sábado, 29 de setembro de 2007

Phantasmagoria in Two

O Nuno morreu. O Nuno Debonnaire. O meu amigo Nuno.

À medida que as horas avançam a dor vai-se fazendo maior e mais intolerável, porque vou lembrando cada vez mais coisas. Andei ao acaso pelas ruas, debaixo de chuva, ainda naquela fase embrutecida que se segue imediatamente ao choque da notícia – apesar de já sabermos ser a dele uma morte iminente. Entrei na igreja, onde fiquei poucos minutos, ia começar uma missa que devia ter que ver com escuteiros, tantos eram os que enchiam os bancos. Escolhi sair, apeteciam-me coisas que não ia obviamente ter: recolhimento, solidão, talvez conseguir chorar. Voltei para a rua e para a chuva. Ia com música, claro (quando é que eu estou sem música?), mas Phantasmagoria in Two, que não estava comigo, era a música que eu queria ouvir, tanto me lembra o Nuno. Era um dos meus discos que ele infalivelmente punha a tocar, com aquele à-vontade naturalmente nascido de uma intimidade de muitos, muitos anos, ao chegar a minha casa, visita quase diária no tempo em que eu vivia na Rio de Janeiro e ele ainda estava casado com a Mafalda. A Mafalda – pobre Mafalda, que vem a caminho de Lisboa para dar a notícia aos três filhos que tiveram, deve chegar já não tarda muito – não se importava, se algum amigo telefonava à procura do Nuno já depois de ele ter saído a seguir ao jantar, dizia com toda a tranquilidade «Deve ter ido para casa da Teresa. Tem o número?» Em casa deles o Nuno não conseguia ouvir música, e a música era o elemento natural da minha. E ficávamos a ouvir Tim Buckley, Simon & Garfunkel, o nosso adorado e nunca esgotado Odessa dos Bee Gees, Sérgio Godinho, Chico Buarque...

Conhecemo-nos quando eu tinha vinte anos, ele tinha mais três. No Stone’s, através de um namorado de passagem na minha vida a quem devo duas grandes amizades: a dele, Nuno; e a do Pedro – com quem hoje já falei várias vezes. Depois dos filhos, julgo que talvez nós dois sejamos os maiores lesados com esta ausência agora definitiva do Nuno. Ao tal namorado nunca dei qualquer importância, foi um mero incidente de percurso. A minha amizade com o Nuno nasceu nessa época, ele captou-me muito depressa e muito bem. Um dia, lembro-me, ofereceu-se para nos levar a casa ao fim da noite, a mim e ao tal namorado, que viria a fazer de mim a chacota de meia Lisboa durante coisa de um mês, com ameaças de suicídio e cenas canalhas nos sítios mais impróprios, quando eu quis pôr um ponto final na coisa. Toda essa palhaçada valeu-me no Centro de Bridge uma alcunha da qual até hoje, tantos anos depois, não consegui livrar-me: Viúva Negra. Depois de deixar o L. em casa, era a minha vez. A cassete no leitor começou a tocar I Need You to Turn To, um prato violento para mim. Pedi com voz neutra ao Nuno que tirasse a música. Ele parou o carro e ao som das palavras de Elton John (And I wonder sometimes and I know I'm unkind, But I need you to turn to when I act so blind, And I need you to turn to when I lose control, You're my guardian angel who keeps out the cold) agarrou-me pelos ombros e sacudiu-me: «Minha querida, há alturas na vida em que há que ter a coragem de preferir o mau ao medíocre menos!» Quando amanheceu ainda conversávamos, a primeira de muitas enormes e intermináveis conversas.

Com quem vou eu agora falar de Proust? Ou de Stendhal? Ou de Eça, que sabíamos de cor? Ou de Enid Blyton e dos Cinco? O Pedro tinha autênticas fúrias connosco. «Como é que dois adultos inteligentes e cultos conseguem gastar horas numa conversa de autênticos atrasados mentais?!» O Nuno e eu discutíamos Enid Blyton com a mesma paixão com que discutíamos Proust, é verdade. E estávamos sempre a armar ratoeiras que nunca apanhavam o outro desprevenido. «Como é que se chamava o cão do número 3?» – para chegar à resposta era preciso saber que o número três era Os Cinco Voltam à Ilha, sabíamos os 21 títulos de cor. O interpelado nem pestanejava. «Era o Sarnoso!» – resposta triunfante. E em que livros aparecia a João, a ciganita do 9? E como se chamava o porquinho do 16? Ou o mordomo do 4? Ou os bandidos do 10?

Tenho um retrato no Stone’s que nos apanhou numa dessas disputas, no tempo em que o Telmo cirandava por ali de máquina em punho.

