segunda-feira, 23 de abril de 2007

Guilherme, o meu herói favorito

Este post deveria ter dedicatória. Deveria ser dedicado ao Nuno Debonnaire e ao Luís Serpa, únicas pessoas que até hoje encontrei que partilham esta minha paixão.

Editados em Portugal pela Estúdios Cor, os livros de Richmal Crompton com as aventuras de Guilherme desapareceram das livrarias há muitos anos. Tenho boa parte da colecção. Claro que hoje poderia lê-los em inglês, mas não teriam o mesmo sabor, por ter sido em português que os conheci. E em português os releio ainda, com a garantia antecipada de voltar a rir com o mesmo gosto das tropelias do azougado Guilherme.

Encontrei nas fichas de leitura da Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian alguns documentos muito engraçados dos leitores residentes, chamados recenseadores, aconselhando ou não a compra das obras - julgo que estas indicações se destinavam às famosas bibliotecas itinerantes, lembram-se elas? Aquelas carrinhas cinzentas que iam de terra em terra e emprestavam livros... Fartei-me de rir com o que esta ilustre senhora, de seu nome Patrícia Joyce, escreveu em 1964 sobre aquele que é justamente um dos meus livros favoritos.
... e continua, no verso: "sempre ocupado a incomodar alguém, sempre disposto a vingar-se de pretensas injustiças. Mas o que há de mais deseducativo ainda é a aura de ridículo de que o autor reveste todos os adultos, como as tias de Guilherme (porque hão-de as tias de ser forçosamente ridículas) o velho jardineiro careca, o padrinho, o sr. Jones... todos são ridículos, o que, segundo se depreende da narrativa, parece conferir a Guilherme o direito de os massacrar impunemente. Livros deste género, não são aconselháveis para crianças, e têm interesse muito reduzido para adolescentes ou adultos."
(o "deverem DE ser" das tias, a falta de um ponto de interrogação e a vírgula a separar sujeito e predicado são da douta senhora, eu transcrevi fielmente)

Graças a Deus que os responsáveis pela Educação na Grã-Bretanha não partilham esta opinião, e os livros do Gilherme fazem há muitos anos parte do programa escolar.

Também o escritor Domingos Monteiro (tenho muitos livros de contos dele), no desempenho das mesmas funções, parece discordar da senhora, como pode ver-se nesta ficha de leitura dele, sobre outro título do meu herói.
"...camente boa." E conclui: "É livro para se adquirir em quantidade."
Grande Domingos Monteiro!

16 comentários:

  1. Querida Teresa,
    Lembro-me de ter lido um ou dois livros destes há muitos anos, não consigo precisar quais de momento. Achei-os bastante divertidos e identifiquei-me com a personagem, não no aspecto de atacar a família pois que me desliguei dela muito cedo (menos uns...rsssss) mas os meus alvos eram bastante diversificados...rsssss sou uma peste confesso mas divirto-me tanto...rsssss. Só duas coisas na vida me preocupam: quando morrer se eu for para o céu aquilo passa a ser um inferno, se for para o inferno o Diabo fica no desemprego e se calhar ainda tenho a concorrência da sua amiga Diabba...rssss
    beijos querida amiga

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  2. Nunca li o Guilherme e, logo eu que gosto tanto de ler!

    Mas lembro-me muito bem das biblioetecas itinerantes, obriguei os meus coleguinhas de escola a inscreverem-se para eu poder usar os cartões deles, hihihihihihihi

    Dois livros por mês era miserável, não te parece? assim lá conseguia levar para casa uns 10 livros!

    Depois aprendi o truque para me durarem mais tempo: "mais letras e menos imagens" hehehehe

    Tenho esperança que a minha diabba-mirim goste tante de lêr como eu, detestaria que saisse aos irmãos (meus enteados)... então o mais velho é uma coisa de fugir, nem as personagens do Walt Disney conhece!!

    beijos d'enxofre

    P.S. "enteados" é uma palavra execrável, não é??

