady - e logo uma pessoa de quem tanto gosto! Há-de seguir mail compridote, e sei antecipadamente que ela há-de perceber. O que não me iliba, é certo...

Mas o assunto agora é outro. Cá pelas bandas da confraria denominada As Quatro Cangalheiras do Apocalipse o ambiente é de festa. A nossa menina Cangalheira Emigra defende no dia 30 deste mês a sua tese de doutoramento na Universidade da Carolina do Sul (Oh Dixie...). Há três Cangalheiras e um Coveiro cheios de vontade de lhe varrer o focinho de estalos, que a rapariga não consegue enxergar-se (o génio pode dar para a parvoeira). Nós sabemos que ela É brilhante, ela acha-se sempre um lixo.

Vamos pois ao assunto propriamente dito (e já vou no terceiro parágrafo, muito gosto eu de escrever...): alerta encarnado (as pessoas que dizem vermelho mais valia não terem nascido, é como dizer lábios, mala, vivenda, prenda, esposo, falecer, etc.), não há cá desculpas. Excomungada, põe o Diogo a fazer de ama-seca - pela rapidez com que activaste as cartas na manga logo se viu a tua estirpe, mesmo não tendo quem tomasse conta da Diabbinha nessa noite. Famosa, larga a red carpet por uma vez e junta-te à plebe (pobãoe...)! Coveiro, o teu caso é mais complicado, mas não é um caso perdido. Desde que há dias pus (maravilhas da tecnologia) Jordânia e África do Sul, via Lisboa, em conversa (e por telemóvel, ao fim-de-semana)... já acho tudo fácil. Complicado mesmo é... o teu distintivo de membro. Eu proponho um avental (faz maçonaria, é chique), as outras que se pronunciem. Nós ficámos pelos leques.

Irra! Tanto tempo para chegar aos leques! Meninas, aqui estão os nossos leques. Fui hoje comprar (promessa antiga) os vossos. Nem queiram saber o que foi esta produção fotográfica: o artístico arranjo de leques abertos foi feito no chão da casa de banho em cima de... um blazer preto (eu sou uma mulher cheia de ideias).

A música de fundo? Ocorreu-me ao ver a fotografia. Three Little Maids from School Are We (pronto, somos quatro, acertem isso com os autores). Aposto que o Coveiro vai aprovar. Gilbert & Sullivan (valente pancada minha) no Mikado (enorme pancada minha, só perde para o Pirates of Penzance...).

Resumindo: jantamos no dia 30, terça-feira (arranjem-se). Pela nossa menina, com a nossa menina. Já viram bem o chique de ter uma amiga que é Professora Doutora?

Adenda: nada de restaurantes, o jantar será em casa da Excomungada. Eu levo o Veuve Clicquot. Big ocasions ask for a great champagne. Quem acha que Moët Chandon é o máximo (lamento lamentar) ainda tem muito que aprender.

sábado, 13 de outubro de 2007

É assim que me sinto

Eu sei, meus amigos, eu sei...

Tenho negligenciado vergonhosamente o meu cantinho e os vossos cantinhos. Tenho saudades da Gota de Ran Tan Plan e da nossa interacção. Tenho saudades de comentar os vossos posts (sim, ainda vou sabendo das vossas novidades, mesmo não comentando).

Chegou ontem ao fim uma semana de trabalho que me deixou exausta. Só para terem uma ideia, houve uma noite em que saí do colosso (o nome que eu dou ao gigantesco edifício) já passava das sete... da manhã. Seja como for, a maratona chegou ao fim. Deixou sequelas, evidentemente - hoje estive todo o dia numa sornice vergonhosa, dormi que me fartei. Vamos ver se tudo volta à normalidade... Não me esqueçam, que eu também não vos esqueço. You are (were) always on my mind, como cantava Elvis, em música roubada a esse gigante que é Willie Nelson.

P.S. Vou mudar a música. Especialmente para a minha querida Cangalheira Emigra, vou tentar (porque a minha net anda doida e tudo leva horas a fazer) pôr aqui outra canção de John Denver que para mim é especialíssima: Sunshine on my shoulders - ou não tivesse eu autêntica paranóia, há muitos anos diagnosticada por um grande amor, por músicas em que entre a palavra sol, seja com maiúscula ou minúscula...
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sexta-feira, 12 de outubro de 2007

John Denver — Whose Garden Was This?

Tenho uma estranha história associada à morte de John Denver, faz hoje dez anos. E não deixa de ser tristemente irónico que uma figura tão enraizada e emblematicamente americana, o homem que cantava as belezas das montanhas do seu Colorado natal (o seu verdadeiro apelido era Deutschendorf, facilitou-nos bastante que se tenha rebaptizado com o nome da capital do estado) tenha morrido precisamente a 12 de Outubro, o Columbus Day.

Certos discos transformaram-se para mim em autênticas obsessões. Algumas dessas obsessões tiveram final feliz, que eu sou teimosa como uma mula das mais obstinadas quando se me mete qualquer coisa na cabeça. Se essa qualquer coisa é um disco muito ambicionado, posso tornar-me quase perigosa.

É certo que continuo a suspirar por Mary, o álbum de estreia a solo de Mary Travers, a Mary dos míticos Peter, Paul & Mary – nunca foi editado em CD, só Deus e a editora saberão por que misteriosa razão. Idem para Bread and Roses, de Judy Collins. Já Madrugada (Melanie) chegou-me às mãos nem sei bem como, que continua sem se encontrar em parte alguma. Tal como Whose Garden Was This, de 1970.

Persegui-o em vão durante um ror de anos. Não havia viagem que fizesse que não me pusesse logo à cata dele (e de outros, é claro), e o Victor fazia outro tanto. Como o diabo do disco nem sequer nos catálogos aparecia, cheguei a perguntar a mim mesma se não seria um produto da minha imaginação.

Um belo dia, lá pela Primavera de 1997, numa das minhas tão corriqueiras idas ao Stone’s, o Pedro Fajardo, que era então o disc-jockey, falou-me de uma lojinha num minúsculo centro comercial junto da Igreja de Nossa Senhora de Fátima que arranjava discos raros. É claro que não tardei a ir lá farejar. E não é que os donos me desencantam Whose Garden Was This no Japão?! Eu nem queria acreditar! Caro, muito caro, é certo – contas feitas, tenho óperas que foram mais baratas, mas eu quis lá saber! Depois de uma tarde passada na lojinha, os dois donos divertidíssimos com o meu entusiasmo fervilhante, saí de lá contente como um pardal e com várias encomendas feitas. Whose Garden Was This era uma delas, avisaram-me de que podia demorar bastante a chegar. De vez em quando, o Paulo telefonava-me com a feliz notícia de que esta ou aquela das minhas encomendas já estava à minha espera.

Penso que foi já no dia 13 de Outubro que vi no telejornal da hora do almoço a notícia da queda do avião em que John Denver seguia. Impressionou-me muito. Agora imaginem como fiquei quando, menos de uma hora depois, o Paulo me telefona e anuncia com voz triunfante: «Teresa, o seu John Denver acaba de chegar, tenho-o à minha frente!!!» Lembro-me de ter engolido em seco, tão perturbadora foi a sensação de aquele disco, que eu em vão tinha procurado durante tantos anos, me chegar finalmente às mãos no dia da morte do autor.

(click to listen)

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

E depois...

... coisas tão simples e quotidianas como ver Agripina encostada às minhas pernas enquanto vejo um filme, profundamente adormecida e com este ar de beatitude, reconciliam-me com a vida e devolvem-me o sorriso!