Time it was, and what a time it was, it was
A time of innocence
A time of confidences
Long ago, it must be
I have a photograph
Preserve your memories
They're all that's left you

E tínhamos também o Guilherme. Que viria a ser o meu último presente, há um mês. Encontrei O Dia de Folga num alfarrabista, comprei-o para o Nuno, na altura no hospital, foi o Pedro quem lho entregou, o Nuno não queria que eu o visse como estava. Conseguiu arrancar-lhe um sorriso (não tenho este!), fica-me essa alegria. Partiu hoje a única pessoa com quem partilhei a paixão pelo Guilherme. E outras paixões.

Continuo atordoada, há mortes para as quais nunca estamos suficientemente preparados, por mais anunciadas que sejam. Queria agora, impossível dos impossíveis, voltar a ter vinte anos e estar empoleirada num parapeito do Stone’s, junto à cabine, nosso poiso infalível (controlávamos e decidíamos toda a música que se ouvia), a filosofar com o Nuno, com teorias definitivas sobre a vida.

Continuo atordoada, sim. Mas está a doer cada vez mais. O meu amigo Nuno deixou de estar ao alcance de um telefonema, de uma viagem de dez minutos de carro.

Meu querido Nuno, tenho tantas saudades de si e de nós! E de nós dois com o Pedro. Éramos especiais, nós três.

(To be continued)



terça-feira, 25 de setembro de 2007

Parabéns, cretino!

Nem preciso de pôr um smiley a esconder-lhe a cara, o frio de cortar os ossos que se fazia sentir pô-lo irreconhecível, num dia que foi muito alegre. Porque estávamos juntos e porque estávamos em Nova Iorque, que é uma das nossas grandes paixões comuns. De resto, a alegria é a nota dominante em todos os momentos que passamos juntos, hoje como há muito, muito tempo, quando nos conhecemos – tínhamos catorze anos. O meu amigo-irmão de toda a vida e para toda a vida. O Victor.

É para ele que ponho hoje este There's Me, de um musical menor de Andrew Lloyd Weber (Starlight Express), que é uma das nossas músicas – por que diabo hão-de ser só os apaixonados a ter direito a ter as suas músicas? Porque não hão-de as grandes amizades ser também celebradas na música? Até porque a amizade, sabemos, é bem mais duradoura do que o amor. A nossa, minha e do Victor, é mesmo até que a morte nos separe.


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domingo, 16 de setembro de 2007

Maria Callas. Inesquecível.

Faz hoje trinta anos que partiu.
Tenho alguma dificuldade em escrever sobre ela, tanto a sua figura trágica me comove.
Foi encontrada morta no seu apartamento de Paris. Partiu silenciosamente, sem um queixume. Segundo os amigos mais chegados, começou a morrer no dia em que Onassis a trocou por Jacqueline Kennedy, em 1968, nove anos antes, os mesmos nove anos que durara a sua relação com ele. Nove anos em que foi perdendo mais e mais a voz (até àquela patética digressão mundial com Di Steffano, que nunca deveria ter acontecido), em que se foi afastando cada vez mais da música, que era o melhor de si própria. Nove anos em que sonhou casar com Onassis e ter um filho. Nove anos em que se limitou a ser um lindo troféu que ele exibia, vaidoso de trazer pelo braço a diva mais célebre do mundo.
Do patinho feio e desajeitado, obeso até aos trinta anos (recuso-me a pôr aqui retratos dessa época), viria a emergir, após um ano de dieta e de trinta quilos que se volatilizaram como por artes mágicas, um lindo cisne, delicado e gracioso, à imagem de Audrey Hepburn, que Callas tomou por modelo. Não vou entrar em controvérsias que já encheram livros e livros, não sei se a perda da voz se deveu à perda de peso. Há quem diga que sim. Não me parece, mesmo tendo os seus primeiros problemas vocais começado a surgir pouco depois de ter deslumbrado o mundo com a sua nova silhueta, admiravelmente enroupada pela costureira romana Biki. Acho mais provável que certos papéis que cantou no princípio da carreira (até Wagner!) lhe tenham afectado a voz.
De repente, aos trinta anos, Callas descobria-se mulher, e uma mulher bonita, muito bonita. Desejada por todos, até pelo homem mais rico do mundo.