    2º P.S. O teu amigo António quererá ser tridentado até ser tranformado em passador?? detesto concorrência!! grunfff... hihihihihi

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  3. sinto-me horrível porque nunca me passou nenhum livro destes pelos olhos. mesmo sendo eu da geração dos livros da Enid Blyton, leia-se Os Cinco, estaria no meu target um personagem como o Guilherme..
    quanto às carrinhas da biblioteca itinerante lembro-me que tinham muito sucesso na altura. fiquei surpreendida com a quantidade de livros que lá havia que eu já tinha lido. devia ser uma biblioteca muito básica mesmo..

    Vivam os verdes anos!!!

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  4. Lembro-me da figura, recordo o título, mas confesso que nunca me passou pelas mãos tal "Guilherme".

    Imperdoável!?

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  5. Viva:

    Viva o 25 de Abril... e não se esqueçam de ensinar aos mais novos de qual a importância dele para a vida colectiva dos portugueses.

    Forte abraço,

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  6. Menos para o António (que se lembra vagamente da personagem) do que para os outros:

    Diabba, Kuska e José,
    Os livros estão muito bem escritos, com um fino sentido de humor. O Guilherme é um miúdo de 11 anos (http://en.wikipedia.org/wiki/Just-William) normal, não muito inteligente, aluno mais a atirar para o mau, com uma imaginação prodigiosa, uma propensão para se meter em sarilhos notável e uma eloquência vigorosa. Confesso que às vezes, antes de ir para a cama, vou à estante buscar um título qualquer e dou sempre comigo a rir com a mesma vontade de sempre.

    Vou escolher uma história qualquer das dele e, se o scanner colaborar - que anda a trocar-me as voltas - digitalizo-a e depois das necessárias correcções fica-vos desde já prometida.

    Que a Diaba e a Kuska não o conheçam não me surpreende nada. Eram livros "para rapazes". A Portugália Editora, por exemplo, tinha as colecções "Biblioteca das Raparigas" e "Biblioteca dos Rapazes" (eu devorei as duas). Para nós eram os livros da Berthe Bernage - Brigitte, O Romance de Isabel e vários títulos soltos - e da Odette de Saint-Maurice, além, claro, da Louisa May-Alcott. Tenho tudo isso. Mas também lia os outros, até porque era muito maria-rapaz. Enid Blyton, então...! Ainda sei de cor os títulos dos 21 livros dos Cinco, na ordem correcta. E da Colecção Aventura. E do Colégio de Santa Clara. E do Colégio das Quatro Torres. Engraçado é pensar que é ela a autora dos livros do Noddy que, mais de 50 anos depois, é outra vez um fenómeno de popularidade e de merchandising. Eu nunca os li, nao lhes achava grande graça.

    Mais pequenitas, tínhamos a condessa de Ségur ("Memórias de um Burro" foi o primeiro livro que li, aos cinco anos, ainda o tenho, Colecção Azul).

    Beijo a todos.

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  7. Úé, gostava de saber como veio aqui parar o Van Dog? cheirou-lhe a cão de certeza! lembras-te do Tim, o cão dos Cinco? nessa altura não havia ração seca e ele partilhava os lanches maravilhosos de scones e chá, doces e biscoitos..
    nhamnham

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  8. Teresa, fico ansiosa pelo naco de prosa do Guilherme, vou adorar de certeza e desde já agradeço!

    Memórias de um Burro foi um dos meus preferidos da colecção. Seguiram-se muitos outros: Os Desastres de Sofia, As meninas Exemplares (estes um pouco moralistas para o meu gosto já na altura).
    De notar que esta colecção não tinha gravuras. Era mesmo ler, ler e imaginar..

    Aproveito que ainda não é meia-noite para saudar todos os que viveram o 25 de Abril de 74, in locco. De preferência com um cravo!

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  9. Kuska,
    Também achei "As Meninas Exemplares" um bocado chatinho. Madalena e Camila de Fleurville, não é verdade?

    Já a Sofia... li-o quase logo a seguir às "Memórias de Um Burro", eu estava bastante doente na altura, de cama, e a minha Mãe veio ao quarto investigar o motivo das minhas gargalhadas...

    O Tim, claro! E os lanches! Foi com os livros dos Cinco que eu ganhei o vício de ler a comer. Ainda hoje, se tenho de comer sozinha, preciso de ter qualquer coisa para ler. Aqueles lanches davam-nos fome!