Callas, em êxtase com a sua nova vida, descobrindo finalmente os encantos da femininilidade, descobriu também o amor. E o sexo. O casamento com Meneghini, vinte e sete anos mais velho, quase uma figura paternal, chegou ao fim.
A partir da sua associação a Onassis, as aparições em palco vão rareando cada vez mais. Muitas são canceladas. Prefere gravar, que lhe exige menos e lhe dá maior liberdade para o acompanhar. Mesmo assim, canta ainda uma extraordinária Tosca no Covent Garden, em 1964.
Maria Callas está longe de ser a minha cantora preferida (essa, a esta hora, já muita gente, mesmo não sabendo nada de ópera, deve saber quem é). Confesso que não gosto da voz, pronto! Mas é impossível negar a desmedida importância do seu nome na Ópera e o seu contributo na redescoberta de grandes óperas que tinham caído no esquecimento. Maria Callas, a Divina, como lhe chamaram, figura na galeria dos maiores de sempre, ao lado de nomes como os de Maria Malibran, Giuditta Pasta, Adelina Patti ou Rosa Ponselle. Numa coisa, reconheço, é irrepetível. Callas era uma extraordinária actriz. Mesmo quando a voz já a atraiçoava (e quanto sofrimento isso deve ter representado para alguém tão exigente como ela), o seu génio dramático maravilhava-nos. O melhor adjectivo que me ocorre para a descrever em palco é hipnotizante. Vejam-na aqui, na Tosca de que já falei, e de que felizmente ficou este registo (o grande Tito Gobbi é Scarpia):


É assim que prefiro lembrá-la. Ou como nesta imagem da pungente cena do II acto da Traviata, com Germont.


A mítica Traviata de Visconti - 1956

Hesitei bastante na escolha da ária a pôr aqui hoje, trigésimo aniversário da sua morte. Não me sorria a ideia de a pôr como Violetta, ou Norma, ou Amina. Mas depois lembrei-me deste Vissi d'Arte. Por duas razões: porque não conheço nenhuma cantora que melhor tenha cantado o papel de Floria Tosca, a magnífica gravação de Victor De Sabata com Di Steffano e Tito Gobbi continua sem rival; e porque as palavras quase parecem descrever a vida da própria Callas.

Vissi d'arte,
vissi d'amore,
non feci mai male ad anima viva!
Con man furtiva quante miserie conobbi aiutai.
Sempre con fè sincera
la mia preghiera ai santi tabernacoli salì.
Sempre con fè sincera
diedi fiori agl'altar.


Nell'ora del dolore perchè, perchè, Signore,
perchè me ne rimuneri così?
Diedi gioielli della Madonna al manto,
e diedi il canto agli astri, al ciel, che ne ridean più belli.
Nell'ora del dolor perchè, perchè, Signor,
ah, perchè me ne rimuneri così?


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sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Parabéns, Famosa!

A Cangalheira Famosa faz hoje anos! Não vamos dizer quantos (adianto apenas que são pouquinhos), nem podemos precisar qual o programa dos festejos. Sabemos apenas que a jovem Maria Albertina se vai deslocar pela primeira vez à inbicta, já que a Famosa não consegue separar-se dela.
PARABÉNS, FAMOSA!

Um beijo enorme.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Seis anos

Não esquecemos. É impossível esquecer.

Há um ano, nesta mesma data, contei como passei esse dia de horror, contei como tinha sabido do que estava a acontecer em Nova Iorque, podem ler aqui.*

Pedia às muito poucas pessoas que sabiam da existência deste cantinho que partilhassem comigo as suas vivências desse dia.

Repito hoje o pedido. Tenho a certeza de que se lembram muito bem. Querem contar-me como tiveram conhecimento dos ataques ao World Trade Center? Eu gostava mesmo muito de saber.

Now Playing: American Tune - Simon & Garfunkel
(click to listen)


*
O post tem continuação, reparei agora, mas não consigo pôr o link. Se quiserem ver, é melhor clicarem na etiqueta, September 11.

domingo, 9 de setembro de 2007

Luciano Pavarotti & Mirella Freni*

* Aviso à navegação: este post é para amantes da Ópera. The Ultimate Art, como lhe chamou David Littlejohn num livro que já reli muitas vezes, num encantamento renovado em cada reencontro. A sua leitura está aberta a todos, evidentemente. Gosto de partilhar, uns quantos já vão sabendo disso. A Ópera é um dos maiores tesouros da minha vida.

Ele foi há poucas horas a enterrar. Ela, a amiga querida de sempre, de uma vida inteira, aposto que atravessa uma noite insone, a lembrar histórias comuns. Recomendo a todos o post do José Quintela Soares no seu Opera per Tutti e a sua conclusão: «A preto (do luto) e branco (do lenço)». Que linda legenda para a fotografia que ilustra o post, José! Gostava de a ter escrito. Li muitos posts sobre Pavarotti nos últimos dias, em blogues diversos. O José e eu fomos os únicos a assinalar o corte brutal desta parceria que fica para a história. Luciano e Mirella, as crianças de Modena que o canto fez ídolos do mundo. Ela, viúva de um baixo que, também ele e muito justamente, é toda uma lenda (Nicolai Ghiaurov, morreu em 2004), fez escolhas diferentes. Retirou-se quando a voz ainda podia durar mais, nunca se vendeu às contas de somar. E se a tentação pode ser forte...