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  10. Sou uma inculta... de todos esses livros que mencionaram, só li Os Desastres de Sofia, As meninas Exemplares e a colecção Uma Aventura (não estou certa de que te referisses a essa). Durante a infância, para além desses, deram-me livros da Anita e da Sissi (nome que entretanto se colou à minha irmã), quando aprendi a ler, depois livros de aventuras de colecções com o nome da heroína. Uma delas era minha homónima, mas havia outras.


    Beijinhos (ensinem-me!!)

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  11. Não és nada inculta, Patrícia! A questão é muitas vezes ter quem nos apresente os livros... ou eles estarem disponíveis, ou as editoras que os publicavam não terem falido. E os anos passaram, surgiram novos autores, etc. A colecção Aventura de que falei não é essa, não, é também da Enid Blyton. São oito títulos com o João, o Filipe, a Dina, a Maria da Luz e a catatua Didi: 1. A Aventura na Ilha, 2. No Castelo, 3. No Vale, 4. No Mar, 5. Na Montanha, 6. No Barco, 7. No Circo, 8. No Rio. Todos começam com "A Aventura" no título. Há uns dez anos vi reedições de alguns deles, não sei se ainda existirão. São muitíssimo bons.

    Também nunca leste os seis livros das Gémeas no Colégio de Santa Clara? Ou os seis do Colégio das Quatro Torres? - tudo da Enid Blyton. Esses livros tinham além do mais um certo valor pedagógico, com aquele sentido muito britânico da honra. Inculcaram-me muito cedo e muito fortemente certas noções de lealdade, de espírito de grupo, de que não se denuncia ninguém, etc. Que eram muito presentes na minha geração. Talvez a isso se deva em parte o facto de ainda termos um grupo do Liceu que se mantém em contacto e com memórias muito vivas (até temos blog, está no meu perfil aqui).

    Beijo grande.

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  12. teresa e patrícia,

    posso estar a cometer um erro, mas a colecção Uma Aventura parece-me ser da autoria conjunta da Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães. Esses são editados pela Caminho e continuam.
    Quanto à colecção de Os Cinco, ainda há cerca de um ano foram re-re-re- editados pela Abril, onde trabalho ( que já não se chama Abril, mas sim Edimpresa).

    Curiosamente e ainda a propósito das opções de leitura quando era miudita, fora algumas excepções, era eu que escolhia os livros. Melhor dizendo os livros vinham ter comigo. Mas isso ainda hoje acontece.
    As melhores descobertas em termos de leitura acontecem-me quando me sinto impelida a entrar numa livraria e quase por instinto ( ou faro, visto que tenho nariz comprido) dou com os olhos em algum título que me atrai. Ah, e nunca são os livros em destaque nos escaparates!

    Teresa,
    na fase Os Cinco, a coisa foi tão forte que eu e os meus primos de Santarém (Ana e Zé !) para além de andarmos sempre esfomeados a pedir à cozinheira da minha tia para nos fazer os mesmos lanches descritos nos livros, tínhamos um clube supostamente secreto, em tudo semelhante ao dos nossos heróis!

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  13. Finalmente reencontrei o Guilherme... pensava que tinha sonhado e que estes livros nunca tinham existido... Até que enfim alguém que os leu e se divertiu com eles.
    Antes de chegar aqui também passei pela Gulbenjkian e li os comentários das fichas. Fabulosos, alguns.

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  14. Li alguns dos livros de Guilherme há uns 35 anos e encontrei-os agora numa biblioteca, o que me levou a pesquisar na net e encontrar este sítio.

    Também andei a ver as opiniões dos recenseadores da Gulbenkian... que dão que pensar...

    E agora li este post e os comentários :)

    Só para dizer que já quase me tinha esquecido destes livros e que estou a gostar MUITO desta redescoberta! :)

    Richmal Crompton merece ser mais conhecida e os seus livros reeditados. Aparentemente não são fáceis de encontrar em segunda mão - o que é bom sinal, quer dizer que os seus donos não se desfizeram deles - mesmo que eles se tenham desfeito... :)

    Um abraço para tod@s

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