Pavarotti e Freni gravaram a Bohème perfeita. Em 1970, sob a batuta do grande Karajan. Encontrei no Youtube a sequência completa, gravada ao vivo vinte anos depois.

Para os menos familiarizados com a Ópera, eis uma explicação sumária (e muito pessoal): aquilo que agora aqui deixo é um maravilhoso fresco do nascimento de um amor. Que vai correr mal, como quase todos correm. Isso era novidade na Ópera, esta La Bohème insere-se numa corrente chamada Verismo, que pretende ser mais realista (verdadeira) e retratar pessoas reais em situações reais. No fim ela volta para morrer nos braços dele. Verismo... ma non troppo... certas convenções operáticas são demasiado fortes: ópera que se preze acaba com a morte dos dois amantes ou, pelo menos, de um deles.

Para quem nunca ouviu nada de Ópera e tenha alguma curiosidade, esta é uma excelente escolha para se iniciar. Por razões várias. Para começar, é uma ópera muito curta (reza a lenda que a família real britânica, quando tem visitantes de Estado estrangeiros que quer obsequiar com uma noite no Covent Garden - Royal Opera House, dá sempre preferência à Bohème... precisamente por ser curta); a sua construção em quatro actos faz-me pensar na estrutura mais tradicional de uma sinfonia, em quatro andamentos. A música de Puccini é arrebatadora e tão acessível que entra imediatamente no ouvido. Outra boa escolha para uma primeira incursão nesse jardim encantado que é a Ópera será, a meu ver, o Rigoletto, de Verdi. Nesta versão, a minha preferida - vejam só quem são os cantores...

As três cenas que aqui ficam conseguem, ainda hoje, pôr-me a chorar de felicidade, tamanha a beleza. Ele apresenta-se (1.ª ária, Che Gelida Manina), ela responde (2.ª ária, Si, Mi Chiamano Mimi), segue-se o sublime dueto O Soave Fanciulla.

Se alguém conseguir ver estas três cenas e continuar sem perceber por que razão a Ópera é um dos grandes amores da minha vida... lamento, mas só pode ser muito estúpido. Ou insensível. Ou surdo. A ordem é perfeitamente arbitrária.

Che Gelida Manina (Rodolfo, Luciano Pavarotti)



Si, Mi Chiamano Mimi (Mimi, Mirella Freni)*

* Tenho muitas versões desta ária. Algumas delas por cantoras que são imortais. Nenhuma a canta como a minha menina Freni. Há quatro cantoras por quem tenho uma paixão avassaladora: Dame Joan Sutherland (primeiríssima), Elisabeth Schwarzkopf, Edita Gruberova. E ela, a minha menina Freni. Um certo verso da ária faz toda a diferença. Ninguém o canta como ela. Nem sequer a maravilhosa Renata Tebaldi, outro dos meus ídolos, a voz de anjo, como lhe chamavam.


O Soave Fanciulla (Rodolfo e Mimi)

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Tu che a Dio spiegasti l'ali

Calou-se hoje uma voz magnífica, extraordinária, que fica na História como uma das mais belas e poderosas do século XX.

Luciano Pavarotti.

Prefiro esquecer neste momento o triste espectáculo em que se deu nos últimos anos, prostituindo a torto e a direito essa voz que era um dom divino. Prefiro lembrá-lo como o oiço ainda e sempre, nos anos gloriosos da Decca, ao lado de Dame Joan Sutherland, que lhe deu a primeira grande oportunidade e com quem ele próprio confessava ter aprendido a respirar - um segredo de valor incalculável para um cantor.

Prefiro lembrá-lo como o Rodolfo da Mimì da sua grande amiga Mirella Freni, como ele nascida em Modena em 1935, prefiro maravilhar-me com as suas interpretações naquela histórica Bohème dirigida por Karajan. Juntos estudaram canto, muito novos ainda. A amizade ficou para o resto da vida, tão grande, tão íntima, que se dizia no meio operático, por graça, que, se Pavarotti se constipava em Nova Iorque, Mirella Freni espirrava em Viena.

Hoje deve haver muitos blogues com a sua Nessun Dorma, ou com Una Furtiva Lagrima, possivelmente alguns outros porão La Donna È Mobile. Eu escolho esta belíssima Tu che a Dio Spiegasti l'ali, a ária final da Lucia di Lammermoor, em que ele tantas e tantas vezes foi Edgardo a cravar o punhal no peito, ao saber da morte da sua amada Lucia, cantada por Dame Joan Sutherland como por mais ninguém.

Tu che a Dio spiegasti l'ali... Tu que para Deus abriste as asas...
Descansa em paz.